Contos
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Maria Santa, preciso muito lhe dizer umas coisas. Coisas que andam acontecendo aqui em casa desde que você foi embora. Coisas incríveis, sabe? Os primeiros que vi estavam atrás da geladeira. Eu os encontrei numa manhã de setembro, justo naqueles dias de passagem do inverno para a primavera, quando a solidão fica mais pesada. Lembro-me de que fazia um mês que você tinha partido e eu estava me sentindo tão só, tão só, que resolvi limpar toda a casa para me o
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Silas Arruda é um sujeito peculiar, do tipo que, vagando pela cidade dentro do ônibus, observa pela janela as pessoas que andam apressadas pela calçada e tenta encontrar seus olhos, adivinhar sua história, criar-lhes uma vida. Registra tudo com o olhar silencioso. Não conversa com ninguém, fechado nos próprios pensamentos. Na padaria, enquanto aguarda sua vez, fixa os olhos na vitrine cheia de pães e escolhe dois do fundo, aqueles que — ele acredita — aind
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Os familiares da morta explicam que querem a casa limpa o mais breve possível, já há um comprador interessado. O imóvel precisa virar dinheiro logo e ser dividido entre eles. Perguntam a Carmen se não tem medo de entrar sozinha na residência de uma defunta. Ela responde que deixou o medo lá na terra dela, depois da chacina que matou seu pai e seus irmãos. Que necessita trabalhar, que trabalha desde criança e que não escolhe serviço. Que gente morta não faz
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Toda noite uma mulher atravessa minha casa por dentro. Passa pela sala, alcança o corredor e sai pelo terraço dos fundos. Pede desculpas assim que me vê, diz que este é o seu caminho até o trabalho e que não conhece nenhum outro. Com o tempo me acostumei com sua presença. Ela é linda, e nem em sonho vi mulher igual. Espero-a todas as noites, e todas as noites ela vem. Algumas vezes cheguei a pedir que fizesse uma pausa e gastasse uns minutos comigo. Poderí
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Angústias é uma menina com dedos de fogo e por isso é uma menina triste. Tudo o que toca arde. Vive longe do mar, num lugar parecido a um deserto, mas muito frio, com terra avermelhada como tingida de sangue. Pouco chove ali e, quando isso acontece, a terra se transforma num espelho e lança brilhos que chegam às nuvens. Só em ocasiões assim Angústias fica feliz, chora de alegria e passa horas admirando as poças d’água, tocando-as com a ponta dos dedos que,
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Rosa. Apenas Rosa. Nascida e criada na Estação Primeira de Mangueira. Primeira estação do trem e do seu coração. Rosa ganhou esse nome por duas paixões do seu pai. O samba de Cartola e a Mangueira. Rosa nasceu em 1980, ano em que Cartola morreu e seu pai resolveu lhe prestar essa homenagem. Ele assobiava “As rosas não falam”, quando se lembrava da mulher, que havia lhe abandonado alguns anos após Rosa ter nascido. Dizem que sua mãe era uma mulher linda, so
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Metáfora. Figura de Linguagem que consiste em comparar dois ou mais elementos de forma indireta. Conforme o dicionário, a metáfora nos presta este favor. Aliás, um grande favor! Sem a metáfora, a imagem do que falamos ou escrevemos não teria a mesma expressividade! Aqui, nestes rascunhos e esboços de um tempo, a metáfora nos serve como uma imagem de alerta, de reflexão e, por que não, de perplexidade! Como podemos ignorar o óbvio? Outro ponto importante a
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Até os dez anos me chamei Donato, embora meus pais nunca tivessem gostado desse nome. Por que me batizaram assim é um mistério. “Não está com o rosto definido ainda”, diziam. “Quando for adulto e sua cara indicar que nome deve ter, mudaremos.” E assim foi. Aos doze, com a mudança de voz, decidiram que Donato já não combinava comigo, e que o melhor nome para meu rosto recém-estreado na adolescência seria Adalberto — Beto para os amigos. Esse nome durou até
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O homem com a cicatriz no rosto viu quando ela ia descalça e mancando pela estrada. Parou o carro e a pôs no banco de trás, encolhida feito um novelo. Ela tremia de frio, ele a cobriu com uma manta. Dirigiu o mais devagar que pôde, nenhum solavanco a perturbasse. Não trocaram palavra. Em casa, deu-lhe banho quente, segurando-a pela nuca, como a um defunto. Observou que ela tinha novas tatuagens, gostou de algumas, não de todas. Preparou-lhe um mingau suave
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Uma antiga lenda indígena relata como se deu o surgimento da vida. No início, havia apenas trevas e do interior do nada, Tupã fez germinar a luz. No negro céu, em meio a um infindável vazio, o poderoso senhor dos trovões criou o sol, fonte incandescente de luminosidade, a lua e as estrelas com seu brilho ameno. Durante o dia, sob a égide do deus Guaraci, a vida pulsaria fulgurante, multicolorida. À noite, envoltos no manto da escuridão e da quietude, os se
