A chuva no asfalto
leva papéis/cigarros
e o vômito de ontem.
Amanhã novos resíduos
virão para preencher
o vazio do meio-fio.
Areia (À Fragmentação da Pedra)
MIlton Rezende
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Poema #78: Chuva Noturna
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Poema #77: A Aranha e o Sonho
Havia uma aranha lá fora
que tecia sua rede
a despeito da chuva
e do desânimo dos homens.Era uma aranha
que tecia a sua rede fora do mundo,
e eu miseravelmente preso a ele
perdia-me em conjeturas sobre o amor
e sobre um livro que acabara de ler.O Acaso das Manhãs
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Poema #75: 459 A
Abandono total
numa casa de 29 m²
com vista de fundo
para um bambuzal.
O piso era claro
antes de eu pisá-lo,
mas depois a vida
converteu-se em
desordem e acordei
deitado de costas
num corredor
do lado de fora,
com a chave na mão
esquerda coberta de
sangue e a fúria cega
de quem não se lembra
de nada.Uma Escada que Deságua no Silêncio
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Poema #73: Valpurgis
A inquietação daquela noite
levou-me ao extremo de deixar a cama
em pleno delírio da febre sem causa
que me acometia desde há muito.Nunca em meus transportes noturnos,
que eram então muito frequentes,
eu havia experimentado essa ânsia de fuga
que só se compara à de uma suicida na ponte.Corri como que alucinado fantasma
até o porão da casa onde a umidade
havia impregnado as paredes de morte,
e peguei no baú o espelho quebrado.A chuva era intensa e os relâmpagos
cortavam a estrada barrenta ao norte,
para a qual fui levado rumo ao destino
que o maldito espelho me reservara.O cemitério estava deserto e escuro
mas havia um rumor quase que imperceptível
entre as catacumbas, abertas na véspera
para o desfecho insólito da profecia.Então eu pude sentir os murmúrios
daqueles espectros putrefeitos pelo tempo,
cujos aspectos de decomposição física
acentuaram em mim a antiga náusea do futuro.Ali, em meio à tempestade de abril,
o espelho quebrado que eu encontrara
junto aos aposentos da velha inquilina,
emitiu em reverberações estranhas e malignas
um brilho intenso que me cegou os olhos.Agora sinto que a velha desfigurada se aproxima
e toca meu rosto com suas mãos de morte vazia.
Como num passe de hipnotismo ou subtração de raciocínio
sou conduzido para o rito anual de bruxaria.O Acaso das Manhãs
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Poema #71: Tratado de Anatomia
A anatomia dos carros na rua
revela a um homem que os vê
(entre outras coisas)
uma força neutra a interferir
e modificar a paisagem desolada
de quem anteriormente os criou.A anatomia das mulheres
(independente dos lugares
em que se encontram) remete-nos
a uma forma viva de organização planejada
onde a beleza é fruto dela mesma, transfigurada.A anatomia do pensamento de quem
(por exemplo escreve este poema)
nada mais é do que uma consequência imaterial
de causa e efeito entre o sentir de maneira sensível
diferentes realidades projetadas na sombra
do poste de observação.
O Acaso das Manhãs -
Poema #70: Trágica & Cômico
A cada dia vai-se diminuindo
o meu espaço vital.
Isto porque quando comecei a sentir-me
parte integrante do mundo
eu já havia sido expulso do mundo.
Toda uma vida
todo um aprendizado
adquirido na sombra e no silêncio de indivíduo
é tão somente de conhecimento meu próprio.
Só eu sei dos mecanismos mentais
que implicam em cada gesto
em cada palavra
que ensaiando digo às paredes
que ainda não foram construídas.
Encenei para mim mesmo uma tragicomédia
na qual sou o único personagem,
e o teatro em que represento
não é frequentado pelos homens
e está prestes a se desabar sobre.O Acaso das Manhãs
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Poema #69: Tatuagem
O corpo utilizado
para a afirmação
de uma individualidade,
de resto inexistente.A individualidade,
como um fantasma abstrato,
esconde-se por detrás
da porosa pele.A tatuagem utilizada
para a identificação
dos corpos, vítimas
do desastre aéreo.Um Andarilho Dentro de Casa
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Poema #68: Sobrevivência no quarto
I
Tenho comigo
milhões de cadáveres
que apodrecem seus ossos
já destituídos do ímpeto
que movimenta os homens vivos
para a conquista de algo.II
Tenho comigo
a inércia do corpo
que aniquila o meu sonho
já despojado da vida
que antes impedia o plano
de me alimentar desses ossos.III
O que sou hoje é esta certeza
de não ser senão em mim.
