Contos

  • Minha mulher, Maria da Graça, há dez anos padece de esquecimento. Seus olhos enxergam, mas não veem e, quando veem, não reconhecem o que viram, como se tudo que se apresentasse na frente deles fosse novidade: o vaso azul de porcelana, o relógio perto da janela, o caminho de crochê na mesa de jantar, a cortina de veludo — velharias cujo registro a memória já apagou. Há muito tempo a casa está vazia de sua voz e seu abecedário. Nos últimos meses ela tem se d

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  • Ano-Novo. 2026 está aí. Caminho em direção à casa de meus pais, solitário. Como moro a cerca de duas quadras, resolvi ir a pé. O sapato esquerdo aperta, por conta do joanete, que quase expõe o osso para fora. Caminho devagar, para amenizar a dor. Penso: por que não fiquei em casa? Não gosto de réveillon. Poucas festas me agradam. Não acredito que alguma simpatia vai mudar o nosso fado. Preciso ver os meus pais, então continuo olhando para o chão. Esbarro n

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  • A menininha se aproximou com um objeto na mão. Mostrou para o menininho sentado no banco, num canto isolado. – Me dá um pedaço do seu lanche. Eu te mostro o meu olho – disse. O menininho ficou olhando com olhos tímidos. Depois passou o pão com mortadela para ela, que lhe passou o olho. Era bonito, como um olho de gente. Ele nunca tinha reparado que ela tinha um olho de vidro. Era tão alegrinha. Ele até diria: “Tem uns olhos lindos.” Os dois comeram juntos.

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  • O que acontece dentro de casa deve ficar dentro de casa, eu acho. É assim que eu penso, e por isso nunca o denunciei. Minhas amigas sempre me diziam que era o que eu devia ter feito desde o início, mas, o senhor há de compreender, a gente nunca quer que as pessoas saibam o que acontece entre as quatro paredes de um lar. A vergonha me paralisava e eu ficava quieta como um caramujo dentro da concha, e ele se sentia livre para fazer o que quisesse. Eu chorava

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  • Numa terça qualquer, à tarde, sol a pino, estavam todas as roupas estendidas no varal. Salete tirou tudo o que já enxuto, para que, quando o marido chegasse do trabalho, estivesse tudo arrumado. Jonas não gosta de bagunça. Salete sabia desde o dia em que se casou. Mudança brusca de comportamento. E eles ainda foram morar em outra cidade, longe dos familiares e dos amigos. Salete conheceu quem era o Jonas de verdade, o abusador. Ameaças e pequenos bofetes p

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  • Fardo

    Zími sonhou que havia se tornado crooner e cantava com uma banda de músicos de jazz num pequeno teatro decadente, que no sonho havia reaberto no Bixiga. Havia na plateia pessoas conhecidas dele que jamais estiveram e nem poderiam estar juntas um dia, pelos mais diversos motivos, entre os quais o fato de algumas delas estarem mortas. O único momento que podia lembrar dele mesmo cantando no sonho, fazia uma cover de “I saw the light”, de Todd Hundgren num mo

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  • Nunca pude esquecer aquela noite. Era o primeiro Natal depois da morte de Mamãe. Sempre, toda a vida, ela e Papai, de noite, pertinho do Natal, armavam a nossa árvore, com muito carinho, Lininha e eu sentados ao lado. Agora, pela primeira vez, a gente foi cedo pra cama. Eu logo dormi, Lininha me acordou. – Vamos! Vamos! – Vamos onde? – O Papai… Papai foi… Entendi. Me levantei, fui com ela. Papai tinha ido armar a Árvore de Natal, a gente não ia deixar ele

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  • Era bonito o lugar onde ficava aquela cidade: de um lado o mar, de outro a montanha. No meio, a vida calma e comezinha de quem nada ambiciona e é feliz assim. A terra ainda não estava cansada e dava de comer a quem andava sobre ela. Era fácil e bom viver lá, onde o tempo parecia não passar. Numa ocasião, quando podavam as roseiras, um homem saiu das águas e, com estardalhaço, balançando as mãos como alucinado, gritou que viera até ali como amigo e em missã

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  • Almir não tinha escrúpulos. Abusava de nossa mãe de todo jeito. Quase a deixou na falência e a induziu à morte. Sempre foi um cara problemático. Quando nosso pai era vivo, aí, sim, ele tinha certo respeito. Nessa época, não vilipendiava o lar sagrado. Papai impunha moral, colocando-o rente ao chão, se preciso fosse, para entender o sentido de ter uma família. Se chegava bêbado, dormia na varanda, enrolado em trapos, para aprender. E não foram poucas as vez

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  • O garotinho olhava do lado de fora do restaurante os pratos fartos serem ignorados pelos frequentadores, que falavam ao celular e aparentemente não tinham fome de verdade. Então enfiava o dedo no nariz e fazia qualquer ruído para ser notado. Em estatísticas dele mesmo, o sucesso parcial da operação era de cinquenta por cento. As pessoas largavam de vez o prato e iam embora. O sucesso completo da operação exigia que o garçom concordasse em embrulhar o que s

