Sexta-feira

  • O fiteiro

    Quando fui conhecer o lugar em que viria a residir em Recife; minha mãe, que me acompanhava na ocasião, assinalou: “já sei por onde Lucas vai andar”. Referia-se a um fiteiro, elemento tão presente nas cidades brasileiras e tão característico delas. Contudo, este tinha uma particularidade; não estava na rua, como usualmente ocorre, mas dentro do condomínio, pertencendo a um morador, que tocava o negócio com mais dois irmãos.

    Instalado no apartamento, o fiteiro de Wilson aparecia no meu campo de visão e no trajeto diário para a universidade; entretanto, não na minha familiaridade. Não tardou, porém, para entrar nela, ou melhor, para eu entrar na familiaridade dele. Assim, o “- Bom dia. – Bom dia.” de todas as manhãs foi substituído pelo “- Bom dia, Horácio! – Opa, Lucas, tudo bem? Vê só…”

    Além de compor um cenário, o fiteiro está no cotidiano daquele local e dos que nele vivem. Existem sujeitos que apenas passam por lá, dando um alô sem se deixar ficar, ou somente vão comprar algo, partindo logo após receber o troco. Quando o indivíduo se distancia, vem o comunicado aos novatos, “é fulano, de tal bloco”, ocasionalmente seguido de uma história.

    Sem pauta pré-definida ou até interlocutor previamente conhecido, muitos se direcionam para Wilson, sabem que lá a prosa nunca falta ao encontro. Para determinadas pessoas, a ida ao fiteiro é tão habitual que a despedida vem com um “até amanhã”. Uns bebem, dividindo sua motivação entre o papo e a cerveja; mas tem os que só cavaqueiam, vendo nisso a única razão de estar ali.

    Quem observa à distância pode julgar que, nesses ambientes, só se fala futilidades.

    Elas sempre estão presentes, é verdade, e a isso devemos dar graças; afinal, as parolas são de grande utilidade para a vida. No entanto, no banquinho, na cadeira ou em pé, rolam as mais variadas conversas, desde a mais besta até a mais séria (e, pela besteira, as sérias).

    O menor acontecimento vira tema, tenha se sucedido em casa, no trabalho ou na família. Engana-se quem acha que comentar sobre o tempo é a melhor forma de puxar conversa, é o futebol; basta um “E o santinha, como vai?”, para – depois de receber um invariável “Tá difícil” – o papo se instalar. Assuntos vêm também pelas notícias, as dos jornais e das bocas, com cada um dando sua opinião. Há ainda a política, alguns a abordam fugindo, baixinho; outros possuem menor cautela, “Se Bolsonaro surgir aqui na barraca, eu não atendo ele”, bradou Leto certa vez.

    Diante de uma história que contei, um amigo perguntou sobre o fiteiro: “Dá uma crônica?” Com certeza. Dá crônica, samba e muito mais.

  • História de Abelha

    Voando no ar claro da manhã. Pontinho negro na luz do sol. O brilho nas asinhas céleres – alegria que só ela sabe. Gira que gira, de flor em flor, e alto, volúpias de leve música, desenho breve na mágica transparência. Um mergulho – cego? Sábio mergulho, a florzinha mais roxa, à espera, em oferta – úmida vulva, vinho do amor. Os apelos do amor, símbolos que clamam do abismo. A abelhinha sugando o néctar da florzinha roxa – embriaguez morna do verão, isto o amor. A festa, mas porém, ai, quebra-se o encanto. Plec, plec, a flor nos dedos buliçosos da menina sardenta. A abelhinha zonza no ar – “Sua enxerida”, diz, e flecha um voo, o ferrão da morte no narizinho empinado. “Tomou, sua atrevida?” Tomou também a abelhinha, as duas mãos da garota no nariz, no negro aguilhão que a feria. A bichinha cai no chão, atordoada, sufocada de dor.

    O irmão prestativo – como é prestativa a maldadezinha das crianças – prende a pobrezinha num vidro. Ela mal que se mexe, as asinhas, o corpinho moído, suspirozinho só. “Eu prendi a assassina”, diz o menino. A menina enxuga uma lágrima, um pimentão o rostinho amassado no pranto. Ainda consegue força, numa admiração: “Ela é bonitinha!” “Queria te matar, sua boba”, diz o irmão. “Coitadinha”, ela diz. “Sua burra!” “Burro é você, seu malvadão.” “Gostou da picada, é? Tonta!” Ela chora, a abelha tão engraçadinha. Doeu, pois é. Mas foi sem querer, já está passando. Não é por isso que ela merece morrer. Ela não pode morrer. Está agonizando, olha só. Pobrezinha. Como estremece, pretinha a sua dorzinha – sem consolo! O vidro na janela, o sol cintila – o sol é o deus da vida, a luz, o calor que é a vida. A abelhinha freme as asinhas – um frêmito bom. O corpinho se ergue – viver, tão bom viver. Gira sobre si mesma, cai, cai. “A danadinha”, diz o menino. “Teresinha”, diz a menina, “ela tem o jeito de Teresinha. A Teresinha que estava morta, morrendinho mortinha, e volta para a vida”. “Fênix”, diz o menino, “é Fênix o nome, o pássaro que renasce das cinzas”. “Ah, e eu quero saber de fábula besta”, diz a menina, “eu quero a minha Teresinha, estava morrendinho, mortinha no medinho, e revive – que beleza!” “Beleza! Beleza nada. E ela é minha, eu que peguei”, diz o menino. “É minha”, diz a menina, “ela me escolheu, olha o meu nariz”. O menino ri. Ela, vermelhona, chora. Os dois avançam para o vidro, lutam, a tampa se abre, a abelhinha voa tonta na luz livre, livre, ó glória. Voa, voa, e plaft – bate na vidraça, e o menino bate nela, e a menina bate nela. “Assassina!” “A minha Teresinha!” Irmão e irmã se digladiam – tanto amor desperdiçado, a sina do muito amar, sua esquisitice.

    A Teresinha não fez plaft na vidraça, nem nada. Fez puf, um isso de sonzinho, estrangulado. Um pontinho se encolhendo, volteando no vácuo, sem apoio, parafusinho, e o vazio absoluto, frio, frio. A Teresinha não fez plaft nem nada, mas porém plaft e plaft e plaft fizeram as mãozinhas dos irmãos inimigos no seu amorzinho descontrolado. “Homem que é homem tem que se vingar”, ele diz. “Quem mata tem que morrer! Seu carrasco,” ela diz, “quem não perdoa não merece viver.” E plaft e plaft, a guerrinha dos irmãos. Tantas palavras? Muito mais sentimento. Tanto orgulho ferido! E pá e pá – o jeito é morrer, pensa a abelhinha, e puf – murchinha, se esvaziando a sua vidinha. Depois, num de-repente – pá, pum! – o pezinho, o pezão do menino. Teresinha, nem sombra! Sujeirinha no soalho, nem isso. “Conheceu, papuda”, diz o irmão. “Assassino”, diz a irmã, e segura o narizinho dolorido, se lembrando de chorar, a dor, dor e mágoa, mágoa e dor.

  • A outra

    Há muito Zuleide desconfiava de que Osvaldo tinha uma amante. Só faltava saber quem era. Um dia o mistério acabou graças a uma denúncia anônima: ela se chamava Ernestina e trabalhava com ele na repartição.

    Zuleide pensou em tirar satisfação. Explicaria que era a mulher de Osvaldo e lhe daria um ultimato: ou ia embora da vida dele, ou alguma coisa de muito grave poderia lhe acontecer. Chegou a pegar o telefone e ligar. Depois de ouvir um “alô” do outro lado, tentou ser direta:

    – Aqui é a esposa de Osvaldo!

    – Pois não.

    A voz tranquila, quase glacial, tirou-lhe a vontade de dizer qualquer coisa. Chegou a sentir remorsos por ter se rebaixado tanto. A outra dissera “pois não” como quem perdoa um incômodo ou se dispõe a fazer um favor.

    Zuleide passou a ter Ernestina como uma obsessão. De noite, ao se deitar, só pensava nela. E quando dormia, era o fantasma da outra que vinha perturbar seu sono. Ao acordar (sempre muito cedo…) e ver o marido placidamente ressonando, imaginava que aquela placidez se devia aos bons momentos que ele passara com a amante.

    Despeito, raiva, vontade de matar Ernestina –- a vida de Zuleide agora girava em torno disso. Já não tinha disposição para trabalhar, nem ânimo para se divertir. Gerente numa loja de brinquedos, vez por outra suspendia o serviço para ir ao banheiro chorar. Na volta, percebia que as colegas faziam comentários sobre seus olhos vermelhos.

    Noutros tempos, quando estava de folga, gostava de ir à tarde ao cinema; era fã de desenhos animados americanos. Agora, quando fazia isso, ficava pensando que naquele momento Osvaldo poderia estar trocando olhares com a outra, fazendo planos para se encontrarem mais tarde. Se ele vinha de noite com aquela história de “hora extra”, ela já sabia de que se tratava.

    Um dia tomou coragem e foi ao prédio onde a mulher morava. Tocou o interfone e pediu para subir.

    – Pode deixar que eu desço – respondeu a outra. Zuleide não esperou.

    Contava intimidar a rival, acossá-la, dar-lhe um ultimato. Em vez disso, era Ernestina que se dispunha a falar com ela. Sem nenhum escrúpulo ou hesitação. Quem afinal estava errada? Quem tomava um marido? Quem desrespeitava um contrato? Remoía-se por dentro ao pensar nessas contradições.

    Como a obsessão se tornara insuportável, resolveu tomar uma atitude. Não podia continuar pensando na outra daquela forma. Queria viver, respirar, sair daquele circulo de ferro… Círculo de ferro! Essa imagem a fez, quase inadvertidamente, olhar para a aliança no anular esquerdo. O círculo. O ferro. A dor.

    Então era isso! Num rompante, tirou a aliança e jogou-a contra a parede. Vendo que errara a pontaria, apanhou o pequeno objeto e o arremessou pela janela. Agora pronto: não havia mais Osvaldo, nem rival, nem traição. Sentiu-se aliviada e triunfante. Quando o marido chegou, minutos depois, comunicou tranquilamente a ele a decisão de ir embora.

  • Os anos de chumbo

    Fui adolescente nos anos de chumbo. Eu não sabia do que acontecia no Brasil, tudo era escondido como se fosse vergonhoso. Nosso comportamento também era controlado, tudo em nome da moral e dos bons costumes.

    Fui expulso do seminário, perdi a fé, depois descobri que meus novos amigos também não tinham fé. Mas a minha falta de fé não era pacífica.

    Por algum tempo, muito pouco, dormi num pequeno quarto, quase uma despensa. Eu rolava, rolava sem parar, estatelava-me no chão e, exausto, fungava, fungava. Os olhos nas paredes, armários, no teto, sobretudo no teto, suas frases escritas a giz.

    “É proibido proibir.”

    “Apareça lá em casa, viu?!”

    “Pois é, falaram tanto.”

    “Make warm not love.”

    “Dê um chute no patrão.”

