
A era do instantâneo
Tirar uma foto, fazer uma selfie, mostrar-se e mostrar os outros o tempo inteiro, todo o tempo.
Caras e bocas e frases de efeito, curtidas e vídeos, imagens para todos os lados!
O que estamos fazendo com o nosso tempo?
Nem mesmo Narciso seria tão cruel consigo mesmo!
O século XXI tem promovido, além da revolução digital e do avanço vertiginoso da inteligência artificial, contraditoriamente, a involução das coisas e, pior, das pessoas.
Nunca, em tão pouco espaço de tempo, vimos um crescimento tão grande e significativo da informação. Há muita coisa sobre tudo, em qualquer lugar da chamada internet.
No entanto, pobres mortais, somos sugados para a pequena tela e achamos feio o que não é espelho! Vidrados que estamos em olhar através do visor do celular, esquecemos o amor, esquecemos o céu, esquecemos o andar e o falar, esquecemos o outro e, aos poucos, esquecemos de nós mesmos!
E tudo, ilusoriamente, parece mais prático, mais rápido, mais dinâmico, mais isso e mais aquilo.
Com a era digital, surgiram problemas que, simplesmente, não existiam. Estamos nos robotizando? Deixamos de ser humanos para nos satisfazermos com o colorido e frenético mundo virtual!
Para tudo, uma foto. Um evento comum tornou-se cena de filme: cabelo arrumado, roupa arrumada, discurso ensaiado. Registro de um almoço, de um jantar, de um encontro com amigos! Amigos? Cada qual com o seu telefone!
Para tudo, um comentário! Da mais besta situação ao mais ridículo dos espetáculos, uma frase, uma curtida, uma reclamação!
Nem o vírus escapa de tamanha comédia pastelão! Quando as coisas fazem sucesso, “viralizam”.
Pensando bem, a imagem do vírus é até que bem apropriada: multiplica-se rapidamente e vai enfraquecendo a defesa (o raciocínio, a criticidade e o bom senso) até tomar o corpo (a vida, os sonhos e os relacionamentos).
Temos pressa de tudo! Minutos são como a eternidade!
Se a página não abrir, se o download falhar, se a foto não aparecer, esbravejamos, choramos, clamamos e teclamos!
E assim, entre fotos no Instagram, vídeos no TikTok, palavras no X, mexericos no Facebook, conversas no WhatsApp e outros inúmeros aplicativos, passamos o tempo sem darmos conta do nosso próprio tempo!
Outra vez, me recordo de Umberto Eco quando sinalizava uma época de imbecilidade!
É claro que há coisa que merece ser vista, ouvida e comentada. É claro que há vida inteligente nos campos virtuais. É claro que há criatividade, sim!
Mas, somando tudo bem somado, pensando tudo bem pensado e pesando tudo bem pesado, temos muita incoerência, muita fofoca, muito julgamento precipitado, muito preconceito, porrada para todo lado. Temos violência, aberração, pedofilia, anúncios, moda e enganação!
Temos ainda nazifascismo, vício e adulação!
Mas, peraí!
Isso tudo não é a própria sociedade?
Revista, ampliada e viralizada!
Tudo o que fazemos de pior, na internet, ganha dimensão, tem volume e mais proporção! Tudo o que fazemos de execrável ganha o mundo, faz o mundo, globalização!
Em um mundo invertido e confuso como o nosso, a imbecilidade toma contorno de salvação! Parece que tudo é explicado e explicável através do Google!
Não há amadurecimento, não há ponderação. Tá lá, tá certo! Sem complicação!
E, nesse mesmo mundo globalizado e antenado, exigem de nós imensa flexibilidade, fazermos várias coisas ao mesmo tempo, explicando que agora é assim, que somos multitarefas — ou devemos ser —, mas esquecem que cada vez trabalhamos mais com menos tempo!
Otimização!
Sei que, nessa era tecnológica (e admiro e sei da sua importância), estamos destruindo nossas florestas, acabando com a nossa água, intoxicando nossos alimentos, escurecendo nosso ar, matando os animais e desumanizando a nós mesmos!
Era melhor ficar nas cavernas e continuar a fazer desenhos…