O que sou hoje é este impulso
em preservar o que já está desfeito.
O que sou hoje é esta incapacidade
de desempenhar papel no mundo.
O que sou hoje é esta vontade
de antecipar meu próprio fim.IV
Trago comigo
as sombras e o peso dos erros
acumulados nos anos de solidão
em que tentei construir algo
que estava fora de meu alcance precário
e mesmo que se acaso construído em silêncio
não teria nenhum valor para os homens.V
Trago comigo
a síntese de um desprezo lógico
por essa espécie miserável de animais
que se arrasta numa fixidez sem sentido
pensando que com suas obras erigidas no espaço
poderão significar alguma coisa humana no tempo.O Acaso das Manhãs
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SITUAÇÃO
Alguma coisa se move e não é pouca. Contudo não sabemos definir exatamente sua natureza e extensão. Não obstante algo acontece e estamos inseridos, como blocos de nuvens a caminho do abismo. Somos protagonistas meio tontos no mundo e não sabemos ao certo o seu desfecho. E se vivemos de uma forma obscura é porque é assim que sempre acontece nas cavernas em tempos sombrios. Nossa percepção das coisas anda meio embaçada, mas são as teias dos nossos olhos que as fazem assim. Um dia poderemos ser nós mesmos, ainda que dormindo.
Inventário de Sombras
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Poema #67: Saldo
De cotidianos resíduos
arrancados na solidão de prisioneiro
em que todo o meu ser se devora,
tento compor uma imagem humana
que me faça aceitável a mim mesmo.No silêncio da morte aparente
na qual me recolho ao túmulo previsto
não sei com que ânsia mórbida de calma,
procuro juntar os cacos de culpa diária
que reunidos formam um apelo ao suicídio.E não é só o remorso das manhãs doentias
pelo que na noite se desfez em delírios
de humana fraqueza cansada de si mesma,
é todo um saldo de perdas que tenho que fazer
e lançar no cômputo geral das misérias minhas.De cotidianos resíduos
recolhidos no isolamento mental de indivíduo
em que todo o meu ser se liberta,
tento compor uma imagem poética
que se faça de ideias e despreze a vida.O Acaso das Manhãs
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Poema #65: Rio Grande
O Rio Grande não é apenas
grande, ele é também
referencial de um sonho
(ponte de água clara
interligando abismos).
Dreno com meus olhos líquidos
a sua enseada como quem não
drena nada, exceto a visão da água.E como a viagem não permite
que se fique sempre às margens
do Rio Grande, instalo uma sonda
em suas águas e a outra ponta da
sonda eu a trago encravada na alma.Inventário de Sombras
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Poema #63: Reivindicações
Eu sei que eu mereço
(embora talvez eu não venha a
ter) o meu nome num nome de rua.Eu sei que eu mereço
uma estátua de bronze
na praça de Ervália.Eu sei que eu mereço
denominar a Casa da
Cultura como o poeta que sou.Eu sei que eu mereço
casar com uma mulher
negra, que é o meu sonho
de consumo.Eu sei que eu mereço
ter um aumento de salário
para poder sobreviver.Eu sei que eu mereço
ganhar um prêmio literário
para pagar as dívidas.Eu sei que eu mereço
pescar um peixe grande
nas águas do tanque.Eu sei que eu mereço
nadar como quem voa
pelos céus de outro país.Eu sei que eu mereço
cavalgar uma égua
enfiando o dedo no seu cu,
para ela andar depressa.Eu sei que eu mereço
empinar uma pipa gigante
que nunca será alcançada.Eu sei que eu mereço
formar uma banda de rock
e fazer muito sucesso.Eu sei que eu mereço
ser aclamado e lido como
nunca antes na história
deste país.Eu sei que eu mereço
receber uma homenagem
de adeus e logo ser esquecido.Eu sei que eu mereço
uma catacumba digna
para descansar os meus ossos.Eu sei que eu mereço
tudo isso, mas desconfio
que não terei nada.O Jardim Simultâneo
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Poema #62: Pra encerrar e recomeçando
mandei uma mensagem
acabando com tudo
que não havia. tranquei
o portão de entrada para
que nada entrasse além da
minha covardia. joguei
a toalha como quem se
despede da vida e talvez
não devesse ainda: era cedo e
tarde demais ao mesmo tempo.
