Ana Helena Reis no Crônicas Cariocas

  • A arte de pensar com as mãos ocupadas

    Desde pequena desenvolvi uma habilidade peculiar: só penso direito quando minhas mãos estão ocupadas. Dê-me um novelo de lã e duas agulhas e, pronto, minhas ideias começam a trabalhar — às vezes até antes de mim. Sempre achei que esse hábito era apenas um jeito de evitar a ociosidade manual, uma espécie de TOC artesanal. Até perceber que havia ali um mecanismo mais profundo, quase científico, embora absolutamente nada acadêmico.

    Foi observando uma laçada suspensa no ar que me dei conta: é justamente ali, naquele meio ponto indefinido, que minhas ideias se alinham. Enquanto o fio decide se vai para frente ou para trás, meus pensamentos aproveitam para fazer o mesmo. É o meu equivalente pessoal àquela tragada longa no cigarro que dizem “oxigenar o cérebro” — só que, no meu caso, o vício é lã mesmo.

    Em uma daquelas conspirações do destino que parecem escritas por roteiristas com senso de humor, me inscrevi em um curso de literatura na FFLCH chamado Entre tecer e narrar. Não precisei de mais nada: senti imediatamente que estava no lugar certo. Ali entendi que minha mania de tricotar enquanto penso não é simples mania — é método. E dos bons.

    Assim como um tecido precisa de ar entre os pontos para não virar uma manta rígida, a escrita precisa de silêncio. De pausas. Daquele branco estratégico que dá espaço para o sentido respirar. Sem esse espaço, o texto fica apertado, sufocado — tipo blusa de tricô que encolheu na máquina.

    Não é por acaso que “texto”, do latim textum, significa tecido. Cada escritor encontra seu jeito de abrir essas frestas de ar: uns caminham, outros meditam, outros procrastinam com categoria. Eu, fiel à minha natureza, entrelaço fios. Entre um ponto e outro, vou entrelaçando também sentimentos, ritmos, memórias e as divagações que, com alguma sorte, viram parágrafo.

    E tudo começou com uma frase do curso, tão certeira quanto agulha que espetou o dedo:

    “A tessitura pode ser uma imagem da criação verbal, porque o ar circula entre os fios como o silêncio entre as palavras.”

    Pois é. No fim das contas, descobri que não tricoto para passar o tempo.

    Tricoto para pensar.

    E penso melhor quando minhas mãos estão trabalhando — porque, talvez, essa seja mesmo a minha arte.

  • Token inválido

    O infarto foi fulminante.

    Quatro tentativas de reanimação.

    Nada.

    Resistiu bravamente até a última atualização.

    Merecia um fim digno.

    Logo ao chegar à recepção, um rapaz o atendeu, solícito.

    — Fique tranquilo: aqui, tudo tem solução.

    — O senhor deseja fazer a migração completa?

    Severo aceitou o pacote funerário.

    Os universitários iniciaram o ritual de reencarnação.

    Transplantada a memória.

    O outro, novo, reluzente, exibiu seu sorriso de maçã.

    Faltou a identidade.

    — Agora é só atualizar o login dos bancos.

    — Só?

    Severo entrou no aplicativo.

    Negado: Valide o token pelo Internet banking.

    Perfeito! Tentou acessar o site.

    Negado: Para iniciar o acesso valide pelo token no celular.

    Arrepiou…

    Tentou o atendimento no chat.

    Uma voz metálica de boas-vindas:

    — Estamos com muito tráfego no momento, o Sr. é o 12º na lista de espera, favor aguardar que logo mais vamos atendê-lo.

    O som aumenta para as promoções de intervalo, até que outra voz entra na linha.

    — Sou Larissa e vou prosseguir com seu atendimento. Conte em poucas palavras como podemos ajudá-lo.

    Voltou ao ponto de partida.

    — Troquei de celular. Preciso validar o token no site.

    Mas o site pede o token do celular.

    — Não entendi: Reformule sua pergunta.

    — Validar o token.

    Três pontinhos ondulantes, lá vem a resposta:

    — Para validar o token, é preciso fazer uma transferência inicial no app.

    — Obrigada pelo contato. Avalie sua satisfação com meu atendimento.

    Severo, resiliente, volta ao app.

    Acesso negado — token inválido. Necessário validar pelo Internet banking.

