Crônicas

Íris

“Às vezes, Deus não muda o cenário. Ele muda você…”

Era domingo, chovia, e fazia aquela temperatura imprevisível de fim de inverno – “esse tempo bipolar..!”  (diria sua mãe). Com um guarda-chuva transparente sobre a cabeça, Íris leu a frase no muro da rua nove com a rua dois. Era a quarta cidade diferente, temporariamente sua, dentro de todo um ano. Um ano não exatamente de calendário; setembro ainda nem havia terminado. Era outra contagem. A de início e fim de ciclo de si mesma. Tinha a sensação de completar mais um aniversário dentro do mesmo período de rivoluzione del pianeta Terra. Revolução. Achava a palavra em italiano muito mais bonita do que a portuguesa translação. Aprendera com uma de suas pessoas-milho, um italiano de Rocchetta Nervina, cidade cujo nome composto sempre fazia Íris mover as mãos à moda italiana. Nunca dera um Google para saber onde ficava no mapa da bota. O nome bastava, era cenográfico, naturalmente. Parecia um vilarejo onde Deus, o mesmo da frase parcialmente sob a hera do muro da rua nove com a rua dois, tinha deixado o GPS sem sinal. Em Rocchetta Nervina, Íris tinha não um palpite, mas uma certeza particular: até a esperança, sentimento malandramente carioca, chegaria com dois dias de atraso.

Nada italiana, nem por relações ancestrais sanguíneas, Íris trabalhava com marketing. Era muito boa em encontrar frases impactantes para produtos, ideias, empresas, clientes que nem sempre sabiam muito bem o que queriam dizer. Era a voz que precisavam, sem precisar emprestar o tom da sua. Passava os dias convencendo marcas de que promessa alguma sobrevivia a uma experiência ruim e, fora do expediente, demonstrava talento impressionante para acreditar exatamente no contrário.

Vivia em mudança, era nômade havia exatos 365 dias. A empresa internacional para a qual trabalhava dera a ela um cargo de retirante premium no Brasil: cidade, projeto, mala, apartamento temporário, próxima cidade. Chamava tudo de mudança, nunca de viagem. Viagem pressupunha volta. E, sem volta, ficavam também suas relações, mesmo que pipocassem pessoas pelo caminho. Íris, pipocólatra assumida, sabia muito bem que pipocas não permanecem: estouram, fazem festa, aquecem o coração e, passado o entusiasmo, deixam pouquíssima sustância. Sua vida era uma panela inteira embebida em óleo, repleta de pessoas-milho que o acaso catava, aquecia e fazia estourar nesses movimentos migratórios sem fim aparente. Tinha as que viravam pipoca, aquelas outras que permaneciam milho e quase quebravam um dente. Ainda havia as mais perigosas que, por algum defeito de fabricação sentimental, Íris confundia com alimento para a vida inteira.

Numa segunda-feira, em uma padaria perto da casa da vez, pediu um chá de capim-limão. O quadradinho preso à linha dizia:

“Sorria sempre.”

Íris sorriu, mas por desprezo profissional.

— Preguiçoso, genérico, aprovado pelo cliente na primeira rodada — pensou.

Depois riu sozinha. Foi quando ele entrou.

Tinha alguma coisa de personagem que perdera o próprio século, um “quê” de um Botticelli que pegara o ônibus errado e, por orgulho, decidira seguir a pé até o século XXI. Vestia alguma coisa escura — dark, pensou Íris, sem saber por quê — e não era bonito segundo os termos e condições vigentes da beleza. Talvez um algoritmo passasse direto. Mas Íris não era máquina ou algoritmo.

Ele falou com a moça do caixa. Foi o raio da voz, que não era particularmente grave, nem cinematográfica. Era pior. Parecia conhecer o caminho. Não até ela — seria cedo demais para tamanha presunção —, mas até algum lugar interno seu que Íris ainda não sabia nomear. A tal voz fez surgir na memória uma velha canção italiana. Duas estrelas. A noite. O tempo. O tipo de canção que fazia parecer muito razoável supor que o universo tivesse interesse específico na vida amorosa de duas pessoas.

