Sexta-feira

  • O quase facínora

    O problema da indisciplina na escola estava sério, por isso o diretor convocou uma reunião dos professores com os pais dos alunos. Ultimamente houvera episódios graves – um deles envolvendo o professor Astrogildo (por sinal, um dos mais detestados da escola). Ele se dirigira a uma aluna e, diante da turma, dissera que ela não tinha futuro; era bagunceira demais para esperar coisa boa da vida. A menina saiu da classe chorando e foi para casa mais cedo.

    O pai dela agora estava ali, na primeira fila, encarando o professor com um ar bem pouco amigável.

    O diretor começou:

    — Bem senhores, há muitas coisas a discutir. Como sabem, a bagunça dos alunos chegou a um nível insuportável. Isso tem levado alguns professores a atitudes extremas… Vamos começar pelo caso de Beatriz (era esse o nome da garota).

    Astrogildo se sentiu intimado a começar. Com a calma que lhe era própria, explicou que a aluna estava muito rebelde naquele dia. Ria e incomodava as colegas. E o pior: ficava o tempo todo olhando o celular, embora…

    Sem esperar que ele terminasse, o pai de Beatriz tomou a palavra e desabafou:

    — Quando minha filha chegou em casa ainda com lágrimas nos olhos, não suportei o seu ar de humilhação. Ela tinha sido vítima de bullying (não havia outro nome) praticado pelo próprio professor!

    Fez uma breve pausa, olhando as pessoas em volta:

    — Vou dizer uma coisa que não pretendia confessar a ninguém.

    Naquele momento, pensei em matar o responsável pela agressão. Pensei, não.

    Decidi. Ia tirar a vida dele e me suicidar. Cheguei a ir à escola com uma faca embaixo da camisa e ficar de tocaia esperando que ele saísse.

    A sala o contemplava estarrecida. Astrogildo, entre sério e intrigado, acompanhava o desenrolar da história. Leopoldo continuou:

    — Fiquei escondido num arbusto até que vi ele se aproximar. Apertei o cabo da faca, mas no momento em que ele passou rente a mim mudei de ideia.

    Vi que aquilo não era o melhor a fazer. Guardei a arma no bolso e voltei para casa.

    A assembleia olhava-o com um ar de recriminação. Parecia que estavam diante de um ser desprezível. Astrogildo aproveitou a oportunidade para contra-atacar:

    — Vejam vocês! O pai da garota que eu tentei corrigir vem a este recinto e se revela um potencial facínora. Eu agora podia estar morto.

    — Eu também! — lembrou o pai de Beatriz, ainda constrangido com a reação da plateia. O professor voltou à carga:

    — Esse homem confessa que tentou me matar e guarda a arma em casa.

    Enquanto essa faca não for apreendida, não vou conseguir dormir. Exijo que se comunique imediatamente o caso à polícia.

    Leopoldo voltou a se sentar, em meio ao burburinho dos outros pais e professores. Uma mãe que estava junto dele resolveu, prudentemente, se sentar umas duas filas atrás. Não sabia o que era “potencial facínora”, mas sentiu que não se podia facilitar com gente desse tipo.

    Vendo que a reunião precisava de um rumo, do contrário não se decidiria coisa alguma, o diretor resolveu falar.

    — Senhores, calma.

    — Como manter a calma? — protestou Astrogildo. — Ele confessou que ia me matar! Pode muito bem vir a fazer isso. Não se deve subestimar as ameaças de uma pessoa desequilibrada.

    — Professor Astrogildo — continuou o diretor —, vamos avaliar racionalmente os fatos. Leopoldo teve um impulso provocado pela humilhação que o senhor fez a filha dele passar, mas não foi além disso. Na hora h, cedeu ao bom-senso. Ficou tão próximo do senhor, era fácil desferir o golpe — mas retrocedeu por um apelo da consciência. Que potencial criminoso agiria assim?

    A plateia ficara em silêncio. Parecia refletir sobre as palavras do diretor, que calmamente continuou sua fala:

    — Impulso todos temos. Ter moral não significa ser destituído de impulsos, mas resistir a eles. Quem já não pensou em bater, ferir ou mesmo matar alguém? Os que cedem a esse tipo de apelo se curvam à besta que têm dentro de si. Os que não cedem, e suplantam o instinto, demonstram respeito pelo ser humano.

    — Balela! — protestou Astrogildo. — Ele ia me matar. E também se matar para não ter que enfrentar a Justiça.

    — Não seria um preço muito alto, professor? Desde quando alguém troca alguns anos de cadeia pela própria vida?

    Depois dessas palavras, o ritmo da reunião ficou menos tenso. O diretor sugeriu que se mudasse de assunto, pois havia outros casos de indisciplina a comentar.

    Leopoldo se levantou em silêncio e foi embora. Chegando em casa, abraçou a filha e pediu que ela se comportasse melhor na escola. Era um dever. Além disso, não devia dar pretexto a que pessoas como Astrogildo manifestassem sua arrogância.

    — Vá por mim, filha. Ouça seu pai, que tem bom-senso e respeito pelo ser humano… Acabei de ouvir isso, entende? Eu podia estar agora humilhado, respondendo a um interrogatório.

    — De que é que o senhor está falando, pai?

    — Nada não. Vá fazer as lições de amanhã.

  • O nome dele é Cookie

    O nome dele é Cookie. Abri a porta e ele entrou puxando uma das minhas filhas. É um cachorro vira-lata. Mas com todas as vacinas, banho tomado e bem cheiroso, assim me asseguraram. Pus meu nariz longe do seu pêlo curto sem qualquer vontade de tirar a prova se ele é mesmo esse modelo de asseio.

    Sou alérgico a pelo de cachorro, gato, cavalo, anta, leão, vaca e por aí afora. Meu nariz entope, tusso como se fosse cuspir os pulmões, o ar me foge e meus olhos lacrimejam. Em resumo, fico de um jeito em que deplorável é elogio.

    Por isso a visão dele entrando pela sala cheirando tudo a torto e a direito me irritou.

    De personalidade, meu temperamento vai mais com o gato. Silencioso e tranquilo, apesar do pêlo. A movimentação frenética dos cães somado ao latido deles definitivamente não me agradam. Sem espaço para correr livres eles precisam dos donos para atender suas necessidades diárias de exercícios. Algumas raças, não sei dizer quais e nem sem os sem-raça estão incluídos, tem uma atração especial por roer tênis, sandálias e sapatos. E nem vou mencionar os óbvios xixi e cocô diários. Só de imaginar suspiro aborrecido.

    Mas Cookie tem seus encantos.

    É bonitinho e alegre como todo cachorrinho novo. Esperto e simpático como cabe a um vira-lata que se preze. Se fosse de raça podia se dar ao luxo de ser esnobe. Sem raça definida o imperativo da sobrevivência grita mais alto. Ser gentil, comunicativo e afável são suas armas para conquistar o mundo. Somada a pouca idade do filhote, ele tem tudo para ir bem na vida.

    Me juraram que não terei de participar da vida de Cookie a saber limpar as sujeiras diárias, passear, dar banho e ir ao veterinário.

    Não vai crescer muito porque foi castrado já. Estava aos cuidados de uma ONG de bom coração que acolhe os animaizinhos. Muito fofo.

    Cuidar já tenho duas filhas para cuidar e me bastam. E elas, agora tem Cookie.

  • Lua no mapa astral

    Uma prima travou uma conversa bem humorada comigo quando soube que não acredito em horóscopo. Ela me lembrou que existem essas forças do universo, superiores a todos nós e que para os astrólogos de alguma maneira exercem alguma influência sobre nossas vidas.

    Minha prima não passa nem perto de acreditar nisso mas não é mulher de perder a piada. De qualquer maneira a conversa acendeu em mim a questão a respeito do mapa astral. Calma, não mudei de ideia sobre minha descrença no tema. Ao contrário, minha reflexão é mais lenha na fogueira a favor do ceticismo.

    Se não, vejamos.

    O mapa astral é esse registro do posicionamento das estrelas, planetas e da Lua no momento do seu nascimento. Em resumo é mais ou menos isso. De saída me pergunto: e quando a humanidade estiver em Marte, como é que vai ser?

    Sim porque existem planos de colonização do nosso vizinho vermelho e o mapa astral é gerado a partir de um ponto de observação. Olhar o céu da Terra é uma coisa, levantar os olhos para o firmamento a partir de Marte é outra conversa.

    Como serão as constelações que serão vistas? Quais nomes terão? Além disso, é bom lembrar que o ano em Marte tem 687 dias. Pois é, quase o dobro da Terra.

    Portanto, crentes no zodíaco preparem-se que teremos a chegada de novos signos e constelações.

    Imaginem o diálogo no futuro. Um casal se conhece e ela pergunta a ele: qual seu signo? E ele responde sou Baleia com a Terra em Pavão. E ela responde: sou Virgem com a Lua em Leão, será que somos compatíveis?

    E por falar em Lua já surge outra complicação. Marte tem duas. Na hora de fazer o mapa astral precisa localiza-las.

    E os raciocínios que virão por conta dos nomes delas? Para quem não tem intimidade com astronomia – não confundir com astrologia – as luas de Marte se chamam Fobos e Deimos.

    Traduzindo: Medo e Pânico. Pensa nos significados interpretativos que elas possibilitarão.

    Mas podia ser pior. Imagina que se ao invés de Marte o homem se estabelecesse em Júpiter.

    Ok, não há essa possibilidade porque o maioral do sistema Solar é gasoso. Mas se fosse possível seria o pesadelo da astrologia.

    Por que? Ora, Júpiter tem 79 luas. Imagina por isso tudo no mapa astral?

  • Famosos

    Morar no Rio de Janeiro exige algum preparo. Por exemplo, é preciso dominar os delicados protocolos de etiqueta envolvidos no avistamento de famosos. Do contrário, não é pequeno o risco de passar vergonha. Tipo:

    “Só tinha latão. Bora dividir?”

    “Bora!”

    “Você viu aquele famosão passando aqui?”

    “Hein?”

    “Aquele cara super famoso! Acabou de passar aqui, você não viu? Aquele que fez aquele filme, que fez par romântico com aquela famosona na novela. Maior sucesso.”

    “Desconheço… não passou no meu radar.”

    “Como assim, não passou no seu radar? O cara é ultra famoso. Famosíssimo. O suprassumo da celebridade internacional. Está direto no TV Fama. Outro dia estava dançando na Dança dos Famosos. É a fama em pessoa.”

    “Hmmm… você viu que interessante aquele reboco na parede? Parece um trabalho profissional. Esse material é gesso?”

    “Que papo é esse? Claro que você conhece o famosão. A gente viu outro dia um filme com ele. Fez aquele personagem… aquele… qual era? Só me fugiu o nome. Mas o cara é um colosso da indústria do entretenimento. Um titã do audiovisual. Faz filme, série, novela, o escambau. Acabou de passar exatamente aqui e você vem com esse papo de gesso e reboco? Fala sério.”

    “O acabamento parece muito bem-feito.”

    “Esquece a parede! Estou falando que o famosão acabou de passar aqui. O cara tem prestígio interplanetário. Se pousar uma nave extraterrestre agora no Aterro do Flamengo e descer um marciano, é capaz de pedir uma selfie com ele.”

    “E o editorial da Folha, você leu? Como avalia a crise no Supremo?”

    “Que mané Supremo! Esse cara sim é o Supremo Famoso! Galgou todos os degraus da fama, escalou a cordilheira da notoriedade, chegou aos píncaros da celebridade. Está no cume, no zênite, na estratosfera do estrelato.”

    “Ei… prestenção. Contato visual. Olha aqui. Agora acompanha o meu olhar.

    Devagar. Não vira a cabeça de uma vez, pelo amor de Deus. Olha por cima do meu ombro esquerdo. Tá vendo?”

    “O quê? Onde?”

    “Atrás de mim, à esquerda. A meio metro. É ele. Viu?”

    “Ahnnnn…”

    “Reconheceu?”

    “Ahnnnn…”

    “Então… disfarça…”

    “Que coisa!”

    “Sim, que coisa.”

    “Esse lugar encheu rápido, né?”

    “Encheu!”

  • O menino que se apagou num sopro

    Eram três meninos vendo os pais derrubar uma árvore. Quando a peroba foi derrubada, um dos meninos se apagou no sopro – o enorme deslocamento de ar que ela provocou. Parecia que tinha morrido, era o que os outros dois pensavam.

    Na cidade, o médico disse que estava em coma. Não tinha nenhum tratamento, o jeito era esperar.

    Ficou em coma por um tempo imenso. Os outros dois morriam de preocupação, esperando que ele acordasse.

    Passavam os dias, passavam as noites, e o menino durinho na cama.

    Como se estivesse morto, todo mundo pensava.

    Quando acordou, disse:

    – Preferia não ter acordado – ninguém entendeu por quê.