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  • O menininho e a menininha estavam sentados na beirada da calçada. Ela olhou bem nos olhos dele, examinou-o desde o cabelo até os pés, disse: – Você é parecido comigo. – Você não é preta – ele disse. – Você é clarinho, é quase branco – ela disse. – A sua roupa é mais nova do que a minha. É bonita – ele disse. Ela sorriu, depois perguntou o nome dele, do pai dele, onde morava, essas coisas. De repente ficou tristinha, disse: – O seu pai matou o meu pai. O me

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  • Não faltam tipos iguais a ele no mundo: cabelo longo e embranquecido como o de um hippie fora de época, o rosto com uma sombra de tristeza, o olhar atônito. Não tem família. Faltam-lhe dentes. Roupas também não tem muitas, só as que veste e uma blusa de lã para o inverno, que, nos dias quentes, fica amarrada à cintura. Perambula, desocupado. Pede algo para comer a quem passa ao lado dele na rua e na porta dos restaurantes. Às vezes dão, às vezes não dão, e

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  • Quanta solidão. A todo tempo me vejo irremediavelmente só. O meu quarto é o meu abrigo, de onde vejo o céu escasso, tetos e paredes rachadas. Ainda me pergunto, qual foi o grande mal que fiz? Não sei. Mariazinha, minha irmã, muito preocupada, se derretia em atendimentos a mim, seu único irmão, doente. Vinha pelo menos umas três vezes na semana para me visitar. Ficou doente, de uma hora para outra, e eu que ia lhe visitar aos sábados ou domingos, pois na se

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  • Os parceiros musicais Mila Cox e Zími haviam conversado sobre adotarem ou não temas mais políticos em suas músicas. Para ela, as músicas tinham abordagem política, mesmo com letras minimalistas e sem serem panfletárias, mas sempre enfatizando, entre outras coisas, uma posição antifascista. Ela falou: “Não precisamos ser chatos como o Bono”. Mas para Zími, era preciso amplificar essa abordagem, pois estavam passando por um período perigoso e ame

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  • Boca aberta, torta para um lado, os olhos para o outro, parados na morte. “Não faça isso comigo. Volte, Paizinho.” Olha para a esquerda, vesgo na eternidade. “Paizinho, eu prometo ser boazinha. Eu faço tudo.” A ponta da língua no canto da boca, quer sair. O safado. “Eu prometo, Paizinho. Nem na igreja, nunca mais.” – Na igreja, eu sei. Dava para o padre. – Olha, parece que vai rir. Morto mais sacana. – Perseguia a filha em tudo quanto era canto. – É. No ba

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  • Subi até o Morro do Gavião e de lá olhei a cidade. Não era uma cidade grande, mas era bela, e mais bela ainda vista de cima em toda a sua extensão. Abraçar uma cidade inteira com o olhar não é simples, exige senso de contemplação e silêncio. Vi o rio marrom que a corta pelo meio, observei o lado norte, a parte sul, as casas iguais, esquadrinhei seus telhados. Era mesmo bela aquela cidade. A poucos passos de mim estava um cavalo olhando quieto a paisagem es

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  • Nikita mandou o recado por Leozinho. Disse que queria me ver morto. Leozinho pediu para eu tomar cuidado, porque o velho Nikita é brabo e vive ameaçando o povo. Mas não sei o porquê dessa desavença toda. Nikita mal me conhece, exceto pelas andanças no bairro. E olhe que mal ando no bairro, a não ser para ir ao trabalho e comprar alguma coisa na bodega do senhor Assis. Evito passear com os meus filhos, porque a pracinha, à tarde ou à noite, é ambiente escur

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  • Zími acompanhou Silvano num sábado pela manhã, para que fizessem um serviço de carreto na Vila Mariana. Às oito horas saíram da garagem do prédio onde moravam, no centro de São Paulo. Era um trabalho rápido, e já estariam livres na hora do almoço. Zími, com uma camiseta dos Circles Jerks feita em casa, receberia um pagamento modesto, talvez simbólico, mas seria suficiente para as suas necessidades imediatas, até que recebesse mais algum dinheiro trabalhand

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  • Pulava numa perna só – bicando um grão aqui, um grão ali, enchendo o papo. Arrulhava, cabeça no ar, o peito cheio – com um orgulho triste. Os moleques espantavam as outras pombas – “Suas cagonas!” Ela, não; era respeitada – ou a gente tinha dó. Que pena a Manquinha, com o seu coto de perna! Fosse gente, teria uma muleta. Uma filhinha, que lhe traria um prato de comida. Ou nem teria essa filhinha – e ficaria, pobrezinha, num canto pedindo esmola. Já imagina

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  • Levanta-te e anda!, disse aquele visionário de barba crespa e suja e olhos que anunciavam divindade. Lázaro, farto de mentiras sobre a vida e a morte, levantou-se e começou a caminhar. No meio da tarde estava já longe de tudo, do povoado coalhado de casebres, das hortas envelhecidas, de suas duas irmãs confusas e atônitas. Estava longe de si mesmo, e isso lhe deu algum alívio. No meio do caminho, parou e olhou para trás. De boa vontade teria dado graç