    “Adivinha quem vem para o jantar!”

    Algumas frases com a indicação da autoria:

    “E vendo o barco se afastar de Amaralina desesperadamente linda e soluçando lentamente.” (Caetano Veloso).

    “O amor move o sol e as estrelas.” (Dante)

    “É preciso respeitar o homem… não ter piedade dele.” (Gorki)

    “Pierrot le fou… lindo!”

    “Estavas tão linda assim no dia dos quarenta e três pores-do-sol!

    “Vivemos na melhor cidade da América do Sul.”

    “Vamos passear na floresta escondida, meu amor.” “É superbacana.” “São Paulo mon amour.”

    “Yes, nós temos” e o desenho de duas bananas.

    E tudo isso eram coisas. Faltaria uma frase de Gorki? “Ninguém deve ser condenado por coisa alguma porque somos todos iguais: bichos.” Bichos? Então não éramos coisas? E um bicho é algo mais? Em alguma parte do mundo, uma criança, em alguma parte do meu coração, chorando. Silêncio em mim. Quem seria eu? Ninguém?

    Urra! Abre os olhos, abre os olhos, bicho! Oscilações, confiança, extremos. Sangue, dor, angústia. A criança chorando, em alguma parte, sem o pequeníssimo barulho enorme da gota de remédio caindo da invisível colher. Cusparada na face do destino.

    Mas o destino tem face? Mas existe destino?

    “…estendes os braços perfumados de giestas pedindo tempo quando não há tempo.” (Dalton Trevisan)

    Meus amigos, não há amigos. Eu sentia a precisão de uma companheira.

    Silêncio. Mas o que era o amor? Talvez uma neurose. “Se queres aprender a amar, esquece a tua alma.” (Manuel Bandeira)

    Eu teria deixado muitas almas por aí, ah, as almas histericamente berrando canções de afugentar as almas.

    “Os corpos se entendem, as almas não.” (ainda Manuel Bandeira.)

    E meu corpo estava vazio. Se eu cria em Deus, qual então a causa da minha angústia? Viver é um paradoxo. Eu estava ali numa cadeira, numa mesa, num quarto/despensa escrevendo não sabia o quê como se isso resultasse alguma coisa.

    Então a mocinha dizia ao pai consternado: “Minha vocação é pra prostituta.”

    O mundo seria salvo, talvez, pelos insubmissos. Mas o que quer que eu fizesse seria uma submissão – ou ao corpo ou ao espírito. Seria preciso muita virtude para se conseguir um estado de completo, perfeito, sumo ateísmo ou teísmo.

    “Deus é virtude.” (Quem teria dito?)

    “Pensarei provisoriamente que a virtude é o que o indivíduo possa obter de melhor de si.” (Gide)

    A criação artística é um ato de embriaguez. Eu procurava a fé, um cristianismo de vida. Problema da fé sustentada no amor? Crer mais importante que ser? Amor, comunhão, conciliação com Deus e os homens? Destino humano, desejo de permanência – a salvação do homem? Quando a volta do homem desiludido? Deus não existia para mim se eu não o aceitasse e não podia aceitá-lo enquanto não emergisse do mal. Haveria salvação para mim?

    Eu continuaria fazendo o meu caminho nem que fosse por falta de alternativa.

    Depois parece que me esqueci de tudo isso, continuei caminhando sem esperar por respostas. Deveria ser o início da maturidade.

  • O aniversário

    Cinquenta anos de idade. Meu presente mais-que-perfeito. O presente que estou me dando. Meio século de vida. Por que comemorar meu aniversário? Estou um século mais velho. O que é que eu tenho para comemorar? Cinquenta anos ou apenas um ano? Faz menos de um ano que eu nasci. Faz mesmo?

    Crescem as dores nas juntas, as rugas, os cabelos brancos. Os dentes apodrecem, o espírito apodrece. A idade pesa nos ombros, a idade tem o peso de um túmulo. Que quero eu da vida? Nada. Dizem que nasci ontem. Mas nasci velho. De repente me descobri velho.

    Quando eu era mais jovem, um homem de cinquenta anos era um velho. Quando cheguei aos quarenta, me senti jovem: a vida começava aos quarenta. Envelheci de repente. Envelheci, sem mais nem menos.

    Nasci ontem? Renasci, depois de um acidente besta. Voltei velho. Voltei estranho. Sou um estranho no ninho. Vegeto ou pouco mais que isso. Me importa o prazer. Boa mesa, boa cama. Sem grandes sonhos. Sem sonhos, existo. Não tenho planos. Quero existir enquanto existo. Não temo o futuro. O futuro não existe. Quero o aqui e o agora. Sem muita determinação.

    Ficam abolidas todas as frustrações. Ser e não ser se dão as mãos. Quais os problemas a resolver? Nenhuns. La nave va. Não tenho problemas. Não vou a lugar nenhum. Não conheço a verdade. Não estou interessado em verdade nenhuma. Quem é o dono da verdade? Matem-no. Ou não o matem. Dá na mesma.

    Olho no espelho e não me encontro. Quebro o espelho. Pelo prazer de não me encontrar em caco de vidro nenhum. Talvez as estrelas se reflitam nos cacos de vidro. Os homens quando morrem, morrem. Tanta gente morta, tantas cruzes à beira do caminho, cruzes anônimas. Tantos amigos, conhecidos, parentes: esquecidos. Vira a página e esquece. A vida é isto: esquecimento. Nenhum dia a mais senão o olvido. Põe uma pedra sobre tudo que passou. Se passou, já não é. Escreve na areia as ofensas, as dores, os prazeres da vida. Tudo passa. Scripta manent: não escreva nada. Por que escrevo? Tantos despropósitos na vida. Quero viver este momento inútil. Escrevo por desfaçatez. Talvez eu deva isso a alguém. Mas não quero pagar dívida nenhuma. Escrevo por escrever.

    Quero viver todos os momentos inúteis que me forem dados. Morrer quando me for dado morrer e desta vez que seja para sempre. Não sou melhor nem pior por isso. O mundo não é nem melhor nem pior por isso. Não sou mais feliz ou infeliz. Ou talvez seja. Talvez eu procure alguma coisa, talvez eu tenha encontrado. O vento me dá na cara neste momento e eu sinto prazer. Os valores estão mudados: sinto prazer. Sinto prazeres mínimos e enormes e me sinto bem.

    Talvez seja necessário dizer isso, para mim mesmo. O resto do mundo? Que se dane. Não posso salvar a humanidade. Não sei se a humanidade quer ser salva. Não sei o que é salvar a humanidade. Existo, mais nada. As dores do mundo? Não posso mais sofrer. Todas as dores humanas, toda a grandeza e miséria humana já não me pertencem. Peço desculpas. Ou não peço, saio de fininho como quem já morreu. Talvez eu já tenha morrido.

  • Fidelidade canina

    O casamento deles andava morno. Os dois fingiam não reconhecer isso, mas chegou um momento em que não dava mais para disfarçar. Foi então que uma noite, depois de jantarem, Clodoaldo falou meio sem jeito para Tâmara:

    – Acho que devemos dar um tempo.

    – Concordo – disse ela prontamente.

    – Amanhã vou dar entrada nos papéis. 

    – Ótimo. – E completou, depois de um breve intervalo: – Não faço questão de muita coisa. Vendemos o apartamento, e você me dá a metade. Fico também com um dos carros, e com Totó.

    – Ah, isso não! Totó é meu.

    – Seu? Por quê? Fui eu que sempre dei comida, limpei o xixi, cuidei dele quando ficou doente.    

    – Mas eu fui quem lhe deu o nome.

    – Um nome, por sinal, originalíssimo! – ironizou Tâmara.

    – E você queria “Brad Pitt”! “Brad Pitt Bull”! Ridículo… Não entende nada de cães.

    – E você não entende nada de mulheres.

    Totó, que cochilava perto dos dois, parece ter percebido que era o assunto da conversa. Baixou uma orelha e eriçou a outra, como se quisesse escutar melhor. 

    – Ou levo Totó comigo, ou não me separo! – sentenciou a mulher. 

    – O mesmo digo eu. Sem Totó, não há separação!

    Ficaram uns dias nisso, chateando-se mutuamente e agora em rixa declarada por causa do cachorro. Então Clodoaldo teve a ideia:

    – Vamos deixar que ele decida.

    – Ele?! Como?

    – Botamos nossas malas na sala e fingimos que vamos sair de casa. Cada um chama Totó. Vamos ver para quem ele se dirige. O vencedor o ganha para sempre.

    Tâmara aprovou. Tinha com o cachorro uma convivência mais íntima do que o marido, que se limitava a levá-lo para passear e fazer as necessidades fora do apartamento. Clodoaldo via nesse encargo seu trunfo; confiava na atração que os machos têm pela liberdade.

    Fizeram como planejado. O cão se habituara a vê-los preparar as malas para viajar. Sabia o que ia ocorrer quando as bagagens ficavam na sala por um, dois dias. Dessa vez estranhou, pois cada um dos donos se postou junto a uma mala e começou a chamar por ele.

    – Aqui, Totó!

    – Não, Totó. Aqui!

    Valia tudo – estalar os dedos, amaciar a voz, dar pancadinhas no chão. Atarantado, o animal não sabia o que fazer. Olhava alternadamente para um e para o outro, ameaçava ir numa direção mas logo recuava.  

    Repetiram mais de uma vez a experiência, e nada. Como o cachorro não se decidia, o casamento ia se mantendo. A cada nova encenação Totó se mostrava mais firme e equidistante. 

    Parecia ter consciência de que a sua fidelidade aos dois era o que ainda os mantinha juntos.

  • Os livros e seu mundo

    Não raro, deparamo-nos com textos literários que discorrem sobre livros. Entretanto, não me refiro à crítica, que os tem como objeto de investigação e análise. Falo, por exemplo, daquelas crônicas em que obras aparecem na forma de tema, como o cotidiano e o amor são assuntos possíveis, justamente por serem elementos da vida.

    Desse modo, escrever sobre livros e questões do seu universo não representa necessariamente a procura pelo exercício da atividade crítica ou pelo discurso metalinguístico. Cavaquear com o último texto lido (e, no fundo, ler é dialogar) pode significar, no escopo de suas intenções, apenas abordar determinada experiência; ainda que, em última instância, produza-se também metalinguagem. Tratar de tais “objetos” ou da vivência entre eles é também falar do mundo em geral e de um em específico.

    Os críticos crípticos não enxergam isso, nem poderiam; pois, mesmo trabalhando com esse material, fecham os olhos para tudo que pulsa. O universo dos livros palpita como nenhum outro. O intelectual que se recusa a ver o mundo não pode compreender a leitura como a prática permeada de vida que é.

    Quem não se insere nessa relação de vida não compreende o fenômeno completamente. Todavia, ela não diz respeito a ofício ou frequência de leitura, mas a um tipo de vínculo e até a certa maneira de viver, na qual os livros possuem outra dimensão (muito além da materialidade do impresso) e aparecem como elementos fundamentais do cotidiano.

