Mario Baggio no Crônicas Cariocas

  • Trending Topic

    Quando nasci ninguém prestou muita atenção em mim. Ao sentir as dores, minha mãe não achou necessário avisar a parteira nem incomodar meu pai, que dormia e roncava de boca aberta, largado no sofá da sala, o copo vazio de cerveja na mão. Fui o sexto filho, e parir tinha virado rotina na casa em que vim ao mundo. Minha mãe fez tudo sozinha, já estava acostumada. Afastou os lençóis, forrou a cama com um par de panos brancos que depois seriam jogados fora — ela sabia da quantidade de sangue e secreções que jorraria do meio de suas coxas —, deitou-se de costas, abriu as pernas e empinou o quadril. Fez força para que eu saísse de dentro dela. Gemeu baixinho e em poucos minutos lançou-me ao mundo. Depois dormiu. Acordou com o som do telefone celular, avisando que tinha mensagem. Esticou o braço e pegou o aparelho em cima da mesinha de cabeceira. Leu o tuíte “A este mundo chegamos sozinhos e a solidão nos acompanhará por toda a vida”. Achou graça e riu. A mensagem era trending topic nas redes sociais. Minha mãe me olhou com ternura, pegou-me nos braços e enfiou o bico de um seio em minha boca. Enquanto eu mamava, criou um perfil bonitinho para mim no Facebook e no Instagram e me adicionou à sua lista de seguidores, conectando-me devidamente a este mundo.

  • A tatuagem

    O Prêmio Nobel de Literatura Alberto Gerber disse que sim, aceitava participar do programa de entrevistas na televisão. Isso era parte da extensa programação que vinha cumprindo há semanas, desde a cerimônia em que, com as mãos trêmulas, recebeu a medalha da Academia Sueca. Asseguraram que a conversa seria curta, não mais do que vinte minutos, para alívio do escritor muito idoso, cuja saúde inspirava cuidados.

    Uma funcionária da emissora o levou para a sala de maquiagem e se ofereceu para guardar sua bengala e seu chapéu. A maquiadora já está lá, a postos. Ela o cumprimenta, olha-o de maneira profissional e avisa que lhe aplicará um pouquinho de base no rosto e tirará o brilho da cabeça pelada e das mãos, porque em televisão uma pele oleosa fica horrível e desvia a atenção do que realmente importa. Diz que vai pôr também um pouquinho de blush nas bochechas, uma aparência de saúde sempre pega bem, o senhor tá muito pálido, anda fugindo do sol? Protege com um guardanapo de papel o colarinho engomado da camisa branca do escritor e começa a trabalhar.

    — Está confortável, senhor?

    — Sim, muito obrigado.

    A mulher unta a esponja com uma pasta bege que extrai de um tubo e a aplica com delicadeza sobre as bochechas e a testa do escritor.

    — Sobre que assunto o senhor vai falar no programa?

    — Perdão?

    O Nobel não havia entendido a pergunta. Há tempos sua audição vinha falhando. Se o interlocutor falasse depressa ou não pudesse ver seus lábios, compreendia muito pouco do que lhe diziam.

    — O que o senhor vai falar na entrevista? — a maquiadora fala mais devagar e mais alto, ao mesmo tempo em que aponta o teto — Olhe para cima, quero esconder essas olheiras, não ficam bem na telinha. Sabe como é, as câmeras agora são digitais, a luz é mais forte, tudo fica mais visível. Qual será o tema da entrevista? — insiste ela.

    — Ah, isso. Será sobre um livro que escrevi, eu acho — sorri, embaraçado.

    Agora a maquiadora aponta o chão e pede que ele olhe para baixo. Precisa dar um jeito naquelas pálpebras, que quase encobrem os olhos. O escritor não entende o pedido.

    — Para o chão, senhor, olhe para o chão — o tom da voz da maquiadora é gentil, mas monocórdio. O escritor conhece música e sabe identificar um som monocórdio. Alberto Gerber já tomou aulas de música, inclusive chegou a tocar violino em algumas ocasiões.

    — E sobre que assunto é o livro que o senhor escreveu?

    O escritor volta a sorrir. O enredo de Canções para Vestir Noites Mortas, sua última obra, não é fácil de explicar. Se lhe perguntarem isso na entrevista, dirá simplesmente que é uma reflexão sobre o Mal. O Mal, com inicial maiúscula.

