Crônica de Domingo por Bia Mies

  • Saída de emergência

    Trepida.

    Me vem, primeiro pelo barulho externo que pelo chacoalhar do corpo.

    Depois, o conforto de um ambiente climatizado.

    Estou em trânsito, como gosto, dormindo a caminho de um novo horizonte [muito embora, seja o mesmo de um momento anterior, que não é esse].

    Minha quilometragem fortalece os sorrisos que virão.

    Quero gozar do tempo que ainda tenho. Quero me dar o sabor de estar comigo mesma. Passear comigo. Tomar sorvete no parque, como se eu estivesse de mãos dadas com outras mãos, que não as minhas.

    O silêncio é extremamente necessário na vida.

    As desilusões, saídas de emergência.

  • Esquisito íntimo

    Esquisito:

    Palavrinha sorrateira que passa pela boca aos pulinhos, estalando a língua como se estalasse cascas de noz. É um vocábulo inquieto; dito repetidas vezes e depressa, parece um chiado qualquer — dessas TVs antigas que saíam do ar e preenchiam a tela com pixels preto e branco dançantes. Uma quase hipnose.

    Quando não sabemos o significado de certas palavras, é fácil abstrair-nos de seus valores agregados e nos prendermos aos seus odores.

    Esquisito quase fede.

    Esquisito, em si, é um quase. É preconceito, em primeira instância. Algo que, à primeira vista — ou ao primeiro ouvido — soa ruim. Pode, entretanto, o esquisito ser apenas diferente; e o diferente é condição sine qua non para sairmos de nossos rótulos e padrões, muitas vezes nem sequer nossos.

    Esquisito, no final das contas, sempre é bom.

    Como é boa toda primeira vez — depois que vira memória.

    A primeira vez é esquisita por ser território novo: gotas de suor descendo pelas têmporas, respiração em ritmo de taquicardia, suspensão do tempo que, congelado, torna-se projeto à luz da recordação.

    Esquisita e sempre inesquecível: a primeira vez que saímos sozinhos, a primeira escolinha; o primeiro beijo, o primeiro emprego — e, consequentemente, o primeiro salário —, a primeira briga, a morte de um ente querido. Sentir-se só após um divórcio, a viúvez, a perda do próprio chão. A primeira medalha. A primeira vez que se faz algo errado, a primeira gota de álcool.

    E há também a primeira vez da primeira vez — aquela que inaugura o próprio corpo: a perda da virgindade, quando descobrimos que o amor, o medo, a curiosidade e a coragem podem caber todos no mesmo instante.

    O primeiro amor. Conhecer a família do namorado ou da namorada. A primeira vez que alguém sai do armário. O primeiro ato de liberdade. O primeiro “eu te amo” que alguém lhe diz sem ser família. A primeira vez que você vê o mar.

    Sempre é esquisito. Sempre um território novo. Sempre transformador — sensação sorrateira que passa pela boca aos pulinhos, estalando a língua como se estalasse cascas de noz.

    A primeira vez é um vocábulo inquieto: dito depressa, parece o chiado das TVs antigas que saíam do ar e enchiam a tela de pixels preto e branco dançantes.

    A primeira vez é sempre hipnose.

  • Boiar nas águas, atravessar os morros: menos Catherine, mais Rita – mais minha

    Quantas vidas vivemos em uma vida – você, eu?

    Eu, por exemplo, não sou mais a mesma do casamento.

    Nem poderia ser. Seria falta de educação comigo mesma.

    Tampouco sou a mesma que realizou, ainda nova, seu sono de morar no exterior. Ou a que ambicionava um prêmio de arquitetura, recebido na categoria sustentável antes dos 30.

    Hoje sou a única criatura — ao menos aparentemente — que sai aos prantos da sessão de terça-feira de Carnaval de O Morro dos Ventos Uivantes. Quase uma sessão matinê, e a cidade pulsando lá fora, confetes aderindo aos cabelos alheios e se esbaldando, bêbados e desequilibristas, pelo chão. Batuques. Bebidas vendidas em isopores. E eu chorando por ingleses que insistem em amar como quem cava a própria cova.

    Mudaram o destino do filme. Encurtaram silêncios, ajustaram gerações; embelezaram a dor com fotografias impecáveis, figurinos de tirar o fôlego; cenários e sentimentos antagônicos: pobreza e a opulência – esta convertida em excesso de desejo e intensidade, como se cada cena precisasse gritar para não desaparecer na sucessão incessante de imagens que disputam o mundo de hoje.

    A sala azul… Trechos de paredes brilhantes. O almofadado do quarto de Cathy na cor de sua própria pele, com manchas que traziam suas sardas – mais discretas que as minhas – aos holofotes.

