Nubia Gremion

  • Crônica de fim de tarde de uma Segunda, Terça ou Quarta-feira

    A esperança é uma droga alucinógena. Tal frase causou impacto repentino, travando o movimento corriqueiro do dedo sobre a tela brilhante. “Era isso, muito provavelmente”. Não tinha experiência anterior com drogas, não sabia que a esperança poderia ser vista assim: alucinógena. E era. Era o que ela pressupunha a partir do que sentia: esperava ventos na direção oposta, um misto de fé na natureza e também nas cartas do tarô da esposa do seu Ercílio — “com E mesmo”.

    Segunda, terça e quarta, por serem os dias menos movimentados do restaurante, Ananina fechava as portas do térreo e subia a escada caracol dos fundos, religiosamente, às 17h45 da tarde. Às 17h50 já tinha percorrido o corredor de longos metros lineares, sem elevador e cuja escada de emergência situava-se na outra extremidade, subido três lances para então aguardar, com mais três pessoas, a abertura da porta do 408.

    Hoje, terça-feira dentro do corrido e chuvoso mês de setembro, Ananina esperava a sua leitura do tarô. Hora marcada, mas entrada por ordem de chegada. Era a primeira da fila. Seu Ercílio apareceu no corredor. “Olá, Ana-Aninha; Olá, Olaviano. Olá para você também, mocinha, bem-vinda. Sou o Ercílio. Entrem”. “Ercílio se escreve com H ou E, senhor?”, perguntou a novata na arte de aguardar as leituras de início da semana.

    Seu Ercílio, “com E mesmo, moça”, trazia sua bandeja de prata costumeira, com chá de hibisco, café, três copos descartáveis de baixa estatura e uma cestinha com pães de nata. “Nata, porque um T é melhor do que um D e as leituras anunciam tudo, basta que nos concentremos no aqui e no agora. Coma um pãozinho, se assente aqui.”

    Os três entraram na saleta improvisada, que funcionava como um terminal rodoviário em escala mínima. Pelas duas seteiras, estreitas como estrias verticais arreganhadas na parede, via-se o amontoado de pombos no meio da praça, em frente à igrejinha. Havia cheiro de cigarro no ar – ou cachimbo. Um ruído constante saía do radinho à pilha: pareciam os alardes de um alto-falante anunciando as próximas saídas de veículos-viajeiros, com a mesma solenidadede quem canta os números de um bingo. Ananina foi chamada com o olhar de seu Ercílio. Levantou-se da cadeira estofada com palha e deu cerca de dez passos à frente. Afastou a cortina vermelha de veludo, logo à direita. A luz era arroxeada.

    De costas, a mulher de seu Ercílio parecia um duende de Papai Noel que ficara roxo de raiva. “Pode sentar.” Ananina obedeceu e sentou-se. A mulher não; continuou de costas por alguns segundos, remexendo qualquer coisa numa prateleira. Ananina aproveitou para olhar a sala. Havia uma imagem de Nossa Senhora, um elefante de louça com a tromba para cima, uma samambaia que já aceitara a morte sem comunicá-la oficialmente à família. Abaixo deste ente moribundo, sete cristais de procedência duvidosa.

    Sobre a mesa, um pano preto salpicado de luas douradas — “ou restos do almoço, o que também seria uma espécie de constelação”, pensou Ananina. Ia continuar olhando, porque às vezes olhar é só uma forma educada de não saber o que fazer, quando o escuro diante dela se moveu. A mulher se virou. Por um instante mínimo, a luz negra voltou a caber na sala. Não
    era um duende.

    Era pior: era uma pessoa comum.

    “Corta com a mão esquerda.” Ananina cortou. “Agora com a mão direita… não… tenta a sua outra mão esquerda, então…” Ananina sempre tinha suas dúvidas sobre qual mão era uma direção ou outra. Precisava fingir que escrevia algo no ar para ter certeza da mão esquerda, era canhota.
    “Agora pensa.” Pensou.