    E são só esses leitores, os de vida, que conseguem experienciar a dimensão transcendente contida nos livros. Tão imprescindíveis como o pão e a água, tão habituais como tomar café pela manhã, mas dotados de uma significação que nada disso consegue comportar. Fazem parte do dia a dia, porém, jamais perdem o encanto que possuem.

    Destarte, é plenamente natural que a vivência contida no correr cotidiano das páginas esteja presente no que se escreve. Não se pode falar sobre o que está fora da vida, e os livros estão inseridos nela. Mais do que isso, com eles, constitui-se especial forma de existir. Assim como engendram um mundo, que é, ao mesmo tempo, todos os mundos, existentes e possíveis.

    Publicado originalmente no Crônicas Cariocas em Quarta, 24 de nov. de 2021

  • Um velho amigo me deixou

    Meu velho amigo parou de funcionar. Estava em plena atividade quando simplesmente apagou. Uma tristeza.

    Estou falando do barbeador elétrico aí da foto. Sério. Estamos juntos há mais ou menos 45 anos. Mais para mais do que para menos. Ganhei do meu pai quando a barba encorpou.

    E desde então ele está comigo. Me viu na puberdade, escutou meus resmungos pelos mais variados motivos. Não poucas vezes, testemunhou minha animação em frente ao espelho me arrumando para encontrar aquela garota bonita que me causava taquicardia. Mas nunca soube da minha frustração na volta do encontro depois de escutar as palavrinhas amargas “você é legal, mas quero ser só sua amiga”. Vida que segue.

    E seguiu e você, meu velho amigo, periodicamente estava lá, comigo, me ajudando a ficar melhor apresentável. Há quem discorde mas como gosto de fazer a barba, o barbeador sempre teve lugar de honra no meu banheiro.

    Mesmo quando, por muitas vezes, o troquei pela lâmina de barbear nunca deu qualquer demonstração de ciúme. Ao contrário, cada vez que era convocado para enfrentar minha barba cerrada, herança do meu pai, nunca recuou ou mesmo engasgou. Cumpria sua parte com admiração transformando lixa em bumbum de neném.

    Enfim, mas nada é para sempre. Nem as pirâmides e muito menos meu barbeador elétrico.

    O que me resta? Lamentar? Ou buscar algum arqueólogo de apetrechos elétricos capaz de reviver meu amigo?

    Não sei, não me decidi. Por ora, olho meu velho camarada deitado inerte. Mas, se há um fio de esperança quem sabe ele não volta à ativa? Porque a gratidão pelos serviços dele é grande.

    Afinal, ainda lembro naquela vez, lá no século passado, quando aquela moça, uma das que povoam minhas doces lembranças, sorriu para mim. Tenho certeza que foi depois de ver meu rosto bem barbeado. Ela até disse algo como “olha que ele se arrumou mesmo só para mim” e não foi ao sentir o aroma do poderoso RogerGallet. Não foi mesmo, meu velho amigo…

  • Livraria do Luiz: espaço de cultura

    O que é uma livraria? Os incautos dirão que é onde se vendem livros. Não deixa de ser uma resposta verdadeira. Se recorrermos ao dicionário, é isso que estará lá, Aurélio e Caldas Aulete até a classificam como loja. Porém, como a vida não cabe nas definições lexicais e, do mesmo modo que os livros não se resumem à sua materialidade objetal, uma livraria é muito mais do que um estabelecimento comercial.

    Quem, após andar entre os negócios e os negociantes do centro de João Pessoa, adentra na Galeria Augusto dos Anjos e, nela, na Livraria do Luiz, facilmente constata o que acima afirmei.

    Cruzando a porta, já se apercebe que está em um universo próprio, dotado de uma aura especial, que inspira e expira cultura. Se as livrarias são mais do que meras casas de comércio, há as que conseguem ser mais do que livrarias. É o caso da Livraria do Luiz, como foi, em certa época, da José Olympio.

    E é isso que faz o encanto do lugar. Muito mais do que o café ou os exemplares à venda, é o ambiente, o que ele representa e o que traz. É aquela aura que se instaurou no número 88 da praça 1817.

    Para alguns, aquele local é um ponto de encontro. Combinam-se reuniões para discutir assuntos, resolver questões ou, simplesmente, prosear enquanto as horas correm. Para os escritores da cidade, funciona como uma verdadeira confraria. A literatura não está apenas nas estantes, mas também, entre um gole e outro, na boca das pessoas.

    Há quem vá para lá sem um encontro marcado. Acontece que, para muitos, esse ato já é algo do cotidiano. Vão, olham uma obra, sentam-se, tomam uma xícara, aparece um conhecido, a conversa se desenvolve, esse se vai, e o ciclo retorna ao início. Não é necessário um objetivo específico e determinado, o próprio estar na livraria possui um significado próprio.

    Conhecendo-a previamente ou não, existe, evidentemente, quem vai apenas comprar algo e, logo em seguida, sai. Geralmente, têm a aquisição já definida de antemão. Esses são os que não se dão o direito à doçura que o acaso fornece nos encontros e descobertas que ocorrem entre as prateleiras.

    Outros, sentados, pouco falam, mas tudo veem. Livro na mesa, xícara ao lado, observam e apreendem o movimento. Talvez, captem algo para a próxima crônica a ser publicada ou, de súbito, sejam tomados por um verso; pode ser até que saquem uma caneta e iniciem um bosquejo ali mesmo.

    Em uma de suas crônicas, a partir de fala em ocasião relacionada a esse mesmo local, Hildeberto Barbosa Filho asseverou: “não se faz história cultural de uma cidade, sem que se esse necessariamente por certos espaços.” Sem dúvida. Não se pode pensar na vida literária de João Pessoa, sem levar em conta a Livraria do Luiz, palco e agente da vivência cotidiana da cultura nesta cidade.

    Essa importância vai além dos lançamentos realizados e dos volumes expostos. Está também – e principalmente – pelo ambiente que se constituiu e que ela representa. Como o espaço que é, a Livraria do Luiz assume um papel de grande relevância para a cultura da cidade e do estado, especialmente para a literatura paraibana. Afinal, a vida literária também é feita disso. Além de leitura e escrita, há a vivência, sem a qual nenhuma daquelas vale.

  • Beber só

    A expressão “beber socialmente” tem um quê da correção política tão propagada hoje. Designa uma forma civilizada de beber (embora haja algum paradoxo nisso, pois bebemos para fugir à força coercitiva da civilização). Quando alguém diz que bebe socialmente, está querendo dizer que se controla, se policia, enfim, não se deixa dominar pelo “vício”.   

    Mas há outro sentido nessa dimensão social da bebida. Beber socialmente é também (e lá vai o óbvio) não beber só. É aproveitar o ensejo para conversar, rir com os outros, trocar impressões (e sobretudo imprecações) sobre a vida e o mundo. 

    Beber socialmente não exclui a possibilidade de alguém ser alcoólatra, assim como beber só não significa que a pessoa seja viciada. Existem alcoólatras que sempre procuram parceiros com quem beber (e quando não os encontram, se frustram, e bebem com mais intensidade ainda). E existem “bebedores sociais” que vez por outra não querem que ninguém lhes perturbe a comunhão que estabelecem com a bebida.

    Para mim, uma das imagens mais dolorosas da solidão é a de alguém bebendo sozinho. Beber só – sem ter com quem brindar, a quem fazer confidências ou mesmo sobre quem entornar o copo – é pior do que comer ou dormir só. A bebida pede expansão e pressupõe o outro. Está associada aos rituais báquicos, que sempre envolviam muita gente (e às vezes, é verdade, terminavam em agressões e assassinatos). Sozinho se lê, se pensa, se reza – mas não se bebe.

    O onanismo etílico é sinal de que falta à pessoa alguém com quem carnavalizar a vida. Embora ela possa fazer isso solitariamente (no Carnaval existem os blocos do eu-sozinho), nada mais estimulante para subverter as regras do que a presença de outras pessoas. O “indivíduo” é por natureza triste, ordeiro, temente às leis e a Deus. E quando está sóbrio, prefere a reflexão às atitudes que confirmam o instinto. Em grupo ele fica ousado, dribla o superego, deixa emergir a catadupa interior que os diques morais reprimem.

    Tão ruim quanto beber só é beber com alguém que não bebe. Mal comparando, é como fazer sexo com quem sofre de frigidez. A sobriedade do outro soa como uma falta de respeito, uma recusa de sintonia que acaba humilhando uma das partes (a parte que bebe, é claro). Comumente, nessas ocasiões, a parte sóbria assume um ar indulgente à proporção que o outro mergulha em seu delirante torpor.

    O companheiro ideal para um bêbado é outro bêbado. Quando se juntam, um não faz muita questão de entender o interlocutor porque também não está preocupado em se fazer entender. Caso estivesse, teria permanecido lúcido. O importante é que, na língua engrolada em que se expressam, sempre dizem o essencial.

    Existem no entanto aqueles para quem beber sozinho é mais produtivo. Os artistas, por exemplo, e entre esses os escritores. Gente como Vinicius de Moraes, Carlinhos Oliveira ou Paulo Mendes Campos não precisava de ninguém nessas ocasiões. Quando tinham diante de si uma garrafa, estavam em silencioso diálogo com as musas. E com elas faziam intermináveis brindes à eternidade.

  • A bateria

    Semana passada a bateria do meu carro pifou. Como eu estava no subsolo de uma agência bancária, tive que ligar para o seguro a fim de solicitar um mecânico. Uns 30 minutos depois o rapaz veio, examinou o artefato avariado e o condenou.

    — Aqui só outra.

    — E agora? Onde posso mandar buscar uma?

    — O senhor liga para a loja Tal e me passou o telefone. Quando eu lhe pedi uma sugestão de marca, ele me perguntou se eu pretendia vender o carro.

    — Não. Por quê?

    — Se for vender compre esta, que é mais barata (e me indicou o nome). Agora, se for ficar com o carro por mais um tempo, leve esta (citou outro nome). É um pouco cara, porém bem mais econômica e difícil de quebrar. Duvido que deixe o senhor no prego.

    Escolhi a segunda, pois não pretendia tão cedo vender o automóvel. Bateria instalada, voltei para casa pensando na alternativa que o mecânico tinha me apresentado. A escolha fora fácil pois, como disse, o carro ainda iria ficar comigo por um bom tempo. Mas… e se eu fosse me desfazer dele? Qual das marcas teria escolhido?

    Comecei a pensar nisso e senti um arrepio. A pergunta do rapaz tinha implicações profundas; envolvia um dilema moral. Pensei em Kant, que fundamenta sua ética na máxima: “Não faças a outrem o que não queres que te façam.” Se eu escolhesse a bateria mais barata e dispendiosa, que além disso podia quebrar, estaria fazendo a outrem (o eventual comprador do meu carro) o que não queria que me fizessem.

