Crônicas

Caso verdade

Uma. Duas. Três. Já eram suficientes para tirar a paciência de qualquer um, mas não parou por aí. Aos poucos, seguindo o mau exemplo, os vizinhos começaram a depositar suas sacas de lixo na calçada alheia. Alguns moravam perto, entretanto, logo chegariam os mais distantes. Definitivamente,  já estava configurado o abuso. Educadamente o “dono” da calçada resolveu pedir à proprietária do bar em frente – responsável pela primeira saca de lixo – que, por favor, não mais deixasse lixo em sua calçada. A mulher não gostou. Foi logo dizendo que não era a única da rua a colocar o lixo no local. Ainda com paciência, o homem disse que falaria com todos e o bar apenas tinha sido o primeiro lugar a ser visitado por ele. A mulher, sentindo-se menos injustiçada, comprometeu-se a não mais depositar seu lixo na calçada vizinha. Assim também fizeram todos os outros anfitriões, confessadamente arrependidos.

O homem voltou pra casa satisfeito. Comentou com a esposa que não mais teriam problemas. Muniu-se de um balde, desceu as escadas e pôs-se a lavar a calçada certo de que a teria limpa na manhã seguinte. 

Um barulho furtivo acabou por despertá-lo quando dormia em frente à tv. Resolveu olhar sem  se deixar ver. Decepção! Cada um daqueles que, pela manhã, havia se comprometido com ele, agora vinha apressadamente, quase correndo deixar seu lixo  às escondidas. A mulher ofendidíssima era novamente a primeira a fazê-lo enquanto o marido já a esperava com o carro ligado. Outros fingindo naturalidade, repetiam o malfeito.

O homem na janela espumava. Daria um jeito naquilo ou mudaria de nome.

Quando o dia começou, o bairro agitou-se. Havia lixo espalhado em todos os cantos. Principalmente em determinados estabelecimentos e portões.  

O morador voltava de sua caminhada matinal e a mulher do bar gritou:

— Quero ver se é homem pra fazer na minha frente! 

Não ouviu resposta. Aliás, nenhuma reação foi percebida. Silêncio.  

Não se dando por vencida, ela tenta mais uma vez:

— Deve ter ficado nervosinho. A mulher dormiu de calça jeans, brabinho?

Enquanto ela provocava e os vizinhos comentavam, Valmir, lá de dentro do bar, estava pronto para filmar caso o homem perdesse a cabeça. Ela não paravs e o homem resistia.

— Tu é um frouxo! Quer bancar o nervosinho? Vem me encarar! — disse, batendo no peito. — Tá com medinho? 

Boa tarde!

Seguem texto e sugestão de imagem.

Atenciosamente,

Valeria Soares

De súbito o portão se abre e uma esposa furiosa vai com tudo pra cima da mulher do bar. 

— Vavá! Socorro!

— Você tá provocando meu marido pensando que ele vai cair na sua armadilha?! Manda o Vavá filmar agora.

Só a polícia conseguiu separar as duas. Ninguém foi preso. Ultimamente a calçada anda limpíssima. Cada um deu um jeito de cuidar do próprio lixo  sem poluir o bairro. Todo mundo aprendeu a lição.

 Principalmente: ninguém quer cair nas garras da esposa.

Valeria Soares da Silva

Valeria Soares da Silva é membro da Academia de Letras do Brasil -  nasceu e vive em Teresópolis- RJ. Formou-se em Letras - Língua Portuguesa e Literatura de Língua Portuguesa pela Universidade Gama Filho. Cursou MBA em gestão educacional e empreendedorismo pela Universidade Federal Fluminense. Professora desde 1986, atuou na rede privada e na rede pública municipal. Atualmente, é Diretora Geral do Colégio Estadual Euclydes da Cunha.

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