    “Não precisa pensar tanto.” Ananina piscou, mudando o olhar do baralho para os olhos de Helena.

    A mulher virou uma carta. Depois outra. Depois uma terceira, que olhou por tempo suficiente para que Ananina começasse a desconfiar que talvez tivesse saído ali alguma coisa envolvendo morte, casamento ou imposto atrasado. “Tem distância.” Ananina olhou para a carta.
    “Distância?”
    “Tem.

    Helena virou mais uma.
    “E notícia.”
    Outra.
    “E uma pessoa.”
    Ananina quase perguntou se a pessoa tinha CPF, porque ajudaria bastante. Quase; não perguntou.
    A mulher continuou:
    “É alguém que permanece. Mas não está exatamente perto.”

    Era curioso como o tarô tinha adquirido, em menos de trinta segundos, a precisão geográfica de um aplicativo de mapas com sinal ruim. Ananina olhou para as cartas abertas. Distância tem nove letras e um chapéu, que pode ser de despedida, velório ou em prol da moda. Distância não parece, com toda a sua pompa, circunstância e tamanho encorpado, mas é pobre.

    Pobre de espírito.
    “Pobre de quem dela depende. !”,
    pensou. E no fluxo da reflexão, complementou:
    “Não sei se prefiro estar à distância de um vídeo ou à distância de uma carta.”
    Helena-duende-de-raiva ergueu os olhos.
    Ananina percebeu que tinha dito em voz alta.
    “Como?”
    “Nada.”
    Mas não era nada.

    A carta, ao menos, não tem olhos. Não olha de volta e pode-se tocá-la sem que esta recue. Dobrá-la. Guardá-la entre páginas. Levá-la para a cama sem pedir licença. Esquecê-la numa gaveta por seis anos e reencontrá-la numa terça- feira entre um carnê da loja de sapatos vencido e uma fotografia que pára o próprio tempo. Pode- se cheirá-la. Cartas têm cheiro. Até quando não têm, têm. Há nelas a certeza de uma mão ter estado ali antes da nossa. Uma mão real. Com unha, veias, pele, talvez suor. Uma mão que escreveu, gozou, limpou-se de forma higiênica – ou não – e depois fechou o envelope. Talvez com saliva. A carta sabe ir embora.

    Já o vídeo, não.
    O vídeo fica: Há boca. Há olhos. Há a possibilidade da transmissão ao vivo, com lapsos de segundo que balançam em função de quantos "Gs" temos à disposição. Vídeos meandram entre aquela pequena inclinação da cabeça quando alguém escuta, os dentes, o cabelo fora do lugar. Há uma pessoa inteira acontecendo a cinquenta centímetros do rosto e a quinhentos, cinco mil ou dez mil quilômetros do corpo. Isso deveria ser proibido.

    Ou tributado.
    Ananina imaginou uma repartição pública responsável por distâncias afetivas.

    “Boa tarde. Vim renovar minha saudade.”
    “Trouxe comprovante de residência?”
    “Não. Só a roupa do corpo… e o celular, serve?”
    “Bom… então a senhora vai precisar sofrer mais trinta dias e retornar com original e cópia.”

    O vídeo era isso: pura burocracia do desejo.
    Mostrava tudo o que faltava: a testa em que se queria encostar a própria testa; a boca que se queria beijar; o ombro onde caberia perfeitamente uma cabeça… Uma pessoa inteira comprimida numa tela pequena demais para abraçar alguém. A carta era mais feliz porque mentia melhor. A imagem saltitante era cruel porque provava que existia aquilo que faltava.
    Helena virou outra carta.

    “Tem espera.”
    Ananina riu. Riu não porque fosse engraçado, também não porque não fosse. “Quanto tempo?”
    A mulher juntou os lábios. Esse era, concluiu Ananina, o momento exato em que todos os oráculos do mundo se tornavam funcionários públicos:

    “Tempo é difícil de precisar.”
    Claro.
    A esperança, ao contrário, era pontual.
    Chegava cedo.
    Sentava na primeira cadeira.
    Comia dois pães de nata de uma só bocada.
    E, sentada na saleta, cheia de farelos de glúten, aguardava a sua vez.

