Contos
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É pegar uma laranja azeda, cortar exatamente ao meio, e ir colocando sal, aos poucos, em micro-pitadas, à medida em que se vai chupando. Umas três pequenas adições de sal dão conta. O que se sente? Bem. Um pouco do azedume da laranja, um pouco do salgado, obviamente, e, surpreendentemente, um leve sabor adocicado que não deveria estar ali — pois a laranja não é do tipo doce — mas está. Ele transava, desde sempre, experimentações gastronômicas. Contudo, a l
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Perto do pasto só há uma casa. Em pé na soleira, um homem e uma mulher discutem. Em questão de horas sairá dela outro filho, a parteira já deve estar chegando. As outras crianças, cinco ou seis, já crescidas, brincam na terra com o cachorro. Da barriga da mulher escorregou uma menina. Pequena, chorona, magricela, sem muita roupa para vestir, ainda bem que estava fazendo calor. A comida que há na casa do pasto não é suficiente para a fome de todos. A mãe pr
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Estava prestes a entrar na casa do Ricardo. O calafrio bateu, com a força do vento gélido, de um dia de chuva, que dava do décimo primeiro andar, de um prédio no nascente. Fiquei minutos paralisado, sem saber como proceder, o que dizer, para o meu tão grande amigo. Nós nos conhecemos no colégio, quando tínhamos cinco para seis anos. Estudávamos na mesma sala, fomos alfabetizados e seguimos para o primeiro, segundo e terceiro anos do ensino fundamental, à é
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Nasci um nada. Fui criado para ser um nada. Desde pequeno, nunca soube que o dinheiro pode ser usado para o lazer. Aliás, qual o significado disso? Meus pais só trabalhavam e tudo era minimamente economizado para podermos pagar as parcelas de nossa casa em um condomínio classe média e do carro do ano, a grande paixão do meu genitor. Objetos nos quais ele empregava seu tempo livre e sua matéria. Enfim, fui criado para ser insignificante e decidi vencer esse
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zzzzzzzzzzzzz….. zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz……. Júlio mexeu na cama enquanto se recusava a abrir os olhos. “Pernilongo maldito.” Pensou tentando não despertar por completo. SLAP! Uma batida de palma na escuridão, inútil. O diabo do mosquito pousou em seu nariz. “Isso é um despeito.” SLAP! “Aí!” Gritou enquanto massageava o nariz e abria os olhos contra sua vontade. Tateou ao lado da cama em busca da raquet
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Olhei no espelho e vi uns olhos que não eram os meus. Esse rosto assim magro, assim pálido, assim descolorido, não era o meu. No entanto, era eu que estava refletido, era eu que me olhava. Baixei os olhos, quem sabe a imagem do outro lado desaparecesse e eu voltasse a me ver como era antes. Levantei o olhar e vi, de novo, esse rosto assim magro, assim pálido, assim descolorido. Suspirei, conformado, e comecei. Passei a espuma nas bochechas e fiz massagem d
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Houve um tempo em que na casa dos Bocanegra a vida era tranquila, quase imóvel. O tempo, para os membros da família, passava como passa o tempo para as vacas num pasto verdejante: sem pressa, modorrento e com fartura de grama para mascar. Uma história pode começar em qualquer lugar e em qualquer momento, e é necessário ter fé em quem a conta para que se acredite no que é contado. Acreditem em mim: a história dos Bocanegra e de sua extinção está cheia de nó
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O gato subiu no telhado. Na sala. Na lareira. E na janela. Brigou com as gatas, espantou o sono, o frio, rompeu a madrugada, fez barulho, fez rosnar, assustou. Fez miar. O gato preto e branco queria comida, queria carinho, queria estar. Queria o lugar das gatas, queria mudar o rumo, queria dominar o mundo, queria brincar. O gato subiu no telhado e desceu na lareira para apavorar. Botou terror na madrugada, tirou meu sono, tirou o sossego do meu lar. Ficou
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Ainda que não soubesse, não percebesse nem desconfiasse, ele estava esperando por ela. O seu corpo engordurado de suor era como um pote de mel para a mosca que entrou pela janela e se precipitou em voo rasante na direção dele. A modorra da tarde, o calor entorpecente, a ausência de vento e a sala vazia não fosse ele ali deitado, lendo: a mosca recém-nascida começava a apreender o mundo. Ele a afasta com um gesto de mão, inútil, os olhos postos no livro. Nã
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— Não tenha vergonha de olhar para mim. Ele falava com uma senhora muito elegante, cujo cão tinha parado para fazer suas necessidades perto de onde ele estava sentado, sobre um papelão sujo, com as costas apoiadas na parede de uma padaria no centro de São Paulo. A senhora, que esperava o bicho se aliviar, olhava de soslaio para ele: o corpo magro, a barba branca que lhe cobria quase o rosto todo, os cabelos compridos e também brancos, os andrajos imundos,