    O curioso foi a maneira objetiva, prática, direta, com que o mecânico me fizera a pergunta. Não havia hesitação nem escrúpulo, como se a proposta fosse muito natural. Ele sempre devia apresentar essa opção aos clientes. Alguns até lhe dariam uma gorjeta pela dica, mesmo que isso reduzisse a vantagem obtida com a escolha do produto ruim. O importante era o pequeno lucro imediato, acrescido do indizível prazer de enganar o outro. Pois esse tipo de escolha não vale só pelo dinheiro; vale também (ou sobretudo) pela sensação de ter sido esperto.

    Já chegando em casa, me dei conta de que a sugestão do rapaz diz muito de nós. No trabalho, no comércio, na política e mesmo nas relações interpessoais, nos comportamos como o sujeito que passa a bateria ruim sem considerar o que isso pode trazer para o outro.

    Tudo fica ótimo até o momento em que somos nós esse outro. E quando nosso carro quebra no meio de uma viagem noturna e ficamos com a família ao relento, protestamos contra o egoísmo do ser humano e lamentamos pertencer a espécie tão mesquinha. Esquecemo-nos de que dela fazemos parte e não raro somos nós a protagonizar a trapaça.

    Talvez seja por isso que este carrão chamado Brasil não anda – ou anda muito desigual. Falta em sua “bateria” a corrente do interesse pelo bem comum. Somos antikantianos por atavismo e convicção, fazendo sempre que possível aos outros o que nunca desejamos para nós.

  • Lição

    Antes de sair, ouviu as recomendações da mulher: “Não beba muito, não se afaste dos amigos, não entre em bloco de mal-encarados… E sobretudo não se meta com nenhuma periguete” — arrematou ela com um sorriso entre malicioso e repreensivo.

    — Tudo bem… Não vou fazer nada disso.

    Lá fora, a turma o esperava para cair na folia. Etiquetou um beijo nos lábios da mulher e, saltitante, deixou a casa. Com os amigos, sentia-se mais animado. Iriam não se sabia para onde, pois no Carnaval ninguém tem rumo certo. Seguiriam os blocos, parando vez por outra para entrar nos bares. Sempre se encontravam por essa época e aproveitavam para matar as saudades. A turma era de velho conhecidos e havia muito o que lembrar.

    Passou o tempo em que eles se permitiam loucuras numa ocasião como essa, mas ainda assim era bom estar juntos. Divertiam-se falando das estripulias de anos atrás: “O dia em que Pedrinho vestiu calcinha em vez de cueca e mostrou pra rodo o mundo…”; “E quando Lopes, de tão bêbado, entrou no banheiro das mulheres… Lembra?”.

    Ao embalo da conversa, ele começou a esquecer o que a mulher lhe pedira. Bebia além da conta. Também, ela era meio exagerada! Mantinha-o na regra o ano todo. Que custava no Carnaval dar uma relaxada? Pediu outra caipirinha, ao mesmo tempo que recitava para os outros a sua máxima preferida: “A noite é criança”. Nunca entendeu bem a lógica dessa frase, que lhe soava como uma justificativa para os excessos. Era o “carpe diem” dos boêmios, alguma coisa como: “é preciso aproveitar a vida, e a vida está na noite”.

    Vinha um bloco. Ele começou a tamborilar na mesa, depois ficou em pé e se pôs a pular. Não resistia ao apelo da música e dos corpos que se comprimiam dentro do cordão. Tanto é assim que aproveitou o pretexto de ir ao banheiro e se deixou levar pela turba. Aderia à festa com uma inexplicável ânsia de fugir, perder-se, romper as amarras.

    Quando os amigos deram pela sua falta, ele já havia enlaçado uma morena de bustiê e saia curta que pareceu lhe dar bola. Pelo menos foi isso que o atordoamento do álcool o fez supor. Só percebeu que se enganara quando, ao tentar dar um abraço na garota, sentiu nas costas uma pancada aguda. Ao se virar, levou no rosto um soco que o faria cambalear se houvesse espaço para isso. Nunca soube como conseguiu se desvencilhar da massa e voltar à mesa, onde os amigos o esperavam com ar preocupado.  

    — Onde você estava, cara? E o que foi isso no seu rosto? 

    — Nada — respondeu, estranhamente sóbrio. — Um sujeito, em vez de acertar a baqueta no tambor, acertou na minha cara.

    — A gente já estava pensando como ia dizer a Leonor que você sumiu.

    Leonor era a sua mulher. Se ele demorasse mais, certamente teriam tido a ideia de ligar para ela. A mulher ia então querer saber por que ele não seguira suas recomendações. E o diabo é que ela estava com a razão! Passou a mão no rosto, que ainda doía, e pediu mais uma dose. Queria se embriagar de novo, e dessa vez não haveria bloco que o levasse dali.

  • Carnaval e Solidão

    “Festa do pecado” – foi com esse tipo de rótulo que o Carnaval, desde cedo, apresentou-se à minha imaginação. Falava-se nele como “festa da carne”, alegria dos baixos instintos, frenesi do demo. Por isso eu sempre o recebi com uma ponta de remorso. Brincar o carnaval era transgredir não sei que piedosas regras, era se comprometer com o inferno. O corpo gozava, mas esse prazer de poucos e efêmeros dias acabava tendo um preço.

    No entanto o Carnaval não é apenas gozo do corpo, prazer dos instintos. Comporta uma outra dimensão, cheia de fantasia e sonho, alimentada pelo dramatismo de paixões que entristecem e dilaceram. Em cada folião ou foliã anônimos, sonhando nas esquinas sombrias com o próximo parceiro, reflete-se a paixão transfigurada de Pierrô, Colombina e Arlequim. Ninguém admite que saia à rua apenas para brincar – pelo contrário: a brincadeira é também esperança de algo maior, transcendente. É o sonho de uma grande paixão, o desespero fantasiado em riso.

    Dos autores que escreveram sobre essa festa, um dos que mais me impressionaram foi João do Rio. Há em suas crônicas e nos seus contos o sentimento do homem dividido entre a alegria e o remorso, e para quem o prazer físico é uma emoção torpe. João do Rio retrata a belle époque, tempo de crise e subversão de valores no qual as contradições, por mínimas que fossem, ganhavam um acento patético. Mesmo descontando-se os exageros da época, ressalta de seus textos, colorida e potencializada pelo impressionismo do estilo, a velha oposição entre carne e espírito, que comumente vem à tona numa época como a de agora. 

    E lá estão, nos textos do carioca, personagens ansiosos por mergulhar na noite, perder-se na devassidão e no abismo de outros corpos. Vão arrependidos, exalando em palavras de autocomiseração e tédio o odor de seus baixos instintos. Até que são punidos por uma espécie de logro que lhes é dado pelo objeto de desejo, que se apresenta horroroso e hediondo.

    Assim, por exemplo, a mulher mascarada e aparentemente linda revela-se, quando lhe arrancam a máscara, doente e disforme. Não é uma Vênus, como parecia; é um aleijão, de cujo nariz jorra pus. Por essa deformação estética, que frustra qualquer possibilidade de satisfação física, corrige-se um desvio ético e revela-se, ao mesmo tempo, o moralismo do autor. O esnobe e homossexual João do Rio, tão criticado pela sociedade da época, não passava de um moralista severo.

    Mas o nosso tempo é outro, bem mais prático e comercial. Longe estamos dos excessos da belle époque. Hoje é o governo que alardeia preocupação com a nossa saúde venérea, incitando-nos ao uso da camisinha. O pecado é não se prevenir, ficar doente, mas não é errado transgredir os limites do corpo. Este parece aberto a todo tipo de prazer. E a virgindade vale muito pouco.  

    Mesmo assim o Carnaval ainda preserva o romantismo de outros tempos. É falsa, mesmo na permissividade da folia, a alegação de que ninguém é de ninguém. Para além do corpo que se oferece, em riso lúbrico e escancarado, sonhamos com alguém que venha e não vá embora. Alguém que fique e nos socorra depois – quando a lembrança do gozo desfeito não for mais que uma evidência de solidão.

  • Ofensas mal disfarçadas

    Para viver em sociedade é preciso estar atento. Olhos bem abertos e ouvidos bem sintonizados.

    Por que existem várias maneiras de se ofender alguém sem usar palavreado de baixo calão. Por exemplo, atribuir à sorte as conquistas dos outros é uma delas. É uma forma velada de desprezar a preparação e o esforço que outros tiveram.

    Como se as coisas só dessem certo para uns como resultado da ocorrência de eventos positivos, favoráveis ou inesperados. Coisas que acontecem fora do controle ou da vontade humana mas que nunca dão errado. Aleatório puro ou sorte em estado bruto.

    Para essa classe de escolhidos não é preciso fazer esforço algum. Basta ficar lá sentado, embaixo da árvore como aquele primo do pato Donald, o Gastão, que o universo se movimentará a seu favor. Afinal, eles foram ungidos pela sorte, sem saberem porque e sem terem feito nada para isso.

    Bem feitas as contas, é maluquice das boas imaginar que a vida possa se organizar dessa forma. Mas para gente que acredita em terra plana, achar que a sorte é só para uns e não para outros é café pequeno.

    Outra forma de ofender sem arreganhar os dentes é mostrar surpresa ante uma demonstração de esforço genuíno ou conhecimento. Nesses casos a frase do ofensor vem acompanhada de um sorriso, ou mesmo riso, em que diz “nunca imaginei que você fosse capaz de se classificar” ou “nunca pensei que você conhecesse Moliére” (ia escrever Shakespeare mas decidi dar uma folga ao britânico).

    Nos dois casos, para ficar só em dois, não raro o ofendido não percebe que está sendo espezinhado. Fica meio atônito, sem ter o que falar direito, tentando compreender se aquilo que escutou é elogio ou crítica. É quase paralisador.

    Mas há raros momentos em que percebe a ofensa e reage, mesmo fazendo uso de ironia para não perder a linha nem provocar uma briga. Aí, o efeito é devastador contra…ele próprio! O ofensor se ofende e diz que não se pode elogiar. Faz uma bela volta no salão interpretando a vítima, em um papel escrito com a mais fina arte da manipulação. Envergonhado, o ofendido se cala e se esconde ante a culpa que lhe impingem. Quanta maldade.

    Se você chegou até aqui é porque testemunhou – ou foi vítima – dessas formas de ofensa. E se arrepende de não ter dado a resposta adequada ou ter se afastado diplomaticamente, sem oferecer o espetáculo patético da sua falta de ação.

    Isso agora é passado. O que foi não pode ser mudado. E mesmo que você consiga enterrar no mais profundo de si essas ofensas sofridas, isolando essa bagagem da superfície onde vive, o reflexo delas ocasionalmente vai latejar na sua mente. Pode não ser sempre mas em algum momento, quando você escutar um elogio, aquele parasita desprezível vai rastejar para fora do buraco em que você o confinou. Só para plantar a dúvida em você, tirando o gosto doce das coisas boas e legítimas da vida.

