Conto de Fernando Barreto – Crônicas Cariocas – Segunda

  • Prisão

    Fábio não é digno de ser dito nessas linhas, mas a minha psicóloga cruel pediu para contar as artimanhas do malfeitor, para eu elaborar, mais uma vez, essa situação que me inferniza. Ainda nos anos 90, Fábio era dono de uma videolocadora. Eu vivia lá por conta dos jogos de videogame, quase sempre sem dinheiro e esperando a boa vontade de um amigo abastado para jogar. Fábio, de início, não me perturbava. Ficava olhando de longe, como se eu fosse um rato. Às vezes até me enxotava de seu estabelecimento, junto com os outros meninos da rua, que se aglomeravam no local. Então, com um ano ou dois de frequência no estabelecimento, Fábio resolveu me contratar para ajudar, “porque a clientela havia aumentado”. Fiquei superfeliz com o convite e com a graninha que iria receber – podia, assim, ajudar a minha família, muito pobrezinha. Eu devia estar antes e depois de fechar o estabelecimento, para “colocar as coisas no lugar”. A primeira investida foi sigilosa, quando não havia ninguém em casa. Ele pegou nas minhas pernas e, depois, nas minhas partes íntimas. Eu estava completamente desconcertado, sem saber como agir. Quando voltei à minha casa, me tranquei no banheiro e comecei a chorar. Meus pais não poderiam ouvir, então eu tapava a boca. Tomei banho e esfreguei uma, duas, três mil vezes tudo em que ele pegou, de nojo. Eu intuía que aquilo era muito errado. Mas, ainda assim, continuei no trabalho, precisava muito. Ele passou a me tratar como se não tivesse acontecido nada. A segunda vez foi mais audaciosa. Fábio me amarrou e lambeu o meu corpo todo, inclusive meu pênis. Eu tinha nojo do seu hálito, fétido, reptiliano. Dessa vez eu gritei, e ele me soltou rapidamente, porque estava desprevenido. Corri novamente para casa e me tranquei no banheiro. Tomei banho me esfregando com mais força, a ponto de me arranhar e sangrar. Não queria nenhum resquício dele no meu corpo. Continuei a trabalhar, porque meus pais estavam desempregados, e o abusador não reagia à minha presença. Era completamente indiferente a mim. Eu era somente um objeto. O tempo passou e achei que nada disso iria acontecer de novo, mas com menos de um ano ele me prendeu outra vez, prometendo me matar se eu gritasse ou fugisse. Estávamos num quarto que era o matadouro. “Hoje eu vou te foder, seu pirralho!”. Esperei que ele encostasse mais e tirei o canivete do bolso de trás. Agarrei o seu membro e, com um golpe forte e incisivo, arranquei-o fora. Jorrou sangue, muito sangue, e eu vibrei com aquilo. O sangue esvaiu e Fábio morreu por hemorragia. Comigo, criminalmente, não aconteceu nada, porque, além de ter somente doze anos, o fiz por legítima defesa. O tormento ainda me acompanha. Fábio é uma alma penada que me aparece em pesadelos. Como vou me livrar dessa prisão?

  • Assintomáticos

    Zími chegou em casa no domingo de manhã depois de dar um rolê  sozinho.

    Saiu do elevador às sete e trinta e cinco.

    No corredor do apartamento que dividia com Mila Cox, pairava densamente um cheiro que era misto de café, xampu e maconha.

    Mila Cox já havia acordado e estava fazendo café, que certamente estava parecendo uma tinta, de tão forte.

    No apartamento ao lado, Silvano ouvia Durutti Column, fumava maconha e provavelmente comia pizza que sobrou da noite anterior.

    Zími não esperava mesmo que nenhum dos dois estivesse dormindo.

    Era importante para ele ter pessoas que tinham entusiasmo pela vida e numa manhã de domingo já estavam a tramar algo.

    Foi por acaso que no dia anterior, um sábado comum, em que sua banda Crop Circles não tocaria em lugar nenhum, Zími soube que rolaria um show do Evan Dando, dos Lemonheads, no Sesc da Paulista. 

    Pela mesma fonte, uma garota com camiseta do Teenage Fanclub que estava no Sebo do Messias, onde Zími foi trocar livros no sábado pela manhã, soube que os ingressos foram esgotados com antecedência.

    Na tarde do sábado, Zími acompanhou Silvano num carreto perto do Ibirapuera, e teria tempo para colar no Sesc da Paulista para ver se arrumava algum ingresso, ou pelo menos visse algo curioso acontecer no entorno do evento.

     Em show de indie rock iam sempre as mesmas pessoas.

    Na pior das hipóteses, ficaria na rua até cansar e depois voltaria para casa.

    Havia para ele também a curiosidade de ver como estaria um sujeito que era ícone do que se chamava de rock alternativo em sua fase de maior projeção, através da MTV, trinta anos antes.

    Ainda mais sendo esse sujeito alguém que passou por turbulências típicas de rock star, tinha fama de muito louco, continuava vivo, e àquela altura tinha repertório musical para fazer um bom show.

    Zími levou cd’s de sua banda, os Crop Circles, que distribuiria entre os indies que passariam na Paulista para assistirem ao show.

    Os cd’s eram geralmente usados por eles para fazer publicidade.

     Consideravam uma mídia física sem o apelo fetichista do vinil, mas o usavam para coletanear singles que lançavam na internet.