Excelente conceito”, pensou. Universo, desejo, eternidade. Público-alvo: qualquer pessoa emocionalmente vulnerável depois das oito da noite. Ainda sorria quando ele olhou para ela.

Ele não sorriu.

Mas os olhos castanhos sem íris sabiam olhar.

E Íris, que fazia profissão de interpretar mensagens e hobby de interpretá-las mal, considerou aquilo um sinal: ela se especializara em identificar uma promessa mal posicionada a quilômetros. A menos que viesse acompanhada de olhos como aqueles. Ou de uma fala qualquer, dita naquele tom de voz que parecia acertá-la diretamente na boca do estômago.

Era uma pancada.

Mas tinha um organismo surpreendentemente competente para transformar impactos: dali em diante, ouvidos, cérebro, coração e alvéolos pulmonares davam conta do recado. Sempre. E ainda trabalhavam em equipe na manhã seguinte, quando algum objeto doméstico surgia disposto a confirmar a tese da véspera.

Dessa vez, foi a caixa de leite vegetal. No topo: “Atenção: alto risco de se apaixonar.”

Íris parou.

Profissionalmente, reconheceu uma excelente chamada. Emocionalmente, já se contaminara. Paixão era mesmo aquilo: risco. Não um rabisco, mas vertigem. Queda, aceleração, uma espécie de irresponsabilidade temporária dos órgãos internos.

Não tinha, necessariamente, relação alguma com amor. Amor era outra campanha. E, suspeitava agora, exigia entrega. Sua, claro, mas não só. Também daqueles outros olhos que precisavam saber olhar de volta, mutuamente, e não só de forma profunda.

Na terça-feira, passou outra vez pela rua nove com a rua dois. A hera parecia ter avançado alguns centímetros sobre a frase de Deus.

Na quarta, uma folha caiu em seu ombro.

Na quinta, um pedaço pequeno de reboco acertou sua bolsa.

Na sexta, absolutamente nada aconteceu.

Íris achou isso suspeito.

Depois vieram outros dias. Mensagens nos pacotinhos de açúcar. Vozes de transeuntes. Promessas em sua própria cabeça. Silêncios.

Voltou à padaria, todos os dias. Testou ir em horários diferentes. Uma frase se movia dentro dela, ciclicamente, como ponteiros de um relógio analógico:

 “Espero que ele chegue. Espero. Ele chegará. Espero que ele chegue”.

Esperava, desconstruindo os anos de estudo, pelas coincidências. Esperava a mesma voz atravessar outra vez algum lugar e encontrar o caminho. Esperava como quem trabalhava numa campanha que já havia ultrapassado o orçamento, mas ainda jurava que a próxima peça resolveria tudo.

Até que procurou aquela velha canção italiana, leu a tradução pelo Google. A música era original de 1977. Sete e sete. Brincadeira antiga de azar, como costumava procurar a dupla de números em placas de carros, quando adolescente. Sem perceber, já de então treinava o universo para lhe responder alguma coisa. Olhando atenta para a letra completa da música, descobriu que sempre a havia entendido pela metade.

Falava de estrelas, sim. De duas. Falava de encontro, de sombra, de corpos refletidos nas ondas.

Mas, na meiuca das estrofes, sem qualquer constrangimento cósmico, despedia-se. Addio, ragazza, ciao. O “ciao” que brincava de cumprimentar com oi e com até loguinho. Ou “até nunca mais, ragazza”.

Íris encarou a tela.

— Era isso? Todo aquele céu para terminar em tchau?

Achou uma falta de responsabilidade afetiva astronômica mobilizar duas estrelas para dizer adeus. E depois dizem que italiano é romântico! Romantismo, que nada. Era uma língua educada pela ironia bem-feita. Pensou no italiano-milho de Rocchetta Nervina, percebeu que talvez algumas pessoas não mentissem, exatamente. Apenas interrompiam a música antes do verso que as denunciaria.