  • Entre o que se escreve e o que se publica

    Até os melhores poetas já escreveram os piores versos, mas só os piores poetas os publicam. Isso já foi dito e redito, e aqui digo mais uma vez, porque parece extremamente certo e ainda necessário. A questão que se coloca é a da seleção dos poemas na formação de um livro e como a obra de um poeta se apresenta ao público.Aí o problema assume contornos matemáticos, de proporcionalidade. Porém, não se trata de porcentagem ou de qualquer expressão em valores numéricos propriamente (afinal, em termos de literatura, jamais poderia ser desse modo, bem como por falarmos em matemática mais em termos metafóricos), mas das impressões no leitor e no crítico.

    O tempo entre a publicação de um livro e outro precisa exceder o da escrita dos poemas que o leitor encontrará disponível para a leitura. Precisa ser maior não porque o poeta necessite observar esse ditame estabelecido e esperar para o lançamento, tendo o seu livro guardado. Mas porque se alcança uma quantidade de poemas suficiente para compor um livro antes, no entanto, se publicado prontamente, provavelmente, sua qualidade não será boa. Se selecionados criteriosamente, os poemas se reduzem em número, alarga-se o tempo necessário do livro.

    Alguns autores publicam livros quase que anualmente, com 100 poemas ou mais. A percepção que fica é a de que publicam absolutamente tudo que lhes sai da pena, sem qualquer crivo crítico e, como aparece em muitos casos, sem sequer revisão ou ajuste, o que é expelido da cabeça vai ao livro. Assim, em meio a bons versos que saem de todos os poetas de qualidade ou medíocres, estará uma enxurrada de ruins e médios poemas, suficientes para rebaixar a qualidade do livro na avaliação e na experiência que o leitor terá dele e com ele.

    Há poetas apressados, que procedem do referido modo pela freima de ver seu nome na capa de mais um impresso. Isso acontece principalmente com os iniciantes, que naturalmente possuem uma ânsia maior pela publicação e por serem lidos. Essa pressa pode conduzir facilmente à desilusão e ao fracasso. Se é isso que almejam, digo: publiquem tudo que escrevem, sem crítica e sem seleção, aqui está uma receita perfeita. Mas, se não for isso, esse cronista (que é também poeta) diz: é necessário ter, sobretudo, calma. Calma na escrita, na seleção e na publicação.

    Até os poetas mais experientes sabem disso, não deixam de escrever seus versos ruins, só não os publicam. Ou, alguns até fazem. Já se falou bastante como em meio à grandiosidade de Augusto Frederico Schmidt há certos desníveis, ou como existem poemas fora da curva na obra de Carlos Drummond de Andrade, marcada pela extrema qualidade.

    Mas, se não fosse suficiente, é necessário ter uma preocupação com a posteridade. Não para mim, poeta menor, que não serei objeto de estudo, mas para os grandes poetas ou os que pretendem ser um dia (e pretendam ser grande um dia). Imagine, você sempre realizou suas seleções muito bem, publicando os bons poemas e escondendo os ruins, porém guarda esses em casa. Após sua morte, um pós-graduando ou um crítico vai pesquisar em seu acervo pessoal e decide publicar seus inéditos. Pois é, estarão publicados os poemas ruins, eles contrabalançarão tendendo a prejudicar o juízo que se fazia sobre sua obra. É necessário estar de olhos abertos até após a morte. Lêdo Ivo talvez estive atento a isso, quando, em A queimada, deu-nos o seguinte conselho: “Destrua os poemas inacabados, os rascunhos, as variantes e os fragmentos Que provocam o orgasmo tardio dos filólogos e escoliastas. Não deixe aos catadores do lixo literário nenhuma migalha.”

  • Nono marido

    A coisa mais triste do mundo era a vó Ana me fazer as tranças. Eu ficava com a cabeça cheia de caroços de tanto croque que tomava para ficar quieta. Mas todo mal tem o seu bem: a compensação era ouvir a vó Ana falar dos seus maridos.

    Estavam pendurados na parede da sala, todos com a mesma idade, parecia, uns trinta anos, e todos um a cara do outro: ruivos, com a bochecha meio pipocada, um bigodinho aparado bem fininho, o beiço caído, de choro, e os olhos mais tristes que já se viu.

    São a minha galeria de heróis, dizia a vó Ana, e ia apontando: o vô Joaquim, o vô Afonso, o vô Alfredo, o vô Macico, o vô Juca, o vô Pacheco, o vô Vicente, o vô Inácio.

    O vô Alfredo aguentou seis meses; o vô Afonso, só dois; o vô Joaquim, cinco meses; o vô Juca, nove – ia enumerando, orgulhosa, a vó Ana. O que durou mais foi o vô Macico: dezoito meses! Puxa, vó!, eu dizia. A vó Ana falava de-zoi-to, pausadamente, enchendo a boca.

    Só um que não aguentou nada, contava a vó Ana, com o ar de desprezo que Deus lhe deu. Só um que era um frouxo! Nem deu tempo de tirar um retrato. Ou a vó Ana nem quis saber de retrato. Esse nem nome não tem: é o nono marido.

    Saiu do quarto na primeira noite, ia buscar fogo para o pito, e nunca mais voltou. Esse negou fogo, dizia a vó Ana. No lugar do retrato, um quadro representando uns cachos de uva, murchas, desconsoladas.

  • Voz de IA

    Vou te falar, adotar essa postura tem evitado que eu me aborrecesse com mais frequência. Você tira a emoção das palavras e responde praticamente ao pé da letra tudo que te perguntam. Em alguns casos repete a mesma resposta se a pergunta for igual ou bem parecida.

    E como é que isso dá certo?

    As pessoas ficam sem muita alternativa para conversar porque você tira o espaço para estabelecer qualquer conexão que gere um diálogo mais extenso. Sem agressividade você cria uma barreira de desconforto diante dos demais seres humanos.

    Mas ninguém estranha, não acha você meio maluco por causa desse jeito assim…

    Assim como? Antissocial.

    Ah, bom, é isso pode acontecer. Um efeito colateral dessa postura é, as pessoas ao seu redor, criarem uma imagem pública a seu respeito que varia entre a maluquice e a grosseria. Pode resultar também em um certo isolamento social, sabe as pessoas param de te mandar memes, de te convidar para sair, entre outras atividades da vida em sociedade. Mas tem suas vantagens sim.

    E onde isso pode ser vantajoso?

    Você se livra do convívio de uma pensa de gente desagradável. Faça as contas, dos corpos humanos que orbitam ao seu redor, o número dos que merecem a sua atenção não cabem nos dedos das suas duas mãos juntas.

    Bom, pensando dessa forma eu acho que você tem razoa em parte.

    Viu? Essa seleção social é mais fácil se você se portar como uma IA, neutro, sem emoção e irritantemente funcional.

    Mas isso não parece com IA.

    Isso é o que menos importa porque na percepção das pessoas, por falta de repertório para conseguir definir o que você está fazendo, te classificam como IA. Admito que esse jeito de falar também me remete aquele personagem maravilhoso do cinema.

    Qual deles, o robô de Perdidos no Espaço?

    O robô não era do cinema, mas da televisão e a voz dele era carregada de emoção.

    Então quem?

    Hannibal Lecter.

    Você não pode estar falando sério.

    Estou sim.

    O Lecter é o psicopata dos psicopatas.

    Ah mas é um grande personagem, concorda?

    Claro, totalmente, mas deixa te perguntar uma coisa.

    Sim, claro, o que é?

    Seu plano de saúde cobre tratamento mental também?

  • A vó do menino

    A mãe precisa dormir no emprego, mas não pode deixar o menino sozinho em casa.

    – Sabe – ela diz – a minha casa foi da minha mãe, e antes foi da mãe dela. É da família, de geração em geração.

    Serve-nos uma xícara de café, e continua:

    – O menino sente a presença da vó. Tem medo. Ela era brava.

    – Mas ele conheceu a vó?

    – Ela morreu há vinte anos; ele tem onze.

    – Então, é porque fica sozinho naquele casarão?

    – A vó fica com ele. Ela nunca iria sair da sua casa. E ele sabe que ela está lá.

  • Para entender aquarela – ou não

    É assim, quando você pinta aquarela você se põe diante de uma situação que beira a ficção. No momento em que você coloca as tintas sobre o papel tem início uma relação estranha, quase surreal, entre artista e cores.

    Veja bem, você sabe o que você quer pintar mas depende da colaboração da tinta.

    Você não comanda as cores, elas são surdas aos seus apelos desesperados quando se espalham à vontade e aleatoriamente pelo papel.

    Se a superfície estiver seca, elas vão reagir de uma forma. Se o papel estiver úmido, a estória é outra e, claro, vai sempre depender do grau de umidade da superfície. E, por falar nela, a umidade, há outra muito importante, a do ar, que interfere decisivamente na consistência das tintas à medida que deixam os tubos onde jaziam no escuro, compactas e imóveis. Pintar aquarela no deserto do Thar não deve ser a mesma coisa que pintar em Belém do Pará, pode estar certo.

    Assim, quando o artista aperta o tubo tem início uma reação que dificilmente ele terá controle completo. Não há diálogo possível com substâncias que se movem ao seu bel prazer. As tintas são manhosas, caprichosas, donas de suas efêmeras vidas. Se espalham da forma que querem e na direção que decidem, independente da vontade da pintora ou do pintor. Ao artista cabe somente tentar corrigir o curso que as cores tomam à sua frente.

    Alguns conseguem, outros não. Na fúria de não ver seu talento expresso pelas tintas, muitos rasgam o papel e o atiram a lixeira, encerrando o que as tintas decidiram fazer, se obra de arte ou esboço colorido. Como saber? Não há, e por vezes é um teste supremo de paciência. Mas uma coisa eu tenho certeza é que as melhores aquarelistas do mundo, como a Gemma Capdevila ou a Anna Mason, com certeza sabem conversar com as cores. Elas, assim como os demais expoentes dessa bela arte, seguramente falam a língua das cores, elas falam tintês.

    E, você, minha amiga, já aprendeu esse idioma misterioso?

    Ainda não, mas me disseram que tem um aplicativo de tradução universal que é uma coisa!

    Tá bom, vou querer mais desse seu chá, por favor.

  • A palavra mais bonita

    Li há algum tempo uma pesquisa sobre a palavra mais bonita da língua portuguesa. Muitos levaram em conta apenas o conteúdo e responderam “amor”, “ética”, “democracia”, “credibilidade” e semelhantes.

    Essas são palavras nobres, não há dúvida, pois veiculam elevados conceitos ou sentimentos. Mas os responsáveis pela pesquisa estavam mais interessados na forma. Queriam saber das palavras como organismos sonoros ou mesmo visuais. Palavras que tinham uma beleza em si.

    É claro que não se pode abstrair a forma do conteúdo, significante e significado tendem a constituir uma unidade. São como cara e coroa.

    Quando ouvimos uma palavra, automaticamente a vinculamos ao que ela significa. Mas com um pouco de imaginação é possível dissociar esses níveis; fazendo isso, captamos a beleza que elas têm. “Amor”, “ética”, “democracia”, “credibilidade”, convenhamos, são palavras pouco expressivas. Tanto é assim que não as “percebemos”; vamos direto ao que elas significam e nos damos por satisfeitos.

