
Sincronia
As mãos ágeis dão forma a mais uma encomenda. Tecem em lã o desejo de alguém, na velocidade do som. A mulher de um metro e meio, se tanto, observa os carros passando a vinte quilômetros por hora e a vizinha no tanque.
Conversam. Enredam dúvidas e certezas; criam histórias da vida alheia, sem nenhum pudor. Parecem amigas e são, até que deem as costas uma à outra.
O ruído do motor na tarde. As mulheres que chegam e saem. O molde sobre a mesa. A almofada de alfinetes…
A mulher grita com os filhos no quintal, abre a Manequim, faz sugestões…
Anota as medidas de mais uma freguesa, ouve histórias. Discreta, silencia. O breve olhar diz: “Criança não participa da conversa dos adultos.”
A mão na máquina, o pé no motor, a casa, os filhos. A vida sutilmente alinhavada.
Sangue de vísceras sob as unhas e a pele encardida pela fumaça transformam-na em objeto do medo pueril.
“Solteirona, feia, esquisita…”
Vende chouriço e morcela. Dona Zinha da morcela.
— Vou te dar pra D. Zinha! — amedrontam.
Contrariando, seu riso agudo é fácil. Ri, porque é feliz.
Ri, porque é bastante a vida que tem.
Feminina, enfeita a casa com cheiros doces, memórias afetivas, com alegria subversiva; com amor.
Briguenta, exigente, corajosa: mãe.
Sedutora, bonita: mulher.
Constrói a vida que deseja nos espaços que tem.
Espera, esperneia, discorda… Harmoniza.
Luta, porque é;
Luta, para ser.























