Coluna ‘Poesias de 1 a 99’ por Milton Rezende

  • Poema #74: ( )

    Suspenso na tarde
    como uma lâmpada queimada
    num porão deserto,
    figura o lado esquerdo
    de um parêntesis aberto.

    Seu estado resulta
    do itinerário de sombras
    em que um homem se perde
    na solidão de seus próprios passos,
    esquecidos sequer sem deixar uma marca.

    Sua abertura demonstra
    a imperiosidade do erro
    que determina sempre
    que as flores se abram para cumprir
    seu papel de beleza e de decomposição.

    O parêntesis aberto no escuro
    não é senão a necessidade
    de se sair do estágio de clausura,
    quando se esgota (ou assim se imagina)
    a fonte de oxigênio íntimo do ser.

    Mesmo quando já se sabe
    que na asfixia de ele estar fechado
    sobrevive pelo menos a sua integridade,
    e abri-lo significa a dispersão da energia
    que ele guarda de si para si como um transistor.

    Areia (À Fragmentação da Pedra)

  • Poema #73: Valpurgis

    A inquietação daquela noite
    levou-me ao extremo de deixar a cama
    em pleno delírio da febre sem causa
    que me acometia desde há muito.

    Nunca em meus transportes noturnos,
    que eram então muito frequentes,
    eu havia experimentado essa ânsia de fuga
    que só se compara à de uma suicida na ponte.

    Corri como que alucinado fantasma
    até o porão da casa onde a umidade
    havia impregnado as paredes de morte,
    e peguei no baú o espelho quebrado.

    A chuva era intensa e os relâmpagos
    cortavam a estrada barrenta ao norte,
    para a qual fui levado rumo ao destino
    que o maldito espelho me reservara.

    O cemitério estava deserto e escuro
    mas havia um rumor quase que imperceptível
    entre as catacumbas, abertas na véspera
    para o desfecho insólito da profecia.

    Então eu pude sentir os murmúrios
    daqueles espectros putrefeitos pelo tempo,
    cujos aspectos de decomposição física
    acentuaram em mim a antiga náusea do futuro.

    Ali, em meio à tempestade de abril,
    o espelho quebrado que eu encontrara
    junto aos aposentos da velha inquilina,
    emitiu em reverberações estranhas e malignas
    um brilho intenso que me cegou os olhos.

    Agora sinto que a velha desfigurada se aproxima
    e toca meu rosto com suas mãos de morte vazia.
    Como num passe de hipnotismo ou subtração de raciocínio
    sou conduzido para o rito anual de bruxaria.

    O Acaso das Manhãs

  • Poema #71: Tratado de Anatomia

    A anatomia dos carros na rua
    revela a um homem que os vê
    (entre outras coisas)
    uma força neutra a interferir
    e modificar a paisagem desolada
    de quem anteriormente os criou.

    A anatomia das mulheres
    (independente dos lugares
    em que se encontram) remete-nos
    a uma forma viva de organização planejada
    onde a beleza é fruto dela mesma, transfigurada.

    A anatomia do pensamento de quem
    (por exemplo escreve este poema)
    nada mais é do que uma consequência imaterial
    de causa e efeito entre o sentir de maneira sensível
    diferentes realidades projetadas na sombra
    do poste de observação.

    O Acaso das Manhãs

  • Poema #63: Reivindicações

    Eu sei que eu mereço
    (embora talvez eu não venha a
    ter) o meu nome num nome de rua.

    Eu sei que eu mereço
    uma estátua de bronze
    na praça de Ervália.

    Eu sei que eu mereço
    denominar a Casa da
    Cultura como o poeta que sou.

    Eu sei que eu mereço
    casar com uma mulher
    negra, que é o meu sonho
    de consumo.

    Eu sei que eu mereço
    ter um aumento de salário
    para poder sobreviver.

    Eu sei que eu mereço
    ganhar um prêmio literário
    para pagar as dívidas.

    Eu sei que eu mereço
    pescar um peixe grande
    nas águas do tanque.

    Eu sei que eu mereço
    nadar como quem voa
    pelos céus de outro país.

    Eu sei que eu mereço
    cavalgar uma égua
    enfiando o dedo no seu cu,
    para ela andar depressa.

    Eu sei que eu mereço
    empinar uma pipa gigante
    que nunca será alcançada.

    Eu sei que eu mereço
    formar uma banda de rock
    e fazer muito sucesso.

    Eu sei que eu mereço
    ser aclamado e lido como
    nunca antes na história
    deste país.

    Eu sei que eu mereço
    receber uma homenagem
    de adeus e logo ser esquecido.

    Eu sei que eu mereço
    uma catacumba digna
    para descansar os meus ossos.

    Eu sei que eu mereço
    tudo isso, mas desconfio
    que não terei nada.

    O Jardim Simultâneo

  • Poema #60: Poema retirado de uma lápide

    No cemitério de Perdões
    Laura Alvarenga descansa.
    Moça bonita de 19 anos,
    falecida em 1920.
    Sentada numa cadeira,
    com um grande laço
    de fita nos cabelos
    e uns braços que talvez
    nem mesmo Machado
    sonharia descrever em
    seus contos de Assis.
    Laura Alvarenga
    de 19 anos de idade
    e seus olhos de Capitu.
    Uma fisionomia pensativa
    e meio triste de quem não
    antevia a sua própria morte,
    que chegaria tão cedo.
    Na sua lápide está escrito:
    “Saudade eterna de seus Paes
    e irmãos”. 87 anos depois
    eu contemplo sua fotografia
    num livro de pesquisa e penso
    que gostaria de tê-la conhecido.
    O que sabemos nós da vida?

    Uma Escada que Deságua no Silêncio

  • Poema #57: História Concisa

    Quando em meu peito rebentar-se a
    Que o espírito enlaça à dor vivente”.
      Álvares de Azevedo(1831-1852)

    O poeta dobra a esquina
    com uma sacola de plástico:
    pão, bife de hambúrguer e solidão.
    Não vale a pena chorar por ele:
    se fez as opções erradas,
    se tombou pelo caminho,
    nada fica além do fato
    de um dia ter existido
    e comido aquele sanduíche
    barato.

    Uma Escada que Deságua no Silêncio

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar