Crônicas

MUSICALIDADES

Nascera com o dom para a música. Precoce, Marília, com quatro anos já se aproximava do piano, como um beija-flor às flores. Uma profunda atração que deixava a todos impressionados. Com seus dois polegares tirava das teclas um som inédito. Futuras canções. A família, claro, providenciou uma professora.

Aos seis, já arriscava o começo de algumas canções. Mas era mesmo no “cai cai, balão” que se realizava. Também esboçava, com o indicador, um “parabéns pra você” quase sem erros.

Completava oito anos e a professora concluía que sua aluna não apresentava progressos. A bem dizer, quase uma nulidade. Não fosse a necessidade de ganhar uns trocados com as aulas, tinha comunicado à família que a pequena Marília talvez estivesse longe de ser um prodígio. Evitou dizer que havia grandes chances do contrário.

Ainda assim, a professora admirava a sua tenacidade. A menina nunca desistia e não se cansava de ficar tentando acertar as notas e compassos. Sua mão direita era mais precisa que a esquerda. Ambas, ao mesmo tempo, é que causavam o entrave. Parecia não possuir a mínima coordenação.

Aos doze, mudou de professora. A família achou por bem a troca, um novo professor, austríaco naturalizado, vindo de uma tradicional escola de música em Viena. O instrutor ideal para Marília se desenvolver.

No começo, ainda mostrou melhoras, improvisando até uma pequena composição. Com o passar das aulas, no entanto, ficava clara sua inaptidão.

O tal professor austríaco não resistiu muito tempo, decidindo abandoná-la, sem coragem de informar à família e à própria aluna que dali não sairia nenhuma pianista.

Agora autodidata, Marília ainda impressionava por sua disciplina e força de vontade. Verdade que a família não mais disfarçava e se afastava a cada nova audição ou série de exercícios. Começavam as desconfianças.

Os primeiros conselhos para que trocasse o piano por um outro instrumento, talvez um violão ou um acordeom, não a convenceram.

Até que capitulou: desistiria do piano, mas nunca da música. Tinham ouvido falar muito bem da flauta doce…

Foram, então, meses de inúteis e perdidos solos de flauta. Depois vieram as tentativas de gaita de fole, pianola, baixo elétrico, harmônica e percussão. A família acompanhava tudo, apreensiva.

Aos dezoito, enfim, uma possível habilidade: a bateria. Porém, sua famosa dificuldade de coordenação dificultava a cadência.

Alguns anos e ela também abriria mão da bateria, embora jamais passasse por sua cabeça abandonar a música. Esta, genuína vocação, fazia parte de sua alma, desde pequena.

Tentaria o batuque na caixa de fósforos. Marília era boa nisso…

Márcio Paschoal

Marcio Paschoal nasceu no Rio de Janeiro, onde também se formou em Economia. Escritor e redator de longa estrada, construiu uma obra diversa, com mais de dez livros publicados entre romances, crônicas, ensaios e literatura infantil. Trabalhou na Fundação Getúlio Vargas, no Cederj (Centro de Ensino Universitário a Distância), e colaborou com o Jornal do Brasil, escrevendo sobre música e literatura. Entre seus romances estão Sofá branco — menção honrosa no Prêmio Graciliano Ramos e pré-selecionado para o Prêmio Nestlé de Literatura —, além de Odara e Os atalhos de Samanta. No campo do humor, publicou Cada louco com sua mania, ilustrado por Jaguar, e o Horóscopo sexual para praticantes. Também é autor de A morte tem final feliz e do livro de crônicas A maconha está bêbada. Na literatura infantil, escreveu O livro maluco e a caneta sem tinta. É ainda autor das biografias do compositor maranhense João do Vale, da atriz e travesti Rogéria e do romance biográfico João Antônio e os Bee Gees.

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