Crônicas

“Zerou” a vida?

Não. Zerar não é empatar. Quando chegamos ao fim da nossa capacidade de contagem, zeramos o jogo. “Zerar a vida” é a vanglória de um feito mágico e grandioso, uma experiência inacreditável! O ideal de fazer algo extraordinário, como se tivesse vencido o último e mais poderoso oponente e batido a meta máxima do game.

O feed desliza repetidamente, sem pausa, sem ponto final. A moça radiante dança diante de um palco imenso e resplandecente debruçado sobre a praia de Copacabana. Leio a legenda: — Zerei a vida! Ela é ainda tão jovem, pensei.

Não. Zerar não significa tirar nota zero. Zerar é a possibilidade de recomeço de um novo jogo e, portanto, abrem-se novamente as possibilidades de vitória, na aposta de que o sucesso esteja pleno de conquistas, e que possam ser vistas pelos outros.

Na lógica do “corre” , desacelerar seria escolha de quem está frustrado ou de quem está esgotado, fugindo da captura algorítmica.

Na matemática da vida real também zeramos o saldo de créditos e débitos e assim iniciamos o próximo ciclo de resultados. O circuito se repete neste jogo em que somos impelidos a “lacrar”. O entusiasmo está contido em cada possibilidade de gozo, como se assim descobríssemos o sentido da vida.

Zerar a vida não seria secretar sentidos da própria experiência de viver? Se a coragem necessária para enfrentar a única partida para valer só se justifique com um sentido, estamos todos “lascados”! Melhor será esvaziarmos o cofre das ilusões onde esbarramos naquilo que não tem sentido.

Entre perdas e ganhos, que o saldo seja em créditos de desejos, assim, mesmo sem prêmios ou troféus, a vida sempre valerá a pena.

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Lorena Coutinho Berbert

Lorena Coutinho Berbert é psicanalista, escritora e empresária dos segmentos de Arte e Turismo. Atuou como executiva na área de Recursos Humanos durante 20 anos, tendo exercido o cargo de Diretora de Capital Humano da Rede Globo, onde foi responsável pela Central Globo de Produção (Projac). É pós-graduada em Teoria Psicanalítica pelo IBMR e possui especialização em Gestão Estratégica de Pessoas pela INSEAD, na França. Idiomas: inglês e francês. Em 2019, publicou o livro Por que trabalhar? Como resolver o mal-estar na carreira. É participante da Letra Freudiana e sócia da Modernistas Galeria.

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