    — É uma novela, umas memórias de minha vida.

    — Ah, que bom! Então vai ser uma entrevista muito bonita — admirou-se a maquiadora — O senhor vai vender bastante livro, esse programa tem muita audiência. Não fale agora e mantenha os lábios relaxados.

    Ela molha um bastãozinho cor da pele e o aplica sobre os lábios do escritor.

    — Pronto, agora já pode falar. O senhor estava dizendo…

    O escritor apenas sorri e faz um gesto com a mão, como quem diz não era nada importante.

    — Foi o primeiro livro que o senhor escreveu?

    — Não, já escrevi outros mais antes desse.

    — É mesmo? Que bom, não? — sua alegria era sincera— E quantos livros mais?

    Para não ter que responder, Alberto Gerber finge que não se lembra. Ri sem graça, formando sulcos profundos em volta dos lábios.

    — Não se lembra? Isso quer dizer que são muitos. Mais de quatro?

    — Sim, alguns mais.

    O escritor é autor de trinta e dois livros, entre novelas, romances, poesia e ensaios.

    — Uau, mais de quatro! Mas então o senhor é um escritor profissional — A maquiadora para um pouco e o olha de frente — Espere aí, como o senhor se chama?

    — Alberto — gagueja o escritor— Gerber.

    — Gerber. Gerber. Acho que não ouvi falar. Mas é que eu, para guardar nomes, sou uma negação. Diga os títulos, quem sabe eu… Eu leio muito, sabe? Adoro ler, mas não tenho muito tempo. Leio muito no ônibus quando venho trabalhar.

    — Isso é muito bom. E o que você costuma ler? — O escritor aproveita a oportunidade para mudar de assunto.

    — Ah, eu leio de tudo. Ontem mesmo terminei um que tratava de amadurecimento pessoal. Baixei no computador e imprimi. Não me lembro exatamente do título, mas falava como a gente deve se comportar e o que deve fazer para ser feliz e crescer como ser humano. Gostei muito. Será que o senhor já leu esse? Foi escrito por uma mulher, ela até já veio aqui no programa, como é mesmo o nome dela? Não me lembro. É sexóloga. Ensina a eliminar a dependência que temos de ex-maridos ou ex-esposas. Diga o título de um livro seu, que vou baixar no computador.

    — Não é necessário, eu envio um exemplar para você, não se preocupe.

    — Mas se o senhor nem sabe meu nome ainda! Eu me chamo Maria Beatriz Araújo, todo mundo me chama de Bia. Depois escrevo num papel junto com meu endereço.

    — Sim, claro, obrigado.

    Bia colore as bochechas do escritor com uma brocha delicada.

    — Agora um pouco de blush. Para mim, o blush é a maior invenção da humanidade. Transforma o rosto da pessoa, basta uma pincelada. Olhe só como o senhor ficou com cara de saúde. Uma beleza! Blush é vida, é alegria! E sobre o que é o livro que vai me enviar?

    — É também de memórias. De um tempo em que morei fora do meu país. Numa cidade pequena, do interior. Isso foi há muito tempo.

    — Eu gosto principalmente das histórias de ação. Esse seu livro tem ação? Gosto das de amor também. Pronto, o rosto já terminei. Agora vou maquiar um pouquinho as mãos, tirar o brilho da pele. Pode arregaçar um pouco as mangas? Assim não mancho os punhos de sua camisa.

    — Ah, sim, claro, claro — O escritor levanta as mangas até os cotovelos. Tem as mãos trêmulas. Bia percebe e o ajuda. Interrompe o gesto, admirada.

    — Ah, olha só — fixa os olhos no antebraço direito de Alberto Gerber — O senhor tem uma tatuagem, que moderno! O que é? Simboliza alguma coisa?

    — É só um número — o escritor responde, com um fio de voz.

    — Um número. Que original! Eu também tenho uma, pequenininha, no ombro — afasta a alça do sutiã e mostra a ele.

    — É muito bonita a sua tatuagem.

    — Eu gosto de tatuagens pequenas, assim como a do senhor, que é superelegante, charmosa. Que se perceba mas, ao mesmo tempo, não se perceba, entende? Uma coisa bem discreta. Adorei essa do senhor. Fez onde? Está perfeita. Se eu fosse o senhor, faria uma igual no braço esquerdo, para ficar simétrico. Uma em cada braço, já imaginou?