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Saía de casa faceira após chamar o Uber. A vizinha vê, para. Me elogia. Pavaneio. Vou dar entrevista. Oferece carona. Recuso. Uber já chegou. Penso na taxa de cancelamento. Pago não. Não sei mesmo fazer conta. Vou de Uber. Vizinha se vai. Começa a tradicional conversa sobre o tempo, o frio, o perigo do banho quente e sair na friagem. O motorista parece cansado, fala da mulher que teima em sair do banho e colocar a toalha para secar do lado de fora. Pode ad
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Pode-se não dizer nada (e isso talvez não seja tão difícil). Pode-se guardar as palavras, esquecer os substantivos, calar os adjetivos, ignorar os verbos. Pode-se não pensar no toque de peles mornas nem em anoiteceres compartilhados, muito menos em entardeceres com cheiro de comida. Pode-se não intuir nem imaginar. Pode-se tirar tudo da frente dos olhos: os relógios, os mapas, as geografias, as histórias, as memórias, o passado e o futuro. Pode-se não ler
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Agora não é hora, e peço que não me perguntem quando e como aconteceu. Se fazia frio ou calor, se a lua estava cheia girando no céu ou, ao contrário, se havia nuvens se juntando para a conspiração da chuva, se a cidade estava tranquila ou era o formigueiro habitual de cotovelos se chocando, se os pássaros gloriosos de Harold e Maude singravam a amplidão ou se havia quietude no firmamento, se os carros tiravam faíscas do chão ou se o asfalto dormia seu silê
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Com as costas curvadas e as mãos apoiadas nos joelhos, o velho Amadeu contabilizou o produto de sua semeadura: recolheu duas cenouras que tinham brotado no meio das alfaces e das couves. Gostou da surpresa. Analisou e viu que as cenouras eram boas. Preparou e comeu uma salada fresca no almoço. No mesmo dia, resolveu experimentar algo novo: plantou no meio das abobrinhas uma flauta, um violino, duas partituras de Bach e um Dó Maior. Cobriu tudo com muito cu
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De longe, só se vê que há luz no quarto, mas pouco se distingue o que acontece lá dentro. Com meu binóculo, escondido atrás da cortina no apartamento do prédio em frente, tenho visão privilegiada e posso ver tudo com detalhe. Posso vê-la tirar a roupa, por exemplo. Como agora. Ela acabou de entrar. Jogou a echarpe no chão e sentou-se na borda da cama para tirar os sapatos de salto. Joga-os num canto. Começa a desabotoar a blusa. Noto que está um pouco mais
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Carlos gostava dos dias frios. Laura, dos ensolarados e quentes. João, dos chuvosos. Laura assistia a todas as telenovelas. Carlos, às partidas de futebol. João preferia os livros. Laura falava muito, sempre. Carlos, um pouco menos. João, só o necessário. Laura acreditava em Deus sobre todas as coisas. Carlos era ateu. João, agnóstico. Carlos adorava dançar e era ótimo nos bailes. Laura gostava mais dos concertos; ficava louca com Debussy. João era cinéfil
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Existe esse bairro do qual pouco se ouve falar, encravado na periferia extrema de uma grande cidade. Um lugar miserável feito de papelão, barro e lata velha, com cadeiras coxas nas portas e arremedo de jardim sem flores debaixo das janelas. Nesse ermo, sempre deixado de lado, vivem os esquecidos, uma gente feia à qual a gente da cidade entende por bem dar as costas. É um aglomerado de mortos-vivos que perambulam, comem quando conseguem o que comer, transfo
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Segunda-feira, 15 de março Cruzamos a linha que tínhamos marcado no chão como limite infranqueável e com isso provocamos esse desastre que nos trouxe até aqui, à beira do abismo. Fomos imprudentes e as consequências não tardaram. Acredito que nada possa piorar. É grande a sensação de que fodemos com tudo. Quase podemos sentir a respiração dos inimigos em nosso pescoço, o bafo quente deles em nossa nuca. Estamos vulneráveis, mas ainda armados e lutando e no
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As cinzas dele “Espero que me perdoe, querida, pelo trabalho que lhe dou como meu último desejo.” Assim terminava a carta que ela leu com alguma indiferença. Era um pedido do marido (nem quando morto ele deixava de incomodar), que a essa altura estava convertido num montinho de cinzas. Saiu do crematório com a urna embaixo do braço. Pensou durante uns minutos. “Não vou dirigir duzentos quilômetros até o litoral nem morta.” Foi para casa. Parada no meio da
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Se desejava chorar, a avó subia até o sótão. Ali cobria o rosto com as mãos para, inutilmente, conter as lágrimas, imaginando que ninguém a escutava. As crianças todas íamos devagar e colávamos o ouvido na porta. Ouvíamos quando ela suspirava, quando assoava o nariz no lencinho, quando ficava em silêncio, esperando que a calma secasse seus olhos. Se algum de nós ficasse com dó e fizesse menção de entrar para fazer um carinho em sua cabeça, a mãe nos impedi
