Poesias de 1 a 99

Poema #74: ( )

Suspenso na tarde
como uma lâmpada queimada
num porão deserto,
figura o lado esquerdo
de um parêntesis aberto.

Seu estado resulta
do itinerário de sombras
em que um homem se perde
na solidão de seus próprios passos,
esquecidos sequer sem deixar uma marca.

Sua abertura demonstra
a imperiosidade do erro
que determina sempre
que as flores se abram para cumprir
seu papel de beleza e de decomposição.

O parêntesis aberto no escuro
não é senão a necessidade
de se sair do estágio de clausura,
quando se esgota (ou assim se imagina)
a fonte de oxigênio íntimo do ser.

Mesmo quando já se sabe
que na asfixia de ele estar fechado
sobrevive pelo menos a sua integridade,
e abri-lo significa a dispersão da energia
que ele guarda de si para si como um transistor.

Areia (À Fragmentação da Pedra)

Milton Rezende

Milton Rezende, poeta e escritor, nasceu em Ervália (MG), em 23 de setembro de 1962. Viveu parte da sua vida em Juiz de Fora (MG), onde foi estudante de Letras na UFJF, depois morou e trabalhou em Varginha (MG). Funcionário público aposentado, reside em Campinas (SP). Escreve em prosa e poesia e sua obra consiste de quinze livros publicados, quatro e-books e tem um blog e um site. Fortuna crítica: “Tempo de Poesia: Intertextualidade, heteronímia e inventário poético em Milton Rezende”, de Maria José Rezende Campos (Penalux, 2015). www.miltoncarlosrezende.com.br / estantedopoetaedoescritor.blogspot.com

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