  • A Porca

    Tem uma porca no escritório. Uma porca de verdade, uma leitoa, e parece estar grávida. Chegou de repente na agência de publicidade onde trabalho como se fosse mais um cliente querendo criar anúncios para um novo produto. Olha em volta estranhando o lugar e procurando, sem encontrar, uma maneira de cair fora dali. Fuça nas latas de lixo, mas ali só há papel. Não é violenta, não emite sons agressivos e não procura atacar ninguém. É apenas uma porca deslocada de seu habitat natural.

    É um bicho enorme, corpulento, deve parir uns dez leitõezinhos por vez. O formato retangular e cheio de mesas e cadeiras do escritório não ajuda em nada, já que a coitada deve sentir falta de um espaço aberto e cheio de lama onde se esparramar. E ela deve gostar de calor e de sol, não desse ambiente com ventilação sempre ligada na potência máxima, congelante no verão e insuportavelmente quente no inverno. Pensei em matá-la e chamar os bombeiros para a remoção do corpo, mas acho que o diretor de redação não trouxe a espingarda (ele já trouxe a arma uma vez ao escritório, dizendo que tinha ido caçar capivaras, e ninguém disse nada).

    Se eu fosse opinar, diria que é uma porca muito bem alimentada em alguma fazenda de milionário. A enorme barriga não deixa dúvida: está prenha e não deve demorar a dar à luz. Que isso não ocorra aqui no escritório, pelo amor de Deus!

    Move-se entre as mesas e as cadeiras conforme pode, considerando o seu tamanho e o espaço ocupado pelos móveis da sala. Vagueia sem rumo e, enquanto anda, mexe as orelhas como ventiladores e o rabinho minúsculo, desproporcional ao seu tamanho, como um fio de telefone antigo espetado na parte traseira do corpanzil. Parece um bicho calmo, que pensa devagar no que fazer, sem pressa ou ansiedade. Avança pelo espaço do escritório como se conhecesse o caminho, seus olhinhos examinando tudo ao redor com atenção.

    A turma toda do escritório agora só tem olhos para ela. Quem não olharia para uma porca passeando tranquilamente pelo carpete do escritório, com suas patas sujas de lama? A bicha, no entanto, parece não se importar com nada ao seu redor. Todos a observam, mas ninguém diz nada, incapazes de falar sobre esse acontecimento extraordinário. Miguel, um dos diretores de criação, abre a boca como se fosse dizer algo, mas tudo o que faz é arrotar. Deve estar na quinta cerveja, e ainda estamos no turno da manhã.

    É bastante curioso ver a porca na sala. Conseguiu interromper nosso trabalho, já que todos abandonamos as telas dos computadores e deixamos os celulares de lado para observá-la melhor. Nós, humanos, somos frágeis diante de acontecimentos que fogem à nossa compreensão e à lógica a que estamos acostumados.

    A porca, finalmente, decide sair pelo mesmo caminho por onde chegou. Usa seu peso para arrombar a porta de entrada e alcançar o saguão. Emite grunhidos, óinc-óinc, como se fizesse uma última tentativa de provocar alguém. Assim que cruza a soleira e desaparece, tudo volta ao que era antes.

    Se por alguns minutos todos pensávamos a mesma coisa sobre um bicho imenso que apareceu no escritório, agora só temos olhos para apreciar as vidas felizes que lotam as páginas do Facebook. Se por um segundo estávamos todos olhando para uma porca, agora prestamos atenção na sala do gerente de contabilidade, de onde saem gritos dele dizendo a outro colega para, por favor, tomar um banho porque ele está fedendo. Se por um momento cogitou-se falar do bicho gigantesco, agora estamos todos ocupados com nossas coisas, e ninguém se dignou a perguntar por que raios uma porca prenha entrou no escritório.

  • A grande obra

    Deixei tudo para escrever a obra da minha vida. Sou um grande escritor. Ninguém sabe disso ainda porque nunca escrevi nada, mas quando eu escrever meu livro, meu grande romance… A admiração de todos será um acontecimento, não tenho dúvida.

    Para levar a cabo essa minha missão, pedi desligamento do meu emprego público e… do que mais me desliguei? De nada mais, porque nunca tive amigos e os parentes há muito tempo se esqueceram da minha existência. Isso posto, abandonei o mundo e me isolei de tudo para escrever meu grande romance.