  • A moda do “f*da-se”

    O verbo foder entrou na moda, impulsionado pelo best-seller de Mark Manson. O sucesso de “A arte de ligar o foda-se” (o segundo “F*deu geral” também é muito bom) desencadeou uma série de imitações, geralmente de títulos ligados à autoajuda, à arte de viver melhor, às estratégias de como gerenciar nossas vidas. Nunca temas como esses sensibilizaram o público como hoje. De tanto ser usado, o verbo começou a ser escrito sem nenhum pudor gráfico; suprimiram-lhe mesmo o asterisco, que aparecia como um resquício de decoro. Hoje se estampa o “foda-se” em capas de livros como antes se rabiscava a palavra em paredes de latrinas.

    O que esse verbo quer dizer? O seu sentido nessas obras não é o de fornicar, praticar o ato sexual, mas sim o de mandar os outros àquele canto (espero que, com o tempo, não se acabe nomeando o canto). O “foda-se” indica desprezo pelo que as pessoas possam pensar ou dizer de nós. É um grito de repúdio à bisbilhotice alheia e, ao mesmo tempo, uma afirmação de liberdade individual. Não surpreende que tenha ganhado popularidade num tempo em que se exalta a persecução de metas que, para ser atingidas, exigem obstinação e sobretudo foco (outra palavrinha da moda). Enfraquecemos nosso propósito de obter sucesso caso prestemos muita atenção à opinião dos outros. Nunca se convidaram tanto os membros da caravana a ignorar os cães.

    A ênfase nesse verbo confirma que nada é tão molesto ao homem quanto o próprio homem. Vivemos em tensão com os outros (que são o inferno, segundo a famosa frase de Sarrte). Para escapar à vigilância alheia, que pode obstacular nossos passos e reduzir nossa autoestima, só mesmo destinando-lhes um repúdio que só o termo chulo é capaz de dimensionar.

    O curioso é que esse verbo esteja na moda, e faça cada vez mais vender livros, num tempo em que também se reforça a necessidade de cooperação entre as pessoas. Yuval Noah Harari, uma das melhores cabeças da atualidade, considera que chegamos a um limite e precisamos da colaboração de todos se queremos a preservação da humanidade. Caso as pessoas não cooperem, viremos num período não muito longínquo a sucumbir (certamente numa nova e derradeira guerra mundial). Por sinal, já há milionários que não duvidam de que isso seja possível e estão patrocinando pesquisas para excursões a Marte. Nosso dilema no futuro parece que vai ser: “A Marte, ou à morte”.

    Há então dois lados: um que manda os outros se f*derem e outro que faz um convite à tolerância e à colaboração. Por enquanto a coexistência desses lados tem promovido um equilíbrio que, embora precário, garante nossa sobrevivência. O medo é que prevaleça quem tende a rejeitar apelos como o de Harari e, de olho unicamente nas metas pessoais, destine à coletividade o seu desprezo. Nesse caso vai mesmo f*oder geral, e teremos razões para temer o pior.

  • Vida nova mas o mesmo eu, ou não?

    Vida nova para mim mesmo teve início nesse mês de agosto. Do casulo do home office para o palco do magistério. Direto , sem escalas e muito desejado.

    O silêncio perdeu seu espaço privilegiado em minha rotina. Antes, era soberano, só cedia seu lugar sagrado para as eventuais intervenções de minhas filhas. Agora precisa se contentar com as horas que sobra, como as horas mortas de Garcia Marques.

    Ruim? Nem tanto. A tudo, ou quase, se acostuma. Em lugar do silêncio, meus ouvidos agora captam novas vozes, todas antes desconhecidas para mim e muito, mas muito mais jovens do que eu. É a vida.

    No palco do magistério não atuam mímicos. Gestos sem palavras nada significam. É preciso representar por inteiro, corpo e voz conectados para o desempenho cênico perfeito.

    É necessário criar uma imagem que atraia a atenção, modulando-a a cada apresentação, sem superar o seu discurso. Porque o roteiro do espetáculo muda e com ele a expectativa da audiência. Levo, dou, troco, misturo, gero. Malabarista sem rede de proteção ou cordas de segurança, voando no espaço aos olhos do público. Me reconhecerei após experiência tão intensa? Provavelmente, sim. Não sou mutante de hoje. Ninguém é.

    Durante a encenação, as palavras ganharão mais força à medida que escorrerem da língua formando ideias, propondo desafios, inserindo dúvidas, desatando nós, sugerindo caminhos. Porque não há quarta parede, ator e público se mesclam, trocando de papéis momentaneamente à conveniência do espetáculo.

    Ao final, as cortinas se fecharão e todos irão embora.

    Mas muito longe de continuarem sendo os mesmos. Serão todos outros. Seremos todos outros. Seres metamorfoseados, refletindo o embate entre as opiniões e argumentos proferidos ao longo do espetáculo.

    Híbridos, por fim. A cada subida ao palco, a cada cerrar de cortinas.

    Subo híbrido, desço híbrido. Por isso vivo.

  • Traídos

    Chamava-se Marisa, era casada e não desgostava dessa condição. O que lhe era mais caro na vida, porém, era o seu sentimento de liberdade. Costumava comentar com Nébia, a amiga íntima: “Sempre fiz tudo, ou quase tudo, que quis”. A amiga contestava: “Tudo, não. Ninguém pode fazer tudo. E você é uma mulher casada”. Marisa reconhecia: “Claro, claro, sempre respeitei Eustáquio”. A outra: “E não está fazendo nenhum favor. Eustáquio é um homem corretíssimo. Além do mais, adora você”.

    De fato, o marido a amava e de uma maneira que se podia chamar servil. A rigor, endeusava-a, e tal idolatria chateava um pouco Marisa. Mas ela tinha a impressão de que, casada com qualquer outro, sentiria o mesmo rancor aborrecido que só tinha uma razão: o marido era o obstáculo ao que sempre lhe fora mais caro – a decantada liberdade. Então Marisa foi, aos poucos, alimentando a certeza de que não seria errado trair Eustáquio – pelo menos uma vez. Uma vezinha só, para provar a si mesma que podia, e depois voltava a ser-lhe fiel. Tinha a íntima convicção de que o marido, se por acaso viesse a saber, sofreria mas acabava perdoando-a. Não podia viver sem ela.

    Deu-se que um grupo de colegas de trabalho convidou Marisa para uma excursão. Iriam passar duas, três semanas na Europa. Entre eles estava Haroldo, que desde sempre lançara para Marisa uns olhos cobiçosos. A mulher sabia que ele a desejava, e fazia um jogo sutil de negaças; ria e logo ficava séria, para mais o confundir. Aproveitaria a viagem para em definitivo dar sinal verde a Haroldo. Nada mais poético, e nada mais prático, do que trair Eustáquio no Velho Mundo (decidiu que seria em Paris; a Cidade Luz sempre lhe parecera, nem sabia direito por quê, o ninho ideal para o adultério). Trairia em Paris, sim. O marido estaria longe de saber e a mulher deixaria o temor, talvez o remorso, do outro lado do Atlântico.

    Ocorreu a viagem e Marisa regressou um mês depois. Trouxe para Eustáquio um belíssimo cortador de grama (ele tinha obsessão pelo jardim de casa), comprado numa loja bem próxima do motel onde se encontrara, mais de uma vez, com Haroldo. Por sinal, depois da viagem Marisa não quis mais conversa com o colega. Insatisfeito e despeitado, Haroldo contou a aventura a um amigo, pedindo-lhe sigilo. O mesmo fez esse amigo com relação a outro – e assim, no final das contas, todos na repartição sabiam sigilosamente da aventura de Marisa.

    Foi quando um dos amigos do casal apiedou-se de Eustáquio e resolveu contar-lhe tudo. Numa noite redigiu a carta, em letra de forma, e enviou-a no dia seguinte.

    Na tarde desse dia, Marisa voltava satisfeita das compras. Vivia uma espécie de absoluto espiritual, pois tinha do casamento o conforto, o serviço, a companhia – mas não tinha o dever nem a prisão. Pouco depois, entrando em casa, viu Eustáquio sentado na mesa da sala, cabisbaixo e chorando. Ao lado, um papel de carta. Perguntou de que se tratava. “Leia”, disse o marido. Antes que ela terminasse a leitura, perguntou cheio de esperança: “É mentira, não é? Diga que é mentira”. Marisa respondeu com tranquila dureza: “Não. Foi verdade”.

    Eustáquio então pediu-lhe a carta, rasgou-a em vários pedaços. E de repente, como se acordasse de um pesadelo ruim, exclamou: “A grama! Esta semana ainda não aparei”. Foi à despensa e tirou o cortador importado. Pouco depois, com uma aplicação de funcionário, debruçava-se sobre o jardim.

    Marisa então percebeu que o que fizera fora inútil. Não rompera padrões, não desafiara ninguém – não havia, de fato, a quem desafiar. Olhou o marido operando o cortador e teve a impressão de era a sua liberdade que ali, a poucos metros, rastejava na grama. E sem mais orgulho ou maldade, antes com uma pena que se estendia a si mesma, deu-se conta de quanto os dois se mereciam.

  • A mão de pilão

    Era uma vez uma família que morava numa casa assombrada. Todas as noites apanhavam de um fantasma com uma mão de pilão. Cansados de tanto apanhar, de acordar todos os dias com as costas doendo, resolveram mudar-se.

    Contrataram um caminhão, puseram a mudança em cima, procurando não se esquecer de nada. O pai, a mãe, os filhos, cada um se encarregou de levar uma coisa. Quando o caminhão estava para sair, ainda no escuro da madrugada, ouviram o fantasma num canto:

    – A mão de pilão eu levo!

  • Definições Heterodoxas

    Nem sempre o sentido de determinadas palavras está no que diz o dicionário. Por vezes a experiência que temos com elas nos encoraja a tentar redefini-las, acrescentando-lhes matizes que não se encontram na conceituação tradicional.

    Esse acréscimo nada tem a ver com polissemia; dicionário nenhum iria encampar os sentidos que apontamos abaixo. Relaciona-se, antes, com facetas do comportamento humano associadas a esses vocábulos.

    Daí ser necessário extrapolar o que sobre eles informa o (inadequadamente cognominado) “pai dos burros”. Se o leitor não concordar com as novas acepções, poderá sugerir outras. Vamos lá:  
     
    CANSAÇO – Estado de fadiga física ou mental que acomete sobretudo quem não faz nada.  
     
    CÉU – Prêmio que os pobres almejam ganhar em outro mundo, e os ricos preferem desfrutar mesmo neste.  
     
    CONFIDENTE – Pessoa que a gente escolhe para contar aos outros os nossos segredos.
     
    CONVICÇÃO – Certeza que temos de algo enquanto não nos convencemos da verdade oposta.
     
    COVARDIA – Manifestação envergonhada do instinto de conservação.
     
    CULPA – Dívida imaginária a um credor que se agiganta à medida que sentimos aumentar o débito.  
     
    EMPRÉSTIMO – Doação camuflada sob a promessa de retribuição do beneficiário.
     
    ECONOMIA – Prática que os ricos adotam por opção, e os pobres, por necessidade.
     
    ESPÍRITO PÚBLICO – Disposição que se manifesta nos políticos a cada quatro anos e desaparece nos intervalos.  
     
    FIDELIDADE – Compromisso de não trair o outro desde que outro não nos atraia.
     
    FUTURO – O que a gente sempre espera mas nunca chega, pois quando chega já não é mais.
     
    GOSTOSURA – O que os homens dizem de certas mulheres, e as mulheres dizem de certas tortas.
     
    IDEOLOGIA – Justificativa para escolher os candidatos em função dos grupos a que se filiam, e não das suas qualidades pessoais.
     
    MACHISMO – Desvario da hombridade, que no fundo mascara o medo de não ser considerado homem.
     
    PERFECCIONISMO – Impulso que nos tira o prazer de fazer bem feito pelo receio de não fazer melhor.
     
    POLÍTICA – A arte de prometer mundos e ficar com os fundos.
     
    PROMESSA – Garantia que damos, em determinado momento, do que não vamos cumprir depois.  
     
    SOLIDÃO – O preço da liberdade, que muito poucos se dispõem a pagar.

    TACOCARDIA – Aceleração dos batimentos cardíacos que vez por outra acomete os jogadores de sinuca.  

    TIMIDEZ – Receio que o indivíduo tem de se mostrar como é por medo de que o tomem pelo que não é.

    UTI – Lugar onde geralmente se morre depois de gastar os tubos.

    VERGONHA – Sentimento que falta a quem precisa e às vezes sobra em quem não merece.

  • O tio perdido

    Encontraram o tio Pedro perdido na estrada, perto da cidade vizinha. Estava velhinho, meio caduco; as pernas trôpegas, mal se aguentava em pé; ninguém entendia como tinha chegado até ali, arrastando na poeira da estrada os chinelinhos gastos.

    Morava com a Maria, no asilo; não porque fosse um asilado: Maria era a filha; ela e o marido trabalhavam no asilo; moravam numa casinha bem na entrada.

