Valéria Soares

  • Detalhes

    Entra na confeitaria pensando em tomar um espresso para aquecer a tarde chuvosa. Pede um salgado e um refrigerante pequeno. Não sabe por que mudou de ideia. Senta-se de frente para a rua. Gosta de admirar as pessoas que passam e ouvir os pequenos fragmentos do dia a dia de cada uma delas.

    Na confeitaria, um homem emocionado conta ao balconista histórias de sua juventude ligadas ao lugar. Levou sua primeira namorada para comer um doce com morangos. Demora-se contando e repetindo trechos da mesma história.

    Uma senhora entra reclamando do mau tempo e informando que, desde 1942, não chove por tantos dias seguidos. Fala sobre a influência da internet no comércio local. Faz prognósticos nada otimistas para as grandes lojas de eletrodomésticos. Come e sai, despedindo-se de todos com a intimidade de quem frequenta o lugar há muito tempo.

    A confeitaria silencia por alguns minutos.

    Lá fora, chuva fina e neblina trazem ao dia um quê melancólico. 

    Observa.

    Guarda-chuvas, sombrinhas e casacos circulam pela calçada. Apressam-se para resolver questões de um dia comum de inverno.

    Levanta-se, paga a conta e sai.

    A praça vazia. Os carros que passam. Os olhos que contemplam.

    Lembra-se da frase dita pela mulher na confeitaria:

    Nunca choveu tanto!

    Não confere a informação, mas tem certeza de que as pessoas continuarão escrevendo suas histórias.

    Em dias de chuva ou de sol.

    A vida não para, ainda que o mau humor tome conta do nosso dia.

  • Aos 16!

    Enfrenta seus porquês: quer respostas, quer experimentar… Arrisca-se, arroga-se, ensoberbece! Sabe o que ninguém nunca soube.

    Seu caminho, com certeza, será diferente de todos os outros.

    Empina o nariz, responde com autoridade, briga com o vento.

    Sabe, mas não sabe. Pensa que não, mas precisa…

    O som alto disfarça a ansiedade, os amigos disfarçam a solidão.

    Envolvida numa interna guerra entre ser e querer, todos os caminhos estão diante de si. Todas as possibilidades. Aflige-se. Não quer ouvir; grita!

    Aos dezesseis, não se lembra mais da Alice do livro de capa dura e desenhos coloridos. Talvez agora seja a hora de saber que não afundará nas próprias lágrimas e que a escuridão de agora é apenas passageira. O mundo tem um lugar que lhe pertence, que está lá à espera.

    Menina, sofrer faz parte, mas não vá além do limite! A dor pode acomodar o espírito e aquecer nossa alma.

    Aprisiona.

    Vai, menina, o camundongo só virará rinoceronte se você permitir. Feche esta porta e abra a outra. Só você pode fazê-lo.

  • Domingos

    Lembro-me de um tempo em que as pessoas aproveitavam a tarde de domingo para fazer visitas umas às outras. Era comum que minha mãe fizesse um bolo e o deixasse reservado para as tais visitas, que podiam ser de amigos, parentes ou comadres e compadres. Muita conversa e café com bolo.

    A televisão ficava ligada no Silvio Santos, os adultos torcendo pelo número do seu carnê do Baú da Felicidade, enquanto nós, crianças, sonhávamos com os presentes do “Boa Noite, Cinderela!”.

    Tudo acontecia ritualmente. A missa das dez, com a melhor roupa; o almoço com frango assado e Coca-Cola Família. O avô que sempre vinha “porvar” a comida, a Brahma na cabeceira da mesa, o pudim de leite de sobremesa.

    Os visitantes sempre traziam seus filhos. Enquanto conversavam sobre o que não podíamos ouvir, brincávamos no quintal. No domingo seguinte, certamente retribuiríamos a visita ou iríamos à casa de alguém que estivesse acamado.