  • Com qual “provante” ficar?

    Eu me apaixonei por um sapato. Na verdade, por dois; ainda não sei com qual deles ficar.

    De um lado, um exemplar — par só depois de escolhido; antes disso, convenhamos, é pretendente. Honestamente, nem isso; ficante tampouco: apenas um provante — atrevidamente decidido: em pelo preto, bolinhas brancas disformes, salto alto e grosso, ponta quadrada vermelha. Vermelha mesmo. A irregularidade do branco ainda ensaia alguma compostura, categoricamente desmentida pela desfaçatez de quem, no limite do primeiro passo, resolveu acrescentar alguma coisa que a mãe certamente desaprovaria. Parece ter alguma vantagem nessa cor brilhante e atrevida, justamente da cor que anda me faltando.

    Do outro lado, o oponente de couro amarelo-limão-siciliano — minha cor preferida, o que já configura certa vantagem indevida — apresenta-se com menos altura. Tamanho nunca foi documento; e, se fosse, não caberia a uma mulher apaixonada conferi-lo: córneas flechadas não são instrumentos confiáveis de medição. Quanto ao juízo, este parece ter ainda menos: salto baixo e fino, bico comprido, quase um papagaio, e uma pequena confusão de amarelo, azul-marinho e prata no calcanhar, onde uma almofadinha parece ter sido posta para protegê-lo das consequências das próprias escolhas. Parece livre. Libertino, não direi; esta crônica ainda mal começou e não convém difamar um provante antes do primeiro passo em falso.

    Aquele pisa firme. Este parece prestes a levantar voo.

    Bisbilhoto um, namoro o outro. Volto ao primeiro às escondidas, como se o segundo pudesse descobrir. Faço contas, entro no site de uma loja, retorno ao da outra — ainda bem que a internet mantém vitrines abertas ad aeternum. Salvo fotografias, amplio detalhes, ensaio no ChatGPT versões de mim mesma calçando um e outro. Não sei se procuro sapatos ou se os sapatos, a esta altura, é que já estão procurando por mim — que delícia ser disputada, ao menos em pensamento!

    As imagens têm meu rosto, meu corpo, meus cabelos; ainda assim, há nelas alguma presença que não sei nomear. E minhas últimas setenta e quatro páginas de leitura de umas crônicas sombrias me aconselharam prudência com presenças sem nome. Soa estranho, quase calvo, reconhecer-me num espectro de mulher renderizada que ainda não existe. Mais estranha é a suspeita de que exista e esteja apenas de butuca, esperando alguma coisa para aparecer.

    Tudo isso para escolher um sapato, você pensa. Pense. Também eu acreditava nisso. Até perceber que vinha conduzindo o assunto pelo avesso: não imaginava os sapatos em mim. Imaginava quem eu seria dentro deles.

    É uma diferença pequena, dessas que cabem entre o pé e o couro. Você aí, não a despreze… Há quem aperte a vida alheia por muito menos; não lhe investiguemos os motivos, que esta é uma crônica de sapatos e temos assunto suficiente.

    Mentira.

    Pensando em sapatos, fui parar na filosofia oriental — o que não chega a ser o destino mais provável de um sapato. Mas já que demos o salto, foi mais alto do que baixo, eu diria (ponto para o exemplar preto?). Em Ausência, Byung-Chul Han escreve que esquecemos os pés quando usamos os sapatos certos. Fiquei presa à frase, maneira bastante ocidental de ler sobre desapego, apegando-me de antemão. A mão é força de expressão; esta crônica, até segunda ordem, continua à altura dos pés. E um pé bem calçado simplesmente anda. Se estiver estiloso, anda de cabeça erguida.

