
Afinal, quem serve quem?
Ninguém está aqui para nos servir. As empresas de ônibus, os garçons de restaurantes, o moço do guichê do metrô, o barman — todos parecem estampar nos olhos a mensagem: “você trabalha para mim”.
Por esses dias, um grande amigo veio a BH passar uns dias. Depois dos compromissos que tinha por essas plagas mineiras, fomos a um shopping tomar um café. Meu amigo, assim como eu, não se furta ao prazer de, junto de um cafezinho quente e fumegante, comer uma saborosíssima torta alemã — ou holandesa — com direito aos biscoitinhos, que geralmente vêm de brinde.
Fomos ao primeiro piso, onde há uma famosa loja de chocolates, ambiente convidativo, mesas e — claro — o mais importante: a torta. Foi quando, ao chegarmos lá, vimos uma variedade imensa de tortas, cujo preço não era nada em conta. Mas, ao perceber que precisava fazer o pedido naquelas máquinas de autoatendimento, meu amigo perdeu a calma:
“Ah, agora sou eu que trabalho pra eles.”
E fomos embora.
Alguns dias, penso que o mundo ficou mais fácil em muita coisa. Ninguém passa, hoje, pelo perrengue de chegar ao restaurante e a garçonete não ter troco — ou, em alguns casos, ter que tirar do próprio bolso o dinheiro que um freguês levou a mais. O Pix, o cartão de crédito ou débito resolvem tudo. Agora, uma verdade preciso reconhecer: ninguém mais quer servir ninguém.
Você vai até o balcão, faz seu pedido, o pager vibra, você retira o pedido. Em alguns casos, depois de comer, um garçom recolhe a bandeja, os pratos, a xícara; em outros, você mesmo faz isso. Em situações assim, o bandejão e a cafeteria se igualam — com a diferença de que, na cafeteria, você paga o triplo do preço, trabalha pra eles e ainda sai se sentindo chique.
Ao que me parece, comer fora de casa perdeu um pouco do prazer, do gosto.
Certo dia, ali na região da Savassi, fui a uma loja de cookies — desses que, dizem, a gente come rezando. A empresária era jovem, uns trinta anos, mais ou menos, fazia cookies de todos os sabores. Ao perguntar se ela entregava em casa, respondeu:
“Entregar a gente não entrega, sabe? Mas deixa disponível, caso o cliente queira contratar um motoboy.”
Ou seja, o freguês ainda tem que contratar um motoboy.
Sim, eles querem que a gente trabalhe pra eles. E, em alguns casos, a gente aceita.
Ao sair de casa, tudo o que quero é o prazer de comer em boa companhia, dar boas risadas, ter uma conversa sem me preocupar com pager vibrando, buscar bandeja, recolher louça.
Sem contar que idosos e gente simples nem sempre se viram bem com máquinas de autoatendimento. Dá vontade de gritar:
“Tirem esses monstrengos do caminho. Minha vida precisa de mais sabor.”
O sabor de uma boa companhia, de um papo olho no olho. Afinal, se a pessoa quisesse se autoatender, comeria em casa: fritaria biscoitos, faria uma broa, passaria um café quentinho.
Mas, naquele dia, a gente não quis. Saiu pra bater perna, subiu para o piso seguinte e — adivinhem — encontrou um quiosque, uma cafeteria com garçons e garçonetes servindo todo mundo, com um sorriso e muita gentileza.
Peguei uma torta holandesa, ele pegou outra. Pedimos uns cafezinhos quentes. E os biscoitinhos de brinde, claro.
Aí, finalmente, pudemos colocar a conversa em dia, matar a saudade — tudo o que dois amigos querem.
Quando a gente vence a preguiça, anda mais um pouco e encontra um lugar melhor, descobre que ainda é possível desfrutar a vida com muito mais prazer.