    A noite levava todos para suas casas e trazia o Fantástico com suas bailarinas pintadas.

    Na segunda, tinha escola e os legumes não vinham envolvidos em maionese. O suco de garrafa ou de pacotinho substituía o refrigerante e a cerveja. À mesa, a saudade do domingo, a rotina e a laranja como sobremesa.

  • Cinderela

    — O que você achou?

    — Lindo! Nunca tinha visto igual.

    — Sério?

    — Sério!

    — Por quê?

    — Não sei… A transparência, talvez.

    — Você nunca teve um assim?!

    — Claro que não! Eles são raros.

    — Raros…

    — Raros!

    — Sei que existem diferentes, mas não pensei que fossem raros.

    — Pois são.

    — Você só gostou da transparência?

    — Não. Tem esse brilho intenso, ofuscante… Raro.

    — Ah! O brilho também é raro?

    — É. Muito!

    — Começo a achar que são os seus olhos…

    — É maravilhoso!

    — De verdade?

    — De verdade.

    — É seu. É para você.

    — Nossa!

    — Ficou emocionada?

    — Surpresa.

    — Não entendi por quê.

    — É muito… Muito…

    — Não! É perfeito. Sob medida.

    — Você acha?

    — Só existe por você… É seu.

    — Mas… é tão lindo!

    — Tanto quanto você.

    — Eu não mereço.

    — E precisa?

    — Não?!

    — Ele só existe, só é valioso, só é transparente, porque é seu.

    — Aiiii…

    — Porque você é o encaixe perfeito.

    — Meu coração…

    — Posso colocar?

    — Pode.

    — Vamos?

    — Aonde?

    — Ao baile.

    — Que baile? Tá maluco?

    — Você não está ouvindo?

    — Ouvindo o quê?

    — A carruagem! Olha!

    — Você é maluco!

    — Seja também!

    — Onde vai ser o baile?

    — Onde quisermos. Onde estivermos.

    — O que vestirei?

    — Vestiremos o amor e estaremos livres.

    — Livres.

    — Sim. Vestidos do amor mais perfeito e valioso, que só nós podemos ver.

    — Livres e descalços.

    — Sob chuva ou sol.

    — Sem proteção.

    — Meu amor te protege e o seu me orienta.

    — Feito por você. Feito para você.

    — Feito por você. Feito para você.

    — Sem sapatinhos de cristal.

  • F5

    — E se o sapatinho não couber?

    — Como assim? Não é seu?

    — É.

    — Então?

    — O meu pé mudou.

    — Mudou?

    — Não sou mais a mesma.

    — Hã.

    — Meus pés às vezes incham.

    — rsrs

    — E o vestido? Você pode usar o vestido!

    — Será?1q

    — Claro!

    — ihh! Engordei…

    — A tiara! Use a tiara!

    — Tem um problema. De lá pra cá, meus cabelos diminuíram… Não vai ficar legal.

    — Caramba!

    — O que eu faço?

    — Não sei. Não tem mais nada igual?

    — Igual?

    — Igual ao que você era naquele tempo.

    — Tem!

    — O quê?

    — A vontade de ser feliz permanece.

    — Só isso?

    — A crença no amor também.

    — E?

    — O sonho continua aqui. Só.

    — Só?!

    — A vida! A vida continua.

    — Com os pés inchados é possível?

    — É possível.

    — Sei onde tem sapatinhos ortopédicos de cristal.

    — E o vestido?

    — Plus size.

    — E os cabelos?

    — Lace!

    — E o príncipe?

    — Tinder.

    — Match?

    — Match!

    — Vamos ao baile?

    — Vou pedir o Uber confort.

  • Taciturna

    A escuridão a excitava. Gostava das sombras e de imaginar monstros sob a silhueta da lua.

    Não tinha medo. Nunca teve. Conversava por horas com figuras imaginárias, criadas pelo jogo de luzes e sombras no jardim.