    Mas duvido que você vá direto ao sentido de “crisálida”, “magnólia”, “puerpério”, “sobrancelha” (a preferida de Veríssimo) e outras que retêm a nossa atenção pela densidade sonora. Isso independe do significado.

    “Palustre”, por exemplo, quer dizer “pantanoso”, mas perde o que pode respingar nela de pútrido neste verso de Jorge de Lima: “A garupa da vaca era palustre e bela” (um verso cuja harmonia fônica encantava o meu amigo Antonio Carlos Villaça, de quem o ouvi pela primeira vez).

    A pesquisa de que falei queria palavras bonitas e, com isso, testava a sensibilidade poética dos leitores. A poesia é por excelência o terreno onde impera o significante, a forma. Isso não quer dizer que se pode escrever qualquer coisa desde que soe bem. “Qualquer coisa” nunca soa bem, pois um mínimo de nexo é desejável. No entanto, mesmo desse nexo estamos dispostos a abdicar desde que a mensagem se sustente como forma. “Rosa, sublime contradição. Volúpia de não ser o sono de ninguém debaixo de tantas pálpebras” – esses versos de Rimbaud, que cito de cor, não querem “dizer nada”. Mas como são bonitos, como impressionam poeticamente! E por quê? Porque visualizamos as pálpebras como pétalas (metáfora) e, com isso, aceitamos o sublime paradoxo apontado no início.

    Augusto dos Anjos é um bom exemplo de que, na poesia, a forma conta mais do que o sentido. Muitos dos que o admiram não compreendem seus poemas, mas se impressionam com a melodia áspera de versos como estes: “Produndissimamente hipocondríaco/ Este ambiente me causa repugnância…/ Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia/ que se escapa da boca de um cardíaco.” Parece que quanto menos o “entendem”, mais o amam.

    Considerar as palavras por si (vendo-as ou escutando-as) e procurar atribuir-lhes os sentidos que parecem adequados é um bom exercício para as aulas de criação literária. Os alunos a princípio acham estranho esse processo de desautomatização, mas acabam gostando da brincadeira.

    Afinal, não deixa de ser engraçado descobrir que “jiló” deveria significar “um tipo de lagarta”; “boiola”, um molusco encontrado em água doce; e “erisipela”, uma exótica flor do Oriente.

    E agora, que tal aderir à pesquisa sobre a palavra mais bonita da nossa língua? Pensei em “sussurro”, “beneplácito”, “obnubilado”, mas vou ficar com “escafandro”. Não gostaram? Gosto não se diz, curte-se.

  • Deixe-se levar

    No ano que começou agora há pouco desejo menos organização e mais espontaneidade. Mais espaço para contemplação e menos para observação.

    Compromisso só nas obrigações, porque são implacáveis. No mais, vamos levando em espirais diáfanas.

    Planejar é preciso, certo, mas não pode ser um ato imperativo em nossas vidas. Umas boas doses de imprevisto, reunidas a golpes de vista felizes, não farão mal algum.

    Caminhar por caminhar. Espiar e deixar o olhar seguir até onde a vista alcança para só aí decidir se vamos por essa estrada ou por aquela ou, até, por nenhuma.

    Que nossas escolhas de onde ir possam seguir o que Robert Frost soprou suavemente em seu poema O caminho não percorrido:

    “Duas estradas divergiam em uma floresta, e eu…
    Peguei o menos percorrido,
    E isso tem feito toda a diferença.”

    Sim, fazer a diferença por nossas escolhas ainda é uma sábia opção.

    Que no próximo ano uma parte dos nossos movimentos sejam em direção ao estático. Parar por parar. Parar porque é bom.

    Olhar para um lado ao invés do outro e vice-versa.

    Escutar, falar, sorrir, chorar.

    Conter-se, expandir-se, rir-se.

    Deitar, dormir, sonhar.

    Sonhar acordado, sonhar enlevado por uma doce lembrança.

    E, para encerrar, desejo que tenhamos mais confiança e que olhemos mais para dentro de nós mesmos. Atitudes que só podem nos trazer coisas boas.

    Nem que nos conduzam somente à citação de Walt Whitman, na “Canção da estrada aberta”:

    “eu sou maior e melhor do que eu pensava”.

  • Árvore de Natal

    Nunca pude esquecer aquela noite. Era o primeiro Natal depois da morte de Mamãe. Sempre, toda a vida, ela e Papai, de noite, pertinho do Natal, armavam a nossa árvore, com muito carinho, Lininha e eu sentados ao lado. Agora, pela primeira vez, a gente foi cedo pra cama. Eu logo dormi, Lininha me acordou.

    – Vamos! Vamos!

    – Vamos onde?

    – O Papai… Papai foi…

    Entendi. Me levantei, fui com ela. Papai tinha ido armar a Árvore de Natal, a gente não ia deixar ele sozinho. Então, os dois bem juntinhos, a gente foi caminhando pelo corredor. Os chinelinhos de Lininha, teque, teque, faziam barulho no soalho. Falei pra ela, ela tirou eles. Estava tudo escuro, muito escuro mesmo. Então a gente foi andando mais devagar, devagarzinho, encostadinho na parede. Tinha uma vaso de avenca no meio do caminho, Lininha bateu nele, e então a gente resolveu ficar ali.

    Logo, lá no fundo, acendeu a luz. Então a gente resolveu andar outra vez. Apareceu uma sombra, era o Papai. E a gente foi caminhando mais devagarzinho, com cuidado pro Papai não ver a gente. Ele não podia mesmo, estava tudo escuro; mas a gente via bem, que lá na sala, lá tava claro. Tinha um armário no fundo do corredor, a gente chegou ali e ficou bem juntinho dele e da porta. E ali, bem escondidinhos, a gente ficou olhando o Papai.

    Ele pegou a árvore, arrumou bem os galhos, alisou tudo direitinho, pôs em cima da mesa, ficou olhando pra ela. Depois se sentou, baixou a cabeça, olhou de novo a árvore, baixou outra vez, fez que assoou o nariz, passou a mão nos cabelos. Ah, a gente gostava de cariciar aqueles cabelos. Eu tava pensando isso, Lininha me chamou.

    – Olha!

    – Olha o quê?

    – Bobo! – ela falou e eu vi que ela tava brava mesmo. Mas logo ela continuou:

    – Olha! Ele está se levantando agora. Abriu a janela. Você sabe pra onde ele tá olhando?

    – Pro cemitério.

    – Psiu! Fala baixo. Papai percebe.

    – Então era isso! Eu já tava desconfiando que Papai tava chorando. Tava um quadro tão feio o Papai arrumando a árvore, sem a gente perto, sem… sem a Mamãe! Lininha, ela não vai voltar mais mesmo?

    – Viu?! O Papai percebeu. Eu não falei pra falar baixo!

    Então a gente viu o Papai se voltar e olhar pra gente. E então a gente saiu de detrás da porta e foi caminhando pra ele. Ele cruzou os braços, olhou bem pra gente, parecia que estava bravo. Mas logo ele se baixou, abriu os braços, chamou a gente.

    Então a gente foi correndo e logo tava os três abraçados. E a gente chorou. Papai chorou. E eu. E Lininha.

    Depois Papai se levantou, a gente no colo, e foi pra janela. Apontou pro cemitério, lá longe. Os eucaliptos na estrada subindo pro cemitério pareciam fantasmas, meio pretos, meio cinzentos, balançando-se no vento. A gente não tinha medo, tava quase gostoso. Um ventinho macio trazia pra gente um perfume quente de flor e mato molhado. E a gente olhou depois pra mangueira no quintal. Veio um vento forte e derrubou um monte de mangas. E ficou ventando e ficaram caindo mangas. Depois parou, ficou tudo parado. E a gente ficou pensando, a mangueira era a vida, as mangas que caíam era a gente quando morria.

    – Mas Mamãe foi devagarzinho, não foi bruto assim – Lininha falou. Mas nem não acabou bem e a gente viu cair outra manga e não tinha nenhum vento, foi suave, bem devagar. Então eu falei:

    – Mamãe foi assim.

    Depois a gente ficou ainda olhando pro cemitério, com uma dor grande, um peso bem pesado no coração. Pspt, bateu uma coisa na janela, a gente olhou, era uma rosa, bonita de vermelha, que se esfolhou todinha. Depois a gente olhou pra lua, ela tava coberta com muitas nuvens pretas, parecia que tinha um véu de viúva. Parecia que a gente via lágrimas caindo dela. Parecia que ela chorava com a gente a ausência de Mamãe. Não tinha nenhuma estrela no céu. Ligeiro a lua também sumiu. E então começou a chover. E a Lininha falou:

    – Tudo tá chorando com a gente.

    E tava mesmo. E então o Papai desceu a gente no chão, fechou a janela e começou outra vez a arrumar a Árvore. Pegou os enfeites, arrumou bem direitinho nos galhos, pendurou todas as bolas, as lampadazinhas, de toda cor, e voltou a se abraçar com a gente. Então a gente se levantou, bem seguros nos braços de Papai, e apagou a luz. E tudo afundou numa escuridão bem grande, tava tudo preto. E então a gente procurou o botão das luzes da Árvore de Natal, e acendeu tudo. Como tava bonito! E como tava triste ali sem a Mamãe!

    E então depois a gente sentou junto do pé da Árvore, e a gente ficou, os três bem juntinhos, velando a ausência de Mamãe. E tudo chorava com a gente. A chuva. Uma goteira cansada. Aquele passarinho piando, longe lá fora. E a Árvore sobre a gente era como se a Mamãe chegasse ali, ficasse com a gente, e falasse obrigado, gostasse da gente ficar ali.

    E a noite foi longe, e veio o dia, e a gente ficou ali, até dormir de cansado, os três bem quietinhos, bem juntinhos, velando a ausência de Mamãe.

  • Morrer de amor

    Uma noite dessas tive a boa ideia de assistir a apresentação de um coral onde uma amiga querida canta. O programa foi todo dedicado à Rita Lee e, de repente, durante a apresentação algo me tocou e foi a letra de “Saúde”. A parte que acendeu uma lâmpada, ou chama se preferir, é a seguinte: Se por acaso morrer do coração/É sinal que amei demais. Confesso que sorri.

    Por que sorriu? Lembrou dos amores passados?

    Sabe que não. Eu sorri porque ali naquele teatro escutando o coral cantar eu me dei conta que morro do coração por amor desde que era adolescente. Não é exagero, é verdade. Eu sei que é difícil acreditar porque usualmente eu projeto uma imagem séria e bem controlada, até porque a grande maioria das pessoas que convivem comigo atualmente são do campo profissional. Portanto, a gente até sorri mas é algo mais corporativo.

    Tá, sem viagem por favor. Continua porque estou tentando te entender.

    Às vezes nem eu consigo isso. Mas enfim ai me veio à cabeça a ideia que nas multidões anônimas que se esbarram todos os dias pelas ruas existem aqueles cujos corações pararam. As razões são as mais variadas, isto é, as dores de amor são múltiplas. Tem pela pessoa amada, a mais comum, mas tem por filhos, animais de estimação, carros, casas, relíquias e até por livros que se perderam. Tudo pode provocar paixão ao mesmo tempo em que tudo pode partir o coração.

