Valéria Soares

  • Sujeito homem

    — Tu é sujeito homem?

    A frase saiu como um soco. Mais agressiva até. Os dois envolvidos na discussão eram homens, não havia dúvidas, mas a pergunta era mais profunda: vinha para mexer com os brios. Para trazer à tona fraquezas ou revelar coragens.

    Seu corpo, um tanto menino, não acompanhava o tamanho da sua integridade. Não revelava quão grande era aquele ser juvenil. Suas razões, explicadas de modo atrapalhado, eram contundentes. Dispensavam eloquência e formalidades. Cortavam a carne feito lâminas.

    Os contra-argumentos vinham em um português formal que nada devia aos melhores oradores, mas, naquele momento, não conseguiam convencer ou responder à pergunta torta e capciosa. Entretanto, ela ecoava ferina pelos corredores, como espada afiada dos dois lados. Amedrontava e constrangia na mesma medida. Impossível não pensar nela.

    Não é fácil nem simples manter a palavra empenhada ou dizer a verdade, mesmo quando sofreremos por dizê-la. Não é fácil escolher ser exemplo, cuidar das próprias atitudes e assumir suas consequências.

    — Eu sou sujeito homem! Eu não minto. Você sabe disso.

    Ainda que o outro quisesse, não podia discordar. Na sua impetuosidade juvenil, não mentia. Apanhava, era preso, mas não mentia. Tinha uma coragem que envergonhava outros. Não escrevia bem, não argumentava a contento, mas convencia como ninguém.

    Tu é sujeito homem, moleque, como são todos os homens e mulheres que têm o dom de dizer a verdade com a vida que levam e com as palavras que saem de suas bocas.

    Ao amor antes de tudo. À verdade, sempre.

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