    O problema é que não sei sobre o que será esse meu livro. Já se escreveu tanto sobre tudo… Tenho um pressentimento: sei que sou um grande escritor, mas nenhum assunto parece ser bom o suficiente, grandioso o suficiente, interessante o suficiente para o meu talento. Então uso minha infinita paciência e espero por uma ideia original e surpreendente. Enquanto espero, claro, sofro com a solidão e, às vezes, com a fome, mas através desse sofrimento espero alcançar um estado de calma que me leve a descobrir um tema digno do meu superior dom de escritor.

    Infelizmente, já se passou muito tempo e essa inspiração está demorando para aparecer. Minha solidão tem se tornado cada vez mais sufocante e opressiva. O silêncio me aprisiona, o vazio ocupa todos os lugares de minha casa e intuo que meu estoque de paciência esteja chegando ao fim. Essas três coisas horríveis — solidão, silêncio e vazio — estão destruindo meu teto, despedaçando-o até atingir as estrelas e espalhando-se ao infinito. Já não distingo o dia da noite, a chuva da neve, o calor do frio.

    Numa crise de sofreguidão incontrolável, grito:

    — Vou escrever tudo o que puder ser escrito! Não deixarei nada de fora. Escreverei o universo e a Via Láctea com todos os seus buracos negros.

    Uma voz, vinda não sei de onde, me responde, irônica, mas ainda assim uma voz depois de tanto silêncio:

    — Tudo bem, garoto, escreva sobre tudo. Mas apenas tudo e nada mais, certo?

  • A revolução dos livros

    Os livros começaram a se infiltrar de novo. Fazem isso de madrugada, quando os sonhos se confundem com a realidade. Eram discretos antes, descarados agora. Hoje apareceram três ao lado do espelho do banheiro. Perdi a conta dos que se amontoaram sob a minha cama. Um livro velho sobre cidades fantasmas é particularmente teimoso. Achei que não gostava dos seus vizinhos de estante, então o coloquei sozinho na mesinha de cabeceira. Acordei com ele em cima do meu travesseiro, pedindo para que o abrisse. Fui com ele até a cozinha, com a intenção de procurar um espaço onde ficasse confortável. Ele pareceu se sentir bem dentro do armário, entre o pote de café e o de açúcar.

    Comecei a ter medo de todos eles, principalmente dos que se atiram das estantes como laranjas maduras, implorando por atenção. Os livros já não respeitam o menor espaço de minha casa e está difícil trabalhar sem a intromissão deles. Tentei fugir, mas sempre sabem onde me encontrar. Se as coisas continuarem assim, serei engolido por um deles e acabarei como aquelas flores secas que às vezes encontro entre uma página e outra.

  • Bloqueio criativo

    O escritor senta na frente do computador disposto a renovar o romance como gênero literário. Quer fazer algo inovador, ainda não identificado, de difícil classificação. A tela pisca. O escritor pensa em estratégias variadas e fuma um cigarro enquanto pensa em qual delas adotar.

    Contar a história ao contrário, como já fizeram no cinema, quando todo mundo saiu da sala com cara de paisagem. Ou utilizar vozes narrativas alternadas: a primeira pessoa em alguns parágrafos, em outros a terceira, em outros ainda a segunda. Fazer o leitor pensar, preencher as lacunas da história — lacunas propositais, bem entendido. O presente e o passado em harmonia. Quebrar a estrutura narrativa linear, usar fragmentos de história, fluxos de consciência. Misturar a linguagem literária com a jornalística. Fundir estilos. Ficção e realidade de documentário. Metaficção. Personagens reais e personagens inventados, em intensa conexão. Biografia e ficção. Mistura de gêneros. Western e ficção científica, com algumas gotas de horror gótico. Robôs que sangram. Narrador onisciente e monólogo interior.

    O escritor se desespera, levanta-se da cadeira e anda pela sala. Não sabe por qual caminho seguir. Tudo o que lhe vem à mente parece já ter sido feito antes. Maldito Cortázar! Maldito Trevisan! “Vamos, experimente uma nova linguagem, invente palavras, termine parágrafos com ‘apesar de’, assim mesmo, sem ponto final”, ele confabula consigo, “seja moderno, use o formato das mensagens eletrônicas e conte uma história de amor que tem início numa conversa de Whatsapp e acaba em violência doméstica, com direito a poças de sangue no chão da cozinha.”

