
Poema #07: Parado há duas horas
Estou parado há duas horas.
Já fui de um lado a outro
Fui de esquina a esquina
Percorri cada quadrado de chão.
É que me cansaram as pernas
Então deixei-me aqui.
Por um lado parece-me um tanto sagrado,
De outro, nefasto e ridículo.
É que andei tanto que já não tenho por onde ir.
Cumprimenta-me o passo do outro
Que por um lado atravessa a rua
Do outro, acena e desvia
Ou o de mais longe, que caminha
E eu, que já não soube de onde vinha
Só, via.
O movimento do mundo me desloca,
Por isso a pausa.
A náusea desta vida, caro Sartre,
É a de se encontrar em plena avenida, aos arredores
Sem saber por onde se ia,
Sem esperar pela chegada.
É que todos pareciam tão certos.
— “É por ali”, saltou o jornaleiro.
— “Mas estou parado fazem duas horas, meu senhor…
Lhe pareço estar atrasado?” — disse-lhe.
— “Estou aqui há 40 anos, meu jovem…
Sei bem o que é ver a ida sem esperar pela volta”.
Tens razão, pensei. O que estou eu a aguardar então?
— “Te agarre ao que te aguarda”, dizia-me já a se voltar.
Pensei de pronto… pobre sujeito que sou
Quantas coisas me aguardam
E eu aqui, parado, a pensar.
Mas queria tanto ficar…
Cogitei o primeiro passo.
Espera… e por onde vou, se nem me lembro o porquê de vir?
E de toda aquela confusão, soltava o riso o jornaleiro.
— “Vamos, garoto… logo a multidão lhe arrasta
E aí terá de ser levado pelos outros…
Aproveite enquanto ainda há teu tempo!
Ainda há teu lugar!
Enquanto puderes estar contigo,
Não te faças isso de deixares-te levar.”
Aflito com a escolha a ser feita, lhe acenei:
— “O que me agarra ao momento parece-me serem os pés, jornaleiro!”
Fincados no mundo, eu suspirava…
Já me era suspeito de que fostes tu, dura vida
Que me aguardavas.
E então caminhei.
Desde então, por duas horas caminhava.























