Lorena Coutinho Berbert no Crônicas Cariocas

  • “Coisa teimosa”

    O falo é uma coisa teimosa! Esse valente que desaba de um desfiladeiro de significados, exigindo da sua plateia coro, palmas e repetição. Com um sorriso maroto no canto de lábios cascudos, como um menino perverso que tem pavor da castração, arranca o véu na sua cena infantil.

    O falo é uma coisa teimosa! Na sua lógica de ter ou não ter, expõe a sua fragilidade. Na demanda desenfreada de amor, exibe envergonhado, o excesso de desamparo. Com pavor do desconhecido, assume um compromisso com seus sintomas, mesmo pagando um preço caro.

    Capturado pelo sucesso, desconhece as entrelinhas pelas quais é encurralado no seu fiasco. Teimoso, repete mais uma vez. Prefere o embaraço a fazer o novo. Faz de novo. Será que é o tal do prazer masoquista ou do fulano sádico que extrai do gatilho um gozo? Um não vive sem o outro.

    “Cara ou coroa”? Vacilantes, somos presas fáceis. Incertos, como os dois lados da mesma moeda. Indefesos, fantasiamos um falo destemido para chamar de seu, carregado de condecorações: força, coragem, bravura, poder.

    Coisa teimosa! Não falha nem fracassa. Não escapa nem derrapa. Àquele que na fantasia, lhe protegerá contra todo o mal. Iludidos, pegamos o barco. Em mar aberto, navegamos na tempestade, perseguimos os engodos, e somos enfim fisgados,
    entorpecidos pelo canto da sereia.

    O falo é uma coisa teimosa! Ele é garboso. Sopra aos ventos. Cochicha ao pé do ouvido um sonho de consumo — Podemos ser completos! Sussurra tão perto, que sentimos seu bafo quente e fétido, de quem atiça o fogo.

    São 10:20 h, logo cruzarei a Ponte Rio- Niterói. O marcador de combustível no painel do carro indica que estou na reserva. Avisto ao longe um imenso boneco biruta inflável se movimentando com o vento gerado por um motor. Ufa!!! Expiro aliviado. Ali tem
    um posto, onde encherei meu tanque quase vazio.

    E lá estava o menino maroto saindo de fininho do lado do boneco titânico do posto. Seu sorriso de canto de boca, não deixou dúvidas. Com um simples furinho de agulha, tombou murcho no asfalto o gigante.

    Aliviado, agora com o tanque cheio, chego ao Rio pontualmente ao encontro marcado pelo iLoveyou.

    Oxalá hoje eu não fracasse no meu destino de povoar o mundo.

  • “Zerou” a vida?

    Não. Zerar não é empatar. Quando chegamos ao fim da nossa capacidade de contagem, zeramos o jogo. “Zerar a vida” é a vanglória de um feito mágico e grandioso, uma experiência inacreditável! O ideal de fazer algo extraordinário, como se tivesse vencido o último e mais poderoso oponente e batido a meta máxima do game.

    O feed desliza repetidamente, sem pausa, sem ponto final. A moça radiante dança diante de um palco imenso e resplandecente debruçado sobre a praia de Copacabana. Leio a legenda: — Zerei a vida! Ela é ainda tão jovem, pensei.

    Não. Zerar não significa tirar nota zero. Zerar é a possibilidade de recomeço de um novo jogo e, portanto, abrem-se novamente as possibilidades de vitória, na aposta de que o sucesso esteja pleno de conquistas, e que possam ser vistas pelos outros.

    Na lógica do “corre” , desacelerar seria escolha de quem está frustrado ou de quem está esgotado, fugindo da captura algorítmica.

    Na matemática da vida real também zeramos o saldo de créditos e débitos e assim iniciamos o próximo ciclo de resultados. O circuito se repete neste jogo em que somos impelidos a “lacrar”. O entusiasmo está contido em cada possibilidade de gozo, como se assim descobríssemos o sentido da vida.

    Zerar a vida não seria secretar sentidos da própria experiência de viver? Se a coragem necessária para enfrentar a única partida para valer só se justifique com um sentido, estamos todos “lascados”! Melhor será esvaziarmos o cofre das ilusões onde esbarramos naquilo que não tem sentido.

    Entre perdas e ganhos, que o saldo seja em créditos de desejos, assim, mesmo sem prêmios ou troféus, a vida sempre valerá a pena.

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