Poema de Pedro D’Ambrosio

  • Li ho visto passare

    Dove mi nasconderò?
    Dove mi sentirò?
    L’appartenenza non è più
    Che la gentilezza Di far nulla
    Senza
    Una scelta.

    Il poema sarebbe bello
    Se non fossi io
    A scrivirtelo,
    Dall’uomo che suona zero
    Insomma, dammelo subito!
    Che poi riesco a diventare…
    Ansito.

    Chiusa è l’ombra poiché si è
    avvolta alla finestra
    e finchè La parola più lunga
    Sotto l’esistenza esterna
    Trovasi infatti un esempio
    Cioè, una resistenza
    Incerta.

    Dimmi di più, dimmi di sì, di no…
    Su di noi lo scontro
    Sofferto, dal petto che brucia
    Esci la mia paura e
    La tenerezza…
    Un segreto mai detto.

    Discreto come lui
    Non ne ho scritto più di un verso,
    Di certo che l’ho fatto per me
    Ma perchè?

    Alzato ai monti
    Come si diceva, un desiderio
    Davanti quartiere Lumbo
    Un rumore di fondo
    Davano le ali al vetro

    E sin venuto l’insuccesso
    Era trascorso l’autunno
    Mentre gridavano gli ucceli
    “Sei tu il numero uno”
    – E vogliono lo zero… poi seguivano

    Caduti gli anni dalle grondaie
    Incrinate, poveri scopritori…
    Eravamo noi i secondari
    Dove nemmeno i primi erano
    Pronti a sopportare
    Così
    Il dolore!

    Venivano le tende, a volte…
    Scivolate e vertiginose
    Verso le fessure del tempo
    – “Hai visto tutto, uccellino…
    Adesso fategli un riscontro,
    un fischio nel cielo,
    oppure un salto cieco… qualcosa!
    Ma sincero.”

    Tornati al tuo nido buio…
    A mezzogiorno d’inverno
    È presto.
    E se non muoio…

    Così vedo le piume
    Indossare la luce
    di un invento
    eterno.

    Vi vocês, passando

    Tradução | por Bia Mies | do poema
    “Li ho visto passare”, de Pedro D’ Ambrosio

    Onde é que me esconderei?
    Onde reconhecer-me-ei?
    Já não há vínculo
    Além da gentileza do absoluto nada agir
    Carente de
    Escolha, uma.

    Emergiria beleza qualquer do poema
    Não fosse eu a escrevê-lo, a si
    Vindo do homem que vibra vazio
    Enfim, entregue-me de prontidão!
    Que ainda consigo tornar-me…
    Aflito

    Oclusa é a sombra por
    Enroscar-se à janela
    E porquanto a palavra mais longilínea
    Censurada pela existência externa
    Depara-se fatalmente frente ao modelo
    Quem sabe, brio
    Indefinido.

    Entoe-me além, diga-me sim, quiçá não
    Sobre nós contrastantemente
    Sofrido, ardendo-me o peito
    Desvaneço-me em temores
    Em ternura…
    Um segredo sequer confabulado.

    Prudente tal qual
    Não me atrevi além de um verso
    Convenço-me enfim, escrevi a mim
    Entretanto… por quê?

    Falido, levanto-me
    Como dizem, ambicionado
    À frente: os limites de Lumbo
    Rumores, logo ao fundo
    Asas conjuradas ao vidro

    Atrevido achega-se, pois, o fracasso
    Recuado o outono
    No mesmo passo grasnam, a mim, os pássaros
    “És único, oh, número mono”
    —  Querem doravante o não-dito… e então, seguem

    Escorridos se vão, calha abaixo, os anos
    Falhada aos furos, modestos desbravadores
    Éramos os de em seguida
    Onde sequer os pioneiros
    Prontos estiveram a suportar
    Assim
    Tamanha dor!

    Descortinavam-se, vez em quando
    Tecidos esvoaçantes e vertiginosos
    Rumo às frestas do tempo

    — “Viste de tudo, passarinho…
    Agora plana: entrega-lhes o perdão migratório
    Um pio-canto; verso em céu
    Ouse além, numa queda cega, livre… tanto faz!
    —  sin-cero”.

    Ao retornar – ninho para onde mingo…
    Ao meio-dia invernil
    É cedo.
    E se não me extingo…
    Assim me restam as plumas
    Vestindo a luz
    De um intento
    Eterno.

  • Poema #06: De tudo o que não sei dizer

    Se te olhasse de novo, te perceberia
    Se eu soubesse enxergar, ah, se soubesse…
    Quão terrivelmente felizes
    Seriam meus dias

    Temo não saber o depois.
    Pois quem nunca se perguntou…
    “E agora, o que vem”?