    – Por que, pai? – ela perguntou, sabendo que ele não saberia responder.

    – Muito sozinho, filha – ele disse.

    – Como sozinho, pai? E eu, e o João, e os meninos, nós não estamos aqui?

    – Meus irmãos, onde estão os meus irmãos? Todo mundo morreu… Eu estou tão sozinho!

    Logo chegaram os outros filhos, que moravam perto, vinham sempre, com as crianças, que adoravam o avô. E vieram os velhos do asilo, fraquinhos, cheios de dengues com o tio Pedro.

    – Eu estou tão sozinho – dizia o tio Pedro, sentado no meio de todos eles, os olhos perdidos no ar.

  • A voz do destino

    Matilde ficou surpresa quando soube que Eulália, uma velha amiga, tinha se separado de Rodolfo. Chegara a sair com os dois e, apesar de uma pequena cena de ciúme de Eulália (o marido era vistoso e simpático), teve a impressão de que eles se entendiam muito bem. Resolveu ligar para a amiga, que talvez precisasse de consolo nesse momento difícil.

    Tentou mais de uma vez, e ninguém atendia; atribuiu o silêncio à depressão pela qual a outra deveria estar passando. Na quarta tentativa, ouviu a voz conhecida do outro lado. Eulália não parecia abatida. Matilde confessou a surpresa e, por solidariedade, quis saber o que tinha acontecido.   

    – Incompatibilidades, amiga. A gente tinha gostos diferentes. Em muitas coisas. No começo, deu para suportar. Com o tempo, foi ficando um saco!

    – Puxa! Eu não imaginava isso.  Achei que vocês se afinavam.

    – Eram muitas as discordâncias – suspirou. E, sem que a amiga perguntasse, começou a enumerar algumas.  

    – Por exemplo, eu gosto de praia; ele preferia viajar para o interior. Se eu não protestasse, todo fim de semana tínhamos que pegar uma estrada – em grande parte de terra! – para ele visitar um tio e tomar cerveja com os primos.

    – Trocar o mar, as ondas, o céu azul por um sítio nos cafundós não é nada agradável – confirmou a outra.

    – Tinha também a questão do gosto musical. Eu adoro música romântica, dessas que fazem a gente sonhar. Ele preferia reggae, punk e outras do tipo. Muitas vezes eu me trancava no quarto por causa do barulho.

    – Nossa! Música tem que trazer paz de espírito. Mas eu acho que, com boa vontade, vocês poderiam ter chegado a um acordo. Quando existe amor…

    – “Quando existe amor”, disse bem. Pois o amor acaba se não for estimulado. Eram muitas as diferenças, inclusive na comida.

    – Na comida também?  

    – Pois é. Eu prefiro coisas leves, como legumes e verduras. Ele gostava mais de picanha, linguiça, toucinho. Era fã de gordura animal. Quando eu como essas coisas, fico com azia.

    Matilde terminou se convencendo de que, com todas essas discordâncias, os dois não podiam mesmo permanecer juntos. Ficou feliz por ver que a amiga parecia ter aceitado a situação, e depois dessa conversa passaram um tempo sem se ver.  

    Curiosamente, a lembrança de Eulalia lhe voltou por ocasião de um encontro com Rodolfo, o ex-marido. Foi na praça de alimentação de um shopping. Há muito tempo não o via e estranhou que ele estivesse ali sozinho, bebericando uma cerveja. Cumprimentaram-se, e Rodolfo chamou-a para se sentar com ele; a primeira pergunta que fez foi:

    – Você soube?

    – Soube. Fiquei triste por vocês. Pareciam se dar tão bem. 

    – Tudo deu certo por um tempo, mas depois deixamos de nos entender.

    Ao contrário do que Eulália fizera com a amiga, Rodolfo não relatou as diferenças entre os dois; assumiu um tom de filosófica resignação, ponderando que nada dura para sempre e que a pessoa deve estar preparada para as perdas que podem vir. Em seguida agradeceu o interesse de Matilde e procurou mudar de assunto, querendo saber como ela estava, o que fazia. Lembrou que, na ocasião em que os três saíram juntos, Matilde se ressentia do fim de uma ligação amorosa.    

    – Vivemos situações parecidas – observou com uma ponta de ironia.   

    – Pois é – ela riu. Fez uma pausa e completou: – As pessoas são diferentes.

    –  Havia incompatibilidades entre vocês?

    – Várias. Ele era muito urbano, gostava de praia, sol. Já eu prefiro o interior, onde a vida é mais simples. Quase primitiva.  

    – Você sabe que eu também sou assim?

    – É mesmo?! Eu não imaginava.

    – É – confirmou Rodolfo, rindo da coincidência.  

    – E tem outra coisa. Nosso gosto musical era muito diferente. Ele gostava de música que faz sonhar, fugir da realidade. Eu, pelo contrário, prefiro as que estão mais próximas da experiência das pessoas. Punk e reggae, por exemplo, que trazem a voz de grupos marginalizados.  

    – É verdade, eles têm isso em comum – concordou Rodolfo, com um leve brilho nos olhos – Você é bem-informada.

    Falaram de outros assuntos, até que chegou a hora de se despedirem. Matilde alegou que não podia mais demorar, pois no dia seguinte iria a uma feijoada na casa de parentes e fora encarregada de preparar umas carnes.

    – Você gosta? – ele perguntou

    – Muito! Adoro uma feijoada com linguiça, costelinha, carne seca. Sei que isso não é salutar… Mas não consigo resistir. Por isso sou requisitada para esse tipo de preparo.    

      Rodolfo riu de uma forma que chamou a atenção de Matilde. 

    – Por que está rindo assim?

    – Nada. É que nossos gostos são memo muito parecidos!

    – Coincidência – ela ponderou.

    – A gente poderia se encontrar mais vezes. Que tal?

    – Claro. Vou lhe passar o número do meu zap.   

    E assim iniciaram um namoro que terminaria em casamento.

    Anos depois, lembrando o encontro em que percebera as afinidades que havia entre ambos, Rodolfo comentou que não acreditava em coincidências.

    – Há nelas o dedo do destino.

    Matilde sorriu, interiormente concordando. Certamente foi o destino que a fez, naquela noite, ligar para Eulália com o intuito de a consolar. Não houve necessidade de consolo, mas ela soube escutar muito bem a amiga.

  • Repensando os provérbios

    Camões diz num soneto que o mundo é feito de mudanças. Isso contraria o Eclesiastes, para o qual não há nada de novo sob o sol. O mais prudente é chegar a um equilíbrio e reconhecer que as coisas mudam para permanecer iguais. Ou se tornam iguais a cada vez que mudam.

    Se as coisas se transformam – mesmo mantendo sua essência –, transforma-se também a linguagem. Os provérbios, por exemplo. Eles são generalizações, e como tais expressam verdades aparentemente imutáveis. Mas será que não têm de se adaptar à evolução dos tempos? Sempre é possível, nem que seja por um artifício poético ou irônico, vê-los com nova roupagem.

    Diz-se (ou melhor, Hobbes disse) que o homem é o lobo do homem. Ora, hoje ele é muito mais logro do que lobo. Nosso propósito é antes enganar do que devorar o semelhante. Passamos-lhe a perna nos negócios, nos concursos, nas relações sentimentais. E queremos que ele se mantenha vivo para presenciar nossa vitória – o que seria impossível caso o triturássemos entre caninos esfaimados. Retifiquemos, então: “O homem é o logro do homem.”

    Vivemos tempos pragmáticos e pouco dados a especulações filosóficas. A especulação que nos interessa hoje é a financeira, por isso proponho esta atualização para o axioma de Descartes: “Penso, logo invisto.” Trocar “existir” por “investir” ajusta-se melhor a uma época na qual se cultiva pouco o ser e se mede o valor das pessoas pelos valores que elas têm no banco.  

    “O que os olhos não veem o coração não sente” é outra sentença que não bate muito com a realidade – mesmo porque pode ser facilmente contestada. Suponhamos que nossos olhos não vejam um buraco à nossa frente. Fatalmente cairemos nele, e duvido que em tal circunstância o coração não sinta e não responda com uma galopante taquicardia. Mudemos, pois, esse brocardo para alguma coisa como: “O que os olhos não veem pode nos fazer tropeçar.” Simples, prático, irrefutável.

    “O futuro a Deus pertence” também deve ser visto com reservas, pois não expressa uma verdade universal. Um político nepotista, por exemplo, dirá com bem mais exatidão: “O futuro aos meus pertence.” E quem pode dizer que ele está errado?

    A atual onda ecológica torna suspeita a afirmação segundo a qual “mais vale um pássaro na mão do que dois voando”. Ter um pássaro na mão sugere a atitude politicamente incorreta de comê-lo ou engaiolá-lo, enquanto que deixar os dois a voar concorre para a preservação da espécie. É um gesto de respeito à vida, que os ecologistas e os poetas agradecem. Proponho, então, uma variante menos ofensiva à Natureza (se algum grupo preservacionista quiser aproveitá-la, fique à vontade): “Um pássaro na mão não vale a sua extinção”. Para terminar, sugiro que se substitua o ingênuo “Quem sai aos seus não degenera” por algo mais condizente com a natureza humana. Levando em conta a força da genética, troquemos o verbo e passemos a dizer: “Quem sais aos seus não se regenera.” O povo há muito reconhece essa verdade, traduzida no conhecido provérbio: “Pau que nasce torto, morre torto.”

  • O rouxinol

    O tio Argemiro gostava tanto de lendas, que tudo era pretexto para tirar uma do fundo do baú da memória, nem que fosse inventada – que a memória é assim, uma boceta de Pandora que tudo guarda, tudo inventa, tudo cria.

    Eis que numa tarde linda um beija-flor azul, tchibum!, mergulha de repente nas águas limpas de seus olhos.

    Não, não era um beija-flor, e não era azul; no remoinho da memória do tio Argemiro, o beija-flor tinha se transformado num rouxinol, com um canto doce como um sonho. Tinha uma cor que era a suma de todas as cores para o tio, um preto retinto, tão preto que brilhava no espelho d’água do pequeno lago do jardim.

    – Filomena! – disse o tio Argemiro, encantado.

    E não adianta insistir que Filomela era a princesa grega transformada num rouxinol para não ser sacrificada; ele teima, no seu encantamento, repetindo:

    – Filomena!

    E é como se a sua Filomena ressurgisse das cinzas do tempo nas asas de um pequeno beija-flor, que se transformava num rouxinol, fugindo num voo mágico das entranhas da terra onde estava sepultada há séculos.

    A escrava Filomena, que fora uma princesa na sua terra, sacrificada para que não se alastrasse a peste negra da varíola que os brancos trouxeram da Europa, voa nas asas do rouxinol, que os gregos chamaram de Filomela.

    – Filomena, o amor alado! – traduz a seu modo o tio Argemiro.

  • Tristeza enrolada em lamento

    A conversa, afinal, foi breve. Ela chegou, falou, escutou, falou de novo, despediu-se e foi embora. Ficou ele ali, diante daquela inútil e maravilhosa paisagem, a belíssima curva da praia de Copacabana. O mar batendo mansamente na areia da praia e nas pedras abaixo dele e mais nada. Em silêncio, ali na mesa, agora sozinho, rememorou a conversa.

    Não havia mesmo mais alternativa para eles. “Nós” acabou. Eles quis ser presença no lugar de lembrança. Mas ela não deixou. Preferiu diferente. Ele escutou calado que sempre estaria em sua memória com muito afeto.

    Doeu. Mas ele manteve-se calmo apesar de tudo. Não se briga com quem pensa em nós com afeto mesmo que isso não nos baste. Procurar motivos para justificar uma ação irada carrega em si o perigo de resvalar em coisas mesquinhas. Maldade com a memória a dois.

    O certo é que ninguém é obrigado a nada além do que possa dar. Nessas horas o querer e o conseguir se submetem ao poder. Não posso mais do que consigo ou quero, foi o que ele entendeu do que ela disse.

    Então era mesmo o fim. Daí em diante, quem sabe? A terra é redonda e as vezes os caminhos se cruzam acidentalmente. Ou não. Quem sabe o que virá?

    Não iria reprimir um sorriso quando a visse. Quem sabe de onde viria esse gesto? Qual impulso fará ele brotar? Qual emoção parada em uma curva da memória? Uma saudade, um momento feliz a dois? Aquela canção sussurrada?

    Mas será só um sorriso, que será difícil de reprimir, e nada além. Sem sonhar, sem imaginar, sem pensar, sem cogitar. Sem nada adiante. Nada mais de expectativas. Nada de “e se…dessa vez…”

    Não. Chega. Basta.

    Mas também sem querer mal. Isso não se faz porque ofende o amor em si. “Sem me vingar que a vingança não tem valor”, ensinam Pixinguinha e Paulo Cesar Pinheiro em “Ingênuo”. No depois, por mais que se faça uma faxina sentimental sempre permanecerá alguma lembrança da pessoa que se foi. Talvez doa, talvez chame um sorriso solitário, até uma lágrima. Quem sabe?