    É, até que faz sentido eu me apaixonar por um (ou dois) sapato(s).

    Diria que soa mais prudente do que se apaixonar por uma (ou até mais de uma) pessoa. Sapatos não prometem que vêm depois, não desaparecem no meio de uma conversa nem dizem uma coisa na terça e outra completamente diferente na sexta. Não deixam de pagar a conta; simplesmente não o fazem. No máximo, apertam. E, quando apertam, têm a decência de informar onde.

    Não são grudentos, jamais ciumentos: tirá-los por algum tempo costuma ajudar. É até bom não usar o mesmo sapato todo santo dia; o pé respira, a bolha cicatriza e ninguém pede explicações. Alguns cedem com uma vela, outros com tempo e alguns passos pela casa. Amolecer para continuar. Continuar para esquecer.

    Esquecer, aliás, não é necessariamente perder. Aprendo com Han que pode ser simplesmente parar de segurar. E aí a água me parece uma professora mais eficiente que a filosofia: envolve o corpo inteiro, mas escapa quando fechamos a mão. Algumas paixões têm a mesma falta de educação. Passam pelos dedos sem pedir licença. A água vai embora; a mão fica molhada. Água e memória; algo permanece, mesmo depois que seca?

    Sapatos, felizmente, têm maior vocação para a permanência. Passam por cima de tudo. Depois é só limpar ou engraxar e ficam prontos para outra.

    Eu ainda não comprei nenhum dos dois. Nem sei se vou… será? Posso continuar meu flerte entre janelas. E, se não escolher nenhum, ainda posso andar de cabeça erguida. Na ponta dos pés, calçando sandálias havaianas, se preciso. Uma pincelada de esmalte resolveria a falta de cor — e custaria menos que certas paixões, sobretudo quando já se anteveem os juros do parcelamento do provante. Esta semana comprei três potinhos de esmalte: Intuição, que já está cintilando em meus vinte dedos; Novos Ares, que fica para a próxima semana; e uma outra cor da qual já não me lembro o nome — e nem vem ao caso, estamos perdendo o foco.

    Comprar ou não comprar, eis a questão? Decidir pode ser também deixar alguma coisa onde estava. Apaixonar-se, de soslaio, inclui uma possibilidade que as vitrines, por compreensíveis razões comerciais, não anunciam: perder. Eu ainda posso perder os sapatos por esgotamento de estoque.

    Sei que ver o número 37 inatingível ao clique, em qualquer um dos provantes, vai me preencher de ausência. Uma ausência tamanho 37, precisamente. E ausências, ao contrário do que anuncia o nome, ocupam espaço. Meus pés, menos dados à metafísica, acabarão calçando o que restar por W.O.

    Moral da história: apaixonar-se é um perigo, seja qual for a espécie do ser amado.

  • Dois cafés e um canto de bar

    Engraçado perceber como, com o passar do tempo, o ser humano perde alguns centímetros de altura; não é somente pela coluna que enverga para aqueles que não se exercitam. Mas há um efeito mais profundo da pressão da gravidade no tamanho dos idosos. Há um bom tempo escutei que, se nos medíssemos ao levantarmos pela manhã, após horas na posição horizontal, e depois, no meio do dia, quando já estamos na ativa da vida social, teremos duas alturas distintas. Nunca testei, para ser sincera, apesar da curiosidade latente; pensei em fazê-lo hoje, mas já se vai um tempo relativo desde que me levantei e não encontro nenhum metro à minha disposição no momento. Fakenews da década de 90? Pode até ser. Mas a questão aqui é sobre como tudo em nossa existência é relativo. Vou contar-lhes um pouco sobre o Bochecha.

    De altura mediana – não me recordo se há alguns anos parecera mais alto – um senhor de olhos castanhos, barba feita, uma cabeleira que desafia estatísticas etárias, não totalmente esbranquiçada, e roupas descontraídas caminha pelas ruas da cidade, cumprimentando conhecidos (um número bem significativo, estamos falando sobre uma cidade de interior) e aproveitando a vida na sua fase ‘aposentadoria’. Como todo ser humano que se aproxima da sétima década de vida, tem lá suas manias. A terceira idade é uma libertação, nesse sentido: todo mundo releva as manias de velho de alguns, justamente por estarem… velhos. É quase como as luas femininas, que também vêm e vão com seus próprios ritmos.

    Bochecha, que por definição de um documento primeiro de vida chama-se Antônio, senta quase todos os dias em algum banco da praça principal do centro da cidade, com a ‘galera’ do seu tempo de adolescente. Com os amigos de verdade, toma um café em um bar ali perto. Conversam sobre trivialidades, futebol, política, família e memórias. Isso acontece há um bom tempo e, por isso, é conhecido no estabelecimento.

    Há cerca de um ano ele se prepara para sair de casa como se fosse encontrar alguém especial. Se esmera na escolha da roupa, embora ainda assim não seja nada formal. Há em sua vestimenta e no próprio corpo um luxo de quem se desacostumou à pressa. O sorriso frouxo no rosto é o adorno final que veste, seguindo para o bar. O local que não tem mesas, apenas o balcão com alguns assentos, está quase diariamente vazio entre às 14h30 e 15h45. É então que ele cumprimenta Manoel, o atendente, e se senta em frente à televisão sem volume. Ali, no canto, nem o dono do bar se atreve a iniciar uma prosa, é quase um lugar sagrado na casa. Bochecha pede dois cafezinhos e, mudando as feições como quem se prepara para encarnar um personagem, vai ter com os seus pensamentos.

    Os cafés vêm no copo americano de sempre, aquele líquido preto, com uma colherzinha de inox que descansa como um bicho domesticado e, muitas vezes, não serve para adoçar a bebida, apenas fica ali, uma companhia silenciosa; o vidro do copo é grosso e sua boca enfeitiça: por ela sobe um vapor lento, denso, visível, de aroma que promete um sabor estonteante. Parece alguém que sopra seu hálito quente para uma paisagem de inverno e brinca com a materialização do ar fabricado em seu próprio corpo. Bochecha não percebe pessoas passando pela calçada à sua direita, não sente sequer o cheiro da fritura que borbulha com a produção de salgados destinados à estufa quente da vitrine. Olha para frente, mas não a vê. Olha para dentro.

    Da primeira vez que isso ocorreu, Manoel estranhou. Primeiro, porque Antônio, sempre simpático, chegara com o rosto repleto de dor. Pedira dois cafés, ao invés de um, como quem pede desculpas. Sentara por primeira vez naquele canto apertado do balcão com o corpo mal posto, encaixado torto entre o banco sem encosto e a falta de vontade. A coluna, que antes exacerbava o orgulho de quem está vivo por tanto tempo, era em Bochecha um mero gancho — segurava o corpo pela metade, o resto parecia pendurado em outro lugar, distante, onde a vida ainda fazia algum sentido ou pelo menos fazia barulho. O silêncio ao redor de Antônio é quase palpável nessas ocasiões.

    Desta última vez, ficou por um bom tempo com um dos copos na mão. Despertou do transe de olhar só para a TV e encarou o outro copo. Olhou para os dois copos. Às vezes olhava para o próprio reflexo torto que se desenhava no líquido escuro. Às vezes pro copo do lado, como se ele pudesse responder, sem reflexo. O café já estava frio. Tomou o dele. Segurou o outro copo, sem aproximá-lo de seu corpo. Sorriu. Olhou para Manoel que, vendo o cliente de tanto tempo ali, sorrindo, perguntou:

    — desculpe a intromissão, mas… é que eu fico curioso: por que deixa sempre o segundo café sem tomar? É pro Santo?

    E, com um sorriso só de lábios, sem mostrar os dentes — que não era o seu — , Bochecha respondeu, olhos marejados e o dedo indicador da mão esquerda em riste, apontando para cima:

    — É para o meu amigo.