    Deixo vir.
    Mas temo…
    Não saber receber.

    Temo a teima de não saber
    Ser para saber.
    Temo ter de temer, e temer…
    E não viver outra coisa,
    Não ver a beleza,
    Fazer do outro jeito,
    Viver ao contrário,

    Não acertar nunca,
    Estar sempre ocupado
    De erros e não saber fazer
    Outra coisa senão ser.

    Mas se eu soubesse te ver
    Bastaria um olhar.

    Atravessado por um longo suspiro
    Ver-te-ia.
    Como se fosse a mais bela
    Maneira de errar.

    E desejaria que em todos os meus confusos desejos
    Não sobrassem acertos.
    Te teria em meus segredos
    E através de tais erros
    Não haveria mais medo, nem dúvida
    Coisa alguma que não fosse
    Sem jeito,
    sem tropeço

    Sem ter onde cair e me levantar.
    Desejaria esta vida
    E não outra.

    E por desejar esta,
    E não aquela,
    Não teria de ver assim, pelos olhos
    De quem sabe tudo
    A miséria,
    A quem errar lhe pareça tamanho absurdo
    Que se atam os olhos
    Para nunca ver transbordar a vida
    No olhar.

    Pois é assim que vivo:
    Ao meu ver,
    Sem saber e sem querer.
    Quando queres, aprisiona-te.
    Pois precisas ver.
    Quando enxergas, então sabes como amar.

    E por viver assim,
    Quiçá fosse o fim
    E tu, serias o começo.
    E pelos meus primeiros erros
    Saberia, enfim, a quem olhar.

    E por te olhar assim não sobraria a pressa.
    A vista seria o preço.
    E a ti, infinda razão de meus erros,
    Achegar-me-ia
    Para onde te pudesse enxergar.

    E por tua chegada
    Contar-te-ia tudo o que, por acaso,
    Me fizeste ver.
    Não restaria outra coisa.
    Quando chegaste, me fizeste aprender a amar.

    E por ver o amor, voaria
    E passaria os meus dias
    A amar tudo o que, pela falta de ti,
    Não via;

    E na evidência de tamanhos erros
    Não restaria outra coisa a se ver.

    Se por amar-te estivesse, assim, errando,
    Escolheria errar todos os dias,
    E em todos eles,
    Errar te amando,
    E te amar.

    Quando amo, entregam-me os olhos.
    Já não detém-me o discurso e
    Não prefiro mais a palavra.
    Basta-se a ponta do sorriso,
    Basta-se a força da risada.

    E desse modo, percebendo-te, vi
    Que tudo o que mais temia
    Era ver o que não sabia como.
    Mas tu, só tu
    Sempre me alcançavas.

    Não importa se demoras…
    Cada hora sempre atinge seu lugar.

    Quanto a mim,
    Agora que a vejo, já não mais me enganam os
    lábios:
    Só aprendendo a ver, com você,
    Tive onde o amor
    Encontrar.

  • Poema #05: Não É Aqui, Mas Perto

    Estou debruçado
    sob a fagulha do instante.
    Me distorço enquanto crio
    a ilusão de um esboço para algo
    que sequer sei o quê.

    Ouso um salto, um pêndulo.
    Giro de cá e de lá.
    Laço-me à vertente de um vértice,
    dobro os olhares e os reviro, o sintoma.
    Tu, que me devoraste.

    A vertigem do hoje faz hora
    Há tempo…

    Apressa-te, que o passo é passado.
    Vagueia a tormenta, é futuro.
    Perdoa o vivido, é achado.
    Lamenta, já se fora perdido
    feito pássaro garrido,
    debatendo-se,
    sangrando,
    só,

    estilhaçado.

    Tomba-me a silhueta assombrosa.
    Insinuo que assim continuo.
    Pesa-me o pestanejo, pelos
    entulhos do mundo, filhos
    da moral errante,
    do tocante instrumento de voz,
    secularizado pelo silêncio
    nas penumbras
    corriqueiras, talhados em
    estantes.

    O momento que pulsa tenaz
    é fruto bastardo, pauso.
    Um entrave, acordo
    em um lapso constante.
    O retenho aguçado, assim apazigua-me a
    centelha, o bastante.

    Entrelaço
    um acorde dentre as
    frestas da forma.
    Cravo o risco em páginas

    onde clamo, se por forçosa a teima,
    que ouça o riso da peste
    que sofre, que sonha.

    Estão cansados os poetas.
    Aos retirados à pruma
    surte o rumo da crença.
    E quanto à verdade, meu pai..
    É certo que dela me esqueça
    perene, enquanto perdure
    o delíquio de vossas cabeças
    renques, trépidas de um senso
    cabal,
    diz-se amargo
    o careta.