No domingo seguinte, voltou à esquina da rua nove com a rua dois.

A hera já cobria metade da frase. Lia-se somente “Deus”, “cenário”, “você”.

Passara semanas recolhendo mensagens em caixas de leite, sachês de açúcar, quadradinhos de chá, músicas italianas, olhos alheios e promessas mal-acabadas. Foi quando, no seu percurso diário pelas tais ruas numéricas, uma caixa caiu do alto e acertou sua cabeça.

Ah, ótimo. Agora até a botânica me agride.

Era um baralho. Íris olhou para a hera.

— Taróloga também?

Sentou-se na calçada e abriu a caixa.

Vieram primeiro seis de espadas | sete de espadas | sete de ouros.

6:Travessia; afastar-se de águas turbulentas 7: Estratégia, evasão, aquilo que talvez não tivesse sido dito inteiro.

E depois a pergunta inconveniente do 7: onde ainda valia a pena investir tempo, cuidado e energia?

Íris estreitou os olhos para a planta.

— Excelente diagnóstico. Péssima gestão de relacionamento com o cliente.

Olhou o fundo do baralho. Dois de copas.

2: Conexão, encontro, reciprocidade.

— Ah, claro. O amor sempre entra no briefing.

Puxou mais três: Seis de copas | cinco de espadas | dez de copas.

6: aquilo que romantizava. A memória doce, o passado ganhando iluminação melhor do que tivera enquanto acontecia.

5: os fatos. Um conflito em que continuar tentando vencer poderia significar sair perdendo de qualquer maneira.

10: para onde sua energia queria ir. Inteireza. Afeto compartilhado. Uma vida que não precisasse ser persuadida a acontecer.

Íris ficou em silêncio.

—  Um lindo abuso de marketing! – concluiu.

Ela, que se julgava racionalmente fora do público-alvo – sempre se julgava – era a profissional questionando a segmentação e a emocional compradora da campanha de marketing com o batendo forte.

Olhou para o muro, com a hermenêutica dentro de si. A hera não respondeu.

Na manhã seguinte, a caixa de leite vegetal ainda dizia:

“Atenção: alto risco de se apaixonar.”

Íris leu outra vez.

Sorriu. O risco nunca tinha sido esse. Apaixonar-se era apenas parte da revolução, seu movimento próprio de translação com o mundo.

O risco real era confundir órbita com espera. Guardou o leite na geladeira, pegou a bolsa e saiu.

Ao passar pela rua nove com a rua dois, não pediu sinal algum.

A hera, pela primeira vez, também ficou quieta.

Íris seguiu.

Ainda esperançosa. Só não pensava mais: espero que ele chegue. Mudou de padaria.

Tinha a próxima grande jogada de marketing na ponta da língua.

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Bia Mies

BIA MIES é carioca da Serra Fluminense, autointitula-se "do mundo" e reflete em sua escrita um olhar sensível sobre a vida do seu "entremeio": cada crônica torna-se uma interação entre o trivial e a reflexão poética, uma tapeçaria de influências e insights. Tece pontes entre arquitetura, urbanismo, artes visuais e cênicas, moda, leituras, cafés, viagens, família, amores, Zeca (seu fiel companheiro de quatro patas), amigos, Itália e "experiências dos usuários", área na qual atualmente se especializa. Cada percepção transforma-se em texto, numa busca exploratória de pensamentos e emoções, através de uma visão pessoal do cotidiano e do extraordinário. Celebra a beleza da imperfeição e convida o leitor a uma jornada introspectiva, onde cada palavra é cuidadosamente escolhida para ressoar e provocar. Como o sopro das vivências que se entrelaçam pelo seu caminho, Bia Mies homenageia quase duas décadas de exploração literária no Crônicas Cariocas.

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