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Era perto do meio-dia quando Tatiana saiu correndo da escola. Ela tinha ainda que almoçar antes de se encontrar com a Ju. Estava atrasada, e isso a fazia suar mais. Passou no meio dos meninos a tempo de escutar “A gorda tá com pressa?” Olhou para a frente e correu mais. Não dava tempo de chorar. “Corre mesmo, gorda, pra ver se perde meia tonelada”, ela ouviu antes de cruzar o portão e ganhar a calçada. Subiu no ônibus e procurou um assento no fundo da cond
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. em homenagem ao conto “Casa Tomada”, de Julio Cortázar (1914-1984), escritor argentino Gostamos da casa porque, além de espaçosa e antiga (mesmo que hoje as casas antigas sejam pouco valorizadas), guarda as recordações de avós e bisavós, pais e toda a nossa infância. As paredes sabem de nós, quem fomos, quem somos. O eco das vozes do passado ainda nos enchem de encantamento. Houve felicidade aqui — ainda há. Minha irmã Irene e eu nos acostumamos a viver
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Valdir e Fonseca trabalhavam na mesma empresa. Estavam na casa dos 50 anos bem vividos, um talvez mais do que o outro. Eram também vizinhos, o que não significava que eram amigos. Todos os dias saíam no memos horário, mas Valdir nem sempre voltava para casa antes do Jornal Nacional. Tinham algumas outras tantas diferenças. Valdir era quase mau humorado. Quase. Alto, magro, parecia estar sempre com fome. Mas preservava a cabeleira intacta, motivo de inveja
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Um alce, no alto de uma floresta densa, olha para cima, por um momento fugaz. No mesmo instante, ouve-se o murmurar do léxico perceptível – numa onda para nós, humanos, intangível -: e o alce o distingue pelo encontrar das superfícies de uma folha na outra, obrigadas a ter tal conexão corporal por um simples capricho do vento, senhor de todos os movimentos. Lentamente, do alto da mesma floresta densa, formigas passam destemidas por detrás das patas d
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Este ano toca plantar e colher milho, já deram a ordem. Antes já foi feijão e trigo. Milho agora. A gente ouve, a gente cumpre. Mas não vai chover uma gota, disseram. Outra colheita perdida. Apesar de tudo, Clementina segue na lavoura, cavucando a terra seca com a enxada sempre à mão, fazendo valas, eliminando as ervas daninhas, arrancando cogumelos e caracóis, preparando o terreno. Edimburgo, que preciosidade, como veio gordinho e perfeito! Clementina viu
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Vi-o de longe e identifiquei o leão parado na beira da estrada. A juba grisalha e rebelde não podia ser de outra pessoa. Era ele no acostamento, apoiado em seu carro com o capô levantado. Tinha nas mãos um galão de plástico vazio e parecia aguardar uma carona. Eu passei de moto, capacete posto, só os olhos à mostra. Meu pai não me reconheceu. — Sem gasolina?”, perguntei. — Sim, que azar!, ele respondeu. — Sobe — indiquei com a cabeça o assento traseiro — E
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Quando minha mãe ficou grávida de novo, meu pai me disse que, dali em diante, eu teria que ir sozinho à escola, pra que ela pudesse descansar. No começo, tive nojo dos vômitos dela, sempre na hora em que estávamos comendo, depois me acostumei. Ela vomitava numa toalha felpuda que logo era jogada na máquina de lavar. Depois os enjoos diminuíram conforme a barriga crescia. Passou a devorar tudo o que encontrava pela frente, até os meus salgadinhos. Por sorte
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Um casal de velhinhos com a roupa encharcada de merda e vergonha caminha com esforço pela calçada, esgueirando-se pelas paredes. Os dois vão para casa e querem chegar logo. As pernas não ajudam e eles percebem isso. Olham para os lados, que ninguém os veja no estado em que estão. Balbuciam palavras um ao outro, procurando entender o que tinha acontecido. O operário da prefeitura, responsável pela obra, ia atrás deles explicando, quase em prantos, o lamentá
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O professor mandou que eu entregasse um bilhete pra minha mãe. Antes li o que estava escrito: dizia que precisava falar com ela porque eu estava com as notas baixas, não sabia a lição, estava com dificuldade para aprender e andava muito distraído. Deixei o papelzinho sobre o criado-mudo, perto do copo de leite que eu tinha posto lá de manhã. Ela não bebeu. Olhei pra minha mãe jogada na cama, o cabelo sem lavar e o rosto amarelado, e pensei em quanto tempo
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Comprou vestido branco e sapatos novos porque quis e a ocasião exigia. A ocasião é hoje, o último dia do ano. A calcinha também é nova, ela sempre ouviu dizer que é assim que se deve receber o ano novo. Fez tudo o que disseram para fazer e estava ansiosa. Na sala, os doze bagos roxos de uva brilhavam no prato sobre a mesinha de centro. Ao lado, a taça de champanhe já cheia e, no fundo, a aliança dada pela avó, anos atrás. Celina decidiu usá-la hoje, precis