    Uma lágrima surgiu.

    O falecido nunca tinha duvidado que eu era eu.

  • Amém

    Por debaixo da porta, a convocação. Primeira chamada às 19h.

    Salão lotado, ordem do dia sobre as cadeiras.

    Quando viu “3º item — sorteio das vagas”, Severo percebeu que cometera um erro grave: não tinha jantado.

    Leitura da ata.
    — Amém.
    Leitura do orçamento.
    — Amém.
    Leitura da troca do capacho.
    — Amém.

    Sorteio das vagas. Aí o inferno começa.

    — Alguém tem algo a colocar antes do sorteio?

    A senhora do 1º andar logo se manifesta: — Temos que estabelecer as prioridades. Tenho um problema crônico de coluna.

    Severo arregalou: — e o Hip-Hop?

    — O senhor do 18º: esse motivo não justifica. Eu, por exemplo, tenho dificuldade para enxergar.

    Severo ri: — Hoje está enxergando bem…

    A moradora do 2º andar se levantou, exaltada: — Nada disso! Tenho três crianças pequenas que chegam cansadas.

    Severo ia contestar.
    Suspirou fundo.

    Severo olha o relógio.

    Pensa no sanduíche.

    Sente cheiro imaginário de pizza.

    O estômago votou a favor do sorteio.

    — Amigos, sorteio é sorteio e vale para todos.

    Aos gritos pula a encrenqueira de plantão: — Você diz isso porque aluga a sua vaga, assim é fácil!

    Motim a bordo.

    Síndico e administradora se entreolharam.
    — Batem na mesa.

    — Está decidido – usaremos um software de sorteio aleatório dos apartamentos e de suas vagas.

    O grupinho do fundo, deu um pulo: — Somos totalmente contra!

    — Não é confiável.

    Recomeça a discussão.

    Severo pega o celular: — Jantar já era. Melhor pedir um delivery.

    Demora só 40’…

    Finalmente, silêncio.

    O software sorteia.

    Prenderam a respiração.

    O síndico anuncia: — Parabéns.

    Nada mudou. As vagas permaneceram exatamente as mesmas.

    Amém!

    Cadê o entregador de pizza?

  • Quando duas palavras resolvem morar juntas

    “Sentipensante” — A primeira vez que li, acho que num texto relacionado à física quântica (o que só piorou a situação), achei que era um erro de digitação. Fiquei curiosa tentando decifrar o significado dessa estranha palavra, para mim meio parecida com CatDog (lembram do seriado?) ou de uma aberração ainda maior: o Feijoaçaí. Só de pensar, me embrulha o estômago.

    Corajosa que sou, fui em frente na leitura e descobri que “sentipensante” é uma palavra híbrida, dessas que misturam o frio da cabeça com o calor do peito, sem pedir licença para nenhuma das duas. Lindo isso, não? Fiquei íntima dela e agora, quando alguém questiona uma decisão minha que briga com a razão ou com a emoção, eu logo retruco: sou Sentipensante e coloco um ponto final.

    Logo imaginei que “Sentipensante” poderia ter vários amigos híbridos — quem sabe até formassem um grupinho nas redes sociais, daqueles discretos, mas cheios de opinião.

    Fui atrás e descobri a Escrevivência, boa para um papo longo de botequim. Lá nos sentamos, e ela me lembrou de que não existe escrita sem vivência — queijo com goiabada: um não existe sem o outro. O que estava eu fazendo, então, que não entrava a fundo na minha vida vivida para colocar no papel?

    Comecei, então, a rebobinar a meu passado, à procura daquele negativo nunca revelado que ficara na minha câmara escura, sem nunca participar do set da minha escrita.

    Mas aí a Experipensante, que observava o papo de outra mesa, se meteu: alto lá! Não se pensa antes para depois viver, pensa-se vivendo. Então corre lá viver isso tudo que brotou aqui. E eu, sem pedir licença — e talvez um pouco empolgada demais — inaugurei uma outra palavra: Expersentipensante. Até sorri da minha ousadia. Só faltava colocá-la em prática.

    Resumo da ópera: a língua inventa palavras porque a vida não cabe mais no dicionário. Aí surgem palavras híbridas que, como na vida, decidem morar juntas — mesmo que o dicionário torça o nariz.

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