    Em agonia explícita, o escritor bate a mão na mesa e grita: “Já sei!”. Estica os dedos sobre o teclado e escreve: “Era uma vez…”

  • A falta do vovô

    Acho que o vovô estava triste. Ele pôs as duas mãos no peito e fechou os olhos, parecia que falava com alguém que só ele sabia quem era. Chamaram uma ambulância e ele foi com minha mãe e meu pai para o hospital. Os tios que ficaram em casa conversavam em voz baixa e bebiam cafezinho da garrafa térmica. Me mandaram brincar com o Chino. O Chino é mais crescido do que eu e é meu amigo. Somos colegas na escola. Ele sempre me defende quando o Orelha ameaça me bater. Minha mãe e meu pai voltaram sozinhos do hospital e me disseram que o vovô morreu. Não sei o que significa morrer. Mas lembro que o vovô começou a ficar triste quando tiraram ele da casa onde vivia e ele veio morar com a gente. Eu sou um menino, mas percebo tudo.

    Na casa onde o vovô morava antes, tinha três galinhas no quintal, uma horta com tomates, alface e couve, uma bicicleta velha e um cachorro chamado Duque. Nós comemos as galinhas no dia do aniversário dele, quando a família estava reunida (o vovô não, ele não comeu). Foi nesse dia que levaram a bicicleta embora, porque a tia Juliana disse que o vovô estava velho demais para essa bobagem de andar sobre duas rodas (desde esse dia eu não amo mais a tia Juliana). O Duque foi levado para um lugar onde cuidavam de cachorros, porque minha mãe não queria bichos em casa (acho que o Duque nem ia gostar mesmo). O Duque era tão grande quanto um cavalo (mas um pequeno, como um pônei). Foi nesse dia que levaram o vovô para morar na minha casa. Acho que é por isso que ele começou a ficar triste.

    Perguntei para o Chino o que significa estar morto (porque ele é mais velho do que eu e sabe de tudo). Ele pensou, mas não disse muita coisa. Disse que o pai dele também morreu e agora não tinha mais pai. Falou que estar morto é quando a gente sente a falta da pessoa. Eu vou sentir a falta do meu avô.

    Ontem à noite minha mãe me mandou dormir na casa do Chino, porque hoje ela tinha que levantar muito cedo para cuidar do velório do vovô e não queria ninguém atrapalhando. Quando ela veio me buscar, seus olhos estavam vermelhos. Ela me disse que eu não precisava ficar triste porque o vovô foi se encontrar com a vovó. Então estar morto não pode ser tão ruim. Não sei.

  • A chuva estranha

    A terapeuta disse à mamãe que procurasse sair do quarto e fazer alguma atividade simples que lhe desse alegria. Sugeriu que cuidasse do jardim. Mexer com a terra é o melhor remédio contra a depressão. Plantar flores ou fazer uma horta traria enormes benefícios à saúde mental de todos. “Aproveitem a primavera precoce que já está no ar”, disse ela. A família toda concordou. Aquele pedaço do terreno atrás da casa estava mesmo inútil, tornara-se uma floresta em miniatura, onde o mato crescia sem controle e onde sempre perdíamos nossa bola de futebol. Todos nós, exceto papai, nos dedicamos a capinar e adubar a terra e plantar flores de várias espécies e belezas.

    Depois de um mês, um poeta, uma dançarina e um violinista germinaram entre os canteiros de cravos e amores-perfeitos. O poeta escreveu palavras novas que mamãe cantou, acompanhando o som do violino, e a dançarina girou loucamente ao nosso redor, como uma borboleta gigante e exótica. Choveram cores primárias e pulamos em poças d’água roxas, amarelas e verdes, salpicando tudo ao redor. Papai olhou para nós muito sério, abrigado embaixo do caramanchão, como se não estivesse feliz ouvindo mamãe cantar depois de tanto silêncio. “São as malditas flores que provocaram essa chuva estranha, onde já se viu chover colorido?”, murmurou, e recolheu a água multicolorida em frascos para analisá-la em seu laboratório. Uma noite, enquanto dormíamos, jogou herbicida no jardim. O poeta, a dançarina e o violinista murcharam da noite para o dia e minha mãe se trancou no quarto novamente. Uma aragem gelada tomou conta da casa.

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