Contos
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Tuco se suicidou. Era vizinho de Zími. Encontravam-se eventualmente nu elevador do prédio em que moravam e raramente as conversas passaram do “bom dia, boa tarde, boa noite”. Zími, no entanto, podia compará-lo a um repolho cheio de rancor. Ou a uma balança moral com defeito. Sabia que eram ideologicamente antagônicos. Vizinhos do prédio contaram a Zími sobre a morte de Tuco pouco depois da polícia científica deixar a garagem do prédio. O que havia
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O leito do hospital era alto de muitos metros. Eu olhava o mundo de cima, com galhardia. Eu olhava o mundo como quem não olha. Eu não olhava o mundo: a vida passava. Era noite alta. O leito alto era um leito de muitos ruídos: motos, carros, ônibus, tratores, uma bomba atômica, meu Deus! Todos os barulhos do mundo chegavam ao meu leito. Era escuro. Eu estava alto, ouvindo todos os barulhos do mundo, e alheio. Doía. Em algum lugar do mundo doía. Doía em mim.
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Na estação rodoviária da cidade, entre um quiosque que vende lembranças para turistas e uma lanchonete, há uma loja de despedidas. Ali, os viajantes solitários — aqueles seres que transitam de um lugar para outro sem que haja ninguém que se despeça deles — podem escolher a melhor forma de partir da cidade. Há despedidas para todos os gostos, ânimos e possibilidades financeiras. Os atores contratados pela loja, de todas as idades, são muito experientes e tr
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Não tenho mais medo do futuro. Minha mulher sempre me falou para curtir o presente, que “a vida é o agora!”. Mas, filho de um pai escrupuloso, tive a tendência de seguir os seus passos seguros. Criado por ele, devia ter uma “consciência econômica” – esta frase ecoa ainda hoje – quanto aos gastos, inclusive com a alimentação. Não se podia tomar mais de dois copos de café por dia. Não se podia comer mais de um pão francês. Tudo era racionado, fracionado, e n
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Beiça era o apelido de César Albuquerque Valladares. Vestia-se como tivesse sido arrumado pela mãe para ir à escola, mesmo com quase cinquenta anos de idade, mas de sua boca qualquer narrativa sobre problemas do cotidiano ganhava uma dimensão épica e fazia quem estivesse por perto pensar e muitas vezes ter vergonha de si mesmo em algum aspecto. À primeira vista, parecia ter saído de um retrato de família de 1890. Era designer gráfico. T
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O Zé Preto se acomodou, ajeitando o cobertor. O Espanhol deu um puxão: — Esse cobertor é meu. O Zé Preto empurrou o outro com a bunda. Riram. — Vai tomar no “cu” — um disse para o outro. E riram. Passou um carro numa poça e jogou água nos dois. — Vai se foder — o Espanhol gritou, se levantou e ficou esbracejando contra o carro, que já tinha virado a esquina da rua Brás Cubas. O Zé Preto correu pegar uma pedra. O Espanhol avançou contra ele com uma ba
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Os três dividiam a cela. Um era alto, magro de olhos pequenos e negros, outro era gordo e de corpo nervoso, o terceiro era miúdo e de pouco espírito. Foram condenados à morte por um tribunal improvisado. Isso era tudo o que sabiam a respeito de seu destino. Nem se preocuparam em ler a sentença, conteúdo já sabido pelos três. Também não lhes disseram quando seria a data fatal. Eles só esperavam, jogando baralho e alguma conversa fora. De vez em quando inter
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Mãe: “Meu filho, você está indo pra onde?” Filho: “Estou indo pra minha nova casa.” Mãe: “Você não tem outra casa! Largue de ser ridículo!” Filho: “Eu não tinha, mas agora eu tenho dezoito anos e terei. Vou morar com a minha tia.” Mãe: “Com que dinheiro você vai viver?” Filho: “Sou copywriter, economizei uma grana, ainda que pouca para os padrões burgueses. E minha tia, que pra mim é como irmã mais velha, já tem o apartamento dela, que será dividido comigo
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Já sei bem que é Carnaval. Os sons da rua anunciam a jornada – repare que até os pássaros são proibidos de cantar, com a arruaça que se desorganiza pelo Centro da cidade. Ronaldo, meu vizinho, saiu cedo, às 5h, e me deu notas de como serão as suas aventuras pelas praias do Ceará. Falou que iria de Beberibe a Paracuru, com os detalhes de ser uma grande viagem em família. Parariam nas praias para curtir um pouco do que tinham para dar. “Sou folião nato, Inoj
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Orfeu chorou tudo o que pôde quando Eurídice desceu ao mundo dos mortos. Suas lágrimas encheram oceanos até seus olhos ficarem secos. Vendo que o pranto havia desaparecido, e como forma de manter viva a memória da esposa a quem amava sobre todas as coisas vivas, passou a cantar. E viu que cantar era bom e que todos os que o ouviam se deleitavam. Os passantes, antes de tomarem o metrô, jogavam moedas e um sorriso para o músico maltrapilho sentado no chão na
