por Ana Helena Reis

  • Poema #04: Flor no Asfalto

    Chamam de resiliência
    essa palavra polida,
    de palco e de LinkedIn,
    que ensina a atravessar ruínas
    com a coluna ereta.

    Resiliência:
    dizem ser força,
    dizem ser método,
    dizem ser quase virtude corporativa.

    Mas outro dia
    ela me apareceu diferente —
    não em gráficos,
    nem em discursos bem ensaiados,

    mas numa fresta de asfalto:

    uma flor.

    Pequena, improvável,
    sem plateia, sem legenda,
    rompendo o cinza
    com a delicadeza de quem não pede licença.

    Ali estava tudo.

    Porque a terra sabe:
    depois da seca,
    depois do frio,
    depois daquilo que parece fim,

    há sempre um retorno
    silencioso.

    Um recomeço que não se anuncia,
    apenas acontece.

    E então pensei
    nos nossos desertos particulares —
    esses dias antes do aniversário,
    quando o mundo pesa mais do que devia,
    quando o acaso tropeça na gente
    vez após vez,

    e por dentro
    a paisagem racha.

    Mesmo ali,
    no chão duro do cansaço,
    algo insiste.

    Uma espera sem nome,
    quase teimosa,
    como quem já sabe
    que a chuva vem.

    Lembro, então, de Sérgio Britto,
    na voz dos Titãs,
    em Enquanto Houver Sol —

    quando tudo parece gasto,
    quando até a ilusão se recolhe,

    ainda assim,
    em algum lugar mínimo,
    sobrevive

    uma infância.

    Talvez seja isso.

    Resiliência não é pedra.
    Não é rigidez.

    É chama.
    É o quase nada que permanece
    aceso o suficiente
    para, um dia,

    florir —

    mesmo
    sobre o asfalto.

  • Tatibitate

    Meu amorzinho, vamos começar. Vou explicar para você direitinho o que vai acontecer, não se preocupe, estou aqui pra ajudar, viu amorzinho? Qualquer dúvida pode me perguntar, eu estou aqui do seu ladinho o tempo todo. Vamos lá? coloque o pezinho aqui, assim amorzinho, um pezinho pra frente, o outro pezinho pra trás. E a mãozinha precisa estar firme assim, viradinha.

    Quem lê esse parágrafo logo imagina um adulto conversando com uma criança bem pequena, que ainda não domina totalmente a linguagem, correto? Ledo engano. Ouvi esse diálogo em uma sala de teste ergométrico, em que a pessoa que estava sendo testada era uma senhora na faixa de sessenta anos. Constrangida, ela tentava se desvencilhar desse linguajar da assistente de enfermagem sem sucesso.

    O que percebo é que alguns comportamentos da sociedade acabam por eliminar o período entre a infância e a velhice. É como se, na hora de desenhar a linha do tempo, os anos da vida adulta não existissem.

    Infância e velhice se tornaram uma categoria única, com a diferença que, aos olhos principalmente de quem atende o público, essas crianças longevas sofreram uma perda significativa de senso crítico, autoestima, raciocínio e capacidade cognitiva.

    Assim, a partir dos sessenta anos, os denominados “da terceira idade” se veem frente a situações cômicas, se não fossem odiosas.

    Uma delas é essa mania de usar diminutivos, uma linguagem quase tatibitate. Os idosos não tem membros, tem membrinhos. Não são tratados como senhor e senhora e sim como senhorinha e senhorzinho. Tem sapatinhos e não sapatos e carregam malinhas e não uma mala.

    Esse uso constante do diminutivo reduz o idoso a uma condição infantilizada e o interlocutor a praticamente um tutor daquele ser incapaz. Isso para não falar do sorriso condescendente que acompanha o diminutivo, quase de comiseração.

    Vivemos em um país com trinta e sete milhões de pessoas (18% da população) com mais de sessenta anos e essa parcela da sociedade cresce a 2,5% ao ano. Há que se pensar, portanto, em uma reciclagem dos treinamentos para atendentes do público pois, no andar da carruagem, o diminutivo assumirá o comando na língua portuguesa.

    Está na hora de esticar a linha do tempo e encurtar o tratamento com diminutivos!

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