Poesias de 1 a 99

Poema #09: Exercício para um ausente

Falemos da esperança.
Sim, da velha andança
Da chuvosa lembrança
Onde te sondavas.

Vamos, falemos em novidade.
Digamos que vai tudo indo, sim.
Lá fora, diga que, ao todo, te aquietas
Fora tempo de espera. E te lembravas.

Este, foi-se?
Não soubera.
Tentaste um rumo, fostes sem manual
Sem estradas, fostes sem-terra.

Pois que era um domingo.
E que já não lhe haveria numa segunda
Para mais saudade.
Talvez na quarta.

Ai, quem me dera!

Esqueça, pois que já vens tarde.
Tens um brado enxuto, és estrangeiro.
Sobre ti tens a sombra do mundo
Lançado fostes à toda verdade.

Sem dizer-lhe qual.

Ao oposto cercaram-te.
Te atraíste. Devias, por te teres vivo, visto.
Trouxeram-no à enseada, despido.
Deram-te, como uma cena, por encerrado.

Pôs-te ao que te vinhas falto
Te tens liberto, filho, e não sabes.
Já não vias com teus olhos
Mas creste.

Tu lhes enxugava, já secos.
Cegaram-te, a sorrir-te os lábios.
Eras jovem, batido. Podias tudo.
Tinhas em ti a tolice dos sábios.

Pelo que vibravam.
Te retirastes.

Ataviaste um ponto.
Carregava-te um pensamento
Sob a alta margem.
O dissipaste em luzes.

Te deitaste.

Dando-lhe o assopro de toda a vontade
Anseia-me ver-te de novo.
Como quem te anseia, querida, lhe digo
Ah, que saudade.

Ainda que a figura mude.
Ainda que o vento mude.
Anseio-te, pois que venhas cedo.

Aprendeste, enfim, a dizer.
Fizera um convite.
Escreveu-lhe poesias,
Não deixaste um recado.

Te partias.

Pois que tudo o que sabia
Lhe tinha. Sabias nada.
Como bom servo ao coração, lhe obedecera
Assim escrevia, e sonhavas.

Ah, que saudade que sentia.

Que te chegues ao meio dia, que venhas.
Que surjas como astro-rei, que ardes
Se por caminhar pela cidade te demores,
Não te apresses, mesmo que te atrases.

Também vou-me indo, pois que é dia.
Pois que andei a dizer-me
Te preciso, e quanto mais anseio-te, te avisto
Nestes outros mesmos lugares.

Sob a torpe volta deste mundo ocluso
Ainda que vagueie noite sem rumo,
É a você quem procuro
Desejos mil de meus olhares.

Pedro D’Ambrosio

Pedro D’Ambrosio é ítalo-brasileiro, artista independente e assistente jurídico, atualmente habitando o interior do norte fluminense (RJ). Escreve entre a inquietação do pensamento e a delicadeza da forma, explorando temas como linguagem, existência, silêncio e travessia. Seu trabalho se movimenta entre a filosofia, a poesia, a música e a arte como gesto. É Licenciando em Filosofia pela UNINTER e também Bacharelando em Direito pela Universidade Candido Mendes, mas é no espaço sensível das ideias e das criações que constrói sua estrada. Fala inglês e italiano, e além da escrita, encontra nas viagens e no montanhismo experiências de escuta e abertura ao mundo.

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