    A maior parte do que vendiam de merchandising era mesmo em vinil de sete polegadas, prensados como singles ou EP’s.

    Às cinco da tarde ele finalizou o serviço de carreto com Silvano, que o deixou vinte minutos depois na Paulista com a Brigadeiro Luís Antônio, próximo ao local do show.

    Zími conhecia muitos camelôs da Paulista, porque ali, antes da pandemia, ele também vendeu livros e discos de vinil.  Logo avistou um pintor de quadros que conhecia da Paulista havia muito tempo, e foi conversar para matar o tempo.

    Certa vez, quando Zími era camelô de discos, a polícia pediu que os recolhesse.

     Ele recolheu e voltou dias depois, e quando nem pensava mais nessa proibição, teve um lote de discos apreendido por já ter sido advertido antes.

    Mas ele gostava de vender ali.

    Para ele era um trabalho que, dependendo do dia, podia ser incrível, como também poderia ser dramático, como nos dias de chuva em que ele precisava do dinheiro das vendas para alguma necessidade imediata.

    Faltavam duas horas para o show e ele estava do outro lado da avenida, de onde podia ver um movimento bem discreto de pessoas entrando e saindo do Sesc.

    Sem ingresso, já não sabia muito bem o que estava fazendo ali.

    Já tinha visto uns clipes do Lemonheads pelo celular para lembrar melhor de algumas músicas, e apesar de achar legal, não seria nada doloroso se não pudesse entrar por falta de ingresso.

    Agora estava conversando sobre o limite entre as aspirações e a realidade com o conhecido que vendia os quadros pintava, quando foi abordado por um casal. Ambos conheciam Zími, por motivos diferentes.

    A diferença de idade entre eles era a mesma que havia entre Zími e sua parceira musical Mila Cox. 

    Pela aparência do sujeito, Zími poderia ficar por horas tentando sem sucesso lembrar de quem se tratava, e tinha certeza que nunca tinha visto a garota que o acompanhava.

    Ele parecia um pai de família focado, distante de qualquer tipo de aventura, tinha a idade aproximada à de Zími, só que mais envelhecido.

    A garota parecia uma Lydia Lunch jovem, e a falsa certeza que Zími tinha sobre nunca a ter visto antes vinha do fato de que jamais teria esquecido alguém como ela.

     Isso mesmo antes que ela começasse a falar.

    Zími não lembrava muita do show de Jaú.

    Quem a acompanhava era Tito, que tocava guitarra numa banda chamada Mugwumps, dos anos noventa, em que Zími fez parte por um curto período, fazendo três shows que estavam marcados antes da saída do baterista anterior.

    A banda já existia antes que ele entrasse, e continuou por algum tempo depois de sua saída, chegando a gravar um EP.

    Tito era o mentor da banda e sua ideia era que o som lembrasse o Social Distortion.

    Tito se tornou delegado, e na época em que tocou com Zími era estudante de Direito, vinte e cinco anos antes. 

    Ele já manifestava o desejo de ser delegado naquele tempo.

    Havia uma piada interna na banda sobre Tito ser inacreditavelmente submisso à sua namorada na época, fazer músicas contra o autoritarismo, e querer ser delegado ao mesmo tempo.

    Zími tocou com os Mugwumps em São Paulo, Santo André e em Araçatuba.

    Zími ainda era jovem e na época parecia precisar se aventurar naquela oportunidade, com uma banda sem logística para equilibrar o tempo entre ela e as outras atividades, como empregos e faculdades.

    A internet ainda estava começando a se tornar acessível, e Zími só teria acesso à rede depois de ter deixado a banda.

    Ele tinha terminado sua faculdade de Jornalismo no ano anterior, caso contrário não aceitaria o convite para ingressa na banda.

    Os outros integrantes ainda eram universitários, e seus cotidianos eram inglórios e hostis.

    Tudo era escassez, tanto em termos de dinheiro, como em tempo ou logística.

    O baixista dos Mugwumps era um sujeito conhecido por Painho.

    Ele era tecnicamente o melhor músico da banda.

    Quando a escassez anteriormente se manifestava no setor financeiro da banda, Painho acusava Tito de ser playboy e não investir na estrutura da banda, nem mesmo sob a premissa de ser ressarcido com o lucro de um eventual sucesso da banda.

    A mentalidade deles era esta, e a internet nos primórdios ainda não ajudava muito.

    As gravadoras deixaram de existir da forma como operavam, na época em que vender discos em lojas físicas era o foco.

    Certa vez os Mugwamps perderam o tempo quase inteiro de um ensaio pago e a duras penas encaixado na agenda pessoal de cada um, porque não havia cordas de guitarra reservas, e os cabos estavam remendados em diversos pontos, falhando bastante, na véspera de um show em Santo André.

    Painho estava furioso e foi trabalhoso mantê-lo sob uma distância mínima de Tito, que escapou por pouco de tomar porrada.

    Com essa lembrança, lhe ocorreu que esse momento possivelmente tornou possível a concepção dos Crop Circles, duo formado por ele na bateria e alguns vocais, e Mila Cox, no baixo e maior parte dos vocais.

    Os Mugwumps eram um quarteto com duas guitarras, baixo e uma bateria de verdade, não o kit minimalista usado por Zími atualmente.

