Ana Helena Reis no Crônicas Cariocas

  • PVD

    Sonhei com um caderninho brochura.
    Capa marrom.
    Letras pretas em relevo na capa.
    P V D.
    Logo me vi de uniforme escolar, mordendo um pouco o lábio inferior.
    Estava perdida. Melhor nem ir ao catecismo.

    Se era PVD por que não decorei?
    Era essa a pergunta que a Madre superiora iria me fazer.

    Acordei rindo, apesar das gotinhas que brotaram na minha testa.
    Aí me veio a ideia: e se existisse um PVD para a vida adulta?

    Tipo:
    ✔ PVD. Se você emprestar um livro de que gosta muito: anote para quem..
    ✔ Não vá ao supermercado com fome.
    ✔ “Vou só dar uma olhadinha no celular” não leva cinco minutos.
    ✔ Se o sapato machucou na loja, não ficará confortável na festa.
    ✔ “Vamos marcar” não é um convite.
    ✔ Não responda e-mail com raiva. Muito menos WhatsApp.
    ✔ Quando alguém disser “é só atualizar”, faça backup.
    ✔ Se você guardou uma coisa “para uma ocasião especial”, talvez a ocasião especial seja hoje.
    ✔ Não deixe para dizer depois aquilo que importa.
    ✔ Não espere que o outro adivinhe.
    ✔ Algumas pessoas não vão mudar só porque você explicou melhor.
    ✔ Nem toda discussão precisa de vencedor. Algumas precisam apenas terminar.
    ✔ O tempo que você está esperando “sobrar” não sobra.
    ✔ Você não precisa ter a última palavra.
    ✔ E nunca diga: “Comigo isso não acontece”. PVD

    Fechei mentalmente meu novo caderninho.
    Capa marrom.
    Letras pretas em relevo.

    P V D.
    Para Você Decorar.

    Sorri.
    Setenta anos depois, finalmente entendi o problema.

    Eu sempre decorei.
    Só nunca obedeci.
  • Vai que…

    Severo olhou para a gaveta. Tentou desviar o olhar, mas viu a gaveta sacudir, tentando cuspir seu conteúdo.

    Piscou três vezes, tipo superstição das três ondinhas da sorte na passagem do ano. Mas o recado estava dado – de hoje não passaria a tarefa que vinha procrastinando – enfrentar os cabos.

    Imbuído do seu melhor espírito esportivo, arregaçou as mangas.

    Colocou uma lixeira ao lado da gaveta.

    (otimista.)

    Puxou o trinco.

    Ela, desacostumada a se expor dessa maneira, relutou – depois de uns minutos de embate capitulou.

    Soltou um guincho e, com um tranco digno de um carro velho, cuspiu dois cabos USB embolados.

    — Cabos USB, conectava o que, mesmo?

    — Na dúvida, melhor guardar.

    — Vai que volta

    Embaixo deles encontrou o Blackberry.

    Sorriu.

    — Esse nunca me pediu atualização.

    — Vai que o teclado QWERTY volta…

    — Melhor guardar.

    Mais para o fundo encontrou um cadeado de mala.

    Sem chave.

    — Onde será que anotei o segredo?

    — Vai que está naquele papelzinho de senhas

    — Melhor guardar

    Do lado esquerdo, ocupando um grande espaço da gaveta estavam três adaptadores. Saída de dois buracos redondos e um reto – inútil!

    — Será?

    — Vai que resolvem mudar o padrão de novo.

    — Melhor guardar.

    Lá no fundinho achou uma bateria 9v.

    Vazando.

    — Quem jogou aí?

    — Vai que mela a gaveta.

    Não teve recurso.

    Foi para a lixeira.

    Depois de reorganizar tudo…

    Tenta fechar a gaveta.

    Ela mal fecha.

    Empurrou.

    Empurrou de novo.

    Toc.

    Fechou.

    Severo sorriu.

    A gaveta também.

  • Rebeldias do mundo

    Já repararam como o cotidiano doméstico muitas vezes conspira contra?

    Já mudei várias vezes de casa, cozinhas planejadas diferentes, mas não adianta: a água da torneira que espirra na pia sempre corre para o canto oposto do ralo. A gente tenta educá-la com aquele rodinho, mas ela faz ouvidos de mercador.

    E quando abrimos a gaveta onde guardamos fios de celular, fones de ouvido, tudo separadinho? Eles se embolam sozinhos, como se tivessem vida íntima.

    Isso sem falar na meia que desaparece na máquina e reaparece meses depois, sem par e sem explicações — como quem não deve satisfação a ninguém.

