Chamam de resiliência
essa palavra polida,
de palco e de LinkedIn,
que ensina a atravessar ruínas
com a coluna ereta.
Resiliência:
dizem ser força,
dizem ser método,
dizem ser quase virtude corporativa.
Mas outro dia
ela me apareceu diferente —
não em gráficos,
nem em discursos bem ensaiados,
mas numa fresta de asfalto:
uma flor.
Pequena, improvável,
sem plateia, sem legenda,
rompendo o cinza
com a delicadeza de quem não pede licença.
Ali estava tudo.
Porque a terra sabe:
depois da seca,
depois do frio,
depois daquilo que parece fim,
há sempre um retorno
silencioso.
Um recomeço que não se anuncia,
apenas acontece.
E então pensei
nos nossos desertos particulares —
esses dias antes do aniversário,
quando o mundo pesa mais do que devia,
quando o acaso tropeça na gente
vez após vez,
e por dentro
a paisagem racha.
Mesmo ali,
no chão duro do cansaço,
algo insiste.
Uma espera sem nome,
quase teimosa,
como quem já sabe
que a chuva vem.
Lembro, então, de Sérgio Britto,
na voz dos Titãs,
em Enquanto Houver Sol —
quando tudo parece gasto,
quando até a ilusão se recolhe,
ainda assim,
em algum lugar mínimo,
sobrevive
uma infância.
Talvez seja isso.
Resiliência não é pedra.
Não é rigidez.
É chama.
É o quase nada que permanece
aceso o suficiente
para, um dia,
florir —
mesmo
sobre o asfalto.