    Um gasto exorbitante se comparado ao que os Crop Circles tinham na atualidade.

    O fator mais importante nesse aprimoramento no formato da banda é o fato de haver apenas duas pessoas para eventualmente discordarem uma da outra.

     Zími não conseguia nem se imaginar atualmente numa formação com quatro pessoas.

    O uruguaio Silvano se lançou na música ainda mais minimalista, como monobanda, ou one man band.

    Toda a década de noventa sempre foi estranha para Zími, e ele ainda lembrava do período como se fosse a década anterior a que vivia então, mesmo estando vinte e três anos avançado no século vinte e um.

    Perdeu o contato com Tito e os outros dois integrantes quando saiu da banda.

    A garota que acompanhava Tito era sua filha Sara, de vinte anos e fruto do casamento com a antiga namorada autoritária, a quem Zími nunca conheceu pessoalmente.

    Naquele tempo, Tito parecia deixar a garota num setor específico de sua vida social, que era distinto daquele em que colocava amigos de bar, de futebol e de banda.

    Pois foi a esposa de Tito quem havia comprado três ingressos para aquele show no Sesc, tão logo este fora anunciado.

    Ela acabou não indo, porque era médica e estava de plantão, de modo que havia um ingresso para Zími.

    Sara conhecia Zími porque foi a um show dos Crop Circles em Jaú, cidade onde vivia a avó da garota.

    Quando Zími saía sozinho, sem muitas pretensões e recursos, mas com a intuição de que algo curioso aconteceria, ele acertava em cerca de trinta e cinco por cento das vezes, mas esse percentual aparentemente baixo era suficiente para que ele sempre acreditasse na generosidade do acaso. Na verdade, um acaso algo induzido.

    Ele sabia que encontraria pessoas conhecidas ali, sendo amigos dele ou não.

    Naquela tarde, no entanto, surpreendeu-lhe o fato da primeira pessoa conhecida ser alguém que ele não reconheceria, caso não tivesse sido abordado.

    A filha de Tito queria comprar cerveja, então os três se despediram do vendedor de quadros e atravessaram para o outro lado da Paulista, na frente do Sesc, e não demorou para que um vendedor ambulante de bebidas passasse com seu carrinho. 

    Compraram uma cerveja para cada um, e a essa altura Tito já sabia que Zími ainda tinha a Caloi Cross laranja que já era antiga no tempo em que tocaram na mesma banda.

    Tito e Sara já haviam ganhado também os cd’s dos Crop Circles que Zími levou e estavam se atualizando sobre os últimos vinte e cinco anos sem terem quaisquer notícias um do outro.

    À essa altura, Zími já tinha visto por perto algumas pessoas com camisetas de bandas indies dos anos noventa, algumas pessoas que já tinha visto em rolês aleatórios de rock, amigos de amigos. 

    O show foi o que Zími esperava.

    Achou legal por ser despojado, sem excesso de pretensão calcado no que importava naquele momento, que era um repertório que sustentasse a apresentação.

    Ele não era muito mais velho que Zími, que estava beirando os cinquenta anos, e era curioso como mesmo havendo uma discrepância na história e na realidade de cada um, Zími se identificou com o show, não apenas a apresentação em si.

    Havia a atmosfera nostálgica do sonho indie dos anos noventa, mas toda a década de noventa sempre foi estranha para Zími, e ele ainda lembrava do período como se fosse a década anterior a que vivia agora, mesmo estando vinte e três anos avançado no século vinte e um. 

    Não era para ele um período remoto, pois no começo da década de noventa atingiu a maioridade e havia nele curiosidade e energia.

    Sara nasceu em dois mil e dois, com internet.

    Ela contou a Zími que sua mãe falou muito do Evan Dando nos dias anteriores, e que ela havia mandado mensagem avisando que ficaria no plantão até às oito horas da manhã seguinte.

    Saíram do show e foram beber num bar da Liberdade que não fecha nunca, ótimo por ser próximo ao prédio de Zími.

    Tudo que foi conversado fez parecer para Zími que ao reencontrar Tito, os últimos vinte cinco anos nunca existiram.  

    Sara despejou o discurso sobre a família ser uma instituição decadente e a manifestação do seu desejo de ir embora de casa crescia à medida em que bebia.

    Tito estava cansado e bêbado, tendo que dirigir até o Sumaré, pois a filha, além de furiosa, também estava alcoolizada.

     Os três pagaram a conta e se despediram. Eram sete e vinte da manhã.

    Zími foi a pé sem olhar para trás, enquanto Tito e Sara entraram no carro.

    Quando chegou às sete e meia na porta do prédio, Zími havia tido tempo de pensar que naquele dia seu destino foi melhor que o de Tito, principalmente quando lembrou que a esposa dele estaria em casa às oito horas.

    Zími entrou no elevador e saiu para o corredor com cheiro de xampu, maconha e café.

  • Do avesso

    Mila Cox achou que Zími estava enlouquecendo de verdade quando ele lhe contou sobre um de seus dilemas. 

    Estavam no banco de trás da Kombi do amigo e vizinho uruguaio Silvano.

     Era um domingo pela manhã, e voltavam de um show que fizeram com mais três bandas em Indaiatuba.

    Foi quando Zími contou que estava a escolher se seria melhor estar vivo e ver o fim do mundo (o que seria para ele glorioso, mesmo tendo a vida interrompida simultaneamente a essa visão), ou que por algum milagre, tivesse vida longa, e a humanidade durasse mais, e ele morresse bem velho, porém antes do final da história dos humanos na Terra. 