    O amigo do Bochecha é o meu pai. Esta semana, ao encontrá-lo entre os tapetes de Corpus Christi e ver o tanto de amor genuíno em sua presença, meu coração se alargou. Porque enquanto houver alguém que ainda pede o segundo café, meu pai continuará vivo — nas conversas de quem (ainda) o ama, no gesto repetido, na xícara – ou no copo americano que ele tanto gostava – intacto.

    Obrigada, Antônio.

  • bolhas opacas em sinais de trânsito

    Intuição é um troço engraçado. Às vezes, quando nos deixamos ser por ela guiados, pode dar bom, pode dar samba — ou crônica mesmo [bem melhor, convenhamos, que uma história crônica na bagagem da vida]:

    […)

    Sempre se sentava nos assentos dos veículos públicos, por segurança, por melhor vista da pista, “n” motivos. Hoje, pelo choque de sair da Cidade Universitária, que voltara a frequentar mais de uma década depois, e se deparar com seu velho ônibus para casa vazio, não pensara duas vezes: embarcou, com seu anacrônico RioCard — agora existe um totem de um tal “jaé”, em mais evidência do que o que aceitava o cartão em sua mão esquerda, avanço tecnológico de primeiríssima categoria, outrora. Não sabia o por quê, mas seu coração evidenciara um lugar próximo à porta da saída, nos fundos. Sentou-se. Como uma recém redomesticada “bicho do mato”, com os sentidos apurados em selva de pedra, não ousou pegar o celular. Optou por um livro, um pouco escondido dentro da bolsa grande, que continha de tudo: pasta de dentes, escova de dentes, um outro par de brincos, álcool em gel, lenços de papel, caneta, prancheta, sacola plástica dobrada, um isqueiro, uma lanterna, carregador de celular, uma pera, uma garrafa de água, carteira, chaves de duas casas, o telefone, um desodorante, uma cachemire, um casaco e uma sombrinha. Correu os olhos por uma ou duas páginas; não introjetava as palavras; preferiu conferir a paisagem do Rio em um dia nublado de outono; os cariocas não curtem. Percebeu uma mulher com celular em punho, bem em evidência, que passeava por perfis masculinos em redes sociais. O rapaz no assento atrás do seu parou o que fazia, e l-i-t-e-r-a-l-m-e-n-t-e esticou o pescoço para uma fofocada virto-presencial sem toques — um modo um tanto quanto stalker de se posicionar; assim ficou; o ônibus estava vazio. Esperançosa de ter seu resto do dia bem aproveitado por tão baita sorte da condução espaçosa, relaxou. Semáforo amarelento em contraponto à frieza e letargia de um início de tarde assim, o motorista ameaça pegar a Ponte do Saber. Mas só ameaça. Uma nova volta por toda a ilha se fez. A condução é famosa por estar sempre cheia, inadmissível vagar pelos asfaltos tão levemente. Paciência, os minutos que dedicaria a voltar mais cedo para sua cidade natal (e atual) seriam gastos para um outro propósito. Resolveu abdicar do percurso em linha reta para a Novo Rio. Até queria conhecer o tão comentado novo Terminal Gentileza, mas, ouvindo seu coração, deixou-se rumar para Botafogo.

    O ônibus lotou. Uma discussão esquisita começou próxima ao assento no qual certamente estaria. A senhora que ali sentada estava ganhou uma cotovelada de graça na bochecha direita. E um despertar daquele bater de pestanas tão reconfortante, quando se está acomodada em um veículo público cheio. Evitara um confronto, ponto para a intuição! E ainda tinha sua saída garantida, sem empurra-empurra e aglomeração, calor e estourar das bolhas de cada um. Todo mundo vive em uma bolha que se contrai e se dilata, à medida que passa por situações e ambientes diferentes. Cada um sabe a beleza e os cm a mais dos quais abre mão — e não! — para conviver em sociedade.