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Nem bem ela disse Alô, ele logo disparou: — Pensei muito antes de te ligar. Você poderia estar dormindo, ou jantando, ou ocupada com outras coisas. Poderia estar acompanhada. Está? Era uma voz que ela não escutava havia cinco anos (mas como esquecer?). Mostrou surpresa espontânea: — Ora, veja só! Pensei que ainda estivesse morando na Europa. Onde era mesmo? Londres, não é? E não, não estou acompanhada. Como vai você? Ele sorriu quando ela disse que nã
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Lembro-me bem daquela noite. Minha família e eu íamos começar a jantar quando ele chegou. Abri a porta e ouvi sua voz sumida na boca murcha dizendo “Boa noite. Estou de passagem. Posso ficar uns dias? Serão poucos.” Eu tentei disfarçar a enorme surpresa, disse “Claro!” e fiz com que entrasse. Ele cumprimentou minha mulher e meus filhos, depois olhou para mim e eu indiquei a direção do corredor. Mostrei-lhe o quarto em que poderia ficar. Ele agrad
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Nesse armário guardo minha alma. Entre paletós, camisas e calças repousa, num cabide só seu, lavada e passada, a alma que é minha. É uma coisa preciosa, única, e por essa razão só a levo comigo em ocasiões especiais. Uma alma é para toda a vida, é artigo que não se dá, não se empresta, não se esquece. Quebrada, não haverá outra para reposição. Só vou com ela a lugares aonde não se deve ir sem alma. À literatura, por exemplo. A um roseiral, atraído pelo per
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Dinah, nascida da mãe de Caim e Abel, era irmã desses dois. Irmã legítima, de mesmo sangue, mas diferente pelos músculos menores, pelas tetas, pelas pernas roliças. Diferente também por dentro: tinha útero. Olhavam-na. A mãe: “É uma mulher como eu, quando chegar o dia certo vai sangrar no meio das pernas.” O pai: “Não tem força pra me ajudar na lavoura, não serve de muita coisa.” E os irmãos: “É como uma ovelha, só que maior; quando chegar a hora, Deus se
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Dia frio, chuvoso, cair da tarde. Penido se preparou para a volta à casa, depois de um expediente na repartição que lhe rendera uma tremenda enxaqueca. Não era para menos, pois o contato com o público lhe estressava. Na maioria dos casos ignorava as queixas desses “infelizes”, como bem dizia, que lhe importunavam e canetava um “indeferido” na petição. A têmpora direita latejava. Tomou uma dose dupla dos comprimidos que sempre guardava na gaveta, fechou os
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Amigos. É assim que os chamo. Caracterizam-se por exalar nítido cheiro de afeto. Dessa nitidez brotam o contorno de seus ombros, seu nome, suas palavras e gestos, sua presença, mesmo quando já não estão perto de mim. São o contrário da pedra dura. São o revés do espinho. São o oposto do metal cortante. Gosto de pensar neles como esponjas com formato humano. Eis que um deles chega à minha casa. Aperto sua massa corporal entre meus braços e fico feliz por me
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O tempo está sujeito a chuvas e trovoadas, o horizonte parece mais distante e inatingível como o daquelas tardes à beira do mar, quando se faz planos inúteis para o futuro. Uma garota brinca com seu cachorro na rua onde poucos carros passam. Corre uma ambulância com a sirene ligada, e eu jogo fora, mais uma vez, outro poema que escrevi sem pensar. A história é escrita diariamente por um robô, tantos fatos iguais se repetem até que fiquemos fartos. Caem os
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Retornarei ao planeta Terra daqui a dois ou três mil anos A guerra será uma vaga lembrança do tempo em que todos éramos bárbaros. Saudarei os mutantes que aqui permaneceram e direi a eles: “Vim desde o terceiro milênio para vê-los e conhecer a vida que levam hoje. Gozam todos de boa saúde? Encontraram o que buscavam? A paz, a felicidade, a fartura?” (Naquela época os homens criaram armas nucleares de grande potência para arrasar cidades e aniquilar inimigo
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Se olham, se pressentem, se desejam,se acariciam, se beijam, se desnudam,se respiram, deitam juntos, se cheiram,se penetram, se chupam, se demudam,adormecem, despertam, se iluminam,se apalpam, se mastigam, se babam,se confundem, se encaixam, se machucam,se apertam, se beliscam, estremecem,se tateiam, se grudam, desfalecem,se repelem, se chutam, se provocam,se irritam, se cospem, se esbofeteiam,se enlaçam, se apartam, se procuram,se lambem, se mordem, se fe
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Silas e Douglas eram escritores iniciantes. Assistindo a uma conferência num evento literário, ouviram do palestrante que dois importantes autores portugueses haviam decidido escrever um livro juntos: o primeiro redigia um trecho, o outro continuava a história. Silas e Douglas resolveram reproduzir essa ideia. O resultado da experiência pode ser conferido a seguir: “Ulisses jamais foi visto na companhia de outras pessoas. Nunca cumprimentava os vizinhos, n
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