    Nesse caso, o mundo continuaria como um trem desembestado e sem trilhos, e também sem ele. 

    Mila Cox usava uma camiseta do Bob Log III, e respondeu que somente a primeira alternativa era possível.

    Ela disse que ele bebia demais a cada vez que visitavam alguma cidade do interior para fazer shows, e que possivelmente perderia o controle se um dia tivesse a chance de fazer alguma turnê maior, que era o objetivo dela. 

    Não era a quantidade de bebida forte consumida na viagem, nem o tijolo inteiro de maconha que ele havia fumado com Silvano desde a véspera. 

    Ela sabia que ele era capaz de pensar coisas estranhas mesmo estando totalmente sóbrio, como costumava estar na vida cotidiana que tinham no apartamento que dividiam em São Paulo. 

    Ela atribuía esse tipo de pensamento dele a uma falta total de esperança num futuro viável para a humanidade, e tentava extrair daí o conteúdo para as músicas que faziam juntos. 

    Ela falou:

    “Nós vivemos num cenário pós apocalíptico. O que sobrou é surreal demais, embora eu esteja vendo com meus próprios olhos.”

    Mila Cox não havia passado por nenhum trauma realmente relevante na vida.  

    Havia, sim, muita insatisfação com convenções sociais que não faziam qualquer sentido, a não ser para um diminuto grupo anônimo que suga e controla as massas. 

    Embora ela amasse a avó materna, com quem viveu até os dezenove anos, não entendia como ela pôde levar uma vida envolta de tanto machismo, sem que tivesse se rebelado de alguma maneira. 

    Parecia até mesmo que sua avó materna gostava e apoiava o sistema patriarcal em que nasceu e cresceu, depois se casou e enviuvou.  

    Não era um apoio declarado, mas havia indícios de adesão a um tipo de conservadorismo que já não tinha (e nunca deveria ter tido) razão de ser. 

    Já sua avó paterna era diferente em todos os aspectos.

     Nunca se casou no papel, bebia, fumava e estava sempre fora do país.  

    Era chamada por parte da família de velha louca. 

    Essa era a opinião dos tios de Mila Cox, que se encontravam apenas no Natal e muitas vezes já chegavam bêbados ao encontro. 

    No fim das contas, era uma avó ausente, mas generosa, cheia de cultura e bom gosto musical. 

    A mãe de Mila Cox, que também vivia com ela, estava numa posição ideológica intermediária entre as avós, o que para a jovem significava apoiar, pela inércia, o fantasma do machismo e da estrutura familiar patriarcal.  

    Parecia haver em sua mãe um conformismo diante de algo ao qual as mulheres deveriam se opor incondicionalmente. 

    A hora de sair de casa se deu no momento em que não havia mais atritos e nem consenso sobre o que pensar da vida. 

    Então ela foi morar com o amigo e parceiro musical Zími. 

    Embora tivesse um aspecto jovial, pelo seu visual e pelo pensamento libertário, era um cara de meia idade, e aproveitava o estímulo que Mila Cox lhe dava para ter também mais dinamismo em sua vida, já que ele sempre a via agindo de maneira decidida, orientada para objetivos. 

    Se não fosse por ela, ele seria apenas um copywriter que sairia de casa apenas para ir ao mercado e fazer suas atividades de livreiro, comprando, vendendo e trocando livros nos sebos do centro da cidade. 

    Assim, fatalmente cairia num ostracismo artístico. 

    Ele tinha sempre um estoque de livros para ler e depois vender pela internet, para pessoas de outras cidades, onde há poucas ou nenhuma livraria. 

    Com essa rotina, conseguia se manter longe das bebidas e das drogas. 

    Enchia a cara quando saía para tocar, fosse em São Paulo ou alguma cidade do interior. Nessas viagens para outras cidades, ele sempre bebia quantidades transatlânticas de goró, especialmente depois de conhecerem Silvano, que sempre comprava várias garrafas de aguardente de produtores locais, que ele pesquisava na internet antes de viajar. 

    Com Mila Cox (que bebia pouco e quase não usava outras drogas) ao redor, ele continuou com essas atividades cotidianas, mas com bem mais ânimo e dinamismo, pois junto dela havia para ele a aventura, completamente abandonada por muitos de seus amigos da mesma geração. 

    Ele já teve banda de rock antes, mas até que começasse a tocar com ela, passou anos sem cogitar uma volta à música, fazendo shows em troca de cerveja e do dinheiro da gasolina. 

    Mas ela fazia com que ele, mesmo num misto de saudosismo e desencanto com essa vida, retomasse o entusiasmo e, ainda que apenas por rebeldia, enxergasse que não havia motivos para não tocar. 

    Cantava apenas trinta por cento das músicas, pois tocava bateria simultaneamente, mas sua poderosa voz rouca, que contrastava com seus hilários falsetes, tornava essas canções as preferidas da banda, que tinha apenas os dois como integrantes. 

    Era ela no baixo, sintetizador e vocal, e ele na bateria e vocal. 

    A constatação dessa preferência do público pelas músicas cantadas por Zími foi feita por Mila Cox, que cuida das redes sociais do duo, chamado Crop Circles

    Zími agora podia lembrar sem rancor que seu pai dizia que caso ele não seguisse certas diretrizes de comportamento social, viraria um morador de rua. 

