
Entre páginas e anos
Desde pequena, sempre gostei de escrever frases soltas, inspiradas ao olhar uma cena comum do cotidiano ou ideias que surgiam assim, sem aviso. Meus cadernos de escola não tinham páginas vazias. Eu fazia meus diários ou anotações onde houvesse um espacinho limpo.
Ao final do ano, meu tesouro era guardado. Tudo preenchido com minha letra de menina tímida na vida real, mas confiante nos pensamentos, nas dúvidas e nas certezas com que eu olhava o mundo. O estudo misturado aos devaneios.
Quando adulta, já trabalhando, ao final de cada ano, os clientes nos presenteavam com agendas, sempre bonitas, variadas. Um presente esperado por mim, não pelo objeto em si, mas pelo uso que eu dava a ele.
Eu folheava aquelas páginas organizadas, cheias de categorias que nunca foram do meu universo. Condomínio, CNH, passaporte, consórcio. Bastavam-me três ou quatro linhas. O restante ficava em branco, à espera de uma utilidade que não me pertencia.
E assim, aquelas agendas viravam diários. No ano seguinte, eu começava outra, nova, como o próprio tempo que se abria diante de mim.
Anos depois, ao folhear uma agenda antiga, às vezes eu não me reconhecia. O tempo e a idade são implacáveis. Aqueles sentimentos, ideias e planos já não tinham o mesmo peso. A vida é dinâmica, ainda mais aos vinte e poucos anos.
Hoje, faço dessas lembranças um exercício de fim de ano, quase uma autoanálise. Escrevo contos, reminiscências, crônicas, muitas delas saudosistas. Liberei um lado meu que esteve por muito tempo guardado e passei a escrever também sobre o amor, sobre o desejo. E assim vou seguindo.
Acredito que escrever é uma necessidade que nasce no coração. A mente apenas traduz. E então, escrevemos.
Depois, lemos. Refletimos. Às vezes nos reconhecemos, às vezes não. Mas, naquele instante, aquilo foi verdadeiro.
Se um texto desses se transforma em conto, em crônica, se desenha um sorriso ou arranca um suspiro de quem lê, então já cumpriu seu destino.
E se um dia termina numa fogueira, como eu fazia, ou no descarte silencioso de papéis antigos, é porque cumpriu o seu papel.
Literalmente.
