    Não há tempo certo de duração no durante. Para uns se foi no tempo certo, porque nada mais havia a ser dito ou trocado. Para outros caiu cedo demais, porque muito ainda havia a ser vivido a dois, compartilhado e sentido. Para ele quanto tempo terá durado? Não importa porque não há mais, agora é passado.

    Enfim. Se a vontade de um se vai, a determinação do outro fica sem sentido. Perde força. No fim, sempre restará algo. Entre palavras ditas, expressões feitas e memórias vivenciadas, sempre haverá lá no fundo um pouco de tristeza enrolada em lamento.

  • O Bito

    Juca abriu a janela e olhou a noite – o cheiro úmido da noite. Aspirou fundo e sorriu: tinha que ser hoje. Puxou a cadeira, montou a cavalo na janela, num instante estava do lado de fora. Foi tateando a escuridão, até acostumar a vista. Os pés descalços afundavam na terra vermelha – uns poucos passos e estava junto à cerca.

    Deitou-se no chão – cuidado o arame! – e rolou para o pasto das vacas.

    Agora muita atenção, uma chifrada ia estragar tudo.

    Enxergava melhor – a noite até que clara, a lua um balão amarelo, manchas de fumaça, espargindo um halo de claridade, e as estrelas brilhantes, infinitas.

    Devia de haver mil estrelas no céu – Juca não sabia imaginar um número tão grande: um mil, um milhão. Abre a boca pasmado – quantas!

    Nenhuma luzinha na terra – o pai apagara o lampião de querosene, a última lamparina. No céu, uma festa – as estrelas, lamparinas trêmulas de alegria.

    Reconheceu as Três Marias, o Cruzeiro do Sul – Por que esses nomes? Precisava de conhecer mais nomes das estrelas? E das coisas? Não; não fazia falta.

    No pasto escuro, acariciando os nós do coqueiro – nem um tiquinho de medo.

    Tinha as vacas, um perigo a Mimosa, mas estava acostumado. O pai ralhava – inútil, homem não tem medo. Oito anos, calcinha curta, pé no chão – um homem.

    Não distinguia a copa do coqueiro, mancha balouçando lá no alto. Bom de trepar – impossível, as perninhas desajeitadas.

    Um barulho – a respiração das vacas ali perto, bufando, ruminando com prazer a cana da tardezinha.

    Deu uma corrida até a paineira.

    Se o touro Marrão? Fica apartado das vacas, mas – quem sabe? A casca grossa da paineira, o melado do leite dela – uma árvore bonita, florida como um jardim. E os espinhos? Se o Marrão, não dava para se proteger num galho.

    Também, nunca precisou correr de um boi. Estufou o peito e foi andando devagar até um outro coqueiro.

    A aragem fresca da noite, o capim molhado – uma sensação agradável. Afundou o pé num monte de bosta. Não era ruim – afundou o outro também. Diz que estrume de vaca é bom para curar frieira. Juca não tinha frieira, mas era quentinho – ele gostava. Um cheiro verde, forte, saudável.

    Saiu arrastando os pés, esfregando no escuro da grama, sem pressa. Abraçou o coqueiro – mais uma paradinha.

    Escutava o silêncio. Muito longe, um longe muito negro, a água clara – mal se ouve – gorgoleja. Uma rãzinha – serenata, quem sabe? – e um grilo fazendo coro. Podia que a cantiga das estrelinhas.

    As vacas resfolegam. É tudo uma paz, as vozes da noite modulando o silêncio. Por que não uma coruja? As corujas vivem de noite – compenetradas, todo um ar de sabedoria. Nunca uma coruja à noite – Juca viu de dia, num mourão à distância. O bichinho tão sério, dormindo, ou fechado em si, ruminando as imagens do mundo – a aparência de velhice, tão antigo, jeito de quem conhece.

    Medo nenhum. Um saci, gostaria de ver um saci. Não viu nem as tranças que o moleque faz nas éguas. Diz que ele aparece, chamando. Põe a cabeça de um lado e outro do coqueiro, se escondendo, e assobia. Duas, três vezes – saci, nada. Chama: Saci, ciriri… ci, ci!

    Ah, o pito do negrinho soltando estrelinha, no escuro – umas coisas que careciam de ser verdade.

    A mula-sem-cabeça – sem cabeça e abanando as orelhas no vento. O lobisomem – devia de ser bem engraçado. Da varanda se avista o telhado da casa do Tio Luís – a prima Isabel perseguida por um lobisomem, em cima da porteira e o bichão mordendo o vestido. Dia seguinte o noivo Zezão tinha fiapos de pano nos dentes? Ninguém não desconfiou – os dois noivaram demais, pularam cerca, se emaranharam nos espinheiros? Juca aprende com a mãe a duvidar – que as histórias eram bonitas, eram.

    Ufa, que estou perdendo tempo – dá uma corridinha. O Bito me esperando – desabala pasto a fora. Sobe na tábua na porteira, alcança a taramela grandona – mas, e se o pai escuta? Essa porteira velha ringe nos gonzos. Melhor não. Se esgueira pelo viradouro – enfim, no piquete dos bezerros.

    Qual o Bito? Só chamar, ele vem. Baixinho, que o pai – lonjão, mas o pai inventa de escutar até pensamento. Bito! Bito!

    Um vulto se aproxima – é o Bito? Maior, mais magro. Os bezerros, a maioria mansinhos – Juca vai passando a mão, um por um: conhecer pelo tato.

    O Bito é preto – como, no escuro? A estrela branca na testa – mas, e o escuro? O Bito é preto dum preto vivo, um preto que brilha de tão preto – perceberia o brilho?

    Peludão – fácil, com o tato. E eu não ia conhecer o meu Bito? Enfia o pé num buraco de tatu – que susto! Medo de tatu? Franze a testa, empina a cabeça – tenho medo, não.

    Ui! Novo susto – uma lambida na cara: Oi, Bito. Abraça o bicho – Saudade, negão. Nova lambida – Juca, um beijo na orelha, em resposta. E um tapa nas ancas, de amigo.

    Preocupado, Bito – a ameaça de uma lágrima, ele que nunca chorou. As mãos na cabeça do Bito, cabeça contra cabeça se esfregando. Amigão, perder você – não quero, não. Cada ideia – ouvira a mãe, que tinham que mudar para a cidade, não podiam esperar mais. E tudo por culpa dele, o Juca – Está crescendo esse menino, assim no mato, vira bugre.

    O pai ria, não fazendo caso. Mas tinha mais alguma coisa no ar: o sítio não produzia como antes, outra colheita perdida – não iam agüentar.

    O Juca não entendia desses assuntos – e não morar mais ali, ideia tão remota, invencionice, onde se viu?

    Mas porém uma outra preocupação começa a bailar na sua cabecinha: estava crescendo, o

    Bito cresce mais rápido ainda – breve, breve, ia perder o Bito. Breve, breve o Bito ia ser um garrote, um boi, um tourão. Já se viu um touro se chamar Bito? Até o nome – Bito, era uma vez.

    E se matassem, carneassem o Bito? Isso não – ali um tourão, o maioral, capaz de dar conta de todas as vacas do mundo.

    Mas tudo acontece. E ninguém podia impedir o Bito de crescer – cresceu, babau! Adeus, Bito. Nunca mais o seu bezerrinho.

    Por isso que tinha vindo essa noite. Não carecia, as coisas não iam ser assim de uma hora pra outra – mas se viu tão agoniado, um aperto no peito, desinfeliz como a morte.

    Pulou a janela do quarto – esqueceu tudo. Se sentia livre, sozinho dentro da noite, e fazendo coisa proibida, que bom.

    A noite e seus mistérios – Juca nem conhecia a palavra mistério, mas era todo envolvido de seu fascínio, solto na noite. Um molequinho desenxabido, carinha de bobo – que importante, reinando com esse brinquedo encantado, diferente de tudo, a noite.

    E aproveitar! Bito, amigão, você me leva? Só uma voltinha!

    Se gruda no bezerro, joga a perna direita pra cima, uma, duas vezes – de bunda no chão, embaixo do Bito. Que anda, devagar – Espera, Bito, espera. Bicho inteligente! – para junto de um tronco seco. O Juca – upa! – pula na garupa do Bito. Deita pra frente, se ajeitando. Upa, cavalinho. Upa, upa!

    Bito a passos bambos até a porteira – não vão sair? Volta a contragosto, depois de uma carreira – para na beirada do pasto, se encosta no pé-de-goiaba.

    Quietinho, Bito. Quietinho! O Juca – no cai, não-cai – fica em pé, em cima do Bito. Segura no galho da goiabeira, procura, esse escuro – olha que uma taturana!

    O Bito dá uma corcoveadinha, um passo de lado e – ai, o Juca pendurado na goiabeira.

    Tenta firmar o pé no lombo do Bito, que nada – o jeito é descer pelo tronco. Ah, não queria goiaba mesmo!

    O Bito procura os companheiros, o Juca atrás – Aqui, Bito, aqui. Bé – a resposta do Bito.

    Um bé preguiçoso, de sono – espojando-se ao lado dos outros bezerros.

    O Juca ofegando – Faz isso comigo, Bito! Cansado, deita-se também.

    Você sempre será o meu bezerrinho. A lembrança – Não quero que você cresça nunca! Eu não quero crescer nunca! Nem nunca que eu quero ir embora daqui.

    Aconchega-se abraçando o pescoço do bezerro – hum, tão bom!

    Friozinho, o sereno da noite – abraça bem apertadinho o pescoço do Bito. Quentinho!

    As estrelas lá no céu, que mundão de estrelas! Dorme, dorme, Bito.

    Os vagalumes aqui na terra, um mundão de vagalumes. Abre e fecha os olhos, apalpa o capim – uma coceguinha úmida.

    Gozado – como se estivesse no quarto, a janela aberta, os vagalumes sobre a cama, pousando no travesseiro. Corria fechar a janela, acender a lamparina – você aperta a bundinha do vagalume, trec! ele dá um pulo pro ar. Cinco, dez vezes – cuidado não matar o pobrezinho. Guardar numa caixa de fósforos, amanhã você brinca mais.

    Às vezes era daqueles pequenininhos, molinhos, chamado de um nome dos mais feinhos: luz-cu.

    Pirilampo tem-tem! Seu pai tá aqui, sua mãe também! Pirilampo tem-tem! Não, não estava com vontade de brincar. Dorme, dorme, Bito. Só nós dois, sozinhos no mundo. Já pensou – não existisse mais ninguém, só nós dois?

    O Bito olhando com uns olhões deste tamanho – assopra pelas ventas, esfrega a fuça no chão, de cá pra lá, de lá pra cá.

    Os vagalumes, estrelinhas – o Juca nem notara os vagalumes, custou. Foi notar – lembrou de casa. Ah, deixa a casa lá: a mãe está dormindo, o pai está dormindo – Vamos dormir também, Bito! Quentinho, que bom nós dois, a gente juntinho.

    A escuridão, que preto o mundo! Monstros? Assombração? Algum bicho – onça? cobra? O Juca fecha os olhos, aperta bem o Bito, peludão. Não tenho medo, não – um homem.

    Encolhe as perninhas, se aninha bem encostadinho no Bito – Não quero nunca ser um homem grande.

    As estrelinhas, esse pirilampo – sentar na ponta do meu nariz? Juca enterra o nariz nos pelos do Bito – Você é tão mansinho! Você sempre que vai ser o meu bezerrinho! E espera – o sono, o sono que logo, logo vem chegando.

  • O derradeiro encontro

    A manhã começou triste para ele. Era o dia em que finalmente se encontraria com ela. Não seria um compromisso qualquer nem trivial, até porque demorara um pouco para conseguir marcar a data. A moça se mostrara relutante em ceder ao seu pedido até que pela constante insistência dele sua resistência foi vencida.

    Este seria um dia diferente dos outros. Um dia marcante em sua vida porque finalmente teria a conversa pedida por ele há muito tempo e adiada por ela sem qualquer explicação. Ainda deitado em sua cama suspirou olhando o teto ante a perspectiva daquela conversa. Não tinha certeza de como se desenrolaria o encontro mas acreditava que provavelmente selaria a vida dos dois em definitivo. A partir de hoje seguiriam a vida juntos ou se tornariam dois seres espalhados em outras direções.

    Sentou-se na cama. Sentiu um peso enorme no estômago e os olhos quase se encheram de lágrimas. Respirou fundo, fez uma expressão séria para si mesmo e disse: é melhor resolver de uma vez porque a indefinição estraga a vida. Espantou o choro e se concentrou. Hora de levantar e enfrentar a vida e o que tiver de ser, será.

    Há semanas, melhor dizendo, já quase quatro meses, que a eloquente convivência deles se transformara em silêncio. Um silêncio frio que abria em sua imaginação as portas para as piores suposições. Ele sabia que não havia nada mais intenso que o silêncio do desencontro. Não falar era um dos momentos mais mortais em uma relação com problemas. E ai estava o primeiro deles: não fazia ideia porque ela se calara da noite para o dia. Qual seria afinal o problema que motivara ela a privar os seus ouvidos das palavras dela?