    Olhando em retrospecto, era claro para Zími que apesar dos altos e baixos de sua vida, até então tinha conseguido se virar e perder completamente qualquer medo de virar um mendigo destruído pelas drogas e álcool, pois antes de seu pai, a professora Maria Eugênia já havia praguejado algo similar em 1983, quando Zími estava na segunda série do primário. 

    A professora não havia gostado de uma redação que ele fez sobre fraternidade. 

    A escola era católica, e o trecho da redação que irritou a professora criticava gente que humilhava outras pessoas durante o dia e rezava à noite. 

    Nessa época, a situação em sua casa também não era boa. 

    Sua prima mais velha, que ele encontrava nos fins de semana, havia lhe mostrado vários discos de sua coleção e criticava duramente medalhões da MPB que romantizavam a pobreza e os pobres, mas viviam em mansões e dirigindo carrões. 

    Isso causou distúrbio na casa de Zími, pois seus pais achavam que ele não tinha idade para contestar o que quer que fosse, pelo menos enquanto vivesse com eles. 

    Quando perguntado sobre o porquê de não ter tido filhos, ele explicava que ao entrar no ensino médio, não sabia qual profissão queria seguir de fato, mas sabia que fosse ela qual fosse, não serviria para sustentar filhos, pois ele próprio se ressentia por seus pais o terem tido. 

    A economia feita com essa escolha o livraria do destino miserável que lhe previam, de virar um mendigo bêbado e drogado.  

    A paternidade é definitiva, irreversível e cara, algo que não combinava com sua perspectiva de ser razoavelmente livre, tanto nos momentos de agonia como nos momentos de glória. 

    Dizia que estabeleceu desde cedo que seria um adulto com diploma universitário e sem filhos. Anos depois, com o advento da internet, consolidou essa perspectiva. 

    Na mesma manhã em que voltavam do show em Indaiatuba, leram a matéria sobre os jogadores de futebol que tomaram um golpe milionário da empresa de criptomoedas que prometia muito, não entregou nada, e usava nas redes sociais o lema ‘Deus, pátria e família’. 

    Para Mila Cox e Zími, Deus se manifestava em suas próprias consciências, individualmente. 

    Era algo que estava sempre com eles, direcionando-os para um caminho de ética, decência e respeito. Não era alguém ou algo exterior, que pudesse ser encontrado numa igreja, por exemplo. 

    O dinheiro para eles não era um deus, e sim, algo criado pelos humanos.  

    Tornou-se algo sem o qual não se vive na sociedade. 

    Torna as pessoas muito mais escravas do que livres. 

    Os poucos que conseguem viver sem dinheiro e com alegria, quando descobertos, são alvos de um tipo de atenção que os torna quase desumanos, por abrirem mão de um convívio padrão com os outros, sendo considerados anomalias humanas pelo senso comum. 

    Ela queria dinheiro para comprar instrumentos melhores, ele queria dinheiro para comprar de uma vez o apartamento alugado e poder gastar sua energia com outras coisas que não fossem sofrer com aluguel atrasado. 

    A pátria não significava nada, a não ser limites fronteiriços, divisões políticas que motivam guerras. O patriotismo, uma doença infantil, o sarampo da humanidade. 

    A família eram as pessoas com quem escolhiam conviver. 

    Eram temas que já tinham sido explorados à exaustão nas músicas que faziam, mas que pareciam inesgotáveis diante do que viam nas ruas e nos noticiários. 

    O prédio em que viviam era também uma fonte de inspiração, pois abrigava uma classe média há anos empobrecida, mas sempre orgulhosa e sedenta não por direitos, mas por privilégios, custe os direitos de quem custar. 

    Gente que precisa de um líder, e segue coachs messiânicos picaretas, e vivem sem entender que estão muito mais próximos da favela do que da mansão. 

    Uma soberba que desce ao patético. 

    Desde que se mudaram para o novo apartamento e conheceram Silvano, as viagens para tocarem em outras cidades ganharam mais estrutura, embora a força motriz do rolê ainda fosse gerida por uma paixão que eles só poderiam ter no amadorismo. 

    Um contrato, por exemplo, poderia fazer daquilo uma profissão chata e desgastante, especialmente no que diz respeito à autonomia artística. 

    Os vizinhos tinham curiosidade ao vê-los chegando ou saindo, enchendo ou esvaziando a Kombi.  

    Era uma curiosidade grande, inversamente proporcional à empatia que sentiam, pois viviam de outra forma, passando por cima das diferenças individuais e seguindo os velhos padrões de comportamento de burguês mal remunerado, querendo ser o que nunca serão, e querendo ter o que nunca terão. 

    Chegaram a São Paulo, depois de duas horas, com trânsito em pleno domingo de manhã, e a perspectiva de futuro naquele momento era uma semana trabalhando como copywriters, e fazendo uma música nova para ser lançada como single na internet, além de um show no sábado seguinte em Cosmópolis. 

    A essa altura, Donald debilmente fazia de tudo para antecipar o final.

  • Crop Circles

    Tinham show às dezessete horas em Hortolândia.

     Chegaram cedo na cidade, apesar do trânsito caótico dentro do Complexo Metropolitano expandido.  

