Mario Baggio no Crônicas Cariocas

  • A chuva estranha

    A terapeuta disse à mamãe que procurasse sair do quarto e fazer alguma atividade simples que lhe desse alegria. Sugeriu que cuidasse do jardim. Mexer com a terra é o melhor remédio contra a depressão. Plantar flores ou fazer uma horta traria enormes benefícios à saúde mental de todos. “Aproveitem a primavera precoce que já está no ar”, disse ela. A família toda concordou. Aquele pedaço do terreno atrás da casa estava mesmo inútil, tornara-se uma floresta em miniatura, onde o mato crescia sem controle e onde sempre perdíamos nossa bola de futebol. Todos nós, exceto papai, nos dedicamos a capinar e adubar a terra e plantar flores de várias espécies e belezas.

    Depois de um mês, um poeta, uma dançarina e um violinista germinaram entre os canteiros de cravos e amores-perfeitos. O poeta escreveu palavras novas que mamãe cantou, acompanhando o som do violino, e a dançarina girou loucamente ao nosso redor, como uma borboleta gigante e exótica. Choveram cores primárias e pulamos em poças d’água roxas, amarelas e verdes, salpicando tudo ao redor. Papai olhou para nós muito sério, abrigado embaixo do caramanchão, como se não estivesse feliz ouvindo mamãe cantar depois de tanto silêncio. “São as malditas flores que provocaram essa chuva estranha, onde já se viu chover colorido?”, murmurou, e recolheu a água multicolorida em frascos para analisá-la em seu laboratório. Uma noite, enquanto dormíamos, jogou herbicida no jardim. O poeta, a dançarina e o violinista murcharam da noite para o dia e minha mãe se trancou no quarto novamente. Uma aragem gelada tomou conta da casa.

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