    Agora, o que realmente me tira do sério é a fila do lado andar mais rápido. Seja no supermercado ou no pedágio. Quando decido trocar, a antiga, vingativa, flui imediatamente, e eu fico lá atrás, acompanhada apenas do remorso.

    Tento entender a lógica dessas rebeldias do mundo e começo a desconfiar de que não sejam falhas. Talvez sejam combinados secretos entre as coisas, uma forma discreta de me fazer companhia.

    Penso nisso quando saio pela esquerda em vez da direita, quando chego para embarcar no voo das oito da manhã com passagem para as oito da noite, ou quando chamo a namorada atual do amigo pelo nome da anterior.

    No fundo, gosto de acreditar que as coisas erram por solidariedade. Um gesto silencioso para quem, como eu, também falha, esquece, tropeça — e tenta de novo.

  • A arte de pensar com as mãos ocupadas

    Desde pequena desenvolvi uma habilidade peculiar: só penso direito quando minhas mãos estão ocupadas. Dê-me um novelo de lã e duas agulhas e, pronto, minhas ideias começam a trabalhar — às vezes até antes de mim. Sempre achei que esse hábito era apenas um jeito de evitar a ociosidade manual, uma espécie de TOC artesanal. Até perceber que havia ali um mecanismo mais profundo, quase científico, embora absolutamente nada acadêmico.

    Foi observando uma laçada suspensa no ar que me dei conta: é justamente ali, naquele meio ponto indefinido, que minhas ideias se alinham. Enquanto o fio decide se vai para frente ou para trás, meus pensamentos aproveitam para fazer o mesmo. É o meu equivalente pessoal àquela tragada longa no cigarro que dizem “oxigenar o cérebro” — só que, no meu caso, o vício é lã mesmo.

    Em uma daquelas conspirações do destino que parecem escritas por roteiristas com senso de humor, me inscrevi em um curso de literatura na FFLCH chamado Entre tecer e narrar. Não precisei de mais nada: senti imediatamente que estava no lugar certo. Ali entendi que minha mania de tricotar enquanto penso não é simples mania — é método. E dos bons.

    Assim como um tecido precisa de ar entre os pontos para não virar uma manta rígida, a escrita precisa de silêncio. De pausas. Daquele branco estratégico que dá espaço para o sentido respirar. Sem esse espaço, o texto fica apertado, sufocado — tipo blusa de tricô que encolheu na máquina.

    Não é por acaso que “texto”, do latim textum, significa tecido. Cada escritor encontra seu jeito de abrir essas frestas de ar: uns caminham, outros meditam, outros procrastinam com categoria. Eu, fiel à minha natureza, entrelaço fios. Entre um ponto e outro, vou entrelaçando também sentimentos, ritmos, memórias e as divagações que, com alguma sorte, viram parágrafo.

    E tudo começou com uma frase do curso, tão certeira quanto agulha que espetou o dedo:

    “A tessitura pode ser uma imagem da criação verbal, porque o ar circula entre os fios como o silêncio entre as palavras.”

    Pois é. No fim das contas, descobri que não tricoto para passar o tempo.

    Tricoto para pensar.

    E penso melhor quando minhas mãos estão trabalhando — porque, talvez, essa seja mesmo a minha arte.

  • Token inválido

    O infarto foi fulminante.

    Quatro tentativas de reanimação.

    Nada.

    Resistiu bravamente até a última atualização.

    Merecia um fim digno.

    Logo ao chegar à recepção, um rapaz o atendeu, solícito.

    — Fique tranquilo: aqui, tudo tem solução.

    — O senhor deseja fazer a migração completa?

    Severo aceitou o pacote funerário.

    Os universitários iniciaram o ritual de reencarnação.

    Transplantada a memória.

    O outro, novo, reluzente, exibiu seu sorriso de maçã.

    Faltou a identidade.

    — Agora é só atualizar o login dos bancos.

    — Só?

    Severo entrou no aplicativo.

    Negado: Valide o token pelo Internet banking.

    Perfeito! Tentou acessar o site.

    Negado: Para iniciar o acesso valide pelo token no celular.

    Arrepiou…

    Tentou o atendimento no chat.

    Uma voz metálica de boas-vindas:

    — Estamos com muito tráfego no momento, o Sr. é o 12º na lista de espera, favor aguardar que logo mais vamos atendê-lo.

    O som aumenta para as promoções de intervalo, até que outra voz entra na linha.

    — Sou Larissa e vou prosseguir com seu atendimento. Conte em poucas palavras como podemos ajudá-lo.

    Voltou ao ponto de partida.

    — Troquei de celular. Preciso validar o token no site.

    Mas o site pede o token do celular.

    — Não entendi: Reformule sua pergunta.

