Poesias de 1 a 99

É um espaço destinado para poemas de novos e autores consagrados.

  • estou sem almoçoe sem jantae com duas costelasquebradas meu caminhar é pelesobre o bronzedo asfalto, atritosuave de quem sonha estou sofrendocom as calças e tudoe isso é nada paraquem vive na rua. Um Andarilho Dentro de Casa

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  • Solto em São Paulo, aonde iria?Rompia a noite, não decidia.Abria as asas: para onde ia? Se fosse Batman, já saberiaqual o combate de cada esquina.Mas nem pra Coringa prestaria. Vampiro? Não, desmaiariaà vista de sangue.Dos predadores recusavaaté a fantasia. Ao encontro da rua,sumiria.De encontro ao muro,desaparecer: será, seria? Solto em São Paulo, sobrevoariaavenidas edifícios várzeas varandas tabacariasmercados de luxode porcariassobejas ninharias. Abert

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  • Identifico-me com a noitee com o que ela trazde específico a si mesma,e assim fazendo, aceitoo convívio de seres opacose da nova ordem e estado de coisasque o escuro inaugura.Identifico-me com o avessosou aliás o próprio avesso de mim,e assim sendo, conheçoas esquinas sombriasnas quais se disfarçaa inexorável nulidade.Volto de manhã para casa,e num balanço isento da noitenenhum acréscimo se me acrescentoude forma permanente.Voltei eu mesmo sozinho e íntegr

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  • Olho para o vaziode meus olhos.O espelhonão reflete mais o amor,outrora visível. Imagens tão nítidasse me afloram perdidasna incongruência do vidro,uma vez descascada sua tintaprateada de reflexão. E agora as manhãstrazem o hálito da perda,do que fui e que no meu delíriose esgotou em fome. Não a fome dos homensdo nordeste, biológica.Tampouco a fome dos homenscivilizados, que inventaram a fomepara dois terços do mundo. Mas fome ela mesma,que não se come e m

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  • Não escanda a minha fala.Escancarar uma taranem sempre é um bom negócio. Esconda, miúdo, as manias que lhe movem.Um dia, quando nada sobrar,elas ainda farão o seu coração bater. É como diziam os romanos:tudo em latim.Ninguém entende, todo mundo concorda.

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  • O vento sopra um frio doido e esquisitona curva da esquina de um terreno baldio.Estou entre sapos e grilos e entulhos de lixo,atrás de um muro quebrado e com muitos cacosde vidro onde me escondo dos meus inimigos.Apaguei todas as luzes da esperançae estou sendo mordido por cachorros de rua.“Atualmente eu vivo rodeado por minhaspaixões defuntas”. Todas inclusive,menos uma delas: a paixão do absoluto.Ando sozinho pelas ruas de bairros e ouço:(você quer pegar

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  • Um cão latindo na noiteé sempre um cão.Sem cor, sem nome e semsignificadopara quem o está ouvindo. No entanto este cãotraz em seu latido,sombras de milhões de outros cãessintetizadosem uníssono noite adentro. A chuva não consegue abafareste inquietante latir,profanando o sono dos homense o sectarismo estáticodas coisas e dos seres. Alguém para se ver livredo incômodo latidodesfechou tiros na escuridão,e a noite se arrastou em insônia. Da boca sangrenta daq

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  • De cotidianos resíduosarrancados na solidão de prisioneiroem que todo o meu ser se devora,tento compor uma imagem humanaque me faça aceitável a mim mesmo. No silêncio da morte aparentena qual me recolho ao túmulo previstonão sei com que ânsia mórbida de calma,procuro juntar os cacos de culpa diáriaque reunidos formam um apelo ao suicídio. E não é só o remorso das manhãs doentiaspelo que na noite se desfez em delíriosde humana fraqueza cansada de si mesma,é

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  • As nuvens tecemuma história diáriae sem antecedentes.Não sei se podechamar de trabalho(o trabalho das nuvens)o que parece ser maisum deslizar contínuode um sonho que nãose sabe a si mesmoe apenas escorrepara um vazio profundo. Eu, que estou na janela,vejo as nuvense não enxergo a razãode se estar a vê-lassem que se possainterferir ou sustara sua indiferença.A vida humana é mesmo esseestar-sempre-dependuradoa uma janela da inérciafechada para o infinito. In

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  • Quero banhar-me nas águas sujasQuero banhar-me nas águas sórdidasSou a mais solitária das criaturasMe sinto só. Confiei às mulheres os meus amoresCaí de quatro pelas sarjetasCobri minha alma de decepçõesValei-me Manuel Bandeira. Vozes da morte contai a históriaDa pessoa boa que sempre fuiE eu dormia ouvindo o ruído calmoDo bambuzal A Sentinela em Fuga e Outras Ausências

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  • E vemé frio é poucoe quente e certoincerto é leve é tardee breve e loucosolto é muito é medoe mesmo e igualreal parte e vemvem e parteuma partee vai…

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  • A chuva no asfaltoleva papéis/cigarrose o vômito de ontem.Amanhã novos resíduosvirão para preenchero vazio do meio-fio.Areia (À Fragmentação da Pedra)

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  • acredito que hajadentro em mimuma separação entrecorpo e espírito,espírito e mente.a cabeça pensa de uma formae o corpo age de maneira diversa,nunca se coadunam em alma de ser.sou o intervalo exato, inexpressivo,entre o talvez e o se e o quando serásendo que sou este ser, de si ausente,defeituoso e desengonçado. Da Essencialidade da Água