    Imaginava qual motivo o havia condenado ao mutismo gélido dela mas não chegava a nenhuma conclusão. Qual gesto? Qual palavra? O que provocara o silêncio dela? Ele pedira mais de uma vez para escutar dela palavras que fizessem sentido e que o ajudassem a entender a situação. Mas elas não vieram. Nem ela nem suas palavras. Até o dia de hoje, quando finalmente ela falaria com ele.

    Saiu da cama e foi ao banheiro. Sua cabeça não parava de pensar em sua situação. Todo desconforto, aflição e tristeza que passara nos últimos meses por conta desse misterioso silêncio dela. Tentara levar a vida normalmente mas foi impossível. Pensava nela em um dia e no outro também. Conseguia disfarçar bem perante os amigos e no trabalho mas por dentro se remoía.

    Ninguém fica imune a essa eloquência silenciosa e logo a ansiedade nascida da distância imposta por ela se transformou em angústia. Reuniu forças não sabia de onde e ao invés de transbordar em perguntas preferiu ser cauteloso. Ao longo desse tempo gelado questionou somente duas vezes a atitude dela. Usou palavras cuidadosamente escolhidas para não piorar a situação. Formulou perguntas envoltas na mais fina cortesia, temperadas por afeto mas que traziam em si toda sua ansiedade nascida da incerteza do tratamento que estava recebendo dela.

    As vezes se perguntava, por que logo ela o tratava daquela forma? Por que tanto descaso com ele? Onde se metera toda paixão que ela disse ter por ele? Era seu amor mais profundo e sincero e sempre deixara claro isso. Até antes do dia fatídico, um domingo para sempre nublado em sua lembrança, tudo entre eles eram amores. Mas sem excessos. Sabiam como temperar o amor, evitando as melosidades. Fantasiavam juntos, conviviam, chegavam ao ponto de por pura diversão compor prosa poética no ar: cada um dizia uma frase que completasse a do outro. Todo dia trocavam algo bonito e amoroso, falavam dos respectivos cotidianos e se apoiavam mutuamente.

    Por isso o choque com a atitude repentina dela. Sem aviso, sem alguma briga ou desentendimento preliminar. No sábado, era amorzinho. No domingo, nada. Difícil de acreditar mas era o que ela tinha feito com ele.

    Uns poucos dias depois ele decidiu tocar no assunto dizendo que ela havia se afastado dele. Impressionantemente ela negou o óbvio, falando coisas vagas e sem sentido ou conexão com o que ele questionara. Ele ficou perplexo e sem reação. Era algo inédito, estranho à proximidade e intimidade deles não admitir algo tão cristalino. A conversa não evoluiu, trocaram poucas palavras uns tons pouco acima do vazio do silêncio. Ficou sem chão e sem coragem para questiona-la. E fim.

    Dali em diante sua vida nunca mais foi a mesma. A poesia que eles tinham em comum mudou-se para bem longe e cedeu lugar a aridez das frases rasas, comuns e distantes. Clichês em cima de clichês na tentativa de manter alguma proximidade e preencher o vazio do silêncio. Esforço inútil. Aos poucos até o repertório de superficialidades foi se esgotando. Em pouco mais de duas semanas cessaram as mensagens de parte a parte. E nasceu a agonia nele.

    No meio do caminho, uma data de comemoração íntima, a memória de uma viagem juntos, a primeira deles. Achou que poderia ser o momento de uma retomada no tom amoroso das conversas. Quem sabe esse mutismo, essa frieza, não teria sido um período curto de reflexão dela? Não queria ser invasivo e se manteve respeitador, apesar da ansiedade enorme que corroía seus pensamentos.

    Ledo engano. A data amorosa veio e foi embora sem nada mudar. Ouviu dela somente frases-feitas, bobagens açucaradas e superficiais e se despediram no mesmo tom e forma que fazem os amigos e pronto. Tudo permaneceu frio para quem esteve acostumado ao calor daquele coração bem conhecido e amoroso.

    Suspirou sozinho em casa rememorando sua triste trajetória de afastamento. A lembrança veio forte e aproveitou que estava longe das vistas dela e chorou baixinho de profunda tristeza.

  • A máquina imperfeita

    Desde que o homem é homem, tem a ambição de fabricar instrumentos que o auxiliem e eventualmente o substituam. A história humana pode ser contada, e sobretudo compreendida, a partir dos artefatos com que ele vem transformando a Natureza. A máquina é uma extensão de nossas faculdades e aptidões; quanto mais sofisticada, mais indicativa do refinamento a que terá chegado a inteligência humana.

    Entre a enxada e o computador, vai um abismo que separa a nossa pré-história do estágio em que fazemos viagens fora da Terra, aspirando à conquista do espaço cósmico. O paradoxal é que, enquanto supercomputadores calculam as trajetórias que nos levam à lua, muita gente nos rincões terrenos tem que usar a enxada para sobreviver. Ou seja, num tempo em que a cibernética nos impulsiona para o futuro, muitos ainda se debatem na pré-história explorando rudimentarmente a natureza. Esse paradoxo tira em muito o nosso brilho, a nossa glória de viajantes interestelares.

    O modelo do funcionamento da máquina é o cérebro humano – a chamada “máquina perfeita”. Ela, no entanto, não funciona sozinha. Vive atrelada a um corpo, que a torna caprichosa e falível. O curioso é que nessa falibilidade está a grandeza da máquina humana, a sua possibilidade de, falhando, autocorrigir-se e reorientar-se no rumo não da perfeição, mas da sobrevivência. Aludindo à inteligência do homem, Nietzsche dizia não acreditar na eficiência de uma máquina “que se sabe trabalhando”.

    Ora, essa possibilidade da falha, a partir de uma consciência, é a nossa maior riqueza. Se fôssemos perfeitos, de nada nos serviria a liberdade. O paradoxo do ser humano é que o seu maior bem, a sua maior posse vem justamente do que lhe falta, do que nele é lacunoso e incompleto. Ao contrário das máquinas verdadeiras, somos mais eficientes porque “quebramos”.

    O tipo mais requintado de máquina é sem dúvida o robô. Em suas fantasias tecnológicas, o homem sonha construir um robô que lhe sirva e, mesmo, que o substitua nos diversos encargos do cotidiano. Mas não apenas isso: um robô que lhe faça companhia, como um cão, e que venha um dia a amá-lo. 

    O robô nos daria uma afetividade sem fissuras e sem riscos. Não uma ternura escolhida e conquistada, de quem tem alma, mas infalível e certa como um amor… de máquina. O que procuramos na cega disponibilidade do robô é uma compensação para a inconstância dos homens. Como a fabricação de tal instrumento é impossível, temos que nos contentar com o esquivo e incompleto amor humano. E sonhar, como no filme de Spielberg, com uma engenhoca eletrônica que nos ame sem o ônus da contrapartida, ou seja, sem a exigência de que nos tornemos merecedores desse amor. Isso contraria a natureza desse ou de qualquer outro sentimento, que se alimenta da reciprocidade.

  • Ulisses à beira da lagoa Rodrigo de Freitas

    Alguém já disse que um dia de sol no verão do Rio de Janeiro chega a ser musical. Há no ar uma atmosfera positiva, de bom humor e de vontade que a vida dê certo. As pessoas circulam mais leves, esbanjam-se sorrisos e há uma eletricidade positiva no ar conectando a todos. O clichê que diz que o carioca é um ser solar se encaixa com perfeição quando chega o verão.

    Esse era justamente um domingo desses. Ele acordou cedo desperto pela claridade intensa que invadiu seu quarto. Na véspera ficara em casa vendo “MacBeth”, a versão estrelada com Michael Fassbinder, acompanhado de um bordeaux achado no supermercado e surpreendentemente ótimo. Tomou café, espiou pela janela e encontrou esse domingo radiante. Sorriu, trocou de roupa, vestiu sua camiseta do “Poderoso Chefão”, o tênis de atividade física com calcanhar reforçado e foi para a rua. Seu destino era a Lagoa Rodrigo de Freitas.

    Nada de praia. Decidiu que hoje queria caminhar, quem sabe pedalar e se desse sorte encontrar alguma capivara nadando. Tomar água de côco, o clichê dos últimos anos de quem circula pela Lagoa, faria parte do cardápio. Sem patrulha estética, só curtição.

    Foi de metrô. Desceu na estação Jardim de Alah e caminhou até a Lagoa. De saída a vontade de pedalar falou mais forte e pegou um desses modelos que os bancos espalharam pela cidade. Ali perto chamou sua atenção uma barraca de frutas enorme, com uma mulher quase do tamanho da barraca vestida de vermelho e preto. Na hora lhe veio a mente que a figura se adequava bem ao lugar onde estava porque afinal, ali pertinho ficava a sede do Flamengo. Ela falava muito, cumprimentou ele e mais quatro pessoas sem perder o fôlego, seguindo sua rotina de vender frutas, sucos e dar bom dia.

    O rapaz achou graça, escolheu uma bicicleta e ganhou a ciclovia na direção do Clube Naval, onde as capivaras nadavam nas proximidades. Pedalava contente, em ritmo pouco acima do passeio e bem abaixo do treino. Queria rodar sem compromisso fora o de desfrutar esse prazer.

    Parou junto a outras pessoas que buscavam as capivaras e nada viu. Tinha gente aborrecida com isso mas ele disse em alto e bom som: hoje é folga das capivaras e com esse calor devem estar em casa no ar condicionado. Todos riram espantando o clima de decepção dando lugar ao astral leve e contagiante do dia.

    Depois de passar pela sede náutica do Vasco, ao virar o rosto um instante na direção do bairro, veio a memória que do outro lado, lá na avenida Jardim Botânico, estava o parque Lage. Um dos lugares preferidos dos dois. Parou de pedalar e ficou sério.

    Suspirou fundo. Já havia passado um tempo desde a conversa que ele tivera com ela naquela manhã, no quiosque na encosta do Leme. As palavras trocadas foram de certa forma amenas mas definitivas. Não havia mais espaço para eles dois existirem juntos. Ficou chateado, óbvio, mas aliviado porque a tensão da incerteza desaparecera e podia enfim tocar sua vida. Achava, portanto, que estava curado. Mas não era bem assim.

    Naquele instante as lembranças vieram fortes e intensas o suficiente para interromper seu passeio e mudar seu humor. Sentiu percorrer por seu corpo uma sensação fria, como um jorro de água gelada descendo pela coluna vertebral. Sua memória se inundou com as lembranças dos momentos felizes, dos piqueniques a dois no parque Lage, regados a vinho branco e queijos. Os olhos ficaram úmidos e sentiu um travo na garganta.

    Suspirou, afastando a vontade de chorar e fez força para retomar as pedaladas. O ar fresco e a necessidade de prestar atenção às demais pessoas na ciclovia ajudaram a se desconectar daquelas lembranças. Seguiu de olho na ciclovia espiando o que a paisagem lhe mostrava, como garças e outras aves aquáticas. Valia tudo para voltar ao estado de tranquilidade que estava nele antes da interrupção.

    Decidiu dar outra parada, mais adiante na altura do corte do Cantagalo, um pouco antes do acesso a Copacabana. Desceu da bicicleta para beber água de côco. O vendedor esbanjava alegria e comentou com ele: hoje está um dia daqueles. Ele sorriu e respondeu formal que sim era um belo dia de sol. O moço piscou o olho para ele, com aquele jeito masculino cúmplice, e disse: hoje só não encontra alguém quem não quiser. O rapaz deu uma risadinha e deixou escapar um “quem sabe” mas o outro, ao que parece, percebendo que algo não ia bem com ele continuou: basta prestar atenção em volta, ter olhos de olhar e coração de sentir. Ele se espantou com a frase bem estruturada e nem teve tempo de falar nada porque o vendedor disse: espantado? Olha meu amigo eu não nasci vendedor. Antes de vender côco eu era professor e fazia mestrado em literatura grega.

    O rapaz arregalou os olhos e ficou mudo. O vendedor resumiu sua vida explicando que chegara a barraquinha de côco por falta de alternativa para se sustentar, depois que um incêndio criminoso destruiu a fábrica da família e matou seus pais. Ele ia falar algo quando o moço o interrompeu com um gesto: eu vivo um dia depois do outro e você deve fazer o mesmo. Portanto vá e quem sabe aquela que vai te fazer sorrir está por aí, na próxima curva da lagoa.

    O rapaz agradeceu, pagou, subiu na bicicleta e antes de partir perguntou: como você se chama. O vendedor sorriu e apontou para o nome escrito em sua barraquinha com rodas – Tirésias – e gargalhou alto.

