por Leandro Alves

  • A certeza que cansa o olhar

    Otto Lara Resende escreveu uma das minhas crônicas favoritas: “Vista cansada”. Li pela primeira vez na faculdade de Letras. Depois, voltei a ela muitas vezes, sempre com o mesmo incômodo. É uma crônica triste, muito triste. Diz que, de tanto ver, chega uma hora em que já não se vê mais ninguém — nem o porteiro, nem a mulher, nem o vizinho.

    Mas o que fica, mesmo, não é só a tristeza. É a suspeita.

    Ao ler Otto, me ocorre que a gente não deixa de ver por distração. A gente deixa de ver por certeza.

    A certeza de que o outro vai estar ali amanhã.

    E é aí que tudo começa a desaparecer.

    Tem marido que se acostuma com o jantar na mesa, sempre na mesma hora. Não se pergunta quem é aquela mulher que cozinha todos os dias. Porque, no fundo, acha que aquele prato vai estar ali para sempre.

    Tem amigo que atende na primeira chamada, que topa uma cerveja em qualquer terça-feira, que escuta, aconselha, insiste. E vira paisagem. Não porque mudou, mas porque parece garantido.

    Tem porteiro que abre o portão, deseja “bom dia”, sustenta um sorriso que nem sempre volta. Passa anos ali, invisível, como se fosse parte do prédio.

  • Afinal, quem serve quem?

    Ninguém está aqui para nos servir. As empresas de ônibus, os garçons de restaurantes, o moço do guichê do metrô, o barman — todos parecem estampar nos olhos a mensagem: “você trabalha para mim”.

    Por esses dias, um grande amigo veio a BH passar uns dias. Depois dos compromissos que tinha por essas plagas mineiras, fomos a um shopping tomar um café. Meu amigo, assim como eu, não se furta ao prazer de, junto de um cafezinho quente e fumegante, comer uma saborosíssima torta alemã — ou holandesa — com direito aos biscoitinhos, que geralmente vêm de brinde.

    Fomos ao primeiro piso, onde há uma famosa loja de chocolates, ambiente convidativo, mesas e — claro — o mais importante: a torta. Foi quando, ao chegarmos lá, vimos uma variedade imensa de tortas, cujo preço não era nada em conta. Mas, ao perceber que precisava fazer o pedido naquelas máquinas de autoatendimento, meu amigo perdeu a calma:

    “Ah, agora sou eu que trabalho pra eles.”

    E fomos embora.

    Alguns dias, penso que o mundo ficou mais fácil em muita coisa. Ninguém passa, hoje, pelo perrengue de chegar ao restaurante e a garçonete não ter troco — ou, em alguns casos, ter que tirar do próprio bolso o dinheiro que um freguês levou a mais. O Pix, o cartão de crédito ou débito resolvem tudo. Agora, uma verdade preciso reconhecer: ninguém mais quer servir ninguém.

    Você vai até o balcão, faz seu pedido, o pager vibra, você retira o pedido. Em alguns casos, depois de comer, um garçom recolhe a bandeja, os pratos, a xícara; em outros, você mesmo faz isso. Em situações assim, o bandejão e a cafeteria se igualam — com a diferença de que, na cafeteria, você paga o triplo do preço, trabalha pra eles e ainda sai se sentindo chique.

    Ao que me parece, comer fora de casa perdeu um pouco do prazer, do gosto.

    Certo dia, ali na região da Savassi, fui a uma loja de cookies — desses que, dizem, a gente come rezando. A empresária era jovem, uns trinta anos, mais ou menos, fazia cookies de todos os sabores. Ao perguntar se ela entregava em casa, respondeu:

    “Entregar a gente não entrega, sabe? Mas deixa disponível, caso o cliente queira contratar um motoboy.”

    Ou seja, o freguês ainda tem que contratar um motoboy.

    Sim, eles querem que a gente trabalhe pra eles. E, em alguns casos, a gente aceita.

    Ao sair de casa, tudo o que quero é o prazer de comer em boa companhia, dar boas risadas, ter uma conversa sem me preocupar com pager vibrando, buscar bandeja, recolher louça.

    Sem contar que idosos e gente simples nem sempre se viram bem com máquinas de autoatendimento. Dá vontade de gritar:

    “Tirem esses monstrengos do caminho. Minha vida precisa de mais sabor.”

    O sabor de uma boa companhia, de um papo olho no olho. Afinal, se a pessoa quisesse se autoatender, comeria em casa: fritaria biscoitos, faria uma broa, passaria um café quentinho.

    Mas, naquele dia, a gente não quis. Saiu pra bater perna, subiu para o piso seguinte e — adivinhem — encontrou um quiosque, uma cafeteria com garçons e garçonetes servindo todo mundo, com um sorriso e muita gentileza.

    Peguei uma torta holandesa, ele pegou outra. Pedimos uns cafezinhos quentes. E os biscoitinhos de brinde, claro.

    Aí, finalmente, pudemos colocar a conversa em dia, matar a saudade — tudo o que dois amigos querem.

    Quando a gente vence a preguiça, anda mais um pouco e encontra um lugar melhor, descobre que ainda é possível desfrutar a vida com muito mais prazer.

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