Contos

  • Ele tinha se tornado a principal atração daquela cidade à beira do mar. Quem lá fosse certamente ouviria na volta: “E aí, foi ver o…? O que achou?”, “Me conte, como é o…?”, “Não me diga que não foi ver o…!”. Era quase uma obrigação, para qual

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  • Nada que pudesse dizer me livraria do pecado. Eu havia matado, ainda que por puro instinto e defesa. Naquela noite, eu lembro, estava afobado e cansado. Entrei em casa arrastando a bolsa do trabalho no chão. Havia brigado com o meu chefe Roberto por causa da s

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  • No aniversário do vovô, a neta diz a ele: “Vovô, você foi chamado de soberbo pelo resto da família desde muito antes de eu saber o que isso queria dizer, mas tem sorte por já ter vivido bastante e não ter que se preocupar com o futuro, né?” O vovô respondeu: “

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  • A coisa mais triste do mundo era a vó Ana me fazer as tranças. Eu ficava com a cabeça cheia de caroços de tanto croque que tomava para ficar quieta. Mas todo mal tem o seu bem: a compensação era ouvir a vó Ana falar dos seus maridos. Estavam pendurados na pare

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  • De longe só se vê que há luz no quarto, mas pouco se distingue o que acontece lá dentro. Com meu binóculo, escondido atrás da cortina no apartamento do prédio em frente, tenho visão privilegiada e posso ver tudo com detalhe. Posso vê-la tirar a roupa, por exem

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  • Olho pela janela: é o Rio de Janeiro nublado e muito frio. Oculto. Imenso. Quase irreal. Ouço em meu headphopne um dos CDs que ele me deixou. Agora, uma grupo sinfônico que toca música do Metallica. Músicas de vários estilos e artistas estão misturadas num CD

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  • Na falta de Ana, me apeguei a Larissa. Não é que fosse um pai relapso, mas dei muita importância ao meu trabalho, e deixei a infância de minha filha de lado. Não sou também um pai muito amoroso, apesar de tentar. Minha filha sempre procura chamar a minha atenç

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  • Seus trabalhos remunerados os sustentavam e não eram tão degradantes. Mila Cox e Zími sabiam que a distância que mantinham do mainstream era de se esperar.  A repercussão que conquistaram resistindo, e às vezes  se arrastando no underground durante os últimos

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  • A mãe precisa dormir no emprego, mas não pode deixar o menino sozinho em casa. – Sabe – ela diz – a minha casa foi da minha mãe, e antes foi da mãe dela. É da família, de geração em geração. Serve-nos uma xícara de café, e continua: – O menino sente a presença

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  • Duvidou. Não era mais momento para dúvidas, estava já com uma perna sobre a mureta da ponte, mas duvidou mesmo assim. Viu o pássaro que, não fazia um minuto, pousara perto dele e o observava com os olhinhos apertados de ave. Pelo menos foi isso que imaginou: a

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  • Não há palanque para bobeira. De minha parte, não vou dar cartaz. Lícia tem a mania de aparecer, de se fazer chamativa na internet. Quer ser influenciadora. Mas de quê, meu Deus? Não tem modos. É exagerada. Uma pessoa pobre, insuportavelmente sem intelecto. Nã

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  • A avó tinha mesmo pintado o cabelo de azul, foi para o churrasco da família só para beber e usava uma camiseta do Circle Jerks.  Ela só falava quando solicitada. E embora fosse, a princípio, econômica em suas falas, uma vez que engrenava num assunto de se

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  • Ainda há fumaça saindo da cinza. Ainda há um inexplicável cheiro de rosas, entre as ruínas da casa, sob a cinza. Como se o cheiro das rosas saísse de debaixo das cinzas. Nenhuma parede em pé, móveis queimados, objetos vagos: ruínas. Ergo um busto de gesso, uma

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  • Minha mulher, Maria da Graça, há dez anos padece de esquecimento. Seus olhos enxergam, mas não veem e, quando veem, não reconhecem o que viram, como se tudo que se apresentasse na frente deles fosse novidade: o vaso azul de porcelana, o relógio perto da janela

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  • Ano-Novo. 2026 está aí. Caminho em direção à casa de meus pais, solitário. Como moro a cerca de duas quadras, resolvi ir a pé. O sapato esquerdo aperta, por conta do joanete, que quase expõe o osso para fora. Caminho devagar, para amenizar a dor. Penso: por qu

