Não. Zerar não é empatar. Quando chegamos ao fim da nossa capacidade de contagem, zeramos o jogo. “Zerar a vida” é a vanglória de um feito mágico e grandioso, uma experiência inacreditável! O ideal de fazer algo extraordinário, como se tivesse vencido o último e mais poderoso oponente e batido a meta máxima do game.
O feed desliza repetidamente, sem pausa, sem ponto final. A moça radiante dança diante de um palco imenso e resplandecente debruçado sobre a praia de Copacabana. Leio a legenda: — Zerei a vida! Ela é ainda tão jovem, pensei.
Não. Zerar não significa tirar nota zero. Zerar é a possibilidade de recomeço de um novo jogo e, portanto, abrem-se novamente as possibilidades de vitória, na aposta de que o sucesso esteja pleno de conquistas, e que possam ser vistas pelos outros.
Na lógica do “corre” , desacelerar seria escolha de quem está frustrado ou de quem está esgotado, fugindo da captura algorítmica.
Na matemática da vida real também zeramos o saldo de créditos e débitos e assim iniciamos o próximo ciclo de resultados. O circuito se repete neste jogo em que somos impelidos a “lacrar”. O entusiasmo está contido em cada possibilidade de gozo, como se assim descobríssemos o sentido da vida.
Zerar a vida não seria secretar sentidos da própria experiência de viver? Se a coragem necessária para enfrentar a única partida para valer só se justifique com um sentido, estamos todos “lascados”! Melhor será esvaziarmos o cofre das ilusões onde esbarramos naquilo que não tem sentido.
Entre perdas e ganhos, que o saldo seja em créditos de desejos, assim, mesmo sem prêmios ou troféus, a vida sempre valerá a pena.