A ladeira de paralelepípedos cria obstáculos até o ponto de ônibus. Mal amanhece, o café preto, o banho, a escova de dentes. A roupa, cuidadosamente separada no dia anterior, e a corrida de sempre para não perder a condução.
O corpo magro vai contra o vento, e sopra uma canção nos seus ouvidos. Ela cantarola.
No trânsito, procura na paisagem de sempre algum novo detalhe e, invariavelmente, encontra. Tudo está no mesmo lugar, mas seu olhar é novo a cada dia. Não tem consciência da própria sensibilidade. Emociona-se com o que é invisível aos outros e pensa que é normal. Chora com as histórias que lê, com os filmes a que assiste. Inventa histórias longas que nunca serão escritas e, à sua maneira, é feliz.
Os cadernos presos ao corpo em sacolas improvisadas. Sonha. Tem medo de que tudo seja apenas imaginação. Imagina sempre.
O vento sopra uma canção nos seus ouvidos. Escuta-a atenta. Apenas o tempo dirá se a canção é tudo, se as histórias vingarão, se o sonho virará realidade.
Nesse vão, tece.
As roupas não se ajustam bem. As calças são mais curtas que suas pernas finas. “Pescam siri”, ouve dizerem. O desgaste dos sapatos é coberto por graxa. Apesar de tudo, brilham.
A vida também a lapida, a cada palavra que machuca, a cada desejo não realizado, a cada manhã em que tem um novo olhar sobre tudo.
O vento sopra uma canção nos seus ouvidos. Nela há esperança e grandiosidade de sinfonia.
A menina que desce a ladeira correndo, que tropeça nas pontas soltas dos paralelepípedos, não sabe que planta beleza, que seus sonhos são sombras de um futuro que ainda não viu.
A menina não sabe, mas é semente da mulher que, em algum ponto distante no tempo, já existe.