Poema #74: (…………)

  • Poema #74: ( )

    Suspenso na tarde
    como uma lâmpada queimada
    num porão deserto,
    figura o lado esquerdo
    de um parêntesis aberto.

    Seu estado resulta
    do itinerário de sombras
    em que um homem se perde
    na solidão de seus próprios passos,
    esquecidos sequer sem deixar uma marca.

    Sua abertura demonstra
    a imperiosidade do erro
    que determina sempre
    que as flores se abram para cumprir
    seu papel de beleza e de decomposição.

    O parêntesis aberto no escuro
    não é senão a necessidade
    de se sair do estágio de clausura,
    quando se esgota (ou assim se imagina)
    a fonte de oxigênio íntimo do ser.

    Mesmo quando já se sabe
    que na asfixia de ele estar fechado
    sobrevive pelo menos a sua integridade,
    e abri-lo significa a dispersão da energia
    que ele guarda de si para si como um transistor.

    Areia (À Fragmentação da Pedra)

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