    A estibordo este vórtice
    que me devora, que me devora..
    Sinuosa esta vida
    que me despoja o agora
    e que sopra, sopra…
    Mas se por dizer
    que escrever possa ser
    velejo,

    e se a vida for mar…
    Viver seja tornar o sopro forte
    E amar, amar bem depressa,
    pois querer vê-la, já
    é tocar
    o amor
    de toda a sorte.

  • Poema #04: Sujeito Itinerário

    Sentar-se à varanda e deliciar-se com as
    passadas, dos sons da cidade,
    com a corrente inóspita do tempo…

    Ao silêncio de um lago turvo
    que se desdobra,
    sobre as luzes que escapam, e a vida que
    existe…

    como que o
    mundo as retirasse de si.

    E notar as ondas eternas das horas
    que mergulham sob a vastidão
    de um verso transitório,
    entre aquilo que se é
    e o que se fora.

    Estou farto de uma existência
    relapsa e
    repentina; deste lampejo
    imediato que submerge
    e estilhaça
    o vislumbre do agora,

    que faz do movimento
    um ressentido,
    detrito sintático,
    repleto de esquecimento.

    Quero é olhar o nada e sentir preencher-me,
    poder tocar em volta
    e correr por sobre o vento,

    e sem a permissão do dito tempo
    arriscar-me a
    pensar em tudo;
    a habitar o espaço
    de um momento.

    É… é preciso de pouco nessa vida.
    Ah, como preciso de tão pouco!
    Mas, do que realmente preciso?

    Não sei.
    O jeito mesmo
    é ir vivendo.

  • Poema #03: PRESSÁGIO

    Vê onde há dor,
    vá onde se avista,
    doa o que não se pede,
    perca o que não se dói.

    Foi o que não se via,
    viu o que não se achava,
    trouxe o que não devia,
    deveu o que não se tinha.

    “Terei onde ser um outro,
    verei o que há de novo”,
    tentou ser tudo que tinha
    viveu feito vivo-morto.

    “Saudade é da liberdade”,
    cantava o finado rouco;
    mas tudo o que era livre
    fizera de caso pouco.

    Saudade é da boa turma,
    teimosa que só a rima:
    largava, sentia, ouvia;
    era a vida do bicho solto.

    Onde fora tal maledicência
    que só o tombo levava o rito?
    O tinha o decurso, o todo
    fez da fome o que tinha dito.

    Repetiu o que se lembrava,
    calejava o suor da testa,

    uma vida já percorrida
    se de si esquecida,
    de que resta?

    A turma já como desfeita
    anunciava o discurso às pressas;
    foi o que não era
    e não se via.

    Eis a sutileza:
    Viver é afetar a vida com a espera.

  • Poema #02: Trinta e sete tonais de tinta

    Foram precisos tantos
    e tais quais tonais
    de tons entonados
    de tamanho eterno
    e com ternura tal..

    Teria tido eu
    um tempo ao qual
    tenro, turvo, talho,
    traços de tinta em rabiscos

    e tirando tudo de trás…
    teria eu tentado?

    Se tentei foi por tentar.
    Tirava tudo o que me trazia,
    talvez até mais…
    onde coubesse tanto.

    Traste! – terminei traçando,
    “É o que se diz”, entoei
    “quando muito se tem,
    pouco se tenta”
    .

    Pois quero tentar ter nada.
    Ou mesmo tais tonais quais
    que não tires de mim tanto
    que sou tinta entornada,

    tecido traçado no túnel
    de um tempo tirano;

    em torno de tudo,
    envolto de tanto,
    esboço de lata

  • Poema #01: A Viagem

    A gente corre e esquece
    O tempo aquece, escorre
    Se a vida dança, eu rio
    Se a vida flui, eu sambo

    De lá eu vejo, sinto
    De longe eu peço, e fico
    Da rua, a terra, o transe
    A moita, espreita, um tanto

    Eu tive sede e sonho
    Vivi a luz, a sombra
    Timbrei um brado, um tinto
    Um feixe aceso, o sangue
    Da lua negra, um grito
    Afresco a palo seco
    Memória, o vulto, o vício
    Esqueço, vejo;
    Me desencontro

    Tolice a velha sina
    O ter não quer ser tido
    O lado oposto, o tempo

    Se rompe o véu, um rastro

    Um astro, um sal, um vento
    A pena diz assim levanto
    A vida que se espreita
    Espreme, exprime, espanto

    Domingo eu ligo o rádio
    Disfarço um beijo, encaro
    A rima, um desperdício
    A vida, um ter sem rumo
    O ter, um tempo em branco

    Eu finjo um fato, um feito
    Um tapa, o tom do sério
    Eis a vergonha boba
    Viver é só mistério.

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