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Escapou do cercadinho quando ainda era madrugada e todos dormiam. Teve um pouco de medo, mas percebeu de imediato que o medo era bom e fazia a imaginação voar. Foi para o campo aberto e se maravilhou com os tons de verde e dourado que cobriam a vegetação rasteira. A lua ainda brilhava pendurada no céu, quase desaparecendo já. “Então é esse o mundo de que tanto falam”, disse para si mesmo. Dilatou as narinas: “E esse é o perfume das flores!” Descobriu o sor
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Quando o primeiro homem pôs os pés na Terra e esticou os olhos em volta, viu que estava vazia e que era um desperdício tanto espaço ocioso. Passeou um pouco por ali até ficar entediado e cansado, já que, quanto mais andava, mais distância descobria. Aqui falta alguma coisa, pensou, uma coisa com quatro pés para uma pessoa se sentar em cima e descansar. Inventou a cadeira. Sentou-se e ficou horas admirando o horizonte. Wonderful.&nb
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Mário Baggio01/05/2025
Cecília, Paulo e Lucas
Lucas tem sete anos e mora com Cecília. Cecília é sua mãe. Lucas passa os fins de semana na casa de Paulo. Paulo é seu pai. Paulo e Cecília não moram juntos há muito tempo, desde que Lucas tinha um ano. Ou desde que Paulo deu a primeira e única bofetada no rosto de Cecília. Cecília ficou três dias com o olho direito inchado. Saiu sangue de seus lábios. Paulo e Cecília brigaram na frente de um juiz pela guarda de Lucas. Cecília ganhou, era a mãe do menino e
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Sei que ele está indo embora, é só uma questão de tempo. Está mais fraquinho a cada dia, alimenta-se mal, come sem apetite. Cabisbaixo, calado, triste, tão diferente de outros tempos, não passa agora de uma sombra do que costumava ser. Sempre achei chato olhar para ele pelas grades da gaiola, mas com o tempo me habituei. Ainda que possa parecer egoísta, eu ficava reconfortado por saber que ele estava ali, pertinho de mim. Sua companhia me fazia bem e eu só
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O que comentam é que Gabriel não tinha como saber a verdade, já que fora criado por freiras num orfanato. Não conheceu os pais nem ninguém de sua família biológica. Mal tinha nascido quando uma vidente, dessas que ganham a vida enganando gente ignorante, sussurrou no ouvido da mãe: — Essa criança nasceu com olho grande, a cabeça tem um formato estranho e prevejo tragédia no futuro. Livre-se dela o quanto antes. Foi o que fez a mãe de Gabriel: entregou-o às
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Caminha ereta, embora isso custe e doa. Os dois meninos, de cabeças enormes e pernas finas, acompanham como podem o ritmo da mãe. Parecem frangos doentes, ciscando inutilmente num terreno seco. Andam os três sobre uma terra rachada e poeirenta. O horizonte continua distante, tão distante quanto no dia em que iniciaram a jornada a pé. O sol permanece no alto, maltratando os olhos, a pele e a esperança. O menor dos meninos, vencido pelo cansaço, senta-se num
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Eduardo acorda cedo e, como de costume, não faz a cama. Não tem de se trocar, dormiu de roupa. Toma um café preto e ralo e sai de casa tremendo de frio. Não calçou o Nike, preferiu o sapato velho, já que sabia bem aonde tinha de ir. Como companhia, um cajado pequeno como seu tamanho, dois sacos vazios de supermercado e um lenço que sua mãe lhe amarra no pescoço. Em determinado momento esse lenço vai servir para cobrir seu nariz e sua boca: lá há gases, che
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Não é sempre que acontece, só às vezes, quando aquilo que o Camarão traz não é suficiente para dividir entre os dois. Eliseu e Célia primeiro ficam nervosos como bichos famintos dentro de uma jaula. Amaldiçoam o Camarão, a mãe dele e toda a família. Que morram todos! Depois passam à exasperação e, no minuto seguinte, partem para o confronto físico. Os dois rolam pelo chão, aos tapas. Cospem um no outro. Esse confronto nem de longe se assemelha ao que acont
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João Alfredo colhe a cada final de semana as verduras e legumes que semeia. Sua horta é cuidada com esmero, o solo é fértil e o produto de seu trabalho é considerado o melhor do povoado. A barraca que tem na feira é concorrida, todos apreciam sua colheita. Como não tem mulher nem filhos, ele costuma distribuir entre os vizinhos e amigos os vegetais que não vendeu. Todos diziam dele: — João Alfredo é um homem bom e generoso e as verduras e legumes que saem
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Assim que chega a manhã, as esposas dos pescadores se dirigem às docas e ali se sentam, os pés dentro d’água. Todas trazem linhas e agulhas de tamanhos variados e se dedicam à tarefa de fechar os buracos das redes que seus maridos utilizam no trabalho. Cantarolam enquanto cosem, e cosem com diligência e sem distração: ao entardecer, seus homens precisarão das redes prontas antes de saírem para o mar em busca do alimento e do sustento de todos os dias. Em d
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