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Não tinha nenhuma pretensão de me esquivar. Sou jogo aberto, embora um pouco carrancudo. Apesar da minha masculinidade exacerbada, dei total liberdade aos meus filhos. Paulinho era o único que não se abria muito. Vez ou outra, mesmo depois da separação de sua mãe, tentava uma saída só nossa, para assistir a um filme ou tomar uma. Ele sempre desconversava, e eu sentia uma saudade danada. Paulinho, depois dos dezessete, notei, se tornou introvertido. Um meni
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Quando Zími entrou no apartamento, a tábua do piso fez barulho. A luz do quarto de Mila Cox acendeu, ela abriu a porta e falou: “O universitário quer fazer a entrevista com você. Certamente porque te considera um punk velho, cheio de histórias pra contar. Deve ser machista, pouco acostumado com mulheres no rock. Ele disse que colou no show de Santo André.” Ela anunciou a ele que um jovem que estava presente no fim de semana anterior numa apresentação
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O Zé roubou a Cida, só porque era vesgo o pai não permitia o casamento? Não foi por esse motivo, a Cida estava prometida a um outro – e promessa é dívida. No dia seguinte, ainda no orvalho da madrugada, escurinho, os dois irmãos bateram na porta do Zé, que ele saísse fora de casa, para morrer. O Zé saiu de peito aberto, olhou nos olhos dos cunhados e mandou que atirassem. Os dois tremeram na pontaria – diacho de homem que olha para um lado e a gente pensa
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Um dia o azul desapareceu. Olhamos para o céu com cara de espanto. Alguém palpitou que uma tempestade se aproximava, mas aquele cinza parecido com aço sobre a cabeça de todos não tinha nada a ver com os temporais costumeiros do mês de abril. Era diferente. Havia um cheiro, um quê desconhecido que tornava aquele dia distinto. O amarelo também sumira. Ao anoitecer a luz acabou. Os namorados não se encontraram, as ruas ficaram vazias e o silêncio se impôs, tã
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Tento não crer nessa tristeza que me abala. Já são muitos os motivos para sofrer. Tá pensando que é por coisas externas, como a falta de minha mãe? Não, absolutamente. Perdi-a, como perdi o meu pai, num acidente de trânsito, ainda na infância. Fui criado por uma tia pobre e carrasca. Ela se satisfazia em me ver padecendo. A comida era fracionada. Seus filhos comiam mais. Nunca fui com a cara de nenhum, todos bandidos, literalmente; são assaltantes finos. P
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Zími acordou cedo e estava em bom estado. Trabalha em casa, assistindo antes ao noticiário da manhã, que lhe agrada por mostrar ao vivo as condições surreais do transporte público. Ele estava livre disso depois de anos, mas a forma como o povo é obrigado a se deslocar para o trabalho como gado de corte ainda o chocava. Nunca havia o menor esboço de rebelião por parte de quem é obrigado a simplesmente doar todo o tempo e energia de sua vida e aind
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Aqui venta sempre desse jeito, sim senhor. Acho que é por isso que chamaram aqui de Ventania. Em Dois Córregos também venta muito. Foi a minha irmã, a Cida, que me contou. Não, eu não conheço lá. O senhor não está vendo as minhas pernas? Eu não conheço lugar nenhum, eu só conheço aqui. A Cida é quem me conta as coisas. Ela diz que Dois Córregos não é muito grande, mas que é muito maior do que aqui. E deve ser bem maior mesmo, pelas coisas que ela conta que
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Ele tinha se tornado a principal atração daquela cidade à beira do mar. Quem lá fosse certamente ouviria na volta: “E aí, foi ver o…? O que achou?”, “Me conte, como é o…?”, “Não me diga que não foi ver o…!”. Era quase uma obrigação, para qualquer turista, visitar o… Ver o… era a revelação de um segredo, a que só pessoas especiais tinham acesso. No dia mesmo de minha chegada fui avisado pelo guia turístico de que naquela noite
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Nada que pudesse dizer me livraria do pecado. Eu havia matado, ainda que por puro instinto e defesa. Naquela noite, eu lembro, estava afobado e cansado. Entrei em casa arrastando a bolsa do trabalho no chão. Havia brigado com o meu chefe Roberto por causa da sua implicância comigo; ele tem a mania de dizer que faço corpo-mole, e isso é mentira: dou o meu sangue para a empresa. Cheguei em casa como um verdadeiro verme ambulante. Não tinha estímulo para nada
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No aniversário do vovô, a neta diz a ele: “Vovô, você foi chamado de soberbo pelo resto da família desde muito antes de eu saber o que isso queria dizer, mas tem sorte por já ter vivido bastante e não ter que se preocupar com o futuro, né?” O vovô respondeu: “Nunca me preocupei com o futuro. Sempre temi pelo presente mesmo. Mas nunca na mesma intensidade de hoje em dia.” Neta: “Sim, mas você não é tão velhinho como os vovôs dos meus amigos. Tem algum medo
