Contos
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Nikita mandou o recado por Leozinho. Disse que queria me ver morto. Leozinho pediu para eu tomar cuidado, porque o velho Nikita é brabo e vive ameaçando o povo. Mas não sei o porquê dessa desavença toda. Nikita mal me conhece, exceto pelas andanças no bairro. E olhe que mal ando no bairro, a não ser para ir ao trabalho e comprar alguma coisa na bodega do senhor Assis. Evito passear com os meus filhos, porque a pracinha, à tarde ou à noite, é ambiente escur
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Zími acompanhou Silvano num sábado pela manhã, para que fizessem um serviço de carreto na Vila Mariana. Às oito horas saíram da garagem do prédio onde moravam, no centro de São Paulo. Era um trabalho rápido, e já estariam livres na hora do almoço. Zími, com uma camiseta dos Circles Jerks feita em casa, receberia um pagamento modesto, talvez simbólico, mas seria suficiente para as suas necessidades imediatas, até que recebesse mais algum dinheiro trabalhand
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Pulava numa perna só – bicando um grão aqui, um grão ali, enchendo o papo. Arrulhava, cabeça no ar, o peito cheio – com um orgulho triste. Os moleques espantavam as outras pombas – “Suas cagonas!” Ela, não; era respeitada – ou a gente tinha dó. Que pena a Manquinha, com o seu coto de perna! Fosse gente, teria uma muleta. Uma filhinha, que lhe traria um prato de comida. Ou nem teria essa filhinha – e ficaria, pobrezinha, num canto pedindo esmola. Já imagina
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Levanta-te e anda!, disse aquele visionário de barba crespa e suja e olhos que anunciavam divindade. Lázaro, farto de mentiras sobre a vida e a morte, levantou-se e começou a caminhar. No meio da tarde estava já longe de tudo, do povoado coalhado de casebres, das hortas envelhecidas, de suas duas irmãs confusas e atônitas. Estava longe de si mesmo, e isso lhe deu algum alívio. No meio do caminho, parou e olhou para trás. De boa vontade teria dado graç
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Nunca imaginei que fosse me apegar. Não fui do tipo dado a animais. Não porque os odeie, mas, sim, porque achava que os bichos não deveriam ser criados como gente e por gente. Tia Beta trata os seus cachorros melhor que muita gente por aí, e isso nunca entendi. Ela tem para além de oito animais, juntando até papagaio, e os cria com roupinha, chazinho e tudo o mais. Achava um exagero sem tamanho, me enojava da paparicada. Onde já se viu dormir na cama com u
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No dia seguinte à festinha de lançamento do primeiro single da banda Hollow Clowns, Zími ficou sabendo por redes sociais que Samir, baterista da banda, havia morrido por overdose de cocaína. Era considerado grande baterista, pela força, influência e domínio técnico do instrumento. Samir tocava numa banda de punk rock, mas poderia tocar numa banda de rock progressivo. Ele tinha trinta e oito anos. Samir era discreto e aparentava ter boa saúde, o que poten
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Estou grudado no alto da porteira da mangueira das vacas. Lá embaixo o Duque late feito doido. Avança, negaceia, avança de novo – uma bruta valentia. É um ouriço acuado junto ao mourão da porteira. Ele rodopia, se eriça todo – coisinha indefesa, só tentando fugir do ataque. Mas de cada ataque o Duque é que foge, ganindo – um choro longo e fino de doer na gente. Estou tremendo inteirinho aqui escanchado na tábua de cima da porteira. O Duque não pode morder
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No exato instante em que Lurdinha nasceu, exclamaram Coitada! Com o passar dos meses, acrescentaram ao Coitada! a frase Olhe a cabecinha dela, que pequenininha! Lurdinha cresceu com sua pequena cabeça e foi feliz, mesmo que não entendesse tudo o que a mãe lhe dizia e ensinava. Chegou à avançada idade de oito anos sem assimilar muita coisa, embora compreendesse o necessário. Se tivesse que perguntar algo na rua — por exemp
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Naiana não me deixa em paz. Quer que eu mude de vida. Mesmo sabendo que ando muito sedentário, não tenho o menor interesse de ir à academia. Ela chegou a me levar três vezes. Para mim, que tenho autismo, nível de suporte um, é algo arrasador ter de lidar com aquela multidão de gente descolada, revezar máquina, ter de escutar músicas horríveis – levei um fone tapa-ruído, mas não teve o menor efeito ante a descarga de som eletrônico. Bati o pé e disse, novam
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“O conforto é o pior dos vícios!’ Essa foi a primeira frase que Mila Cox ouviu ao entrar no apartamento que dividia com seu parceiro musical Zími. “Hoje valorizo muito mais a vida que levo e as coisas legais que eu tenho, graças àquele período difícil da minha vida.” Ele conversava com o amigo e vizinho, o multiinstrumentista uruguaio Silvano, que era uma banda de um homem só, e fazia apresentações junto dos Crop Circles, projeto mu