fiquei com o meu corpo deitado
no chão da cozinha doendo sem
alma e sendo apenas, nada mais
e nada menos, que um obstáculo
ao percurso das formigas.O Jardim Simultâneo
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Poema #61: Portal da Dor
Cap. I – Da Doença
Compressas frias, banhos mornos, cataplasmas sinapizadas, injeções intravenosas de electrargol, injeções hipodérmicas de óleo canforado, de cafeína, de esparteína, lavagens intestinais, laxativos e grande quantidade de poções e outros remédios internos.
Cap. II – Da Morte
Urna lisa, forrada com babado, envernizada, seis alças, com visor, véu, velas, encaminhamento da certidão de óbito, flores para ornamentação interna, livro de presença, paramentos religiosos, cinco anúncios na rádio local, translado de até 70 km e locomoção até a morada final.
A Sentinela em Fuga e Outras Ausências
Agradecimentos ao Augusto dos Anjos, à D. Ester Fialho e ao Pax Ervália que funciona em frente ao necrotério.
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Poema #58: Passagem das horas
Fica de nós este resíduo
do que ainda não fomos.
Este abismo a se superar
e uma certa disponibilidade.
Fica esta in/compreensão mútua
e a dificuldade em se comunicar.Fica de nós este fragmento
do que ainda podemos ser.
Este relacionamento a se elaborar
e uma parcela de interesse recíproco.
Fica esta identificação de caráter simultâneo
e o desejo de que tudo não se perca.Fica de nós este sentimento reticente
ainda não de todo vivido/compartilhado.
este completo des/conhecimento do outro
e uma necessidade de maior diálogo.
Fica esta in/definição de objetivos comuns
e o sentido da procura.Fica de nós este silêncio inédito
devido ao medo em acreditar.
Esta complexa/frágil vontade
de querer sobrepor-nos negando a intuição.
Fica este receio de se expor e viver o espontâneo
e o que isto nos tem custado.Fica de nós esta intransigência
e a falta de coragem para admitir.
Este impulso em dizer coisas secretas
e a sensação de ferir dizendo.
Fica esta recusa em se confessar
em defesa de uma estúpida integridade.Fica de nós esta passividade
e o distanciamento decorrente dela.
Este eterno ficar na espera sonhando
e o recolhimento implícito que nega.
Fica este gostar que desconhece convenções
e o raciocínio estragando tudo.
O Acaso das Manhãs -
Poema #56: Isolamento
A lua na casa de saturno
saturno na casa da lua
todo mundo em casa.
A casa de todos no mundo
todo mundo na casa de
todo mundo e eu que não
encontro o meu lugar
em lugar nenhum,
no escuro.O Jardim Simultâneo
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Poema #55: Linguagem do escuro
Agora que a luz se apagou
e a solidão restabeleceu seu domínio,
ouço com receio a linguagem do escuro
que me des-norteia a vida.Nasci sob o signo da morte
mas prefiro-a assim,
conquistada aos poucos.
Porção diária de veneno
que injeto na raiz da vida
até que ela, afinal, desapareça.E a linguagem do escuro prevalece
(ainda que se acendam todas as luzes)
como sendo a linguagem universal de tudo
a tecer as teias da incompreensão fraterna.
Areia (À Fragmentação da Pedra) -
Poema #52: Ciclo I
A vida,
em todas as suas formas,
revela a sutileza de um mágico
que hipnotiza a todos
para que não vejam seus truques falhos.Os homens,
em todas as suas crenças,
revelam a idiotice de um asno
que acredita em tudo
por não ser capaz de discernir o óbvio.Os homens,
com todos os seus mágicos,
revelam a estupidez da espécie
que acredita na vida
como sendo o caminho para a salvação.A vida,
com todas as suas armadilhas,
revela a esperteza de um camaleão
que dissimula aos homens
a sua completa inutilidade como veículo.O Acaso das Manhãs.