    Diante de tanto impacto visual e emocional, ali estava eu, soluçando discretamente – ou nem tão discretamente assim -, com meu livro da Emily Brontë sobre os joelhos, acariciado cena após cena.

    Percebi, entre uma lágrima e outra, algo que me pareceu escandalosamente maduro: já não tenho idade para viver e morrer de amor.

    Meu primeiro amor morreu. Ou talvez tenha morrido apenas a menina que achava beleza no morrer por alguém.

    É, minha querida, diria meu falecido primeiro amor – poeta de obra, sombra e medida involuntária, para desgraça do meu eu adolescente e dos amores que vieram depois – morrer é sempre um gesto dramático demais para quem ainda precisa pagar boletos.

    Concordo. Hoje. Com a ironia aprendida, equilibrando os deslizes do peito.

    Há versões nossas que saem de moda. Como certas ideias românticas que já não combinam com o rumo e a velocidade do mundo atual.

    Catherine me comoveu, mas não me seduziu. Heathcliff fez meu coração palpitar por sua beleza, seus cuidados e maldades com a amada, seus traumas infantis – mas me alertou. Amor que precisa destruir e magoar para provar que existe… Isso não me interessa mais.

    Lá fora, batuques aleatórios. Pedra portuguesa sob os pés. Piso urbano novo, intertravado. Descobri, ali, que havia pedras portuguesas em Nova Friburgo — eu, arquiteta quase nunca distraída, atravessando a cidade sem notar o desenho do chão.

    É curioso como podemos viver anos sem perceber o que sustenta nossos passos. Há quem nunca tenha notado a cor do piso à frente de casa.

    Prefiro, agora, a atenção e a presença dos amores que nascem e morrem para fazer sentido. Não os que implodem casas e almas. Não os que confundem posse com poesia. Talvez mais os que atravessem do que os que fiquem.

    Chorei lágrimas de equilíbrio outra vez. Chorei por ter amado com ferocidade quando foi preciso. Chorei pelas versões minhas que já caducaram. Chorei porque estou viva – e isso, convenhamos, é um privilégio maior que qualquer paixão homérica ou borboletas no estômago, essas criaturas inconvenientemente instáveis.

    Somos compostos prioritariamente por água e sais: há líquido demais em mim para fingir secura. Sou mais mar e onda do que constância.

    Estou aprendendo a nadar em águas salgadas e mais profundas. A boiar sem afundar. E é até reconfortante tomar uns caldos e tossir entupida de sal, de quando em quando.

    Na mesma manhã do cinema, ainda carnaval, sentei-me ao sol na praça da minha cidade. Blusa semi-transparente e dourada. Top igualmente dourado. Abri uma garrafa de vidro de cerveja às dez da manhã, como quem inaugura um livro com cheiro de novo.

    Zeca bebia seu copinho d’água recém-saído da geladeira da padaria.

    Minha mãe torceu o nariz:

    — Uma menina tão bonita bebendo assim, na rua…

    O pior é que havia outra garrafa para ela, na sacola. Ela, fã da intrépida Rita Lee.

    E então percebi o que a Rita entendera antes de todas nós: a liberdade feminina ainda é um escândalo para quem depende de permissão alheia.

    Minha querida, talvez cochichassem os artistas devidamente enterrados, escândalo é só o nome que dão às mulheres que respiram sem pedir licença.

    Pois então respiro.

    Senti, naquele banco de praça, algo sereno e perigoso: se filhos vierem, bem-vindos. Se não vierem, tudo bem igualmente. Zeca já dá conta de parte da minha vocação maternal. Se o amor ficar, que fique inteiro. Se for embora, que vá sem levar minhas estruturas.

    Não tenho mais idade para morrer de amor.

    Platão me sopra uma frase, como quem salva uma atriz de um branco em pleno palco: todo homem apaixonado é um poeta. Eis que a poesia desce do pedestal e volta ao gesto humano de amar.

    Percebo, então, que tenho idade para atravessá-lo — com humor, com verdade, consciência e uma cerveja — ou um vinho — na mão.

    Se houver (mais) outras vidas dentro desta, que elas me encontrem menos trágica que Catherine e tanto ou mais insolente que Rita.

    E que, quando eu ameaçar dramatizar demais, haja sempre um eco, a sussurrar:

    — Querida, ame. Mas conserve o seu sobrenome.

    Tal qual fez minha mãe, com um casamento exemplar. Tal qual eu já fiz uma vez, diante do padre e do

    cartório, com uma lição bem aprendida:

    nunca tome decisões em pandemias.

    Deixe o tempo no comando.
    Aproveite as ondas.
    Aprenda a não enjoar em alto-mar.
    Respire.

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