    — Validar o token.

    Três pontinhos ondulantes, lá vem a resposta:

    — Para validar o token, é preciso fazer uma transferência inicial no app.

    — Obrigada pelo contato. Avalie sua satisfação com meu atendimento.

    Severo, resiliente, volta ao app.

    Acesso negado — token inválido. Necessário validar pelo Internet banking.

    Uma lágrima surgiu.

    O falecido nunca tinha duvidado que eu era eu.

  • Amém

    Por debaixo da porta, a convocação. Primeira chamada às 19h.

    Salão lotado, ordem do dia sobre as cadeiras.

    Quando viu “3º item — sorteio das vagas”, Severo percebeu que cometera um erro grave: não tinha jantado.

    Leitura da ata.
    — Amém.
    Leitura do orçamento.
    — Amém.
    Leitura da troca do capacho.
    — Amém.

    …

    Sorteio das vagas. Aí o inferno começa.

    — Alguém tem algo a colocar antes do sorteio?

    A senhora do 1º andar logo se manifesta: — Temos que estabelecer as prioridades. Tenho um problema crônico de coluna.

    Severo arregalou: — e o Hip-Hop?

    — O senhor do 18º: esse motivo não justifica. Eu, por exemplo, tenho dificuldade para enxergar.

    Severo ri: — Hoje está enxergando bem…

    A moradora do 2º andar se levantou, exaltada: — Nada disso! Tenho três crianças pequenas que chegam cansadas.

    Severo ia contestar.
    Suspirou fundo.

    Severo olha o relógio.

    Pensa no sanduíche.

    Sente cheiro imaginário de pizza.

    O estômago votou a favor do sorteio.

    — Amigos, sorteio é sorteio e vale para todos.

    Aos gritos pula a encrenqueira de plantão: — Você diz isso porque aluga a sua vaga, assim é fácil!

    Motim a bordo.

    Síndico e administradora se entreolharam.
    — Batem na mesa.

    — Está decidido – usaremos um software de sorteio aleatório dos apartamentos e de suas vagas.

    O grupinho do fundo, deu um pulo: — Somos totalmente contra!

    — Não é confiável.

    Recomeça a discussão.

    Severo pega o celular: — Jantar já era. Melhor pedir um delivery.

    Demora só 40’…

    Finalmente, silêncio.

    O software sorteia.

    Prenderam a respiração.

    O síndico anuncia: — Parabéns.

    Nada mudou. As vagas permaneceram exatamente as mesmas.

    Amém!

    Cadê o entregador de pizza?

  • Quando duas palavras resolvem morar juntas

    “Sentipensante” — A primeira vez que li, acho que num texto relacionado à física quântica (o que só piorou a situação), achei que era um erro de digitação. Fiquei curiosa tentando decifrar o significado dessa estranha palavra, para mim meio parecida com CatDog (lembram do seriado?) ou de uma aberração ainda maior: o Feijoaçaí. Só de pensar, me embrulha o estômago.

    Corajosa que sou, fui em frente na leitura e descobri que “sentipensante” é uma palavra híbrida, dessas que misturam o frio da cabeça com o calor do peito, sem pedir licença para nenhuma das duas. Lindo isso, não? Fiquei íntima dela e agora, quando alguém questiona uma decisão minha que briga com a razão ou com a emoção, eu logo retruco: sou Sentipensante e coloco um ponto final.

    Logo imaginei que “Sentipensante” poderia ter vários amigos híbridos — quem sabe até formassem um grupinho nas redes sociais, daqueles discretos, mas cheios de opinião.

    Fui atrás e descobri a Escrevivência, boa para um papo longo de botequim. Lá nos sentamos, e ela me lembrou de que não existe escrita sem vivência — queijo com goiabada: um não existe sem o outro. O que estava eu fazendo, então, que não entrava a fundo na minha vida vivida para colocar no papel?

    Comecei, então, a rebobinar a meu passado, à procura daquele negativo nunca revelado que ficara na minha câmara escura, sem nunca participar do set da minha escrita.

    Mas aí a Experipensante, que observava o papo de outra mesa, se meteu: alto lá! Não se pensa antes para depois viver, pensa-se vivendo. Então corre lá viver isso tudo que brotou aqui. E eu, sem pedir licença — e talvez um pouco empolgada demais — inaugurei uma outra palavra: Expersentipensante. Até sorri da minha ousadia. Só faltava colocá-la em prática.

    Resumo da ópera: a língua inventa palavras porque a vida não cabe mais no dicionário. Aí surgem palavras híbridas que, como na vida, decidem morar juntas — mesmo que o dicionário torça o nariz.

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