    Uma hora depois, avista um shopping conhecido. O ônibus para em um ponto que não se lembrava de ser uma parada, tão próxima era do shopping. Levantou-se de um ímpeto adolescente e puxou a cordinha. Permaneceu de pé, virando-se para a porta. O ônibus simplesmente subiu o viaduto.

    Passos apressados na saída — parada errada: 10 anos antes, o shopping era a deixa. As coisas mudam, resiliência mantendo a pose de antiga moradora da capital. As nomenclaturas de pontos de “BRéssssses” (para dar um ar mais carioca no coloquial da leitura), confundiram seu GPS natural tão assertivo, e as pernas traduziram o nervosismo de andar por ruas conhecidas com lojas diferentes, prédios demolidos, moradores de rua em número bastante significativo e policiais que, ou conversam amigavelmente com um civil das redondezas, ou um dos seus à paisana, ou são corruptos. O rosto da ex-carioca mantinha um semblante que a misturava à multidão, anos de prática — e de teatro —, são como andar de bicicleta. O corpo grita um alerta vermelho, como o toque luminosamente poético sobre sua cabeça: estamos entrando em pânico, é seu íntimo quem diz; respira e foca em chegar a um lugar mais íntimo em suas memórias. Passa por uma esquina arquitetônica e urbanisticamente arredondada: o interior intersticial de uma mecânica de automóveis expõe 3 viaturas suspensas por andaimes, sem rodas, como se estivessem rendidas e cercadas por mais de uma dezena de outros indivíduos, todos latas velhas em estado lamentável. Achou graça na fragilidade momentânea dos veículos da segurança oficial. Sente-se energizada e com fome. Atravessa a rua, sinal verde-esperança, depara-se com uma galeria que tem ares de residencial, mas não somente, seus pés a conduzem, eles sabem o caminho de cor. Dá de cara com o seu velho supermercado, cada vez mais envelhecido e caquético, que sempre a salvava, de domingo a domingo. Vontade do hot-dog da madruga que custava R$ 1,99. Não existe mais. “Serviria um balde do KFC, acho que ainda deve ter um na outra esquina…”

    Seu corpo gira nos calcanhares e esbarra no Cine Estação, e, então, tudo congela: Olhos nas programações Pele ouriçada frente a tantos títulos disponíveis para uma quarta-feira qualquer Suor frio e cheiro de pipoca amanteigada Sente um calor vir debaixo, está excitada Lê o título de filme de uma francesa na Coreia, em cartaz na contagem regressiva de 20 min. Alguém derrama o líquido inconfundível de uma Coca-Cola em um copo plástico.

    Sai esbaforida, encontra um KFC há 15 passos, pede uma promoção qualquer e acha tudo muito engordurado. 15 minutos foram suficientes para avermelhar o rosto, aguardar o preparo da comida rápida | senta-se sozinha, come, repara nas pessoas ao redor, sente-se feliz por estar de volta. A volta em si mesma, as mordidas que rebobinam o tempo. Se vê com pouco mais de 20 anos; compra o ingresso; senta- se na poltrona errada e está mais do que bem, a sala está vazia. Na tela, uma mulher ensina francês para sobreviver em outra cultura. Mas nunca deu aula disso. Ela arrisca. Ela, também.

    O filme termina na incompreensão entre os poucos cinéfilos — quase todos da terceira idade — e ela. Ela quer expandir seus horizontes com a força dos semáforos verdes, um após o outro. Abertos, todos, sem uma transição em um degradê sem sentido. Chama um 99. Não se preocupa com a rua e o movimento. O sinal fecha, todos andam, não [se] sabe[m] para onde, ela tampouco. Adentra o carro, sinal vermelho como pôr do sol. As bolhas aqui e acolá parecem uma instalação a céu aberto orientada por alguma galeria de arte. Sinal vermelho que não se vai. Alguém pega um pedaço de papel na rua.

    Opacarofilia.

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