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A coisa mais triste do mundo era a vó Ana me fazer as tranças. Eu ficava com a cabeça cheia de caroços de tanto croque que tomava para ficar quieta. Mas todo mal tem o seu bem: a compensação era ouvir a vó Ana falar dos seus maridos. Estavam pendurados na parede da sala, todos com a mesma idade, parecia, uns trinta anos, e todos um a cara do outro: ruivos, com a bochecha meio pipocada, um bigodinho aparado bem fininho, o beiço caído, de choro, e os olhos m
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De longe só se vê que há luz no quarto, mas pouco se distingue o que acontece lá dentro. Com meu binóculo, escondido atrás da cortina no apartamento do prédio em frente, tenho visão privilegiada e posso ver tudo com detalhe. Posso vê-la tirar a roupa, por exemplo. Como agora. Ela acabou de entrar no quarto. Jogou a echarpe no chão e sentou-se na borda da cama para tirar os sapatos de salto. Joga-os num canto. Começa a desabotoar a blusa. Noto que está um p
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Olho pela janela: é o Rio de Janeiro nublado e muito frio. Oculto. Imenso. Quase irreal. Ouço em meu headphopne um dos CDs que ele me deixou. Agora, uma grupo sinfônico que toca música do Metallica. Músicas de vários estilos e artistas estão misturadas num CD que ele me deu, pois ele é viciado em montar coletâneas, mais ou menos como faz aquele personagem do livro Alta Fidelidade, do Nick Hornby. Antigamente ele fazia com fitas, agora são CDs. Agorinha mes
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Na falta de Ana, me apeguei a Larissa. Não é que fosse um pai relapso, mas dei muita importância ao meu trabalho, e deixei a infância de minha filha de lado. Não sou também um pai muito amoroso, apesar de tentar. Minha filha sempre procura chamar a minha atenção com conversas desconcertantes, como paquera e outras coisas do gênero. Não consigo ver sexualidade numa menina de oito anos. Por que ela está pensando tanta besteira? Meu Deus, às vezes me dá um ap
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Seus trabalhos remunerados os sustentavam e não eram tão degradantes. Mila Cox e Zími sabiam que a distância que mantinham do mainstream era de se esperar. A repercussão que conquistaram resistindo, e às vezes se arrastando no underground durante os últimos anos, era satisfatória. Eles gostavam de acreditar que a dor existe no que há entre aquilo que as pessoas são, e aquilo que elas idealizam ser. Como eles não tinham o ego inflado, estava tudo bem.&nb
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A mãe precisa dormir no emprego, mas não pode deixar o menino sozinho em casa. – Sabe – ela diz – a minha casa foi da minha mãe, e antes foi da mãe dela. É da família, de geração em geração. Serve-nos uma xícara de café, e continua: – O menino sente a presença da vó. Tem medo. Ela era brava. – Mas ele conheceu a vó? – Ela morreu há vinte anos; ele tem onze. – Então, é porque fica sozinho naquele casarão? – A vó fica com ele. Ela nunca iria sair da sua casa
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Duvidou. Não era mais momento para dúvidas, estava já com uma perna sobre a mureta da ponte, mas duvidou mesmo assim. Viu o pássaro que, não fazia um minuto, pousara perto dele e o observava com os olhinhos apertados de ave. Pelo menos foi isso que imaginou: aquele pássaro adivinhou o que ele estava prestes a fazer e veio para dissuadi-lo. Foi aí que duvidou. Num repente, a vida não pareceu tão bruta. Sentiu um pouco de alegria, a primeira vez em anos. Hav
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Não há palanque para bobeira. De minha parte, não vou dar cartaz. Lícia tem a mania de aparecer, de se fazer chamativa na internet. Quer ser influenciadora. Mas de quê, meu Deus? Não tem modos. É exagerada. Uma pessoa pobre, insuportavelmente sem intelecto. Não gosta de ler. Já falou que abomina os livros – espero que não diga isso para os seus influenciados – que também não têm nada na cabeça, só pode, para seguir uma pirralha metida a sabichona. É pratic
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A avó tinha mesmo pintado o cabelo de azul, foi para o churrasco da família só para beber e usava uma camiseta do Circle Jerks. Ela só falava quando solicitada. E embora fosse, a princípio, econômica em suas falas, uma vez que engrenava num assunto de seu interesse, nada podia detê-la. Isso deliciava a curiosidade dos netos e causava atrito com os filhos, um casal de gêmeos adotivos. Ainda assim, conversava com os netos sobre qualquer tema que lhe fo
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Ainda há fumaça saindo da cinza. Ainda há um inexplicável cheiro de rosas, entre as ruínas da casa, sob a cinza. Como se o cheiro das rosas saísse de debaixo das cinzas. Nenhuma parede em pé, móveis queimados, objetos vagos: ruínas. Ergo um busto de gesso, uma Vênus com a cabeça decepada, ao lado, que sorri ainda o seu sorriso sensual. Olho-a bem: o sorriso se crispa de dor. Levanto um martelo do chão. Para que serve um martelo, agora? Quebro o tampo de má
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