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  • A menininha se aproximou com um objeto na mão. Mostrou para o menininho sentado no banco, num canto isolado. – Me dá um pedaço do seu lanche. Eu te mostro o meu olho – disse. O menininho ficou olhando com olhos tímidos. Depois passou o pão com mortadela para e

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  • O que acontece dentro de casa deve ficar dentro de casa, eu acho. É assim que eu penso, e por isso nunca o denunciei. Minhas amigas sempre me diziam que era o que eu devia ter feito desde o início, mas, o senhor há de compreender, a gente nunca quer que as pes

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  • Numa terça qualquer, à tarde, sol a pino, estavam todas as roupas estendidas no varal. Salete tirou tudo o que já enxuto, para que, quando o marido chegasse do trabalho, estivesse tudo arrumado. Jonas não gosta de bagunça. Salete sabia desde o dia em que se ca

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  • Fardo

    Zími sonhou que havia se tornado crooner e cantava com uma banda de músicos de jazz num pequeno teatro decadente, que no sonho havia reaberto no Bixiga. Havia na plateia pessoas conhecidas dele que jamais estiveram e nem poderiam estar juntas um dia, pelos mai

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  • Nunca pude esquecer aquela noite. Era o primeiro Natal depois da morte de Mamãe. Sempre, toda a vida, ela e Papai, de noite, pertinho do Natal, armavam a nossa árvore, com muito carinho, Lininha e eu sentados ao lado. Agora, pela primeira vez, a gente foi cedo

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  • Era bonito o lugar onde ficava aquela cidade: de um lado o mar, de outro a montanha. No meio, a vida calma e comezinha de quem nada ambiciona e é feliz assim. A terra ainda não estava cansada e dava de comer a quem andava sobre ela. Era fácil e bom viver lá, o

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  • Almir não tinha escrúpulos. Abusava de nossa mãe de todo jeito. Quase a deixou na falência e a induziu à morte. Sempre foi um cara problemático. Quando nosso pai era vivo, aí, sim, ele tinha certo respeito. Nessa época, não vilipendiava o lar sagrado. Papai im

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  • O garotinho olhava do lado de fora do restaurante os pratos fartos serem ignorados pelos frequentadores, que falavam ao celular e aparentemente não tinham fome de verdade. Então enfiava o dedo no nariz e fazia qualquer ruído para ser notado. Em estatísticas de

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  • O menininho e a menininha estavam sentados na beirada da calçada. Ela olhou bem nos olhos dele, examinou-o desde o cabelo até os pés, disse: – Você é parecido comigo. – Você não é preta – ele disse. – Você é clarinho, é quase branco – ela disse. – A sua roupa

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  • Não faltam tipos iguais a ele no mundo: cabelo longo e embranquecido como o de um hippie fora de época, o rosto com uma sombra de tristeza, o olhar atônito. Não tem família. Faltam-lhe dentes. Roupas também não tem muitas, só as que veste e uma blusa de lã par

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  • Quanta solidão. A todo tempo me vejo irremediavelmente só. O meu quarto é o meu abrigo, de onde vejo o céu escasso, tetos e paredes rachadas. Ainda me pergunto, qual foi o grande mal que fiz? Não sei. Mariazinha, minha irmã, muito preocupada, se derretia em at

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  • Os parceiros musicais Mila Cox e Zími haviam conversado sobre adotarem ou não temas mais políticos em suas músicas. Para ela, as músicas tinham abordagem política, mesmo com letras minimalistas e sem serem panfletárias, mas sempre enfatizando, entre outras coi

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  • Boca aberta, torta para um lado, os olhos para o outro, parados na morte. “Não faça isso comigo. Volte, Paizinho.” Olha para a esquerda, vesgo na eternidade. “Paizinho, eu prometo ser boazinha. Eu faço tudo.” A ponta da língua no canto da boca, quer sair. O sa

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  • Subi até o Morro do Gavião e de lá olhei a cidade. Não era uma cidade grande, mas era bela, e mais bela ainda vista de cima em toda a sua extensão. Abraçar uma cidade inteira com o olhar não é simples, exige senso de contemplação e silêncio. Vi o rio marrom qu

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  • Nikita mandou o recado por Leozinho. Disse que queria me ver morto. Leozinho pediu para eu tomar cuidado, porque o velho Nikita é brabo e vive ameaçando o povo. Mas não sei o porquê dessa desavença toda. Nikita mal me conhece, exceto pelas andanças no bairro.

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