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Poema #51: Andarilho no Quintal
sou nascido e criado
na roça
acostumado com as durezas
da vidaracho lenha para o sustento
com um machado cego
de cabo de pau-mulato
herança do meu avôapós almoçar no quintal
uma empurra a outra na moita
e eu saio aliviado para o round
da luta suja e feroz do homem.Um Andarilho Dentro de Casa
-
Poema #50: Andarilho Descalço
estou sem almoço
e sem janta
e com duas costelas
quebradasmeu caminhar é pele
sobre o bronze
do asfalto, atrito
suave de quem sonhaestou sofrendo
com as calças e tudo
e isso é nada para
quem vive na rua.Um Andarilho Dentro de Casa
-
Poema #49: Identificação
Identifico-me com a noite
e com o que ela traz
de específico a si mesma,
e assim fazendo, aceito
o convívio de seres opacos
e da nova ordem e estado de coisas
que o escuro inaugura.
Identifico-me com o avesso
sou aliás o próprio avesso de mim,
e assim sendo, conheço
as esquinas sombrias
nas quais se disfarça
a inexorável nulidade.
Volto de manhã para casa,
e num balanço isento da noite
nenhum acréscimo se me acrescentou
de forma permanente.
Voltei eu mesmo sozinho e íntegro,
apesar das concessões necessárias
ao convívio comum entre os homens.
Nada ganhei e também nada de mim
se perdeu, exceto esta vida
que amanhece mais velha.O Acaso das Manhãs
-
Poema #47: Andarilho deitado
O vento sopra um frio doido e esquisito
na curva da esquina de um terreno baldio.
Estou entre sapos e grilos e entulhos de lixo,
atrás de um muro quebrado e com muitos cacos
de vidro onde me escondo dos meus inimigos.
Apaguei todas as luzes da esperança
e estou sendo mordido por cachorros de rua.
“Atualmente eu vivo rodeado por minhas
paixões defuntas”. Todas inclusive,
menos uma delas: a paixão do absoluto.
Ando sozinho pelas ruas de bairros e ouço:
(você quer pegar os balões? Coitado, mas
eles são feitos de sonhos que estão muito
acima da sua compleição). Talvez nunca,
quem sabe, mas eu acabei de comer agora
uma casca de pão e um pedaço de linguiça
como tira-gosto da pinga. Houve uma época
distante em que eu comia arroz e tomate
nos degraus da escada de uma igreja no alto.
A vida estava lá embaixo, mas havia pessoas comigo.
Hoje eu quero morrer sem contar pra ninguém que eu fiz isso.Uma Escada que Deságua no Silêncio
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Poema #46: Um Cão
Um cão latindo na noite
é sempre um cão.
Sem cor, sem nome e sem
significado
para quem o está ouvindo.No entanto este cão
traz em seu latido,
sombras de milhões de outros cães
sintetizados
em uníssono noite adentro.A chuva não consegue abafar
este inquietante latir,
profanando o sono dos homens
e o sectarismo estático
das coisas e dos seres.Alguém para se ver livre
do incômodo latido
desfechou tiros na escuridão,
e a noite se arrastou em insônia.Da boca sangrenta daquele cão morto
brotaram ruídos confusos
que invadiram as ruas e as casas,
mostrando a todos a inutilidade do ato.O Acaso das Manhãs
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Poema #45: Saldo
De cotidianos resíduos
arrancados na solidão de prisioneiro
em que todo o meu ser se devora,
tento compor uma imagem humana
que me faça aceitável a mim mesmo.No silêncio da morte aparente
na qual me recolho ao túmulo previsto
não sei com que ânsia mórbida de calma,
procuro juntar os cacos de culpa diária
que reunidos formam um apelo ao suicídio.E não é só o remorso das manhãs doentias
pelo que na noite se desfez em delírios
de humana fraqueza cansada de si mesma,
é todo um saldo de perdas que tenho que fazer
e lançar no cômputo geral das misérias minhas.De cotidianos resíduos
recolhidos no isolamento mental de indivíduo
em que todo o meu ser se liberta,
tento compor uma imagem poética
que se faça de ideias e despreze a vida.O Acaso das Manhãs
-
Poema #44: Numa Janela do Mundo
As nuvens tecem
uma história diária
e sem antecedentes.