    Se havia névoa, melhor! Tudo parecia mais misterioso. Seu coração, então, disparava.

    Era tanto para imaginar!

    Cresceu assim: apegada à solidão. Amiga das fases lunares. Brincando de esconde-esconde com a neblina. Contando segredos às formas sombrias.

    Um ser estranho, canhoto, enigmático.

    Mudou-se. Na cidade, perdeu o luar. As sombras eram traiçoeiras. Como imaginar agora? Onde se esconder?

    Virou poetisa. Submergiu no mundo das palavras. Oculta-se em metáforas, joga com antíteses, cria raras rimas.

    O coração, de novo, dispara: ritmadamente!

    Um ser estranho, canhoto, enigmático…

  • Retrato

    De Pipa para Pernambuco, pela estreita estrada, seguimos. Nada no peito, a não ser a batida do novo. Um beat surdo que ecoa, único, em cada ouvido. Seguimos. Somos expectativa e viagem.

    Os olhos decifram a paisagem: o pequeno cemitério cheio de árvores floridas e um homem só, que olha o túmulo de alguém que, pela primeira vez, está só.

    O caminho não é este, mas termina no encontro do rio com o mar. Beleza pura. Voltamos à estrada desejada, à experiência planejada, ao rumo escolhido.

    Entre os coqueiros, aceleramos e assistimos ao vento. Uma torre de telefonia informa que o aparente isolamento não existe.

    O gado branco e magro descansa. Longos espaços sem ninguém. Mal sabemos em que dia da semana estamos.

    O peixe rosado é escamado, as senhoras conversam, a varanda é gradeada, a casa é verde e rosa, a lavoura é de camarão.

    Uma Assembleia de Deus, um jardim de mandioca, uma conversa animada no botequim.

    O vento dança nos coqueiros. Os pensamentos vão devagar… Devagar, a vida passa nos olhos de ressaca do homem que olha a segunda-feira.

  • Percepção

    Ela enxerga poesia, vê histórias em todos os lugares. Se viaja, escreve mentalmente histórias que jamais tomarão forma na tela ou no papel. Quanto mais longa a viagem, mais tempo em silêncio com seus pensamentos. Entretanto, nunca precisou de uma viagem física para sair do lugar, percorrer mundos, encontrar pessoas e ouvir e falar palavras que apenas ela conhecia, que apenas a ela eram ditas.

    Este é o ar que ela respira: há poesia no contraste de cores inesperado, na casa à beira da estrada, na flor que enfeita o jardim, na aventureira bicicleta que desafia o perigo, na placa informando que saíram de Oizeiro e entraram em Tororomba.

    Há história na venda com balança verde e uma variedade de cachaça sem fim. Há história no homem mestiço de boné que se encosta preguiçosamente na manhã abafada de sábado. Há rima nas casas caprichosamente pintadas e iguais.

    Onde a estrada vai dar?

    Já existem o tempo, o espaço, a gente.

    A história se escreve no caminho.

  • Caixinha de música

    — O que você faz aí?

    — Não está vendo?

    — Estou, mas por que aí?

    — Você não sabe?

    — Não!

    — O meu criador disse: “Vá e enfeite o mundo!”

    — Então você é um enfeite.

    — Sim.

    — Pra quem?

    — Pra todo mundo.

    — Mas não os vejo.

    — Quem?

    — Todo mundo.

    — Porque você me trouxe pra cá.

    — Então agora você é meu enfeite?

    — Sim.

    — Desça daí.

    — Para quê?

    — Vou mostrá-la a todo mundo.

    — Não entendi. Você não me trouxe pra você?

    — Eu te trouxe para ser.

    — Ser o quê?

    — O que você quiser.

    — Sozinha?

    — Inteira.

    — E você?

    — Se você deixar, serei inteiramente seu.

    — Eu desço?

    — Eu posso subir.

    — …

    — Onde estivermos, seremos.

    — Movimento e dança.

