Mario Baggio no Crônicas Cariocas

  • A grande obra

    Deixei tudo para escrever a obra da minha vida. Sou um grande escritor. Ninguém sabe disso ainda porque nunca escrevi nada, mas quando eu escrever meu livro, meu grande romance… A admiração de todos será um acontecimento, não tenho dúvida.

    Para levar a cabo essa minha missão, pedi desligamento do meu emprego público e… do que mais me desliguei? De nada mais, porque nunca tive amigos e os parentes há muito tempo se esqueceram da minha existência. Isso posto, abandonei o mundo e me isolei de tudo para escrever meu grande romance.

    O problema é que não sei sobre o que será esse meu livro. Já se escreveu tanto sobre tudo… Tenho um pressentimento: sei que sou um grande escritor, mas nenhum assunto parece ser bom o suficiente, grandioso o suficiente, interessante o suficiente para o meu talento. Então uso minha infinita paciência e espero por uma ideia original e surpreendente. Enquanto espero, claro, sofro com a solidão e, às vezes, com a fome, mas através desse sofrimento espero alcançar um estado de calma que me leve a descobrir um tema digno do meu superior dom de escritor.

    Infelizmente, já se passou muito tempo e essa inspiração está demorando para aparecer. Minha solidão tem se tornado cada vez mais sufocante e opressiva. O silêncio me aprisiona, o vazio ocupa todos os lugares de minha casa e intuo que meu estoque de paciência esteja chegando ao fim. Essas três coisas horríveis — solidão, silêncio e vazio — estão destruindo meu teto, despedaçando-o até atingir as estrelas e espalhando-se ao infinito. Já não distingo o dia da noite, a chuva da neve, o calor do frio.

    Numa crise de sofreguidão incontrolável, grito:

    — Vou escrever tudo o que puder ser escrito! Não deixarei nada de fora. Escreverei o universo e a Via Láctea com todos os seus buracos negros.

    Uma voz, vinda não sei de onde, me responde, irônica, mas ainda assim uma voz depois de tanto silêncio:

    — Tudo bem, garoto, escreva sobre tudo. Mas apenas tudo e nada mais, certo?

  • A revolução dos livros

    Os livros começaram a se infiltrar de novo. Fazem isso de madrugada, quando os sonhos se confundem com a realidade. Eram discretos antes, descarados agora. Hoje apareceram três ao lado do espelho do banheiro. Perdi a conta dos que se amontoaram sob a minha cama. Um livro velho sobre cidades fantasmas é particularmente teimoso. Achei que não gostava dos seus vizinhos de estante, então o coloquei sozinho na mesinha de cabeceira. Acordei com ele em cima do meu travesseiro, pedindo para que o abrisse. Fui com ele até a cozinha, com a intenção de procurar um espaço onde ficasse confortável. Ele pareceu se sentir bem dentro do armário, entre o pote de café e o de açúcar.

    Comecei a ter medo de todos eles, principalmente dos que se atiram das estantes como laranjas maduras, implorando por atenção. Os livros já não respeitam o menor espaço de minha casa e está difícil trabalhar sem a intromissão deles. Tentei fugir, mas sempre sabem onde me encontrar. Se as coisas continuarem assim, serei engolido por um deles e acabarei como aquelas flores secas que às vezes encontro entre uma página e outra.

  • Bloqueio criativo

    O escritor senta na frente do computador disposto a renovar o romance como gênero literário. Quer fazer algo inovador, ainda não identificado, de difícil classificação. A tela pisca. O escritor pensa em estratégias variadas e fuma um cigarro enquanto pensa em qual delas adotar.

    Contar a história ao contrário, como já fizeram no cinema, quando todo mundo saiu da sala com cara de paisagem. Ou utilizar vozes narrativas alternadas: a primeira pessoa em alguns parágrafos, em outros a terceira, em outros ainda a segunda. Fazer o leitor pensar, preencher as lacunas da história — lacunas propositais, bem entendido. O presente e o passado em harmonia. Quebrar a estrutura narrativa linear, usar fragmentos de história, fluxos de consciência. Misturar a linguagem literária com a jornalística. Fundir estilos. Ficção e realidade de documentário. Metaficção. Personagens reais e personagens inventados, em intensa conexão. Biografia e ficção. Mistura de gêneros. Western e ficção científica, com algumas gotas de horror gótico. Robôs que sangram. Narrador onisciente e monólogo interior.