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O velhinho enfiou os pés na água fria, distendeu os dedos doídos, espreguiçando-os, e saiu um pouquinho de dentro de si mesmo. Foi até ali em frente, no meio do lago, onde um pato nadava. Era um velhinho muito velho, com uma barba compridíssima – a pontinha bulindo na água – e branquinha, da cor do pato que deslizava mansamente, mal se movendo. As grandes árvores copadas coavam a luz finíssima do sol, restiazinhas de bem-querer. O velhinho punha os olhos n
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De pé na frente do último cinema de rua da cidade, Seu Alírio leu mais uma vez, com vagar, o cartaz que anunciava a demolição daquele edifício. Do seu edifício, hoje mais decadente que ele próprio e tão velho quanto. Aquele lugar tinha sido sua casa por quase oitenta anos e não podia permitir que viesse abaixo sem se despedir. Triste, respirou fundo e entrou. Percorreu os corredores escuros já conhecidos de memória, abriu a cortina que dava acesso à sala d
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Laura é do tipo cismada e encabulada. Quando quer as coisas, vem logo no colo do pai pedir para que eu resolva. Desde pequenininha é assim, manhosa. No começo, eu aceitava, por ser tão pequena e não ter condições de resolver suas questões. Agora, com dez anos, isso me incomoda profundamente, porque eu mesmo fui criado para me virar por mim mesmo: desde cedo morando no interior, com parcas condições de vida, arranjava trabalho do que se pudesse imaginar. Na
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Zími saiu para comprar cigarros e desceu pela escada porque o elevador estava demorando. Morava no sexto andar, e quando passava pelo terceiro, parou para pegar, perto da lixeira, um suplemento de cultura do jornal do dia anterior, com a Patti Smith na primeira página. O assinante daquele jornal leu apenas o caderno de esportes, que estava desmembrado, deixando o resto dos suplementos intocados. Antes de guardar o jornal na mochila e sair, estava lendo uma
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Não estavam cômodos nem se sentiam confortáveis naquele lugar, mas nenhum dos dois tomou a iniciativa de se levantar e sair dali. Olhavam, cheiravam, procuravam com a ponta dos dedos a origem do desconforto, tudo em vão. Não era a temperatura (que estava apropriada), nem a cor das paredes (que era acolhedora), nem as poltronas (que eram adequadas e anatômicas). A razão não era outra senão eles mesmos. Mas isso eles não admitiam, ainda. Sabiam, no fundo, qu
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Ana me sensibilizou. Foram só cinco ou seis palavras para ela mostrar a que veio. Num dia gris, apareceu em minha casa. Chamei por intermédio de uma colega, para a qual ela já era diarista e muito bem recomendada como uma “exímia profissional”. À primeira vista, Ana não parecia carente ou necessitada de bens materiais, pobretona – foi essa a imagem preconceituosa que fiz dela e de que me arrependo profundamente. Foi, no entanto, uma surpresa encontrá-la, v
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Seu Paventino, um idoso aposentado e viúvo, não gosta de ficar em casa. Por isso, seu maior passatempo é passar os dias no boteco do João, na esquina de sua casa. Lá ele é figura tão presente que já faz parte do folclore local. O maior divertimento de Paventino é abordar novos clientes de João e fazer uma pergunta bem clássica: — Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Esse senhor possui um ritual próprio. Sai de sua casa assim que o boteco abre pela man
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Zími entregou a Mila Cox uma sacola para discos com um LP dentro. Ele não a havia presenteado em seu aniversário, dois dias antes. Conhecem-se desde o nascimento de Mila Cox, e trocavam presentes eventualmente, mas sempre com alguma zoeira sutil envolvida. Era uma edição nacional e comum de uma coletânea da Siouxsie and the Banshees, em bom estado de conservação. A contracapa, no entanto, trazia uma dedicatória escrita com esferográfica, que deixava claro
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Negro, Escrevo-te estas mal traçadas pra me despedir. Não me culpe, não me leve a mal nem me mande catar coquinho. Fiz, sim, e não me arrependo, e tu sabe por quê? Pra te ajudar, homem. Não faça juízo errado da minha pessoa nem me deseje má sorte, porque isso não vai ser bonito. E depois tu me conhece, sabe que eu não sou dessas, mesmo que pareça. Fui embora do cafofo, tu já deve ter percebido que peguei umas mudas de roupa e caí fora. Foi para o teu bem,
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A melancolia me invadiu e fez morada – há tempos, desde que me entendo por gente. Pequeno, ainda, me apegava a objetos desimportantes e canções tristes, principalmente, que me levavam ao processo de reflexão. Não participava da maioria das brincadeiras que meus amiguinhos brincavam no colégio. Colecionador, mantinha intactos álbuns de figurinha e ficava lendo e observando cada uma delas na hora do recreio. Tinha, por isso, todas as mais raras, que eram obj