    Verdade, concordo com você.

    Então, nas noites com ou sem lua se fosse possivel escutar a frequência dos uivos de quem padece por amor seria ensurdecedor. Cada um, com sua dor, uivando aos prantos. Mas uivo de amor tem uma frequência tão alta que nem os cães captam. Toda noite, tão certo quanto há estrelas no firmamento, tem a sinfonia dos desesperados que morrem de amor.

    Ai quanta dor ao luar!

    Mas nada é para sempre muito menos as mortes de amor. O que vem avassalador, vai embora suavemente, escorrendo para fora dos corpos. Memórias são criadas, decisões são tomadas. Uma vida recomeça sobre as partes, as vezes até escombros, da anterior. Vida surge onde antes havia… vida. E assim, sem que se dê conta, levantamos da fria cripta e saímos andando ao calor do sol.

    Sou uma dessas almas que ressuscitam. E antes que eu em esqueça, como chama o coral onde sua amiga canta?

    Gogós.

    Gostei.

  • De bichos exuviáveis

    O verão e as mulheres. Mestre Rubem Braga tratou longa e exaustivamente do assunto, mas quem seria capaz de esgotá-lo? Renova-se o verão e renovam-se as mulheres, sendo preciso que haja cronistas de fôlego novo para dar conta dessas explosões cíclicas. O que o Braga escreveu é definitivo, como definitivo era o que Camões registrava das navegações portuguesas – mas a época dos descobrimentos passou. Vivemos agora outro verão e nos cumpre assinalar, por dever de um ofício docemente autoimposto, o quadro que se nos depara. Com menos talento, certamente, mas não com menor empenho. E com o Braga em surdina.

    O verão e as mulheres. Para senti-los bem, é preciso imergir numa espécie de quarentena cívica e moral. Ficar de férias da vida ou, mais exatamente, de certa feição dela: a que envolve os ritos de sobriedade e rotina. Remeter-se a uma adolescência que se imaginava enterrada na vala dos compromissos roazes, voltando a existir antes de tudo em corpo. Pois o verão, sendo a mais poética das estações, vive primeiro da forma. É todo um aceno ao prazer. Daí, nele, a prevalência da cor e do tato, medidas de uma apreensão de vida basicamente sensual. O espírito se esvai, langue, e se funde com a carne. Reinstaura-se então a unidade. Na praia somos edênicos, sem pecado e sem culpa, agindo sob o império quase absoluto do sol.

    As mulheres no verão. Ei-las que saem de casa, sós ou aos bandos, como se atendessem a um chamado misterioso. O que as faz procurar a praia? Talvez a simples vaidade de esplender ao sol, afirmar com exuberância os atributos do sexo. Talvez o gosto íntimo, animal, de ativar humores, compensando a estase a que ficam submetidas no inverno e em nossa incipiente, parca primavera. Talvez a necessidade de se ensolarar e mudar de pele, como certos pássaros que precisam renovar periodicamente a plumagem.

    O verão é sensual mas não é pecaminoso; não se confunda viço com vício. Na praia as mulheres se desnudam com adequação. Pois tudo ali é explícito, não havendo o que o sol não ilumine, o mar não lave e o vento não leve. A nudez não tem a explicitude alardeada pelos filmes pornográficos, que embutem na mensagem uma intenção cafajeste. A musa da praia é a antiatriz dos filmes pornôs. Ali a nudez se amplia noutras nudezes, e a ênfase se desloca do indivíduo para o grupo. Fala-se em mulheres, no plural, e não numa certa mulher. Em desejo, abstratamente, não num objeto específico do desejo.

    O verão e as mulheres. Bichos exuviáveis, elas cambiam de pele num processo que percorre todas as gradações do dourado. Uma delas conheço que está na terceira muda e, falando francamente, penso que não deve prosseguir. Deve se recolher, moderar a febricitação interior. Sob pena de arruinar a tez, dando-lhe o aspecto fosco e dessecado que se encontra nas que perderam a medida do sol. Pois esse é o perigo no verão. O ideal seria colocá-la numa redoma térmica ou retirá-la da praia impreterivelmente às dez e quarenta e cinco da manhã – enquanto há tempo.

  • Falsa semelhança

    Eu estava numa loja de departamentos de um dos nossos shoppings, quando uma mulher se dirigiu a mim e fez a pergunta:

    — O senhor é de Jatobá?

    — Como?

    — De Jatobá?…

    — Não senhora.

    Ela riu sem graça:  

    — Pensei que fosse, pois se parece muito com Seu Edmundo da capotaria. Desculpe.

    Deu um suspiro e repetiu para si, perplexa:   

    — Se parece mesmo!

    Ainda pensei em lhe perguntar: “Em que sentido?” — pois há semelhanças e semelhanças. Umas são da fisionomia, outras da compleição, outras dizem respeito ao comportamento.

    Notei que ficou me olhando, desconfiada. Parecia não acreditar que eu não era quem ela queria que eu fosse. Antes de se afastar, ainda exclamou:

    — Puxa! 

    Vendo o seu desapontamento, tive um pouco de pena e até pensei em confirmar suas suspeitas. Não custava mentir para que ela se desse por satisfeita e me deixasse em paz. Há pessoas que não aceitam ser contrariadas nem nos seus enganos. 

    Enquanto eu esperava ser atendido pelo caixa preferencial (triste rótulo), notei que ela se detivera em frente a uma vitrine e furtivamente me observava. Imaginei com preocupação que poderia me abordar de novo.

    Chegada a minha vez, dirigi-me ao atendente sem olhar de lado. Ele me reteve mais tempo do que o necessário, propondo me passar o cartão da loja, que me daria cashback e outras pequenas vantagens. Até estimei essa conversa, que em outro momento me chatearia, pois enquanto me concentrava em recusar o assédio comercial eu me alheava dos olhares da mulher.

    Paguei e me preparei para deixar a loja. Vi que para chegar à porta passaria bem perto dela, que continuava me olhando. Tive receio de que mais uma vez me abordasse e, caso eu continuasse a negar o que me atribuía, me chamasse de mentiroso. Eu não estava com a Certidão de Nascimento nem com outro papel que revelasse o local onde nasci. Quanto à Identidade, ela poderia dizer que era falsa. 

    Antes de deixar a loja, dirigi-lhe um breve cumprimento; afinal, eu involuntariamente tinha frustrado duas de suas expectativas. Mal saí, ouvi atrás de mim uma voz chamar, num tom grave:

    — Edmundo!

    Virei-me, assustado, e o sujeito que falara isso pediu desculpas; confundira-me com alguém.  

    — Tudo bem — eu disse.

    Curiosamente, isso reforçou em mim a desagradável sensação de que um sujeito chamado Edmundo, e residente em Jatobá, se parecia muito comigo. Torço para que seja um homem correto e confeccione bem as suas capotas; que não dê calote nos clientes, não bata na mulher, não agrida os motoristas no trânsito, enfim, não faça nada que o leve a ser procurado pela polícia. A semelhança entre nós representaria para mim um risco.  

    Antes de seguir em frente, olhei meio sem querer para a mulher. Parece que ela não ouvira o pedido de desculpas, pois me fitava com um ar entre aliviado e triunfante. O ser humano procura em tudo um parceiro, um cúmplice, e ela parecia satisfeita por demonstrar que não fora a única a me confundir com outra pessoa.

  • O Ouriço

    Estou grudado no alto da porteira da mangueira das vacas. Lá embaixo o Duque late feito doido. Avança, negaceia, avança de novo – uma bruta valentia. É um ouriço acuado junto ao mourão da porteira. Ele rodopia, se eriça todo – coisinha indefesa, só tentando fugir do ataque. Mas de cada ataque o Duque é que foge, ganindo – um choro longo e fino de doer na gente.

    Estou tremendo inteirinho aqui escanchado na tábua de cima da porteira.

    O Duque não pode morder o ouriço; mas não desiste. Que dó que isso dá! Bicho besta, por que não vai embora? Aí, teimando e se machucando. Também, que mal que fez o coitado do ouriço, esse bichinho inocente. O quê? Inocente? Um monstro que caiu em cima do Duque, todo escalavrado.

    Um tiro de repente. E a voz do meu pai:

    – Menino, desce daí!

    E eu desço, fazer o quê?

    – Por aí não, pelo outro lado.

    – Por quê?

    – Desce logo.

    Eu sei que não tem espinhos no chão. Ele deve estar cismado; eu obedeço.

    – Vai lá dentro buscar um alicate. Corre.

    – Alicate?

    – Tem que ficar perguntando as coisas? Vai, vai duma vez.

    Eu obedeço. O Duque está lá encolhido num canto da cerca. Geme, geme baixinho.

    Meu pai sabe fazer as coisas direito, por que então não trata do Duque, fica pedindo alicate?

    – O que você quer?

    – O alicate, mãe.

    – Por que você quer alicate?

    – O pai que quer, mãe.

    – Põe no lugar depois, hein?

    – Sei.

    – E não revira esse baú.

    Pego o alicate, levo correndo. Na porta da cozinha escorrego, me esparramo no chão.

    – Cuidado! Sempre estabanado. Não precisa correr tanto.

    Levanto, saio mancando. Tinha que ir apressado. É que me lembrei do Duque.

    Meu pai está agachado. Está fazendo um carinho, consolando, passando a mão na barriga do Duque; com a outra mão segura firme no pescoço, agarrando a pele.

    Não fala nada.. Pega o alicate, segura mais forte, põe o joelho prendendo bem o Duque. Pacientemente, devagar, com mão sábia, depois num arrancão tira espinho por espinho.

    O Duque deixa, nem se mexe. Só chora, um chorinho desconsolado, lá do fundo. O focinho pingando sangue.

    Depois, some um tempo. Não muito; na hora da janta esta lá num canto da cozinha.

    Minha mãe põe a sopa de mandioca na mesa. Oba. Comemos com uma senhora satisfação. Mas logo meu pai se irrita, está olhando o Duque:

    – Bicho imprestável!

    – Ele não tem culpa, pai.

    – Por que é que não tem?

    Lá no seu cantinho, aqueles olhos de dor. A gente percebe, uma aflição bem de dentro.

    – E o ouriço, pai?

    – Que é que tem?

    – Que é que o senhor fez com ele?

    – Ara! Nada.

    Terminamos de comer sem vontade, a sopona fumegando numa gosto-sura.

    Não paro de olhar para o Duque:

    – Como que o ouriço faz isso?

    – Ara! Faz.

    – O espinho vai que nem flecha?

    – É.

    – E fura a carne?

    – Vai furando. Se não tira vai indo para dentro.

    – E agora?

    – Agora vamos fazer o quilo. Logo é hora de dormir.

    – E o Duque, pai?

    – Ele sara.

    – Ele não comeu nada.

    – Quando a fome apertar, ele come. Sossegue, isso passa.

    Meu pai acaba de enrolar um cigarro, vamos para a varanda. Ainda olho o Duque; ele abre os olhos, se bate de leve – uma tremura.