    Era uma festa particular, uma espécie de quermesse organizada por jovens locais, amigos de Mila Cox.

    O local era uma casa com pouca área construída em um terreno bem grande em meio a um grande descampado.  

    A proprietária era uma agitadora cultural de Sumaré, que usava aquele imóvel para promover festas com apresentações musicais.

    Era o primeiro show dos Crop Circles que o novo amigo Silvano acompanharia de perto. Ele nunca tinha visto ao vivo uma banda sem guitarrista.

    Abririam para a banda Random Clowns, que iria estrear o novo baterista.  

    Eram amigos de MIla Cox e Zími, e faziam em seu trabalho uma poderosa sátira social, retratando a sociedade como um circo mambembe de horrores. O som era um hardcore que não fugia do comum, mas eram bons ao vivo.

    Muita coisa aconteceu naquela tarde para Silvano, antes que Mila Cox, ao subir ao pequeno palco e depois de avistar alguns curiós com camiseta da CBF na plateia, estimada em cento e vinte pessoas, abrisse o show avisando que ele e Zími não tocariam “Simple Man” e nem “Hotel California”.  

    A figura daquela garota que parecia ainda mais jovem por empunhar um imponente Fender Jazz Bass azul, parecia impressionar boa parte do público.  

    Dali em diante, pelo menos para Silvano, começava o segundo tempo do rolê.

    Durante uma hora e dez minutos de show, os dois pareciam ser outras pessoas que não aquelas que o uruguaio Silvano conheceu como vizinhos de prédio no centro de São Paulo.

     Uma hora de um esporro sonoro tão estridente, que era difícil acreditar que era produzido por um tiozinho de meia idade tocando um kit minimalista homenageando Slim Jim Phantom e uma jovem de dezenove anos tocando baixo e um teclado de churrascaria e um monte de pedais.. E sem guitarra.  

    Era um alívio para eles quando o show terminava e ainda havia outra banda para tocar.

    O momento em que se juntavam ao público depois de tocarem, podendo assistir à outra banda, fumando e bebendo, proporcionava um sentimento difícil de explicar, algo que envolvia sensação de missão cumprida e de fazer parte de uma iniciativa que mobiliza jovens para ficar, pelo menos por algumas horas, longe do popularesco acintosamente imposto a todos eles.

    Os episódios bizarros envolvendo gente deselegante eram um risco tão iminente quanto um pneu furado ao longo do rolê.

    Depois de um show em Americana, no fim de semana anterior, um sujeito com chapéu e camiseta da CBF, bêbado, perguntou a Mila Cox se o sintetizador que ela usava tinha vindo gratuitamente com a compra de um pirulito.

    Ela logo descobriu que ele era conhecido no lugar, porque era um playboy local, que tomava muito bullying porque na infância teve babá e motorista.

    Dessa vez, Silvano podia ver da lateral do palco que Zími havia superado o pavor diante da possibilidade de dormir a próxima madrugada no carro, no caso de agendarem ali mesmo, após o show, uma nova apresentação para o dia seguinte, em outra cidade nos arredores.

    O dia seguinte era domingo, e quando havia show, era marcado para a tarde, então havia pouco tempo para repetir o esporro estridente.

    Zími explicava para Mila Cox que ele aguenta o rolê da mesma maneira que ela, mas que por ter trinta anos a mais, a recuperação é mais lenta. Ele jamais a decepcionaria nesse ponto.

    Àquela altura da vida, ele procurava ficar longe de drogas e álcool sempre que possível, mas ele bebia muito nessas gigs.  

    Pouco antes de chegarem a Hortolândia naquele dia, passaram num alambique local, descoberto por Silvano, na internet, na noite anterior.

    Então lá estavam às oito da manhã. Havia cachaças de muitas cores, e determinado a experimentar todas, Zími começou a tomar amostras oferecidas pelo proprietário, feliz pela satisfação do cliente, mas espantado com o fato de Zími ter um show naquele dia.

    À essa altura, Silvano só faltou chorar para que ele parasse de beber. Zími tomou onze copos de pinga, uma de cada cor, e apenas dormiu no carro por duas horas, levantando a seguir e tomando uma lata de cerveja comprada numa padaria de Hortolândia.

    O preço era atrativo, e compraram seis garrafas de aguardente, de cores diferentes.

    Pelo menos, o fato de serem um duo ajudava na logística desses rolês em que há pouco a perder. Sabiam que não haveria grandeza onde não houvesse simplicidade.

    Costumavam viajar no Chevette Jeans 79 de Mila Cox, mas dessa vez foram na Kombi de Silvano, com ele dirigindo. Ele tinha uma Kombi porque fazia carretos para complementar sua renda de investidor.

    No percurso, muitas piadas sobre a banda estar se estruturando, sendo que Zími perpetua um sentimento especial pelo amadorismo. Para ele, aquilo era uma forma de estar vivo e distinto de seus amigos que beiram ou que chegaram aos cinquenta anos e que, por múltiplas razões, não podem mais se lançar nesse tipo de atividade.

    Para Mila Cox, de dezenove anos, um show marcado no fim de semana era uma necessidade vital urgente. Planejava entrar na faculdade apenas depois de começar a consolidar seu projeto musical, no sentido de trazer ao seu som uma identidade que ela vê em artistas como Jane’s Addiction e Peter Gabriel, em seus três primeiros álbuns solo.