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Zími e Silvano tinham várias piadas sobre o fato de Mila Cox às vezes pensar em inglês. Quando criança, ela conviveu bastante tempo com sua tia Sara Cox, que havia morado muitos anos na Inglaterra, depois de viver a juventude numa casa proletária no bairro da Penha. Sara tinha ido para lá aos dezoito anos, para estudar. Seus pais economizaram dinheiro por muito tempo para que isso fosse possível, assim que ela atingisse a maioridade. Então casou-se com um
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Nunca tinha ido à escola e se envergonhava quando perguntavam se sabia ler e escrever. Respondia Não e mudava de assunto. Agora, aos sessenta anos, começou a aprender as letras nas aulas noturnas da escola municipal. Saía da casa de dona Elza deixando tudo pronto: as panelas e o chão brilhando, a comida do jeito que a patroa gostava e a roupa passada. À noite, na escola, escrevia bem devagar o que a professora ditava, passando a língua nos lábios enquanto
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A fluidez da manhã me capacita a digressões. Ainda me espanto e me encanto com o nascer do sol. Sinal de estar vivo. Sinal de uma tal de esperança que ainda vive em mim. Vou tomar uma medida para ser, sempre, amante do sol – desta feita, rigorosamente, como um penitente eterno. Apreciar, tomar o meu bom café, calmamente, para, só assim, encarar as profundezas do dia. Lorena não tem me deixado escapar da fadiga do dia como desejaria. Ela acorda tarde – e re
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Tábuas e pincéis compondo perspectivas de azuis caminhos nas águas de Mina. Walls and bridges interrompendo os verdes dos juncos, ao redor de paisagens recuperadas. Cavalos a toda brida nos levam a estreitos caminhos cavados nas encostas dos morros: paisagens nórdicas, mineiras e paulistas equivalem-se no absoluto do mundo, afinal diluído em contornos de magia, de luz e sombras em meio aos destroços do navio, como se a vida fosse isso – árvores de frio, an
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Mila Cox já nasceu em revolta contra o machismo e o racismo que via em muitos homens mais velhos e em muitos de seus contemporâneos. Ela praguejava ainda mais quando se tratava de pessoas mais jovens que ela, nascidos no século vinte e um, e com mentalidade tosca e medieval. Cox diz que apesar da obrigação de morrermos menos estúpidos do que nascemos, essa lógica parecia não se aplicar entre muitos jovens, na proporção devida. Exceção feita a Zimi, seu vel
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Tarde de sexta-feira. Dia dos namorados. Leve frio de começo de junho, nesse clima nunca radical do Estado do Rio, sudeste do Brasil, sul da América, entre os trópicos. Ponho roupa preta, acabada com meu paletó, preto, alemão, de fino corte. É meu único paletó, usado em ocasiões especiais apenas – e, na maioria das vezes, nem nestas. Saio então pelas ruas. Chuva fina. Abro meu guarda-chuva e vou, fugindo das rodas dos carros nas poças. É uma tarde triste.
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Se naqueles dias de aguaceiro eu tivesse uma corda, e se eu não fosse pouco mais do que uma criança crescida, e se eu pudesse e tivesse coragem, amarraria minha mãe na cama e lhe daria uma surra para ver se ela parava de chorar e de gritar de dor. Quando chovia, os ossos de minha mãe latejavam e ela ficava louca. E me enlouquecia também. Mas eu não tinha uma corda. *** E agora, quantos dias me aguentando? Demasiados. Já são onze dias que chove sem parar, o
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“Subverter a ordem, apocalipticamente!”. Foi assim que Luan nos apresentou, numa conversa desleixada, “o projeto”. Devíamos chocar, como os Mutantes e Secos e Molhados – indicou-nos, inclusive, as referências, que eu nem conhecia. Não vou mentir: tive medo. Agarrei-me a certos exageros para continuar. Já tocava e queria tocar mais. Era o baterista do colégio e tinha, inclusive, o meu fã-clube. O sonho era viver de música, “da minha arte”, e esse era o medo
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Quando Zími ouviu Mila Cox bater à porta de seu quarto, pensou que fosse por causa das pilhas do controle remoto da televisão da sala. Ele as havia trocado,colocando pilhas usadas no lugar. Pecou miseravelmente e estava envergonhado. As pilhas dele já tinham acabado e eram da mesma marca das pilhas usadas por ela na outra televisão, pois foram compradas na mesma ocasião. Compraram poucas, mas ele compraria outras no dia seguinte. Antes de dividirem o apart
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Na página aberta de um livro, está um desenho de linhas curvas entrelaçadas. O menino percorre com os olhos cada pedaço da imagem, procurando memorizar o caminho sinuoso de cada pincelada dada pelo artista. Pega uma folha em branco e fecha os olhos. Quer se certificar de que o desenho que acabou de ver está inteiro em sua memória. Traça linhas retas e curvas na folha branca. De vez em quando retorna ao desenho original, e percorre novamente, com os olhos e
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