  • O amor, sem querer, acaba

    “Sim, o amor acaba”, assim, Paulo Mendes Campos começou uma das suas mais célebres crônicas. Iniciou com uma assertiva que, no íntimo, sabemos ser verdade; não obstante algumas tentativas de mistificação, como na frase tantas vezes escutada “se acabou, é porque não era de verdade”, nada mais falso do que isso. Até o mais autêntico, puro e intenso amor alcança o instante postimeiro. Expira tendo sido amor.

    Há, evidentemente, os casais que findam a vida sem darem adeus ao relacionamento (todos nós conhecemos exemplos desse tipo). Acontece, porém, que o ocaso do amor não deixou de ser possibilidade ali, apenas se chocou com outro termo, de essência mais fugaz do que aquilo que une duas almas.

    O desenlace pode ter um encontro marcado, alguns eventos são capazes de sublimar até o mais sólido dos sentimentos. Por vezes, vem de surpresa; quando ainda fazia planos e passava a noite com pensamentos enamorados, chega-lhe a conversa que não ansiava e nem previa. Em outros casos, termina o relacionamento e não termina o amor, nada pior, nada mais doloroso. O que era um se faz dois, e tudo chega ao fim. “De repente, não mais que de repente.”

    Todavia, nem sempre é tão de repente assim. Depois de anos, você se dá conta de que a companheira que vive ao seu lado se tornou apenas uma pessoa com quem se compartilha o mesmo teto e a mesma cama. Eros não habita mais aquela casa, como não habita mais o seu peito. Sumiu-se a amada, sumiu-se o amante, sumiu-se o amor, não se sabe quando e nem onde. Foi-se, “para recomeçar em todos os lugares e a qualquer hora”.

    Sim, o amor acaba. Entretanto, afirmar isso não é dizer tudo.

    O sujeito que ama não pode aceitar simplesmente o caráter perecedouro da sua relação, muito menos o da afeição que sente pulsar nas mãos que lhe afagam. É inconcebível.

    Enquanto amar, lutará internamente contra a dita lei. O amor alcança um epílogo, mas com o seu será diferente. Sabe que o que bate a um só tempo em dois corações é tão efêmero quanto a existência, fenecendo durante ou com ela; contudo, sempre desejará ir além.

    Entre suas convicções, pode estar a de que a flama cessa; inclusive, até tendo com si que existe a possibilidade de a sua chegar ao cabo em algum momento futuro e jamais sabido de antemão. Convicto da dimensão finita do amor genérico, não pensa no fim concreto do que vivencia e sente, apenas no perpétuo prolongamento dele.

    Para quem ama, ele é eterno e se manifesta como tal no tempo específico que lhe pertence. Possui uma temporalidade própria, só compreensível no coração dos que se deixam afetar pelo fogo de que fala Camões. Ademais, a eternidade se faz em cada átimo da duração do amor, todos os segundos estão impregnados dela.

    O amor acaba, no entanto, o sentimento amoroso pretende ser infindável na sua duração transitória. Todo amor almeja ser eterno em sua finitude.

    Paulo Mendes Campos acertou ao afirmar que o amor acaba. Mas a melhor tradução do sentimento amoroso partiu de Vinícius de Moraes:

    “Que não seja imortal, posto que é chama Mas que seja infinito enquanto dure.”

  • Fabulazinha

    O velhinho enfiou os pés na água fria, distendeu os dedos doídos, espreguiçando-os, e saiu um pouquinho de dentro de si mesmo. Foi até ali em frente, no meio do lago, onde um pato nadava.

    Era um velhinho muito velho, com uma barba compridíssima – a pontinha bulindo na água – e branquinha, da cor do pato que deslizava mansamente, mal se movendo.

    As grandes árvores copadas coavam a luz finíssima do sol, restiazinhas de bem-querer.

    O velhinho punha os olhos no pato, navegava com ele no manso lago azul – pensava um menino com roupinha de marinheiro, mas o lago era verde, não tinha céu azul refletido nas suas águas, tinha o verde das árvores, a sombra verde e fresca das árvores nas águas friíssimas.

    O velhinho se sorria do lago que era essa sombra verde e fresca. Sem perceber, se encantava – fazia parte do encanto da paisagem.

    O pato que vinha vindo, naturalmente, aproxima-se do velho, mais perto, pertinho.

    Chega, ergue o pescoço, com displicência, e mergulha. Nada de extraordinário, mas o velhinho fechou os olhos, e era como se o pato mergulhasse nos olhos do velhinho, compondo lá dentro o musgo da sombra, a dança dos feixezinhos de luz, a água calma e o próprio velhinho. O encantamento foi tão profundo que o velhinho não mais reabriu os olhos.

    “Que belezura, mamãe, aquela estátua!” – disse o menino com roupinha de marinheiro que precisava ter entrado na fabulazinha. E apontava o velhinho com a sua barba branquíssima e um pato nos joelhos – o velhinho pobríssimo que esquece a dor do mundo com um pato no coração, e sorri para sempre um sorriso beatífico.

  • Toxidade a conta-gotas

    Sair da vida de alguém é uma decisão unilateral. Não há consulta nem aviso prévio. Às vezes, se o processo é lento, a outra pessoa percebe. Às vezes, não.

    Os motivos para a ruptura na convivência podem ser vários. O mais comum é dar um basta em uma relação tóxica. Depois dos mais variados episódios, das pequenas descortesias até insultos de diferentes graduações, finalmente se toma a decisão. Para alguns ela vem logo, para outros muito além do tempo razoável.

    A toxidade tem seus graus. Ela é mais percebida nas situações extremas. Mas nos graus mais leves é igualmente nociva.

    Seu efeito contaminante não é imediato e arrasador. Ao contrário, é suave porque envenena pouco a pouco. Os bons momentos convivem lado a lado com as situações ruins, mascarando-as.

    Por isso é difícil de detectar que há uma intoxicação em andamento mas ela está lá. Dia a pós dia criando depósitos de substâncias nocivas dentro de nós. Minando nossa vontade, nos transformando em algo que não somos.

    O que viramos? Um pouco de tudo e menos de nós. O basta é o ponto de ruptura da relação e da existência daquela persona que permitimos que surgisse. Uma representação simplória do nosso “eu” que pode ser tudo menos “nós”. Nossa vasta complexidade de faces foram submergidas enquanto nadávamos no lago frio e parado dessa relação tóxica. Mais um pouco e nos afogamos.

    O “basta” traz à toa quem somos e andávamos esquecidos. Não à toa, a leveza se acomoda a partir do dia em que decidimos negar a outra pessoa nossa companhia, desatando as cordas
    gastas dos restos insistentes do afeto que estava moribundo.

    Cria-se distância entre os dois.

    Pela natureza desse tipo de relação tóxica, suave em seu cotidiano contaminante, o rompimento é semelhante. Não há rompantes, discursos, choros, recriminações ou gritos. As poucas palavras ditas são suaves e que pouco a pouco vão ficando desprovidas de calor. A antiga intimidade é coberta por camadas de superficialidade.

    Aos poucos, no sentido inverso do envenenamento, vai se criando a capa de proteção. O silêncio ocasional oculta as intenções, as palavras vagas mascaram os pensamentos e os clichês tomam o espaço onde antes habitou a originalidade. Pouco a pouco vão se tornando estranhos um ao outro.

    Ocasionalmente, é verdade, a antiga convivência volta a memória. A persona tóxica pensará na outra com saudade e se perguntará onde ela anda e o que faz. Quem se desintoxicou suspirará um instante sorrindo em homenagem aos momentos felizes mas afastará logo do pensamento a lembrança. Aquele cotidiano contaminado deixou avisos em sua memória.

    A lembrança daqueles tempos afastará seu olhar para longe. Lá, onde quero estar.

  • O tempo da praça

    Vários dos pedestres que percorrem aquela avenida, em meio ao tráfego acentuado e aos estabelecimentos comerciais, mal imaginam que, logo ali, há um espaço independente de toda essa atmosfera. Muito menos quem faz uso de automóveis; o vidro fechado isola o motorista, algo que ele próprio almeja, mas que obnubila sua relação com o mundo.

    Incrustrada nesse meio e em contraste com ele, tomando a forma de um enclave, encontra-se uma praça.

    Como uma ilha ou uma república autônoma, o funcionamento da praça é diferente do vivido no seu entorno. Neste, sobressai a azáfama, nenhum segundo pode ser perdido.

    Naquele, tranquilidade, remanso, reinando um sobretempo, no qual, as horas do relógio se prolongam desmedidamente ou nem sequer existem.

    A correria diária mingua as possibilidades de se dedicar um bom período a passear no recinto. Os horários, os compromissos, o ponto a bater, nada permite isso. Todavia, regular ou esporadicamente, diversas pessoas o visitam. Sujeitos que se fazem presentes no espaço e que fazem ele.

    Entre as personagens que compõem a paisagem diária do local – os que se exercitam no arco externo, mais sob efeito das buzinas do que dos cantos dos pássaros; os casais de jovens, a contrariar a opinião corrente de que não se namora mais em praça; os que recorrem à privacidade dos locais públicos, a fim de fugir da vigilância preconceituosa da sociedade e da casa –, a que mais me chama atenção é a do trabalhador que procura aquele lugar para aliviar o jugo do tempo que recai sobre seus ombros.

    Necessitando cortar caminho, alguns só atravessam o rossio. Porém, no seu interior, o tempo corre lento; assim, a marcha é desacelerada e a morosidade assume a direção. Por vezes, entre um trajeto e outro, até se deixam perder pelos caminhos e arvoredos, nem que seja por um átimo, até que a lembrança dos encargos ascenda subitamente.

    No horário do almoço ou após o expediente, aproveitam o curto período que possuem, sentam-se nos bancos da praça, permanecendo sem qualquer motivo ou ambição. Se há algum direito ao ócio na vida cotidiana daquelas pessoas, ele é exercido ali, durante o curto instante que possui ares de eternidade. Ficam apenas para estar, porque estando, são.

    O transcurso célere dos dias se encontra interditado naquela área. No trabalho e em casa, os ponteiros do relógio comandam a rotina. Naquela praça, não. Não existe hora, minuto ou segundo, somente um tempo suspenso, incapaz de ser medido. Desse modo, os “escravos martirizados do tempo” sentem afrouxar suas grilhetas por um instante, talvez, até sonhem em não mais as ter.

    Ao contrário do que afirmou o grande escritor Marques Rebelo, os pobres não ignoram as árvores e o “consolo que há no seu aconchego e na sua sombra.” Sabem estimar elas muito bem. Se não vão a sítios e a hotéis, onde os ricos passam os finais de semana, valem-se das praças nos breves ínterins disponíveis.

    As plantas, os pássaros, o silêncio, a sensação de quietude presente no local e internalizada em quem está nele, tudo parece contrastar com o ambiente externo e com a própria vida. Possivelmente, a atração por esse tipo de lugar se origine justamente disso, residindo na possibilidade de se embriagar por um momento e “não sentir o fardo terrível do tempo.”

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