Contos

Oyá do Tempo

Minha juventude atravessou o pecado através do meu corpo. Ou terá sido o meu corpo que aprendeu a carregar culpas que nunca compreendeu? Quem me salvou? Deus. Quem foi enviado para me resgatar? Ológún Edé? Talvez. E, junto dele, uma outra mulher? Oyá? Talvez. Há presenças que não sei explicar, apenas pressentir, como se alguma coisa anterior às palavras tentasse me revelar aquilo que ainda não consigo nomear.

Sinto em Logun Edé algo que também procuro em mim: a possibilidade de existir entre dois mundos sem precisar renunciar a nenhum deles. A força que avança e a delicadeza que acolhe. A mata que esconde seus segredos e a água que os carrega sem jamais confessá-los por inteiro. Talvez seja por isso que sua imagem me atravesse. Não sei se o reconheço em mim ou se, diante dele, começo a reconhecer partes minhas que passei a vida tentando compreender.

Imagino o amarelo-ouro derramando luz sobre a pele, como se o sol tivesse repousado por um instante sobre o corpo de um príncipe. Ao lado, o azul-bebê, sereno e profundo, lembrando a superfície de um rio que guarda mistérios sob a claridade. Entre essas duas cores, vejo a mata e as águas, a coragem e a ternura, o que se mostra e o que permanece oculto. Talvez eu também seja feito dessa convivência: uma parte que deseja florescer e outra que ainda se recolhe para não ser ferida.

Em mim, convivem o búfalo e a borboleta. Posso desejar a calmaria das águas de Oxum e, em outro instante, atravessar os ventos de Oyá. Talvez eu não seja contraditório; talvez apenas exista de muitas maneiras. Em meus sonhos, sou um príncipe. Na realidade, também sou, naquele lugar secreto onde posso ser quem desejo, sem pedir licença ao olhar alheio.

Escrevo como quem se confessa, embora nem sempre saiba do que tenta se absolver. Percorri caminhos, recebi diagnósticos, mas nenhum conseguiu dizer tudo a meu respeito. Já me recolhi do mundo por dias, sem querer falar ou ser procurado. Às vezes, o silêncio é o único lugar onde consigo escutar a mim mesmo. E talvez seja nesse recolhimento que eu encontre, ainda sem compreender, alguma coisa que me aproxima dessas presenças que habitam minha imaginação, minha fé e minhas perguntas.

Não sei qual é a minha missão. Talvez venha a descobri-la; talvez não. O amarelo-ouro me fala de uma prosperidade que não se mede em dinheiro, mas na possibilidade de me reconhecer sem me diminuir. O azul-bebê me lembra as palavras que escrevo e a sabedoria que procuro, como se cada frase fosse uma pequena travessia entre aquilo que fui e aquilo que ainda posso ser. Que nossas cores nos representem, sem entregar aos outros o direito de decidir quem podemos ser.

Renasci mais de uma vez, e ainda não terminei de nascer. Houve auxílio, mas a força também precisou encontrar morada dentro de mim. Talvez eu escreva não para encontrar respostas, mas para me aproximar do que sou. Talvez eu procure nos orixás, nas cores e
nos símbolos uma linguagem para sentimentos que, durante muito tempo, não soube dizer em voz alta.

Meu maior desejo é ser eu mesmo. Talvez eu nunca me descubra por inteiro. Há mistérios que habitam a gente e que nem a própria alma ousa revelar. E talvez a minha tarefa não seja decifrar todos eles, mas aprender a existir sem fugir daquilo que, em silêncio, me constitui.

Primavera

Acendo um cigarro e deixo que a fumaça se misture às coisas que não sei dizer. Do outro lado da ligação, alguém me oferece palavras generosas, fala de mim como se conhecesse alguma parte que nem eu consigo alcançar. Por alguns instantes, quase acredito nessa versão. Esqueço o quanto posso ser áspero, o quanto existe em mim de indomável e, por vezes, de ignorância. Também sou afeto, entretanto. Tenho essa capacidade estranha de ferir certas passagens e, ainda assim, encontrar um jeito de recomeçar.

Escuto, respondo, observo o cigarro diminuir entre os dedos. O sono pesa, o pensamento se dispersa e eu já não sei ao certo se escrevo para compreender alguma coisa ou apenas para não deixar que ela me engula. Há dias em que desejo a liberdade, mas a palavra me parece insuficiente. Livre de quê? Dos outros, de mim, das exigências que invento e depois carrego como se fossem obrigações antigas?

Não espero da vida uma felicidade impecável, dessas que parecem existir apenas nas fotografias alheias. Quero que ela me provoque, que me desloque do lugar onde me acomodei sem perceber. Quero aquilo que me desperte por dentro, que aquiete o espírito sem adormecer a alma. Talvez seja uma contradição, mas há muito aprendi que nem tudo o que me constitui precisa concordar entre si.

Escrever, para mim, nunca foi somente juntar palavras. É uma maneira de permanecer no mundo, mesmo quando alguma coisa em mim pede distância. Estou naquilo que observo pela janela, no papel envelhecido, na necessidade diária do pão e da água, no ar que entra e sai dos meus pulmões. Estou até no breve movimento dos olhos, quando alguma ideia atravessa o pensamento e desaparece antes que eu consiga nomeá-la.

Às vezes, sumo sem aviso. Não por desprezo, nem sempre por tristeza, mas porque me canso do excesso de mundo, das vozes, das repetições, de ter de explicar minha presença. Depois volto. Curioso, atento, por vezes tomado por uma euforia que me devolve o interesse pelas coisas mais banais. O novo não me assusta tanto quanto a possibilidade de permanecer para sempre no mesmo lugar.

Talvez eu ainda não saiba o que procuro. Sei apenas que não me basta atravessar os dias como quem cumpre uma tarefa. Há alguma coisa em mim que exige movimento, mesmo quando o corpo pede repouso; alguma coisa que deseja permanecer, mas não aceita criar raízes em qualquer chão.

Lá fora, a primavera segue seu curso, indiferente às minhas dúvidas.

E eu, entre a fumaça e as palavras, tento descobrir que parte de mim ainda está florescendo.

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Jorge Lannes Júnior

Jorge Lannes Júnior é escritor e psicanalista, nascido em Belford Roxo e residente em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro. Escreve desde a infância e transita, em sua produção literária, entre a crônica, a poesia e reflexões sobre a existência, a linguagem, a solidão, o desejo e as experiências humanas. Em 2026, publicou seu primeiro livro, Sentimentos em Palavras: À Luz das Minhas Angústias, além das obras Antes do Diagnóstico, Existe Você e Eu Vi a Morte de Perto e Depois Eu Andei. Sua escrita nasce do olhar sobre o cotidiano e das inquietações que atravessam a experiência humana, transformando sentimentos, memórias e reflexões em palavras.

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