    Haveria inúmeros outros artistas que poderiam ser citados por ela, por conseguiram, da forma que ela deseja, imprimir identidade própria à música, mas esses mencionados foram mais ouvidos na semana que antecedeu o show de Hortolândia.

    Ela também era muito adepta do ‘faça você mesmo’, e contava com o vigor da juventude para tomar iniciativas que Zími deixaria de lado facilmente, como conversar em redes sociais para divulgar a banda e ir atrás de lugares em que pudessem tocar.  

    Eram tão fascinados pela loucura um do outro que o surgimento de Silvano parecia dar equilíbrio, ao admirá-los sem necessariamente entendê-los o tempo todo.

    A ideia primordial era que mesmo com os gastos com gasolina e comida, eles tivessem algum retorno financeiro, para que ao menos não tivessem que pagar para tocar.

    Naquele dia em Hortolândia, Silvano era responsável pela venda do merchandise, que daquela vez se tratava de um pacote com vinte e cinco cd’s que compilavam todos os singles que eles lançaram na internet até então.

    Conseguiu vender todos, e segundo ele, sem tanta demora. Teriam dinheiro pra comer e encher o tanque para voltar a São Paulo.

    Mas Silvano estava tão bêbado logo após o show dos Ramdom Clowns, que Mila Cox sabia que teriam que encontrar um posto de gasolina para estacionarem e dormirem.

    Depois de seu show, ela tomou dois copos de uma cachaça de abacaxi que compraram no alambique e aquilo foi o bastante para embriagar seus cinquenta quilos de corpo e então não tinha qualquer condição de dirigir na estrada, principalmente num carro que não era o dela. E ainda mais sendo uma Kombi.

    Quando metade das pessoas já tinha ido embora, ela viu Zími Sentado na caçamba de uma caminhonete, conversando com Jarbas, o vocalista dos Ramdom Clowns.

    Cada um segurava uma garrafa de cachaça colorida que compraram no alambique na manhã daquele dia. A garrafa de Zími era uma cachaça com menta e a de Jarbas era de coco queimado.

    Estavam apostando quem aguentava beber mais. A caminhonete estava a duzentos metros de Mila Cox quando ela os avistou. Até que se aproximasse, Jarbas já estava em péssimo estado, entregue, encostado na lateral do veículo.  

    Zími parecia bem, considerando o dia que ele teve.

    Falava que Vargas Llosa era gênio das letras, mas que fracassou miseravelmente como revolucionário.  

    Estavam na rua em frente à casa da festa, e ali pairava a certeza de que nada, exceto a falta de um banheiro, atrapalharia uma noite de sono na Kombi de Silvano, que estava a cinquenta metros de distância deles

    Apesar da festa estar no fim, ainda havia cerca de quarenta pessoas na casa, e um estoque de cerveja sem fim.

     Mila Cox ficou amiga de uma garota que havia levado sanduíches naturais para vender, o que sanou o problema da alimentação.

    Dormiram na Kombi, mas dessa vez acordaram sem ter show marcado para aquele dia. 

     Foram até uma pequena padaria, especialmente por causa do banheiro limpo que havia ali, e beberam muito café com bolo de fubá até onze da manhã.

    Silvano parecia recomposto para dirigir de volta para casa, mas teve que ouvir uma breve e seca repreensão de Mila Cox por causa do jeito que olhou para a garrafa de cachaça de amora que Zími tinha na mão, mas ainda não havia aberto.  

    Entraram na Kombi e partiram de volta a São Paulo.

    Silvano foi dirigindo e estava sozinho na frente, fumando maconha e falando sem parar.

    A Kombi tinha toca fitas e ele colocou uma fita dos Los Shakers, que tocou até que chegassem na garagem do prédio.

    Zimi bebia a cachaça de amora e Mila Cox olhava pela janela.

    Os deuses em que acreditavam eram suas próprias consciências, e nada era pior do que ser tarde demais.

  • Antes da escalada nuclear

    Tuco se suicidou.

    Era vizinho de Zími.

    Encontravam-se eventualmente nu elevador do prédio em que moravam e raramente as conversas passaram do “bom dia, boa tarde, boa noite”.  

    Zími, no entanto, podia compará-lo a um repolho cheio de rancor. 

    Ou a uma balança moral com defeito.

    Sabia que eram ideologicamente antagônicos.

    Vizinhos do prédio contaram a Zími sobre a morte de Tuco pouco depois da polícia científica deixar a garagem do prédio.

    O que havia de consenso nas diferentes versões dos vizinhos sobre o fato era a ruína financeira de Tuco, que o atormentava.

    Ele jamais seguiu a lógica minimalista de Zími, que pregava viver com o suficiente e poupar quando possível. 

    Nem poderia, pois era divorciado com dois filhos, enquanto Zími era solteiro e sem filhos.

    Tuco não ostentava grandes bens ou uma vida cheia de conforto para que alguém pudesse supor que tivesse dívidas insolúveis. Talvez esse fosse o motivo de seu discreto desespero.

    Ele deixou duas crianças órfãs, sócios desesperados em meio a negócios escusos e um apartamento vago no prédio.

    Os filhos viviam com a mãe em outro lugar.

    Zími ouvia Tuco dizer sobre si que era um conservador capitalista convicto, em rodinhas de vizinhos na frente do prédio.