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  • Nunca imaginei que fosse me apegar. Não fui do tipo dado a animais. Não porque os odeie, mas, sim, porque achava que os bichos não deveriam ser criados como gente e por gente. Tia Beta trata os seus cachorros melhor que muita gente por aí, e isso nunca entendi. Ela tem para além de oito animais, juntando até papagaio, e os cria com roupinha, chazinho e tudo o mais. Achava um exagero sem tamanho, me enojava da paparicada. Onde já se viu dormir na cama com u

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  • No dia seguinte à festinha de lançamento do primeiro single da banda Hollow Clowns, Zími ficou sabendo por redes sociais que Samir, baterista da banda, havia morrido por overdose de cocaína. Era considerado grande baterista, pela força, influência e domínio técnico do instrumento. Samir tocava numa banda de punk rock, mas poderia tocar numa banda de rock progressivo.   Ele tinha trinta e oito anos. Samir era discreto e aparentava ter boa saúde, o que poten

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  • Estou grudado no alto da porteira da mangueira das vacas. Lá embaixo o Duque late feito doido. Avança, negaceia, avança de novo – uma bruta valentia. É um ouriço acuado junto ao mourão da porteira. Ele rodopia, se eriça todo – coisinha indefesa, só tentando fugir do ataque. Mas de cada ataque o Duque é que foge, ganindo – um choro longo e fino de doer na gente. Estou tremendo inteirinho aqui escanchado na tábua de cima da porteira. O Duque não pode morder

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  • Lurdinha

    No exato instante em que Lurdinha nasceu, exclamaram Coitada! Com o passar dos meses, acrescentaram ao Coitada! a frase Olhe a cabecinha dela, que pequenininha! Lurdinha cresceu com sua pequena cabeça e foi feliz, mesmo que não entendesse tudo o que a mãe lhe dizia e ensinava. Chegou à avançada idade de oito anos sem assimilar muita coisa, embora compreendesse o necessário. Se tivesse que perguntar algo na rua — por exemp

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  • Naiana não me deixa em paz. Quer que eu mude de vida. Mesmo sabendo que ando muito sedentário, não tenho o menor interesse de ir à academia. Ela chegou a me levar três vezes. Para mim, que tenho autismo, nível de suporte um, é algo arrasador ter de lidar com aquela multidão de gente descolada, revezar máquina, ter de escutar músicas horríveis – levei um fone tapa-ruído, mas não teve o menor efeito ante a descarga de som eletrônico. Bati o pé e disse, novam

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  • “O conforto é o pior dos vícios!’ Essa foi a primeira frase que Mila Cox ouviu ao entrar no apartamento que dividia com seu parceiro musical Zími. “Hoje valorizo muito mais a vida que levo e as coisas legais que eu tenho, graças àquele período difícil da minha vida.” Ele conversava com o amigo e vizinho, o multiinstrumentista uruguaio Silvano, que era uma banda de um homem só, e fazia apresentações junto dos Crop Circles, projeto mu

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  • O velhinho enfiou os pés na água fria, distendeu os dedos doídos, espreguiçando-os, e saiu um pouquinho de dentro de si mesmo. Foi até ali em frente, no meio do lago, onde um pato nadava. Era um velhinho muito velho, com uma barba compridíssima – a pontinha bulindo na água – e branquinha, da cor do pato que deslizava mansamente, mal se movendo. As grandes árvores copadas coavam a luz finíssima do sol, restiazinhas de bem-querer. O velhinho punha os olhos n

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  • De pé na frente do último cinema de rua da cidade, Seu Alírio leu mais uma vez, com vagar, o cartaz que anunciava a demolição daquele edifício. Do seu edifício, hoje mais decadente que ele próprio e tão velho quanto. Aquele lugar tinha sido sua casa por quase oitenta anos e não podia permitir que viesse abaixo sem se despedir. Triste, respirou fundo e entrou. Percorreu os corredores escuros já conhecidos de memória, abriu a cortina que dava acesso à sala d

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  • Laura é do tipo cismada e encabulada. Quando quer as coisas, vem logo no colo do pai pedir para que eu resolva. Desde pequenininha é assim, manhosa. No começo, eu aceitava, por ser tão pequena e não ter condições de resolver suas questões. Agora, com dez anos, isso me incomoda profundamente, porque eu mesmo fui criado para me virar por mim mesmo: desde cedo morando no interior, com parcas condições de vida, arranjava trabalho do que se pudesse imaginar. Na

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  • Zími saiu para comprar cigarros e desceu pela escada porque o elevador estava demorando. Morava no sexto andar, e quando passava pelo terceiro, parou para pegar, perto da lixeira, um suplemento de cultura do jornal do dia anterior, com a Patti Smith na primeira página. O assinante daquele jornal leu apenas o caderno de esportes, que estava desmembrado, deixando o resto dos suplementos intocados. Antes de guardar o jornal na mochila e sair, estava lendo uma

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