    Pedalou para longe do vendedor ainda incrédulo e espantado por ter passado por aquele impressionante encontro. Tirésias, o profeta cego de Tebas, quem diria, vendendo côco na Lagoa. E em sua versão carioquíssima ele não me alerta dos perigos por vir mas me anima com palavras gentis e espirituosas. E eu, o Ulisses moderno e desprovido de Penélope mas navegando a esmo, o escutei. Cada uma que me acontece…

    Estava distraído quando quase na frente da sede náutica do Botafogo viu uma moça parada ao lado da ciclovia segurando sua bicicleta, igual a dele emprestada por um banco. Ela olhava atenta ora para um lado ora para outro. Ele parou a meia distância observando-a. Não era linda mas muito charmosa, sem sombra de dúvida. Nas costas levava um colchonete enrolado, que daquela distância lembrava uma aljava. Nossa, pensou ele, é Ártemis, a caçadora, diante dos meus olhos. Será que ela precisa de ajuda? Como me dirijo a uma deusa?

    Como não se decidia se ia até a moça ou não se manteve parado, absorto com a bela visão. E tão concentrado estava que não percebeu a moça com o corpo virado na sua direção o encarando. E custou a escutar ela o chamando até que ela gritou: ei, você é surdo ou é estátua de sal? Assustado ele respondeu: bem vivo. Então senhor “bemvivo” me diz: para que lado está a barraca de frutas da Creusa? Creusa? É, sim, uma mulher grande, assim, gordona que se veste de vermelho e preto mas não é flamenguista. Ela não torce para o Flamengo? Que nada, Creuza detesta futebol, ficou viúva depois que o marido enfartou em um jogo do Vasco. E por que se veste com aquelas cores? Porque são as cores de Exu. Ah, nossa, nem tinha me tocado. Pois é, e sabe que combina com ela. Por que? Porque uma das atribuições de Exu é ser o orixá da comunicação. Puxa, nem imaginava, mas por que combina com ela? Porque a Creusa fala pelos cotovelos e dá bom dia até para passarinho. Verdade, eu percebi isso. Mas sem crítica a ela, por favor, é coisa do orixá dela. Olha como não sou religioso nem imaginava que ela se vestia em atenção a Exú. Nem eu sou religiosa. E como conhece sobre candomblé? Sou professora de cultura afro-brasileira. Ah tá.

    E ficaram nessa conversa mais uns minutos até ele lembrar de informa-la para que lado estava a barraca de frutas da Creusa. Como também era a direção que ele seguiria, foram pedalando lado a lado, se desviando ocasionalmente dos demais ciclistas porque sempre tem muita gente na ciclovia, ainda mais nos domingos de sol. A conversa seguiu leve a respeito da natureza que os cercava até chegarem ao seu destino. Os dois devolveram as respectivas bicicletas e sem parar de conversar foram a barraca da Creusa. Pediram o especial do dia, suco de abacaxi com laranja, e beberam ali mesmo. Foi só nessa hora que ele se lembrou que não sabia o nome da moça. Sorriu, comentou e se apresentou. Ela sorriu de volta, estendeu a mão e disse: prazer, Diana.

    Ele teve um acesso de riso e ela não entendeu a razão. Ele explicou que Diana era o nome romano da deusa Ártemis, a caçadora. E isso é engraçado desde quando?, quis saber ela assumindo um ar sério. Ele tremeu.

    Não era de fato engraçado. Rira de nervoso porque quando a viu achou que ela fosse a personificação da deusa grega. Deu uma tossidinha e já estava ensaiando algo para se justificar quando ela riu com vontade e disse: seu bobo, foi só sacanagem minha, até porque estou acostumada que façam brincadeiras com meu nome. Ah é? Sim, os mais eruditos fazem referência a Diana, a caçadora, versão romana da deusa grega. Claro, confesso que foi o que me passou pela cabeça. Mas aqueles mais sintonizados em cultura popular fazem referência a Diana Prince. Diana quem? Menino, a Mulher Maravilha! Ah claro, nossa sim a Mulher Maravilha! Pela sua cara acho que era fã dela. Eu e todos os garotos da escola adorávamos o seriado da televisão.

    E ficaram mais um tempo por ali, sentados em um banco de madeira rememorando séries de televisão do tempo em que eram jovens, os aparelhos tinham tubos imensos e as opções de canais se resumiam a uns quatro ou cinco. Quando do nada ela alegremente propôs: se você não for fazer nada hoje, que tal um cineminha logo mais? Topo, respondeu ele sem hesitar. A gente se encontra na estação Botafogo do metrô e espia o que está passando em algumas daquelas três salas que tem por ali. Assim, sem ver a programação antes? Será impossível não ter nada que a gente não queira ver, concorda? É, acho que sim. Tenha fé, querido e vamos confiar em Ifá, o orixá do destino. Mesmo? Claro, afinal pode ter sido obra dele esse nosso encontro? Ou de Moros, o deus grego do destino, rebateu ele. Touché, disse ela com um sorriso.

    Se levantaram e ele a acompanhou até seu carro que ela estacionara ali perto. Se despediram com dois beijos, como manda a boa cortesia carioca. Já no carro ela disse antes de partir: Você é engraçado, um tantinho estranho, mas bastante agradável. E foi embora. Ele ficou olhando o carro seguir e suspirou sorrindo. Como era o destino! Por no seu caminho Diana a caçadora! Era um presságio maravilhoso e se conhecesse algum oráculo iria correndo fazer uma consulta.

    Quase rindo ao se imaginar no templo de Apolo consultando o deus sobre seu destino, se virou para tomar o rumo da estação do metrô do Jardim de Alah quando sentiu, vindo por trás, uma brisa suave meio perfumada. Um arrepio percorreu seu corpo. Uma brisa como aquela vinda do nada, não parecia obra do acaso. A lembrança da ex veio forte. Ela sempre se referia a si mesma como bruxa e que eventualmente conversava com os elementos. No início achava engraçadinho mas depois achou aquilo uma bobagem arrogante, sem sentido. Mas naquele instante a lembrança dela se fez presente naquela brisa perfumada.

    Ficou parado sem se mover. A impressão que tinha era de ser observado por um par de olhos, provavelmente muito conhecidos seus. Ia se virar para conferir quando inesperadamente seu corpo não se mexeu. Olhando fixo na direção da estação do metrô pensou um instante e sorriu para si. Resistiria a tentação de conferir simplesmente porque não estava mais interessado. O que passou, passou. Agora é seguir em frente, disse para si, sentindo-se bastante aliviado com sua força de vontade.

    Qual Ulisses não se dobrou a tentação do canto das sereias. E caminhou firme para longe dali. Porque hoje à noite iria encontrar Diana. E não se deixam as deusas esperando.

  • Zebras à vista na copa do mundo

    Estava passando em revista os 12 grupos da copa do mundo de futebol e conhecendo as 48 equipes. Um comportamento estranho, admito, porque nunca fui fã de copa do mundo, como atestam as pessoas que me conhecem. Verdade. Me entusiasmei mais com a copa do mundo de clubes, aquela do ano passado em que meu Fluminense surpreendeu a todos que não o conhecem, naturalmente.

    Visto isso, por que diabo queimei minhas pestanas conferindo quem vai participar?

    Porque eu adoro uma zebra. Sim, isso mesmo, o resultado menos provável. O vexame do time grande. Menos do meu, naturalmente. E como é copa do mundo, aí é um vexame que cruza fronteiras.

    Por isso, em nome do meu prazer mórbido de escutar a zebra relinchar nos gramados eis como avalio os grupos.

    Começando pelo grupo B seria lindo ver a Bósnia Herzegovina ou o Catar colocarem Canadá e Suiça na roda. No grupo C, que belo seria o Haiti dar um calor nos colegas de grupo, incluindo aí o Pentacampeão mundial. Mas só para descer do salto um pouquinho.

    E o grupo E? Já viram de onde galopa a zebra que pode tirar o sono da Alemanha? Curaçao. Isso mesmo, daquela ilha no Caribe que até bem pouco tempo conheço gente que achava que era só nome de bebida.

    O grupo H tem Cabo Verde que apesar de ficar na África, onde a turma aprecia o futebol, eles lá no arquipélago não têm muita intimidade com a pelota. Que a Espanha e o Uruguai mantenham os olhos abertos.

    No grupo I a zebra é a nórdica seleção norueguesa. Se a França e o Senegal cochilarem vão acordar no Valhala.

    O J tem a modesta Jordânia que pode aplicar mais um vexame a poderosa Argentina. Quem tem memória sabe que os vizinhos mais ao sul de nossa fronteira têm intimidade de sobra com a zebra.

    No K se tiver alguma surpresa ela virá do Uzbequistão. Mas ai, honestamente, espero que não porque o Cristiano Ronaldo é gente boa e não merece pagar mico em campo.

    E por fim, a última zebra que eu acredito que exista é o Panamá. Apesar de latino-americano eles parecem desconhecer a forma da bola. Pior para a Inglaterra se entrar em campo de nariz empinado.

    O grupo G tem o Irã, que não é azarão. Mas a torcida é para eles porque, afinal, desde o Vietnam ninguém dá um baile tão bonito nos EUA. Ou alguém discorda?

    Os grupos A e F são sem graça: nenhuma seleção candidata a azarona.

    E no grupo D honestamente não quero zebra. Para mim seria lindo ver o valente Paraguai, coadjuvante no cenário internacional, aplicar aquela goleada homérica nos donos da casa. Se alguém pensou em 7 a 1, tá bom, tá valendo.

    No mais, que o árbitro soe o apito.

  • Os dois chapéus

    Os dois chapéus vinham boiando nas águas revoltas do rio; quase soçobravam nas ondas encapeladas, entre tábuas, troncos, montes de lixo e um ou outro cadáver, sob o voo indiferente dos urubus; mas vinham resolutos, altaneiros, ostentando orgulhosos as suas insígnias de classe superior; ainda pude ouvi-los, de longe, conversando:

    – Esse aí, só olhando – disse o mais velho, que eu chamei de Sílvio.

    – Tem gente que é assim, não presta para mais nada – disse o mais novo, o Joãzinho.

    Eu cocei a cabeça; que é que eles queriam que eu fizesse? Peguei algumas pedras, tentei acertá-los.

    – Idiota – disse o Sílvio.

    – Estúpido – disse o Joãozinho.

    Lancei-me ao rio, logo alegre, em lépidas braçadas; alcancei os dois, que caíam na gargalhada.

    – É idiota mesmo – disse o Sílvio.

    – Um arrematado estúpido – disse o Joãzinho.

    Peguei os dois chapéus, e afundei com eles; nadamos horas e horas, depois dias e dias, sob as águas do desconhecido, levados pelas torrentes impetuosas do universo; aportamos numa praia deserta, onde o barqueiro e seu enorme cajado nos aguardava.

    – A sua decisão, infeliz – disse.

    Espantei-me. Que decisão teria para tomar? Onde estava? Para onde iria? O céu avermelhado declinava no horizonte, onde um vulcão fumava pacientemente, tossindo de tempos em tempos. Por fim consegui perguntar:

    – Que decisão devo tomar?

    – Com qual dos chapéus vai embarcar para o outro lado, oras – disse o barqueiro sorrindo com escárnio por entre seus dentes podres, deixando claro que, não importa o chapéu que escolhesse, eu seria o mesmo idiota ou estúpido de sempre.

  • O sol nasceu

    Antigamente escrever bem era ser precioso, usar palavras pouco comuns, burilar a forma. Hoje o que se aprecia é o estilo sóbrio e descarnado, cujo modelo é Graciliano Ramos ou Dalton Trevisan.

    Aí pelo século XIX, não se dizia “O sol nasceu”. Uma frase como essa era um resumo que o autor rascunhava e escondia, com medo de que o acusassem de falta de imaginação ou indigência verbal. “O sol nasceu” – precisa dizer mais? Hoje os manuais dos cursos de Comunicação dizem que isso basta. Para eles, a boa frase é a que privilegia substantivo e verbo. Adjetivos e advérbios são excrescências que debilitam a expressão.

    Mas no século passado essa frase magra precisava engordar. Os elementos nutridores eram justamente o adjetivo e o advérbio. “O sol nasceu” – e daí? O sol nasce todo dia. Esse fato corriqueiro, dito assim de modo seco e banal, não comove ninguém. Não basta a simples enunciação dessa verdade imorredoura para despertar no leitor as ressonâncias visuais e afetivas do nascer do sol.

    Então o cronista vestia o fraque (se estivesse em casa, botava um pijama de seda cheirando a alecrim), introduzia o charuto na piteira, sorvia longamente a fumaça e começava: “O astro-rei…”. Por que chamar o sol de “sol”? “Astro-rei” era bem mais expressivo, tinha a magnificência da metáfora.

    “O astro-rei, brilhante e sanguíneo…” Ah, os adjetivos. Bastaram essas duas palavrinhas para injetar no sol força e brilho. É impossível agora não visualizá-lo em todo o esplendor do dilúculo (que, para quem não sabe, é o nome que se dá ao crepúsculo matutino).  