    O escritor se desespera, levanta-se da cadeira e anda pela sala. Não sabe por qual caminho seguir. Tudo o que lhe vem à mente parece já ter sido feito antes. Maldito Cortázar! Maldito Trevisan! “Vamos, experimente uma nova linguagem, invente palavras, termine parágrafos com ‘apesar de’, assim mesmo, sem ponto final”, ele confabula consigo, “seja moderno, use o formato das mensagens eletrônicas e conte uma história de amor que tem início numa conversa de Whatsapp e acaba em violência doméstica, com direito a poças de sangue no chão da cozinha.”

    Em agonia explícita, o escritor bate a mão na mesa e grita: “Já sei!”. Estica os dedos sobre o teclado e escreve: “Era uma vez…”

  • A falta do vovô

    Acho que o vovô estava triste. Ele pôs as duas mãos no peito e fechou os olhos, parecia que falava com alguém que só ele sabia quem era. Chamaram uma ambulância e ele foi com minha mãe e meu pai para o hospital. Os tios que ficaram em casa conversavam em voz baixa e bebiam cafezinho da garrafa térmica. Me mandaram brincar com o Chino. O Chino é mais crescido do que eu e é meu amigo. Somos colegas na escola. Ele sempre me defende quando o Orelha ameaça me bater. Minha mãe e meu pai voltaram sozinhos do hospital e me disseram que o vovô morreu. Não sei o que significa morrer. Mas lembro que o vovô começou a ficar triste quando tiraram ele da casa onde vivia e ele veio morar com a gente. Eu sou um menino, mas percebo tudo.

    Na casa onde o vovô morava antes, tinha três galinhas no quintal, uma horta com tomates, alface e couve, uma bicicleta velha e um cachorro chamado Duque. Nós comemos as galinhas no dia do aniversário dele, quando a família estava reunida (o vovô não, ele não comeu). Foi nesse dia que levaram a bicicleta embora, porque a tia Juliana disse que o vovô estava velho demais para essa bobagem de andar sobre duas rodas (desde esse dia eu não amo mais a tia Juliana). O Duque foi levado para um lugar onde cuidavam de cachorros, porque minha mãe não queria bichos em casa (acho que o Duque nem ia gostar mesmo). O Duque era tão grande quanto um cavalo (mas um pequeno, como um pônei). Foi nesse dia que levaram o vovô para morar na minha casa. Acho que é por isso que ele começou a ficar triste.

    Perguntei para o Chino o que significa estar morto (porque ele é mais velho do que eu e sabe de tudo). Ele pensou, mas não disse muita coisa. Disse que o pai dele também morreu e agora não tinha mais pai. Falou que estar morto é quando a gente sente a falta da pessoa. Eu vou sentir a falta do meu avô.

    Ontem à noite minha mãe me mandou dormir na casa do Chino, porque hoje ela tinha que levantar muito cedo para cuidar do velório do vovô e não queria ninguém atrapalhando. Quando ela veio me buscar, seus olhos estavam vermelhos. Ela me disse que eu não precisava ficar triste porque o vovô foi se encontrar com a vovó. Então estar morto não pode ser tão ruim. Não sei.

  • A chuva estranha

    A terapeuta disse à mamãe que procurasse sair do quarto e fazer alguma atividade simples que lhe desse alegria. Sugeriu que cuidasse do jardim. Mexer com a terra é o melhor remédio contra a depressão. Plantar flores ou fazer uma horta traria enormes benefícios à saúde mental de todos. “Aproveitem a primavera precoce que já está no ar”, disse ela. A família toda concordou. Aquele pedaço do terreno atrás da casa estava mesmo inútil, tornara-se uma floresta em miniatura, onde o mato crescia sem controle e onde sempre perdíamos nossa bola de futebol. Todos nós, exceto papai, nos dedicamos a capinar e adubar a terra e plantar flores de várias espécies e belezas.

    Depois de um mês, um poeta, uma dançarina e um violinista germinaram entre os canteiros de cravos e amores-perfeitos. O poeta escreveu palavras novas que mamãe cantou, acompanhando o som do violino, e a dançarina girou loucamente ao nosso redor, como uma borboleta gigante e exótica. Choveram cores primárias e pulamos em poças d’água roxas, amarelas e verdes, salpicando tudo ao redor. Papai olhou para nós muito sério, abrigado embaixo do caramanchão, como se não estivesse feliz ouvindo mamãe cantar depois de tanto silêncio. “São as malditas flores que provocaram essa chuva estranha, onde já se viu chover colorido?”, murmurou, e recolheu a água multicolorida em frascos para analisá-la em seu laboratório. Uma noite, enquanto dormíamos, jogou herbicida no jardim. O poeta, a dançarina e o violinista murcharam da noite para o dia e minha mãe se trancou no quarto novamente. Uma aragem gelada tomou conta da casa.

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