    — Ritmo e poesia.

    — Vento e voo.

    — Sintonia e sinfonia.

    — Vamos?

    — Começou.

  • Sobre voar

    — Desaprendeu?

    — desaprendi.

    — mas você era tão…

    — Era! Muito tempo atrás. Não sou mais.

    — Tem certeza? Isso a gente nunca esquece. Basta uma vez pra nunca mais esquecer.

    — Não foi só uma vez…

    — Não?! Bem, comigo… Pensei que tivesse sido apenas comigo…

    — A primeira sim, mas houve outras. Tantas… Tão boas, tão lindas… O que foi?

    — Nada! Quer dizer… nada! Nada não.

    — Ficou com ciúmes?

    — Sim.

    — Não fique. A primeira nunca esquecemos.

    — Não?! Então por que desaprendeu?

    — Porque…

    — Por quê…?

    — Sei lá! Fui crescendo. Ficando mais pesada. Deixando de lado.

    — Por quê?

    — Você nunca parou?

    — Não. Por que pararia?

    — Mas você também cresceu. Também ficou mais pesado…

    — Cresci.

    — Então?

    — O quê?

    — Não ficou mais difícil?

    — Não.

    — …

    — Não havia como.

    — …

    — É o meu sentido. É para o que existo.

    — Como sabe?

    — É lógico!

    — Não entendi.

    — É lógico!

    — Tá! Agora me explica.

    — Temos asas.

    — E daí?

    — Como e daí? Temos a-sas!

    — Aff!

    — Qual o motivo de termos asas se não for pra voar?

    — … Você acha?

    — Meu Deus! Tenho certeza.

    — Mas também temos pés. Podemos andar.

    — E a-sas!

    — …

    — Cadê as suas? Elas eram tão bonitas! Tão lindas, cheias de plumas…

    — Não são mais as mesmas. Mas as suas estão mais bonitas, mais definidas.

    — Eu voo.

    — Eu cresci.

    — Você cresceu e desaprendeu.

    — Cresci e desaprendi a voar…

    — Não! Cresceu e desaprendeu a ser.

    — A ser?

    — Sim.

    — A ser o quê?

    — Feliz.

    — …

  • Sujeito homem

    — Tu é sujeito homem?

    A frase saiu como um soco. Mais agressiva até. Os dois envolvidos na discussão eram homens, não havia dúvidas, mas a pergunta era mais profunda: vinha para mexer com os brios. Para trazer à tona fraquezas ou revelar coragens.

    Seu corpo, um tanto menino, não acompanhava o tamanho da sua integridade. Não revelava quão grande era aquele ser juvenil. Suas razões, explicadas de modo atrapalhado, eram contundentes. Dispensavam eloquência e formalidades. Cortavam a carne feito lâminas.

    Os contra-argumentos vinham em um português formal que nada devia aos melhores oradores, mas, naquele momento, não conseguiam convencer ou responder à pergunta torta e capciosa. Entretanto, ela ecoava ferina pelos corredores, como espada afiada dos dois lados. Amedrontava e constrangia na mesma medida. Impossível não pensar nela.

    Não é fácil nem simples manter a palavra empenhada ou dizer a verdade, mesmo quando sofreremos por dizê-la. Não é fácil escolher ser exemplo, cuidar das próprias atitudes e assumir suas consequências.

    — Eu sou sujeito homem! Eu não minto. Você sabe disso.

    Ainda que o outro quisesse, não podia discordar. Na sua impetuosidade juvenil, não mentia. Apanhava, era preso, mas não mentia. Tinha uma coragem que envergonhava outros. Não escrevia bem, não argumentava a contento, mas convencia como ninguém.

    Tu é sujeito homem, moleque, como são todos os homens e mulheres que têm o dom de dizer a verdade com a vida que levam e com as palavras que saem de suas bocas.

    Ao amor antes de tudo. À verdade, sempre.

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