    Tuco tinha quarenta e três anos e Zími tinha quarenta e oito, mas Tuco parecia ser mais velho, tanto na aparência física como na parte comportamental.

    Zími, um antifascista que não vota e despreza todos os políticos, de qualquer tendência ou partido, pensava no que poderia significar, para Tuco, o termo ‘conservador’.  

    É impossível que haja qualquer progresso sem o desvio da norma, então esse foi provavelmente um ponto em que a cabeça de Tuco fundiu, e sua ideologia conservadora finalmente se revelou inviável.

    Era agora apenas a lembrança de um repolho rancoroso que não lidava bem com a verdade descoberta tardiamente e não suportou a sensação de ser enganado até uma idade madura.

    Ele foi enganado pela falsa ideia de que havia para ele alguma perspectiva de prosperidade, em detrimento à qualidade de vida de outros.  

    Para Tuco a competição era necessária, e a desgraça de muitos era necessária para o triunfo de poucos. 

    Ele próprio nunca chegou a triunfar em riqueza material, como sonhava.

    Nunca imaginava uma prosperidade comum, pois tinha inimigos imaginários que o abalavam muito, especialmente no auge da crise sanitária.

    Um negacionista amargurado, inflexível para mudanças coerentes de opinião, sempre implantadas por lavagem cerebral de fanatismo religioso.

    Tuco, de acordo com as pessoas mais próximas a ele, estava afundado em dívidas, e defensor ávido do capitalismo, morreu na ratoeira do sistema que defendia.

    Alguém poderia atribuir à sua morte algum drama passional e não financeiro, algo que só piora o quadro deixado pelo infeliz.

    No entanto, também não ostentava uma vida de riqueza ou diversão suficientes para justificar tamanho desespero financeiro.

    Morava num conjunto com 48 quitinetes, e talvez isso fosse degradante para seus delírios de pobre capitalista, talvez megalomaníacos.

    Os pesadelos relativos a problemas financeiros abalam todos os setores da vida, e o amor familiar é o setor mais castigado.  

    No caso de Tuco, isso já não existia mais, a partir de um divórcio atribulado.

    Disse a Zími certa vez, numa conversa rápida e aleatória, que um homem pode ser feliz com qualquer mulher, desde que não a ame.

    Da porta de Tuco vazava o som de sucessos popularescos contemporâneos com conteúdo sexista, machistas em linguajar grotesco.  

    O pequeno entusiasmo que o fazia seguir adiante era obtido através de pastores picaretas, políticos, televisão e outros escapismos.

    Ele morreu antes que Zími lhe perguntasse quem era a vizinha nova que ouvia Throwing Muses de madrugada.

    Zími nunca perguntou porque faltava assunto entre eles para que uma conversa se aprofundasse a ponto de oferecer essa oportunidade.  

    Falavam entre si apenas o imprescindível, mantendo certa cordialidade de vizinhos.

    Tuco passava muito tempo na frente do prédio fumando e aparentemente pensando, e conhecia os moradores.  

    Alguns paravam para conversar, os que seguiam a mesma linha ideológica de Tuco. Eram esses os mais perplexos com seu último ato.

    Certa vez, quando se encontraram numa agência bancária, Tuco disse a Zimi que era melhor ter uma renda permanente do que ser fascinante.

    Zími considerou apenas que a fase atual do país e do mundo, com guerra, peste e violência, além de ameaças fascistas, estivesse de acordo com a condição que Tuco idealizava, e por isso também ficou um pouco surpreso com o suicídio.

    O fato é que dada a sua ideologia de vida, estava individualmente derrotado no placar geral.

    Apesar disso, era surpreendente para Zími que Tuco não estivesse mais disposto a aguentar mais tempo, só para ver o que aconteceria com o mundo.

    O ambiente em que viviam tinha um efeito completamente diferente sobre cada um.

    Apartamento pequeno, mais fácil de limpar, bom para Zími trabalhar em seus freelas, salvando estudantes preguiçosos com a produção de trabalhos acadêmicos.

    Certo sufoco financeiro, especialmente na semana que sucedia o pagamento do aluguel, mas levando em conta que era solteiro e sem filhos, as dificuldades eram reduzidas.

    O que sobrava eram os perigos e a falta de glamour da existência, aos quais todos estão submetidos.

    Uma visão do desconhecido como perigoso, levando em conta os rumos obscuros a que bilhões são submetidos de acordo com interesses de poucos.

    Zími acreditava que se uma parcial do seu placar na vida lhe fosse mostrada naquele momento, não estaria ganhando, nem perdendo. O que importava era o caminho.

    Consciente de sua finitude, queria ver até onde podia chegar, com suficiente senso de ridículo para não passar vergonha por atitudes estúpidas para sua idade ou para alguém que preze minimamente por um mínimo de classe na existência.

    A morte de Tuco fez com que Zími revesse o que significa não estar mais aqui enquanto os ônibus continuam passando, a padaria funcionando normalmente e o esquecimento das pessoas que morrem sendo acelerado pela bizarra banalização da morte imposta a todos nos últimos anos.

    Para Zími, a maior das loucuras é saber que o mais louco ainda está por vir, provavelmente de surpresa e para todos que estiverem vivos.

    O apartamento de Tuco foi ocupado em menos de uma semana, por uma família peruana de quatro pessoas, entre eles um bebê, dividindo o apartamento de solteiro.

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