    Satisfeito, prosseguia nosso cronista: “O astro-rei, brilhante e sanguíneo, rompe despudoradamente a linha do horizonte…”.  Agora apareceu o advérbio de modo. Nada como ele para acrescentar ao verbo matizes sensoriais. A frase incha um pouco, é verdade, mas estávamos longe do rigor anorético com que hoje se vestem ideias e modelos.

    E vinha o desfecho, que devia ser marcante: “O astro-rei, brilhante e sanguíneo, rompe despudoradamente a linha do horizonte e lança revérberos dourados na natureza estremunhada”. O cronista sorria, saboreando a animização presente na imagem final. O que faz o sol a cada novo dia senão restaurar as forças de uma natureza desfalecida em sombras? Esplêndido!

    Depois de uma nova tragada, ele se dispunha a escrever a frase seguinte. Tinha paciência e sobretudo tempo para urdir aos poucos o texto. A nós, que vivemos o imediatismo de um mundo cibernético e globalizado, resta-nos dizer simplesmente: “O sol nasceu”. O que, para falar a verdade, hoje parece não interessar a ninguém.

  • O papagaio de Humboldt

    Em fevereiro de 1800, o barão Alexander von Humboldt inicia a exploração do rio Orinoco. Recolhe diversas espécies de plantas e animais desconhecidos, mede meticulosamente a temperatura do rio, do solo e do ar, a pressão atmosférica e a inclinação magnética. Descobre uma passagem navegável entre o Orinoco e o Amazonas. É uma pesquisa atribulada, cheia de perigos e descobertas.

    Numa das pausas de tantas aventuras, Humboldt ganha de presente um papagaio. Tenta entender o que o papagaio fala – afinal, seria o princípio da comunicação entre os homens e os animais. Mas as palavras, os arremedos de frases que o papagaio enuncia não são daquela tribo que o presenteara, a Caribe, mas de uma tribo já extinta, a Mapuré. Morreram todos os índios da tribo, a língua sobrevivera, e um papagaio que a falava. Non omnis moriar, não morrera de todo a língua.

    Humboldt fica fascinado. O seu sonho é aprender a língua do papagaio Mapuré. Em pouco tempo aprendeu várias palavras, consegue formar algumas frases, primárias, mas frases. Já consegue estabelecer uma ponte linguística entre ele e o papagaio. Antes de voltar à Europa, o papagaio falava desbragadamente. Humboldt o entendia e tomava nota. Iria publicar peripécias mirabolantes de um personagem fabuloso, que muito depois Mário de Andrade leria e usaria como material para criar Macunaíma.

    No entanto, quando em alto mar, o papagaio sentiu saudades da selva, adoeceu de saudades. Além disso, Humboldt calculou que ele teria quase cem anos de idade. Em pouco, a idade e a melancolia o mataram. Alexander Humboldt escreve a seu irmão Willelm, que era o primeiro grande linguista da história. Willelm lamentou profundamente tal perda. Se tivesse aprendido a língua do papagaio, se tivessem dialogado proficuamente, poderia estabelecer os princípios da Gramática Universal, feito que Noam Chomski realizaria somente daí a uns cem anos.

    Foi assim que a morte do papagaio Mapuré provocou um grande atraso para a ciência da humanidade.

  • O fiteiro

    Quando fui conhecer o lugar em que viria a residir em Recife; minha mãe, que me acompanhava na ocasião, assinalou: “já sei por onde Lucas vai andar”. Referia-se a um fiteiro, elemento tão presente nas cidades brasileiras e tão característico delas. Contudo, este tinha uma particularidade; não estava na rua, como usualmente ocorre, mas dentro do condomínio, pertencendo a um morador, que tocava o negócio com mais dois irmãos.

    Instalado no apartamento, o fiteiro de Wilson aparecia no meu campo de visão e no trajeto diário para a universidade; entretanto, não na minha familiaridade. Não tardou, porém, para entrar nela, ou melhor, para eu entrar na familiaridade dele. Assim, o “- Bom dia. – Bom dia.” de todas as manhãs foi substituído pelo “- Bom dia, Horácio! – Opa, Lucas, tudo bem? Vê só…”

    Além de compor um cenário, o fiteiro está no cotidiano daquele local e dos que nele vivem. Existem sujeitos que apenas passam por lá, dando um alô sem se deixar ficar, ou somente vão comprar algo, partindo logo após receber o troco. Quando o indivíduo se distancia, vem o comunicado aos novatos, “é fulano, de tal bloco”, ocasionalmente seguido de uma história.

    Sem pauta pré-definida ou até interlocutor previamente conhecido, muitos se direcionam para Wilson, sabem que lá a prosa nunca falta ao encontro. Para determinadas pessoas, a ida ao fiteiro é tão habitual que a despedida vem com um “até amanhã”. Uns bebem, dividindo sua motivação entre o papo e a cerveja; mas tem os que só cavaqueiam, vendo nisso a única razão de estar ali.

    Quem observa à distância pode julgar que, nesses ambientes, só se fala futilidades.

    Elas sempre estão presentes, é verdade, e a isso devemos dar graças; afinal, as parolas são de grande utilidade para a vida. No entanto, no banquinho, na cadeira ou em pé, rolam as mais variadas conversas, desde a mais besta até a mais séria (e, pela besteira, as sérias).

    O menor acontecimento vira tema, tenha se sucedido em casa, no trabalho ou na família. Engana-se quem acha que comentar sobre o tempo é a melhor forma de puxar conversa, é o futebol; basta um “E o santinha, como vai?”, para – depois de receber um invariável “Tá difícil” – o papo se instalar. Assuntos vêm também pelas notícias, as dos jornais e das bocas, com cada um dando sua opinião. Há ainda a política, alguns a abordam fugindo, baixinho; outros possuem menor cautela, “Se Bolsonaro surgir aqui na barraca, eu não atendo ele”, bradou Leto certa vez.

    Diante de uma história que contei, um amigo perguntou sobre o fiteiro: “Dá uma crônica?” Com certeza. Dá crônica, samba e muito mais.

  • História de Abelha

    Voando no ar claro da manhã. Pontinho negro na luz do sol. O brilho nas asinhas céleres – alegria que só ela sabe. Gira que gira, de flor em flor, e alto, volúpias de leve música, desenho breve na mágica transparência. Um mergulho – cego? Sábio mergulho, a florzinha mais roxa, à espera, em oferta – úmida vulva, vinho do amor. Os apelos do amor, símbolos que clamam do abismo. A abelhinha sugando o néctar da florzinha roxa – embriaguez morna do verão, isto o amor. A festa, mas porém, ai, quebra-se o encanto. Plec, plec, a flor nos dedos buliçosos da menina sardenta. A abelhinha zonza no ar – “Sua enxerida”, diz, e flecha um voo, o ferrão da morte no narizinho empinado. “Tomou, sua atrevida?” Tomou também a abelhinha, as duas mãos da garota no nariz, no negro aguilhão que a feria. A bichinha cai no chão, atordoada, sufocada de dor.

    O irmão prestativo – como é prestativa a maldadezinha das crianças – prende a pobrezinha num vidro. Ela mal que se mexe, as asinhas, o corpinho moído, suspirozinho só. “Eu prendi a assassina”, diz o menino. A menina enxuga uma lágrima, um pimentão o rostinho amassado no pranto. Ainda consegue força, numa admiração: “Ela é bonitinha!” “Queria te matar, sua boba”, diz o irmão. “Coitadinha”, ela diz. “Sua burra!” “Burro é você, seu malvadão.” “Gostou da picada, é? Tonta!” Ela chora, a abelha tão engraçadinha. Doeu, pois é. Mas foi sem querer, já está passando. Não é por isso que ela merece morrer. Ela não pode morrer. Está agonizando, olha só. Pobrezinha. Como estremece, pretinha a sua dorzinha – sem consolo! O vidro na janela, o sol cintila – o sol é o deus da vida, a luz, o calor que é a vida. A abelhinha freme as asinhas – um frêmito bom. O corpinho se ergue – viver, tão bom viver. Gira sobre si mesma, cai, cai. “A danadinha”, diz o menino. “Teresinha”, diz a menina, “ela tem o jeito de Teresinha. A Teresinha que estava morta, morrendinho mortinha, e volta para a vida”. “Fênix”, diz o menino, “é Fênix o nome, o pássaro que renasce das cinzas”. “Ah, e eu quero saber de fábula besta”, diz a menina, “eu quero a minha Teresinha, estava morrendinho, mortinha no medinho, e revive – que beleza!” “Beleza! Beleza nada. E ela é minha, eu que peguei”, diz o menino. “É minha”, diz a menina, “ela me escolheu, olha o meu nariz”. O menino ri. Ela, vermelhona, chora. Os dois avançam para o vidro, lutam, a tampa se abre, a abelhinha voa tonta na luz livre, livre, ó glória. Voa, voa, e plaft – bate na vidraça, e o menino bate nela, e a menina bate nela. “Assassina!” “A minha Teresinha!” Irmão e irmã se digladiam – tanto amor desperdiçado, a sina do muito amar, sua esquisitice.

    A Teresinha não fez plaft na vidraça, nem nada. Fez puf, um isso de sonzinho, estrangulado. Um pontinho se encolhendo, volteando no vácuo, sem apoio, parafusinho, e o vazio absoluto, frio, frio. A Teresinha não fez plaft nem nada, mas porém plaft e plaft e plaft fizeram as mãozinhas dos irmãos inimigos no seu amorzinho descontrolado. “Homem que é homem tem que se vingar”, ele diz. “Quem mata tem que morrer! Seu carrasco,” ela diz, “quem não perdoa não merece viver.” E plaft e plaft, a guerrinha dos irmãos. Tantas palavras? Muito mais sentimento. Tanto orgulho ferido! E pá e pá – o jeito é morrer, pensa a abelhinha, e puf – murchinha, se esvaziando a sua vidinha. Depois, num de-repente – pá, pum! – o pezinho, o pezão do menino. Teresinha, nem sombra! Sujeirinha no soalho, nem isso. “Conheceu, papuda”, diz o irmão. “Assassino”, diz a irmã, e segura o narizinho dolorido, se lembrando de chorar, a dor, dor e mágoa, mágoa e dor.

  • A outra

    Há muito Zuleide desconfiava de que Osvaldo tinha uma amante. Só faltava saber quem era. Um dia o mistério acabou graças a uma denúncia anônima: ela se chamava Ernestina e trabalhava com ele na repartição.

    Zuleide pensou em tirar satisfação. Explicaria que era a mulher de Osvaldo e lhe daria um ultimato: ou ia embora da vida dele, ou alguma coisa de muito grave poderia lhe acontecer. Chegou a pegar o telefone e ligar. Depois de ouvir um “alô” do outro lado, tentou ser direta:

    – Aqui é a esposa de Osvaldo!

    – Pois não.

    A voz tranquila, quase glacial, tirou-lhe a vontade de dizer qualquer coisa. Chegou a sentir remorsos por ter se rebaixado tanto. A outra dissera “pois não” como quem perdoa um incômodo ou se dispõe a fazer um favor.

    Zuleide passou a ter Ernestina como uma obsessão. De noite, ao se deitar, só pensava nela. E quando dormia, era o fantasma da outra que vinha perturbar seu sono. Ao acordar (sempre muito cedo…) e ver o marido placidamente ressonando, imaginava que aquela placidez se devia aos bons momentos que ele passara com a amante.

    Despeito, raiva, vontade de matar Ernestina –- a vida de Zuleide agora girava em torno disso. Já não tinha disposição para trabalhar, nem ânimo para se divertir. Gerente numa loja de brinquedos, vez por outra suspendia o serviço para ir ao banheiro chorar. Na volta, percebia que as colegas faziam comentários sobre seus olhos vermelhos.

    Noutros tempos, quando estava de folga, gostava de ir à tarde ao cinema; era fã de desenhos animados americanos. Agora, quando fazia isso, ficava pensando que naquele momento Osvaldo poderia estar trocando olhares com a outra, fazendo planos para se encontrarem mais tarde. Se ele vinha de noite com aquela história de “hora extra”, ela já sabia de que se tratava.

    Um dia tomou coragem e foi ao prédio onde a mulher morava. Tocou o interfone e pediu para subir.

    – Pode deixar que eu desço – respondeu a outra. Zuleide não esperou.

    Contava intimidar a rival, acossá-la, dar-lhe um ultimato. Em vez disso, era Ernestina que se dispunha a falar com ela. Sem nenhum escrúpulo ou hesitação. Quem afinal estava errada? Quem tomava um marido? Quem desrespeitava um contrato? Remoía-se por dentro ao pensar nessas contradições.

    Como a obsessão se tornara insuportável, resolveu tomar uma atitude. Não podia continuar pensando na outra daquela forma. Queria viver, respirar, sair daquele circulo de ferro… Círculo de ferro! Essa imagem a fez, quase inadvertidamente, olhar para a aliança no anular esquerdo. O círculo. O ferro. A dor.

