Poema #09: Exercício para um ausente por Pedro D’Ambrósio

  • Poema #09: Exercício para um ausente

    Falemos da esperança.
    Sim, da velha andança
    Da chuvosa lembrança
    Onde te sondavas.

    Vamos, falemos em novidade.
    Digamos que vai tudo indo, sim.
    Lá fora, diga que, ao todo, te aquietas
    Fora tempo de espera. E te lembravas.

    Este, foi-se?
    Não soubera.
    Tentaste um rumo, fostes sem manual
    Sem estradas, fostes sem-terra.

    Pois que era um domingo.
    E que já não lhe haveria numa segunda
    Para mais saudade.
    Talvez na quarta.

    Ai, quem me dera!

    Esqueça, pois que já vens tarde.
    Tens um brado enxuto, és estrangeiro.
    Sobre ti tens a sombra do mundo
    Lançado fostes à toda verdade.

    Sem dizer-lhe qual.

    Ao oposto cercaram-te.
    Te atraíste. Devias, por te teres vivo, visto.
    Trouxeram-no à enseada, despido.
    Deram-te, como uma cena, por encerrado.

    Pôs-te ao que te vinhas falto
    Te tens liberto, filho, e não sabes.
    Já não vias com teus olhos
    Mas creste.

    Tu lhes enxugava, já secos.
    Cegaram-te, a sorrir-te os lábios.
    Eras jovem, batido. Podias tudo.
    Tinhas em ti a tolice dos sábios.

    Pelo que vibravam.
    Te retirastes.

    Ataviaste um ponto.
    Carregava-te um pensamento
    Sob a alta margem.
    O dissipaste em luzes.

    Te deitaste.

    Dando-lhe o assopro de toda a vontade
    Anseia-me ver-te de novo.
    Como quem te anseia, querida, lhe digo
    Ah, que saudade.

    Ainda que a figura mude.
    Ainda que o vento mude.
    Anseio-te, pois que venhas cedo.

    Aprendeste, enfim, a dizer.
    Fizera um convite.
    Escreveu-lhe poesias,
    Não deixaste um recado.

    Te partias.

    Pois que tudo o que sabia
    Lhe tinha. Sabias nada.
    Como bom servo ao coração, lhe obedecera
    Assim escrevia, e sonhavas.

    Ah, que saudade que sentia.

    Que te chegues ao meio dia, que venhas.
    Que surjas como astro-rei, que ardes
    Se por caminhar pela cidade te demores,
    Não te apresses, mesmo que te atrases.

    Também vou-me indo, pois que é dia.
    Pois que andei a dizer-me
    Te preciso, e quanto mais anseio-te, te avisto
    Nestes outros mesmos lugares.

    Sob a torpe volta deste mundo ocluso
    Ainda que vagueie noite sem rumo,
    É a você quem procuro
    Desejos mil de meus olhares.

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