Conto de Marcio Paschoal

  • Uma vida normal

    Valéria gosta de Cat Stevens e Johnny Rivers, de ir ao cinema e de bife mal passado pingando sangue. Escondida de todos, costuma colocar açúcar no chão e vai esmagando as formigas que apareciam, uma a uma. Também se diverte arrancando folhas das árvores, plantas dos vasos, cortando com tesoura rabo de lagartixas e atirando pedra nos pombos. Valéria parece ter um comportamento estranho.

    Uma de suas maiores alegrias é a infelicidade alheia. Gosta de apontar os defeitos físicos dos outros: Fulana tem o nariz enorme, aquela ali tem dentes tortos e a vizinha, o cabelo pixaim. Miseravelmente, Valéria é bonita.

    A irmã mais nova foi quem mais sofreu. Quando criança, Valéria cansou de passar o sabonete nos olhos dela quando tomavam banho juntas, fechar a água do chuveiro quando estava toda ensaboada e molhar a toalha da menina na privada. A caçula adorava Valéria e aguentava tudo calada. Já adulta, dizia ter aprendido a lidar com as agruras da vida graças à irmã. Valéria nunca compreendeu.

    Os namorados também padeciam. No primeiro beijo de língua, arrancou um pedaço da boca do rapaz. Adorava o gosto de sangue, de preferência, o alheio. Seu maior prazer era seduzi-los, permitir pequenas intimidades, deixá-los excitados e depois sair fora.

    Valéria tem aversão a pedintes na rua, que enfeiam e emporcalham a cidade. Já havia pegado esmolas de um mendigo e roubado a bengala de um cego no sinal. Por puro divertimento.

    No computador, cultua discussões virtuais. Especialista em discórdia nos grupos, quando surge uma polarização, critica os dois lados. Ninguém presta.

    Jamais colocou uma gota de álcool na boca nem experimentou drogas, é drasticamente contra. Adora ser contra. Ainda mais, de forma drástica.

    Quando casou, esforçou-se para transformar a vida do marido num inferno. Não foi difícil. Achava sempre um jeito de diminui-lo, ora dizendo que era acomodado no emprego, ora péssimo amante. Escolhia os amigos dele para arrastar as asas e insinuava que eram eles que davam em cima dela.

    O marido morreu cedo. Caiu de um precipício durante uma caminhada com ela numa trilha alternativa no pico da Tijuca. Uma fatalidade. Valéria chorou muito no enterro. Meses depois, comprou um pastor alemão – o Pancho – que dorme no quarto com ela, como dois namorados.

    Viúva, passou a frequentar bailes e clubes de salão. Adorava dançar, pagando pelos dançarinos de aluguel. No final, reclamava que fora pisada no pé algumas vezes e do perfume que usavam. Só para poder esculhambar com eles, torpes exploradores da carência feminina.

    Hoje mora sozinha, não tem amigos, ainda escuta Cat Stevens e Johnny Rivers e prefere Netflix a cinema. Ganha dinheiro vendendo vídeos de sadismo com animais, torturando coelhos, afogando pintinhos no balde, esmagando baratas com as mãos e pisoteando camundongos. Valéria permanece com um comportamento bem estranho, mas algumas pessoas acham normal.

  • Benedita em Buenos Aires

    Ela era toda estranha. Branca, rubicunda, judia, tinha nascido na Argentina e se chamava Benedita. Logo ao nascer seus pais desconfiaram: a recém-nascida não chorou, esboçou um leve sorriso.

    A bebê Benedita adorava o escuro. Qualquer facho de luz ou um abajur aceso era o bastante para ela não dormir. Sua mãe jurava que a filha dormia com um dos olhos abertos. Ora o direito, ora o esquerdo. Revezando.

    Benedita colecionava baratas, joaninhas e pequenos besouros numa caixa e morria de medo de bichos de pelúcia. Todos na família achavam esquisito a preferência da menina por verduras. Benedita não podia ver uma alface.

    Nunca foi de frequentar a sinagoga, preferia consultar o I Ching à Torá e dizia falar com espíritos, a quem chamava de amigos transparentes.

    Detestava televisão e era fã de filmes do cinema mudo. Quando podia, ia ao teatro, notadamente monólogos. Dizia ter a habilidade de penetrar na mente dos atores e mudar suas falas. Nada ficou provado.

    Estudou coreano e lia no original livros de Han Kang e Kim Un-su. Odiava futebol, mas tinha o costume de ir aos estádios para poder cantar com as torcidas. Seu time preferido era o Arsenal de Sarandi. Ninguém nunca soube o porquê.

    Tangos e milongas não lhe diziam nada, exceto “Adiós Nonino” de Piazzolla, que ela dizia lembrar o avô, falecido algumas horas depois de ela nascer.

    Benedita tinha simpatia pelas canções afro-americanas e ouvia Billie Holiday nem tanto pela voz e mais pela trajetória de vida da cantora. Seu beatle preferido era Ringo. Tinha também uma queda inexplicável por Pino Donaggio. Nas artes plásticas, se identificava mais com o barroco e tinha as paredes do quarto decoradas com pôsteres e reproduções de Diego Velázquez. Algumas vezes usava um laço azul na cabeça e brincos iguais aos da “Menina do Brinco de Pérola”, quadro de Johannes Vermeer. Benedita era mesmo parecida com ela.

    No verão usava meia-calça térmica e dispensava roupas de baixo. Adorava vento e andar de patinete. Pintava o cabelo louro de vermelho-sangue nas pontas, detestava sapatos e vivia de sandálias de dedo japonesas. Durante o inverno, pouco saía de casa, passando o tempo em frente à lareira, hipnotizada pelo fogo.

    Benedita não comia qualquer produto de origem animal e arrumava confusão com quem portasse roupas de couro.

    No amor, foi um desastre. Casou-se com um cidadão russo migrado para a Argentina desde o início da guerra na Ucrânia.  Falando línguas diferentes, pouco se comunicavam. Não tiveram filhos. O casamento durou pouco, ela ficou viúva quando ele se engasgou com um pedaço de moela de galinha e morreu asfixiado. Ainda pôde ouvir, em russo, as últimas palavras dele, possivelmente “socorro”.

    Benedita terminou seus dias num lar para idosos. No dia em que morreu, choveu granizo em Buenos Aires.

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