Mario Baggio no Crônicas Cariocas

  • Bloqueio criativo

    O escritor senta na frente do computador disposto a renovar o romance como gênero literário. Quer fazer algo inovador, ainda não identificado, de difícil classificação. A tela pisca. O escritor pensa em estratégias variadas e fuma um cigarro enquanto pensa em qual delas adotar.

    Contar a história ao contrário, como já fizeram no cinema, quando todo mundo saiu da sala com cara de paisagem. Ou utilizar vozes narrativas alternadas: a primeira pessoa em alguns parágrafos, em outros a terceira, em outros ainda a segunda. Fazer o leitor pensar, preencher as lacunas da história — lacunas propositais, bem entendido. O presente e o passado em harmonia. Quebrar a estrutura narrativa linear, usar fragmentos de história, fluxos de consciência. Misturar a linguagem literária com a jornalística. Fundir estilos. Ficção e realidade de documentário. Metaficção. Personagens reais e personagens inventados, em intensa conexão. Biografia e ficção. Mistura de gêneros. Western e ficção científica, com algumas gotas de horror gótico. Robôs que sangram. Narrador onisciente e monólogo interior.

    O escritor se desespera, levanta-se da cadeira e anda pela sala. Não sabe por qual caminho seguir. Tudo o que lhe vem à mente parece já ter sido feito antes. Maldito Cortázar! Maldito Trevisan! “Vamos, experimente uma nova linguagem, invente palavras, termine parágrafos com ‘apesar de’, assim mesmo, sem ponto final”, ele confabula consigo, “seja moderno, use o formato das mensagens eletrônicas e conte uma história de amor que tem início numa conversa de Whatsapp e acaba em violência doméstica, com direito a poças de sangue no chão da cozinha.”

    Em agonia explícita, o escritor bate a mão na mesa e grita: “Já sei!”. Estica os dedos sobre o teclado e escreve: “Era uma vez…”

  • A falta do vovô

    Acho que o vovô estava triste. Ele pôs as duas mãos no peito e fechou os olhos, parecia que falava com alguém que só ele sabia quem era. Chamaram uma ambulância e ele foi com minha mãe e meu pai para o hospital. Os tios que ficaram em casa conversavam em voz baixa e bebiam cafezinho da garrafa térmica. Me mandaram brincar com o Chino. O Chino é mais crescido do que eu e é meu amigo. Somos colegas na escola. Ele sempre me defende quando o Orelha ameaça me bater. Minha mãe e meu pai voltaram sozinhos do hospital e me disseram que o vovô morreu. Não sei o que significa morrer. Mas lembro que o vovô começou a ficar triste quando tiraram ele da casa onde vivia e ele veio morar com a gente. Eu sou um menino, mas percebo tudo.

    Na casa onde o vovô morava antes, tinha três galinhas no quintal, uma horta com tomates, alface e couve, uma bicicleta velha e um cachorro chamado Duque. Nós comemos as galinhas no dia do aniversário dele, quando a família estava reunida (o vovô não, ele não comeu). Foi nesse dia que levaram a bicicleta embora, porque a tia Juliana disse que o vovô estava velho demais para essa bobagem de andar sobre duas rodas (desde esse dia eu não amo mais a tia Juliana). O Duque foi levado para um lugar onde cuidavam de cachorros, porque minha mãe não queria bichos em casa (acho que o Duque nem ia gostar mesmo). O Duque era tão grande quanto um cavalo (mas um pequeno, como um pônei). Foi nesse dia que levaram o vovô para morar na minha casa. Acho que é por isso que ele começou a ficar triste.

    Perguntei para o Chino o que significa estar morto (porque ele é mais velho do que eu e sabe de tudo). Ele pensou, mas não disse muita coisa. Disse que o pai dele também morreu e agora não tinha mais pai. Falou que estar morto é quando a gente sente a falta da pessoa. Eu vou sentir a falta do meu avô.

    Ontem à noite minha mãe me mandou dormir na casa do Chino, porque hoje ela tinha que levantar muito cedo para cuidar do velório do vovô e não queria ninguém atrapalhando. Quando ela veio me buscar, seus olhos estavam vermelhos. Ela me disse que eu não precisava ficar triste porque o vovô foi se encontrar com a vovó. Então estar morto não pode ser tão ruim. Não sei.

  • A chuva estranha

    A terapeuta disse à mamãe que procurasse sair do quarto e fazer alguma atividade simples que lhe desse alegria. Sugeriu que cuidasse do jardim. Mexer com a terra é o melhor remédio contra a depressão. Plantar flores ou fazer uma horta traria enormes benefícios à saúde mental de todos. “Aproveitem a primavera precoce que já está no ar”, disse ela. A família toda concordou. Aquele pedaço do terreno atrás da casa estava mesmo inútil, tornara-se uma floresta em miniatura, onde o mato crescia sem controle e onde sempre perdíamos nossa bola de futebol. Todos nós, exceto papai, nos dedicamos a capinar e adubar a terra e plantar flores de várias espécies e belezas.

    Depois de um mês, um poeta, uma dançarina e um violinista germinaram entre os canteiros de cravos e amores-perfeitos. O poeta escreveu palavras novas que mamãe cantou, acompanhando o som do violino, e a dançarina girou loucamente ao nosso redor, como uma borboleta gigante e exótica. Choveram cores primárias e pulamos em poças d’água roxas, amarelas e verdes, salpicando tudo ao redor. Papai olhou para nós muito sério, abrigado embaixo do caramanchão, como se não estivesse feliz ouvindo mamãe cantar depois de tanto silêncio. “São as malditas flores que provocaram essa chuva estranha, onde já se viu chover colorido?”, murmurou, e recolheu a água multicolorida em frascos para analisá-la em seu laboratório. Uma noite, enquanto dormíamos, jogou herbicida no jardim. O poeta, a dançarina e o violinista murcharam da noite para o dia e minha mãe se trancou no quarto novamente. Uma aragem gelada tomou conta da casa.

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