Não sei se pode
chamar de trabalho
(o trabalho das nuvens)
o que parece ser mais
um deslizar contínuo
de um sonho que não
se sabe a si mesmo
e apenas escorre
para um vazio profundo.Eu, que estou na janela,
vejo as nuvens
e não enxergo a razão
de se estar a vê-las
sem que se possa
interferir ou sustar
a sua indiferença.
A vida humana é mesmo esse
estar-sempre-dependurado
a uma janela da inércia
fechada para o infinito.Inventário de Sombras
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Marinhas de Vinna
Tábuas e pincéis compondo perspectivas de azuis caminhos nas águas de Mina. Walls and bridges interrompendo os verdes dos juncos, ao redor de paisagens recuperadas. Cavalos a toda brida nos levam a estreitos caminhos cavados nas encostas dos morros: paisagens nórdicas, mineiras e paulistas equivalem-se no absoluto do mundo, afinal diluído em contornos de magia, de luz e sombras em meio aos destroços do navio, como se a vida fosse isso – árvores de frio, anjos com substância de crianças, orquídeas de vidro, estampas de pátinas brilhando à sombra dos mistérios e pássaros de lata despertando Maras. Fileiras de peixes nas trilhas do universo e os sinais e os signos que saltam ao chamamento das águas. Estenografia de códigos rompendo o silêncio e o diário de Jonathan esquecido nos caixotes do castelo de Mairiporã. Nada afinal daquilo que fosse submerso, subterrâneo: tudo dista. A esperança atravessou a quilha e não encontrou nada além da terra nativa pulverizada de cinzas e os fantasmas. E parecia simples seguir o diário de bordo. O capitão já estava morto e amarrado ao leme. A meia linha inteira que nunca se concretiza. O camarote, o beliche e aquela escotilha que nunca se fecha de noite, as vagas do mar bem dentro, o meu esforço supremo de escrever e o ateliê de sensibilidades de Vinna.
Uma Escada que Deságua no Silêncio
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Poema #42: Chuva Noturna
A chuva no asfalto
leva papéis/cigarros
e o vômito de ontem.
Amanhã novos resíduos
virão para preencher
o vazio do meio-fio.
Areia (À Fragmentação da Pedra) -
Poema #38: Em Brancas Nuvens
Alguns dos meus
poemas são como
letras de música
sem música.Alguns dos meus
gestos são como
atos de uma peça
sem atores.Alguns dos meus
sonhos são como
um comício público
sem plateia.Alguns dos meus
atos são como
um filme mudo
sem cenário.Alguns dos meus
delírios são como
uma transgressão
da vida no sonho.Muitas das minhas
loucuras são como
a minha própria
vida & literatura,
inéditas no final
das contas.Inventário de Sombras
-
FERIADO
Estou sentado, sozinho, na mesa de um bar, numa dessas noites perdidas. Lá fora a chuva impede-me de sair e eu fico observando este meu impedimento que na verdade é fuga a uma determinação que não tenho tido. Olho para a chuva e vejo a sua cortina de indiferença. A chuva escorre e a água correndo parece trazer-me uma espécie de nostalgia semelhante à náusea. A chuva forma com suas goteiras algo parecido com uma delimitação de espaços, de vivências, de ansiedade pura. Aqui dentro a vida que tenho tido como espaço permitido ao corpo. Lá fora a vida que eu poderia (talvez) ter se imperasse o sonho de estar além do espaço físico, como uma antevisão de um espaço neutro concernente à paz. Acrescento ainda que esta noite é de finados e a questão é transpor ou não o limite da porta.
Inventário de Sombras
-
Poema #30: Porém, Nada Dizia
Gosto do silêncio.
Prefiro ficar em silêncio.
Vejo as pessoas conversando
e a imagem que me fica é a
do cuspe trocado entre elas.