Poesias de 1 a 99

Poema #07: Parado há duas horas

Estou parado há duas horas.
Já fui de um lado a outro
Fui de esquina a esquina
Percorri cada quadrado de chão.

É que me cansaram as pernas
Então deixei-me aqui.
Por um lado parece-me um tanto sagrado,
De outro, nefasto e ridículo.

É que andei tanto que já não tenho por onde ir.
Cumprimenta-me o passo do outro
Que por um lado atravessa a rua
Do outro, acena e desvia
Ou o de mais longe, que caminha
E eu, que já não soube de onde vinha
Só, via.

O movimento do mundo me desloca,
Por isso a pausa.
A náusea desta vida, caro Sartre,
É a de se encontrar em plena avenida, aos arredores
Sem saber por onde se ia,
Sem esperar pela chegada.

É que todos pareciam tão certos.
— “É por ali”, saltou o jornaleiro.
— “Mas estou parado fazem duas horas, meu senhor…
Lhe pareço estar atrasado?” — disse-lhe.
— “Estou aqui há 40 anos, meu jovem…
Sei bem o que é ver a ida sem esperar pela volta”.

Tens razão, pensei. O que estou eu a aguardar então?
— “Te agarre ao que te aguarda”, dizia-me já a se voltar.
Pensei de pronto… pobre sujeito que sou
Quantas coisas me aguardam
E eu aqui, parado, a pensar.

Mas queria tanto ficar…
Cogitei o primeiro passo.
Espera… e por onde vou, se nem me lembro o porquê de vir?
E de toda aquela confusão, soltava o riso o jornaleiro.

— “Vamos, garoto… logo a multidão lhe arrasta
E aí terá de ser levado pelos outros…
Aproveite enquanto ainda há teu tempo!
Ainda há teu lugar!
Enquanto puderes estar contigo,
Não te faças isso de deixares-te levar.”

Aflito com a escolha a ser feita, lhe acenei:
— “O que me agarra ao momento parece-me serem os pés, jornaleiro!”
Fincados no mundo, eu suspirava…
Já me era suspeito de que fostes tu, dura vida
Que me aguardavas.
E então caminhei.

Desde então, por duas horas caminhava.

Pedro D’Ambrosio

Pedro D’Ambrosio é ítalo-brasileiro, artista independente e assistente jurídico, atualmente habitando o interior do norte fluminense (RJ). Escreve entre a inquietação do pensamento e a delicadeza da forma, explorando temas como linguagem, existência, silêncio e travessia. Seu trabalho se movimenta entre a filosofia, a poesia, a música e a arte como gesto. É Licenciando em Filosofia pela UNINTER e também Bacharelando em Direito pela Universidade Candido Mendes, mas é no espaço sensível das ideias e das criações que constrói sua estrada. Fala inglês e italiano, e além da escrita, encontra nas viagens e no montanhismo experiências de escuta e abertura ao mundo.

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