    Então era isso! Num rompante, tirou a aliança e jogou-a contra a parede. Vendo que errara a pontaria, apanhou o pequeno objeto e o arremessou pela janela. Agora pronto: não havia mais Osvaldo, nem rival, nem traição. Sentiu-se aliviada e triunfante. Quando o marido chegou, minutos depois, comunicou tranquilamente a ele a decisão de ir embora.

  • Os anos de chumbo

    Fui adolescente nos anos de chumbo. Eu não sabia do que acontecia no Brasil, tudo era escondido como se fosse vergonhoso. Nosso comportamento também era controlado, tudo em nome da moral e dos bons costumes.

    Fui expulso do seminário, perdi a fé, depois descobri que meus novos amigos também não tinham fé. Mas a minha falta de fé não era pacífica.

    Por algum tempo, muito pouco, dormi num pequeno quarto, quase uma despensa. Eu rolava, rolava sem parar, estatelava-me no chão e, exausto, fungava, fungava. Os olhos nas paredes, armários, no teto, sobretudo no teto, suas frases escritas a giz.

    “É proibido proibir.”

    “Apareça lá em casa, viu?!”

    “Pois é, falaram tanto.”

    “Make warm not love.”

    “Dê um chute no patrão.”

    “Adivinha quem vem para o jantar!”

    Algumas frases com a indicação da autoria:

    “E vendo o barco se afastar de Amaralina desesperadamente linda e soluçando lentamente.” (Caetano Veloso).

    “O amor move o sol e as estrelas.” (Dante)

    “É preciso respeitar o homem… não ter piedade dele.” (Gorki)

    “Pierrot le fou… lindo!”

    “Estavas tão linda assim no dia dos quarenta e três pores-do-sol!”

    “Vivemos na melhor cidade da América do Sul.”

    “Vamos passear na floresta escondida, meu amor.” “É superbacana.” “São Paulo mon amour.”

    “Yes, nós temos” e o desenho de duas bananas.

    E tudo isso eram coisas. Faltaria uma frase de Gorki? “Ninguém deve ser condenado por coisa alguma porque somos todos iguais: bichos.” Bichos? Então não éramos coisas? E um bicho é algo mais? Em alguma parte do mundo, uma criança, em alguma parte do meu coração, chorando. Silêncio em mim. Quem seria eu? Ninguém?

    Urra! Abre os olhos, abre os olhos, bicho! Oscilações, confiança, extremos. Sangue, dor, angústia. A criança chorando, em alguma parte, sem o pequeníssimo barulho enorme da gota de remédio caindo da invisível colher. Cusparada na face do destino.

    Mas o destino tem face? Mas existe destino?

    “…estendes os braços perfumados de giestas pedindo tempo quando não há tempo.” (Dalton Trevisan)

    Meus amigos, não há amigos. Eu sentia a precisão de uma companheira.

    Silêncio. Mas o que era o amor? Talvez uma neurose. “Se queres aprender a amar, esquece a tua alma.” (Manuel Bandeira)

    Eu teria deixado muitas almas por aí, ah, as almas histericamente berrando canções de afugentar as almas.

    “Os corpos se entendem, as almas não.” (ainda Manuel Bandeira.)

    E meu corpo estava vazio. Se eu cria em Deus, qual então a causa da minha angústia? Viver é um paradoxo. Eu estava ali numa cadeira, numa mesa, num quarto/despensa escrevendo não sabia o quê como se isso resultasse alguma coisa.

    Então a mocinha dizia ao pai consternado: “Minha vocação é pra prostituta.”

    O mundo seria salvo, talvez, pelos insubmissos. Mas o que quer que eu fizesse seria uma submissão – ou ao corpo ou ao espírito. Seria preciso muita virtude para se conseguir um estado de completo, perfeito, sumo ateísmo ou teísmo.

    “Deus é virtude.” (Quem teria dito?)

    “Pensarei provisoriamente que a virtude é o que o indivíduo possa obter de melhor de si.” (Gide)

    A criação artística é um ato de embriaguez. Eu procurava a fé, um cristianismo de vida. Problema da fé sustentada no amor? Crer mais importante que ser? Amor, comunhão, conciliação com Deus e os homens? Destino humano, desejo de permanência – a salvação do homem? Quando a volta do homem desiludido? Deus não existia para mim se eu não o aceitasse e não podia aceitá-lo enquanto não emergisse do mal. Haveria salvação para mim?

    Eu continuaria fazendo o meu caminho nem que fosse por falta de alternativa.

    Depois parece que me esqueci de tudo isso, continuei caminhando sem esperar por respostas. Deveria ser o início da maturidade.

  • O aniversário

    Cinquenta anos de idade. Meu presente mais-que-perfeito. O presente que estou me dando. Meio século de vida. Por que comemorar meu aniversário? Estou um século mais velho. O que é que eu tenho para comemorar? Cinquenta anos ou apenas um ano? Faz menos de um ano que eu nasci. Faz mesmo?

    Crescem as dores nas juntas, as rugas, os cabelos brancos. Os dentes apodrecem, o espírito apodrece. A idade pesa nos ombros, a idade tem o peso de um túmulo. Que quero eu da vida? Nada. Dizem que nasci ontem. Mas nasci velho. De repente me descobri velho.

    Quando eu era mais jovem, um homem de cinquenta anos era um velho. Quando cheguei aos quarenta, me senti jovem: a vida começava aos quarenta. Envelheci de repente. Envelheci, sem mais nem menos.

    Nasci ontem? Renasci, depois de um acidente besta. Voltei velho. Voltei estranho. Sou um estranho no ninho. Vegeto ou pouco mais que isso. Me importa o prazer. Boa mesa, boa cama. Sem grandes sonhos. Sem sonhos, existo. Não tenho planos. Quero existir enquanto existo. Não temo o futuro. O futuro não existe. Quero o aqui e o agora. Sem muita determinação.

    Ficam abolidas todas as frustrações. Ser e não ser se dão as mãos. Quais os problemas a resolver? Nenhuns. La nave va. Não tenho problemas. Não vou a lugar nenhum. Não conheço a verdade. Não estou interessado em verdade nenhuma. Quem é o dono da verdade? Matem-no. Ou não o matem. Dá na mesma.

    Olho no espelho e não me encontro. Quebro o espelho. Pelo prazer de não me encontrar em caco de vidro nenhum. Talvez as estrelas se reflitam nos cacos de vidro. Os homens quando morrem, morrem. Tanta gente morta, tantas cruzes à beira do caminho, cruzes anônimas. Tantos amigos, conhecidos, parentes: esquecidos. Vira a página e esquece. A vida é isto: esquecimento. Nenhum dia a mais senão o olvido. Põe uma pedra sobre tudo que passou. Se passou, já não é. Escreve na areia as ofensas, as dores, os prazeres da vida. Tudo passa. Scripta manent: não escreva nada. Por que escrevo? Tantos despropósitos na vida. Quero viver este momento inútil. Escrevo por desfaçatez. Talvez eu deva isso a alguém. Mas não quero pagar dívida nenhuma. Escrevo por escrever.

    Quero viver todos os momentos inúteis que me forem dados. Morrer quando me for dado morrer e desta vez que seja para sempre. Não sou melhor nem pior por isso. O mundo não é nem melhor nem pior por isso. Não sou mais feliz ou infeliz. Ou talvez seja. Talvez eu procure alguma coisa, talvez eu tenha encontrado. O vento me dá na cara neste momento e eu sinto prazer. Os valores estão mudados: sinto prazer. Sinto prazeres mínimos e enormes e me sinto bem.

    Talvez seja necessário dizer isso, para mim mesmo. O resto do mundo? Que se dane. Não posso salvar a humanidade. Não sei se a humanidade quer ser salva. Não sei o que é salvar a humanidade. Existo, mais nada. As dores do mundo? Não posso mais sofrer. Todas as dores humanas, toda a grandeza e miséria humana já não me pertencem. Peço desculpas. Ou não peço, saio de fininho como quem já morreu. Talvez eu já tenha morrido.

  • Fidelidade canina

    O casamento deles andava morno. Os dois fingiam não reconhecer isso, mas chegou um momento em que não dava mais para disfarçar. Foi então que uma noite, depois de jantarem, Clodoaldo falou meio sem jeito para Tâmara:

    – Acho que devemos dar um tempo.

    – Concordo – disse ela prontamente.

    – Amanhã vou dar entrada nos papéis. 

    – Ótimo. – E completou, depois de um breve intervalo: – Não faço questão de muita coisa. Vendemos o apartamento, e você me dá a metade. Fico também com um dos carros, e com Totó.

    – Ah, isso não! Totó é meu.

    – Seu? Por quê? Fui eu que sempre dei comida, limpei o xixi, cuidei dele quando ficou doente.    

    – Mas eu fui quem lhe deu o nome.

    – Um nome, por sinal, originalíssimo! – ironizou Tâmara.

    – E você queria “Brad Pitt”! “Brad Pitt Bull”! Ridículo… Não entende nada de cães.

    – E você não entende nada de mulheres.

    Totó, que cochilava perto dos dois, parece ter percebido que era o assunto da conversa. Baixou uma orelha e eriçou a outra, como se quisesse escutar melhor. 

    – Ou levo Totó comigo, ou não me separo! – sentenciou a mulher. 

    – O mesmo digo eu. Sem Totó, não há separação!

    Ficaram uns dias nisso, chateando-se mutuamente e agora em rixa declarada por causa do cachorro. Então Clodoaldo teve a ideia:

    – Vamos deixar que ele decida.

    – Ele?! Como?

    – Botamos nossas malas na sala e fingimos que vamos sair de casa. Cada um chama Totó. Vamos ver para quem ele se dirige. O vencedor o ganha para sempre.

    Tâmara aprovou. Tinha com o cachorro uma convivência mais íntima do que o marido, que se limitava a levá-lo para passear e fazer as necessidades fora do apartamento. Clodoaldo via nesse encargo seu trunfo; confiava na atração que os machos têm pela liberdade.

    Fizeram como planejado. O cão se habituara a vê-los preparar as malas para viajar. Sabia o que ia ocorrer quando as bagagens ficavam na sala por um, dois dias. Dessa vez estranhou, pois cada um dos donos se postou junto a uma mala e começou a chamar por ele.

    – Aqui, Totó!

    – Não, Totó. Aqui!

    Valia tudo – estalar os dedos, amaciar a voz, dar pancadinhas no chão. Atarantado, o animal não sabia o que fazer. Olhava alternadamente para um e para o outro, ameaçava ir numa direção mas logo recuava.  

    Repetiram mais de uma vez a experiência, e nada. Como o cachorro não se decidia, o casamento ia se mantendo. A cada nova encenação Totó se mostrava mais firme e equidistante. 

    Parecia ter consciência de que a sua fidelidade aos dois era o que ainda os mantinha juntos.

  • Os livros e seu mundo

    Não raro, deparamo-nos com textos literários que discorrem sobre livros. Entretanto, não me refiro à crítica, que os tem como objeto de investigação e análise. Falo, por exemplo, daquelas crônicas em que obras aparecem na forma de tema, como o cotidiano e o amor são assuntos possíveis, justamente por serem elementos da vida.

    Desse modo, escrever sobre livros e questões do seu universo não representa necessariamente a procura pelo exercício da atividade crítica ou pelo discurso metalinguístico. Cavaquear com o último texto lido (e, no fundo, ler é dialogar) pode significar, no escopo de suas intenções, apenas abordar determinada experiência; ainda que, em última instância, produza-se também metalinguagem. Tratar de tais “objetos” ou da vivência entre eles é também falar do mundo em geral e de um em específico.

    Os críticos crípticos não enxergam isso, nem poderiam; pois, mesmo trabalhando com esse material, fecham os olhos para tudo que pulsa. O universo dos livros palpita como nenhum outro. O intelectual que se recusa a ver o mundo não pode compreender a leitura como a prática permeada de vida que é.

    Quem não se insere nessa relação de vida não compreende o fenômeno completamente. Todavia, ela não diz respeito a ofício ou frequência de leitura, mas a um tipo de vínculo e até a certa maneira de viver, na qual os livros possuem outra dimensão (muito além da materialidade do impresso) e aparecem como elementos fundamentais do cotidiano.

    E são só esses leitores, os de vida, que conseguem experienciar a dimensão transcendente contida nos livros. Tão imprescindíveis como o pão e a água, tão habituais como tomar café pela manhã, mas dotados de uma significação que nada disso consegue comportar. Fazem parte do dia a dia, porém, jamais perdem o encanto que possuem.

    Destarte, é plenamente natural que a vivência contida no correr cotidiano das páginas esteja presente no que se escreve. Não se pode falar sobre o que está fora da vida, e os livros estão inseridos nela. Mais do que isso, com eles, constitui-se especial forma de existir. Assim como engendram um mundo, que é, ao mesmo tempo, todos os mundos, existentes e possíveis.

    Publicado originalmente no Crônicas Cariocas em Quarta, 24 de nov. de 2021

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