Contos

São Chico

Um sabiá lhe canta nos cabelos, um melro lhe canta nos olhos, um joão-de-barro descansa num ombro, no outro uma maritaca. É o meu amigo São Chico, que, como Francisco de Assis, é irmão dos passarinhos e de outros bichos.

De noite é guarda de hotel, dorme no serviço, que não é proibido, os hóspedes são poucos e não há perigo de ladrões, é só ficar atento. De manhã, nesta cidadezinha onde não há o que fazer senão descansar o corpo e o espírito, continua sem ter o que fazer – e vai conversar com os seus passarinhos, gatos e cachorros perdidos.

As grandes árvores copadas da praça em frente de casa, um viveiro de asas e de cantos. Corta alguns pedaços de mamão, que os sanhaços adoram, e os sabiás, bem-te-vis, pardais, maritacas, e pássaros e mais pássaros, e pedaços de manga, de goiaba, de laranja, de banana: põe embaixo da árvore mais próxima. De cócoras ali ao lado fica vigiando as bicadas dos irmãozinhos, os gritos alvoroçados, na disputa pelos pedaços de fruta, numa arrelia fraterna.

Com duas ou três metades de cuia, fez bebedouros para os bichinhos e banheirinhas para se refrescarem do calor. Uma beleza os mergulhos rápidos e, logo ali ao lado, as sacudidas nas penas numa alegria doida espalhando mil borrifozinhos d’água para os lados.

Os gatos já têm suas tigelinhas de leite cheias, os cachorros o seu osso, algum tanto de arroz-com-feijão e alguma outra iguaria da sobra do hotel. Um bicho não briga com o outro: tem para todo mundo e todos são irmãos debaixo do céu azul e das árvores verdes.

De tarde, quando o irmão sol está mais animado, traz uns dois baldes d’água para encher o buraco no meio da rua. Os pardais fazem a festa, os chupins malandros, os joões-de-barro esquecem a preocupação e se esbaldam também, fazem folia no lago improvisado, abanam a água um para cima do outro. São Chico monta um sorriso beatífico-bonachão na cara gorducha e olha o espetáculo como quem encontrou a paz no mundo.

Mostra o monte de terra ao lado da poça d’água, depois aponta feliz para a casinha de joão-de-barro no alto do poste: “Eu ajudei a construir aquela casa!” Arquiteto, engenheiro, construtor de catedrais e palácios e museus? O meu São Chico foi ajudante-de-pedreiro de joão-de-barro! “Eu molhava essa terra, amassava até dar liga direitinho. O joão-de-barro esperava ao lado, depois levava e ia erguendo a casa no alto do poste. Não ficou uma beleza?”

Um chupim pula n’água bem ao nosso lado, depois senta numa arvorezinha perto do poste, chacoalhando a água feliz. São Chico sorri feliz. O joão-de-barro é que está bravo, de atalaia. Que o espertalhão não vá roubar a sua casa, feita com carinho e mão, ou bico, de mestre. Chupim é preguiçoso só. Fica na moita, quando um outro se descuida, vai lá e chupa os ovos, bota os seus no lugar. O outro nem percebe e depois você vê um joão-de-barro, um pardal, um tico-tico pintadinho pulando daqui e dali com um filhotão preto maior do que ele chorando atrás.

Foi falar de passarinho preto e São Chico mostrou um pretinho num galho próximo, brilhando ao sol. “É um melro”, disse. “Canta que é uma beleza. Vale uns quinhentos contos, mas eu pagava mil, se tivesse – para soltar todos eles.” E disse mais: “Nada paga a liberdade de um bichinho de Deus. Eles existem para a nossa felicidade. São nossos irmãos, amém.”

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José Carlos Mendes Brandão

José Carlos Brandão nasceu em Dois Córregos, SP, em 28 de janeiro de 1947. Mora em Bauru. Em 2025 publicou “Matéria e memória”, que reúne sua poesia de 1975 a 2025, 9 livros publicados, mais 3 inéditos. Publicou também 2 livros de crônicas. Escreveu um romance, que permanece inédito, apesar de ter ganhado o Prêmio Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte, em 2000. Tem uma dezena de contos premiados em concursos e publicados em antologias. Escreveu ainda microcontos.

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