Crônicas

A bolita, o conflito e o mundial vendido pelo Guarany de Bagé

Fora da província, poucos conhecem a história. Nos jornais soltam abobrinhas, cogitam motivações econômicas e até levantam causos das antigas sociedades secretas que, segundo eles, ainda dominam o mundo. Na verdade, não é bem assim. As coisas são mais simples do que parecem. Os noticiários inventam essas bobagens para atiçar a curiosidade do povo, para vender assinaturas e para cobrar cada vez mais caro pelos espaços reservados aos anunciantes. No fim das contas, não deixa de ser uma questão de dinheiro, com pouca ou nenhuma relação com os fatos e com a verdade.

Aqui, no entanto, essa história de conflito entre Estados Unidos e Rússia não pega ninguém desprevenido. Para alguns, pode ser novidade, mas é preciso esclarecer: a verdadeira nacionalidade de Donald Trump é argentina. O seu pai vinha pescar no rio Uruguai, era um açougueiro conhecido e, por aqui, chamado de velho Trapo. Ninguém entendia bem aquele sobrenome, estavam mais acostumados com os López, os González e os Fernández.

Vez ou outra, o velho Trump vinha com um amigo, um tal de Milei, avô do atual presidente. Esse sim, um baita encrenqueiro. Quando Milei aparecia, era difícil retornarem à Argentina sem um quebra-pau ou um tiroteio. Pegou mal também para Trump, claro. Naquela época, até o açougue começou a definhar. De fato, maus ventos vêm com maus amigos. O problema só terminou quando o próprio Erico Veríssimo interviu. Todo diplomata, chamou o velho Trapo para uma conversa e explicou a situação: — Pois então, nada contra você, sabe como é, mas o seu amigo ali é meio difícil, daqui a pouco vai acontecer uma tragédia, somos um povo pacífico… —. Isso foi em fevereiro de 62, pouco antes do velho Trump vender o açougue em Tapebicuá e partir de mala e cuia, sem contar nada a ninguém.

O ano de 1962, aliás, foi mágico para o esporte gaúcho. Poucos comentam, é verdade, mas o antigo continental teve nas semifinais: Ypiranga de Erechim contra o Club Atlético Peñarol, e Guarany de Bagé contra o Racing Club. Dos quatro jogos, contando ida e volta, foram registradas apenas oito confusões, duas brigas de faca e um morto por bala perdida. Era um torcedor do Internacional. A final foi entre Ypiranga e Guarany, em jogo único, marcado em campo neutro, no estádio do Esporte Clube 24 de Maio, em Itaqui.

A mobilização foi enorme. Veio gente da Argentina, do Uruguai e do Rio Grande todo. Conta-se, inclusive, que uma caravana partiu diretamente de Assunção, no Paraguai, mas foi interceptada pela polícia e não concluiu o trajeto porque no ônibus havia mais peso em cocaína do que em seres humanos. O Guarany de Bagé tinha contratado um famoso ponta-direita uruguaio e por isso, muitos dos seus conterrâneos apareceram, inclusive o olheiro da seleção, Armândio Putin.

Foi lá, durante a final do continental, num terreno baldio, ao lado do bar, que o filho de Putin ganhou do filho de Trump num jogo de bolita. Trump-filho, uma criança mimada e problemática, não aceitou a derrota. Putin-filho zombou fervorosamente do adversário. E o Guarany de Bagé se sagrou campeão com um gol do uruguaio Ghiggia. Quem capturou a história foi Paulo Santana, um jovem estagiário do Jornal Zero Hora, que bebia um refrigerante no bar enquanto as crianças brincavam. Dois dias depois, publicou um pequeno texto sobre o jogo, enaltecendo o Guarany e lembrando da breve e engraçada confusão gerada por uma partida de bolita. A reportagem teve o título: “Entre bolas e bolitas: Guarany de Bagé é campeão do continental”.

Logo depois, Ghiggia se tornou um astro do futebol uruguaio, o olheiro Putin foi recrutado pela seleção da União Soviética, o açougueiro Trump se mudou para a América e o Guarany de Bagé, como é sabido por essas bandas, vendeu o título mundial para o Real Madrid. O resto é história.

Alexandre Leidens

Alexandre Leidens é um cronista nascido em Gaurama/RS radicado no Paraná, leitor compulsivo, cínico e pessimista. Retrata os meandros do cotidiano com o desdém tragicômico dos velhos ranzinzas. Também trabalha com coisas sérias, mas gosta mesmo é da reclamação e da fofoca. Hipócrita assumido, rouba livros sempre que possível e sem culpa. Adepto do chope gelado e da conversa fiada, só gosta do verão quando vai à praia. Escreve quinzenalmente para o site Crônicas Cariocas.

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