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  • Se te olhasse de novo, te perceberiaSe eu soubesse enxergar, ah, se soubesse…Quão terrivelmente felizesSeriam meus dias Temo não saber o depois.Pois quem nunca se perguntou…“E agora, o que vem”? Deixo vir.Mas temo…Não saber receber. Temo a teima de não saberSer para saber.Temo ter de temer, e temer…E não viver outra coisa,Não ver a beleza,Fazer do outro jeito,Viver ao contrário, Não acertar nunca,Estar sempre ocupadoDe erros e não saber fazerOutra coisa se

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  • Entre as naus e os sonhos de antesAnterior à memória, objeto estranho…o mar era só… sem os seus navegantes.Calmo, vário e tamanho, As águas, um mistério, um senãoporém, quando teima a criatura humanao desejo insistente instiga a mãoa alcançar tudo, com toda a gana… brota na alma um querermais que tudo e muito mais!Indo sem ir e vendo sem verdo precipício à beira do cais. Da imagem fez-se o nobre cantodo canto nobre fez-se a triste sinada

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  • Eu só boto bip-bop no meu samba quando o tio Sam pegar o tamborim Somos povoSomos pluralidadeSomos originaisSomos naturezaSomos belezaSomos muitoColônia, de novo?Nunca!Sobre tudoSomos… tudoSomos … CUL-TU-RA!Por issoEu só boto o bip-bopNo meu sambaQuando o tio SamPegar no tamborim!

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  • Deixar de ser cúmplice da vidade outros que em mim personificama parcela da culpa que subtraiodo erro coletivo e meu, individualizado. Obscurecer o reflexo do sofrimentode homens que não vejo em presença,mas que em espécie me julgam dignode vê-los (como testemunha da mortesem remissão de si) em que se abrigam. A desvisão do homem como forma de sedesviar do mundo, numa covardia anônimade se cegar para o que há de recíprocono duplo ato de existir e ser respo

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  • FebreSudoreseIncontinênciasVômitosSitofobiaExcesso de salivaFalta de arPalidezConvulsõesFeridasGritosRoncosFedorEspumas na bocaExcesso de gáscatinguentoDor no calcanhare cansaço no mesmo. Uma pequena listado que somos eainda tem genteque se jacta. O Jardim Simultâneo

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  • Um laço e um nóe o engasgo e o silêncioa palavra muda amordaçada e nadado que fizera antes apagao fluxo do poema e da prosae as mãos frágeis do poeta-cronistatentam a todo custo segurar o textoo desejoa insensatez e a loucura e o rio de letrassílabas palavras-peixe e amores brutosum laço e um nó e o engasgo e o silêncioa palavra matae cala e se calaafrouxa e apertaafrouxa e apertae joga e rolae deita e colaafrouxa e aperta e águae mais água inundam o ser e

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  • Alguns dos meuspoemas são comoletras de músicasem música. Alguns dos meusgestos são comoatos de uma peçasem atores. Alguns dos meussonhos são comoum comício públicosem plateia. Alguns dos meusatos são comoum filme mudosem cenário. Alguns dos meusdelírios são comouma transgressãoda vida no sonho. Muitas das minhasloucuras são comoa minha própriavida & literatura,inéditas no finaldas contas. Inventário de Sombras

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  • Estou debruçadosob a fagulha do instante.Me distorço enquanto crioa ilusão de um esboço para algoque sequer sei o quê. Ouso um salto, um pêndulo.Giro de cá e de lá.Laço-me à vertente de um vértice,dobro os olhares e os reviro, o sintoma.Tu, que me devoraste. A vertigem do hoje faz horaHá tempo… Apressa-te, que o passo é passado.Vagueia a tormenta, é futuro.Perdoa o vivido, é achado.Lamenta, já se fora perdidofeito pássaro garrido,debatendo-se,sangrando,só,

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  • Subtraímos da vidaa sua menor parcelapara o preenchimentode nossas carências. Mas ao assumirmos ocontrole desta mínimapropriedade, sentimos que ela não nos bastaposto que a enxergamosapartada de sua totalidade. Acrescentamos então à vidaa parte restante que faltapara completar a visão quenós temos do seu conjunto. Mas ao nos atribuirmos acapacidade de dispor doselementos de acordo com nossamomentânea vontade, a vida perde a complacência concedidae resgata

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  • Sentar-se à varanda e deliciar-se com aspassadas, dos sons da cidade,com a corrente inóspita do tempo… Ao silêncio de um lago turvoque se desdobra,sobre as luzes que escapam, e a vida queexiste… como que omundo as retirasse de si. E notar as ondas eternas das horasque mergulham sob a vastidãode um verso transitório,entre aquilo que se ée o que se fora. Estou farto de uma existênciarelapsa erepentina; deste lampejoimediato que submergee estilhaçao vis

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  • A chuva veio tomaros meus pensamentose me puxou pelo braço… assim inteiroe já não me sou…deixei de ser…somos e não somos.Várias vozes… absorção.Um senão! E fica a impressãode que a vida se abandonana brevidade acelerada das coisas…e não somos! Fingimos ser…Inventamos, copiamos, fazemos um rascunho…E nos deparamos com o sentido inoportunode não querer entendere somos! Vencido o humano,bandeiras ao vento, mastros,cor

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  • A palavra dada tem valorinsuscetível de medir.Pode-se apenas estimar o pesona palma da mão estendida. O corpo intui o preçoque o verbo não soube exprimir.Em troca, a renúncia ao trocoabrevia o lapso do som ao silêncio. No mercado das promessas,a confiança é soberana.Mas às vezes, submissa,flerta com o charme do blefe.

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  • O teu corpo,pássaro esculpidono assento dosofá da salade visitas,é uma ampla salaonde te visito(abolida a noçãode sonhosob o teu vestido),sempre que o desejodo corpo desenhaa moldura de umpássaroem teu assentoInventário de Sombras

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  • onda mortiça,que oculta em seu manto de espuma?pérola ou lixo?fragmento de concha ou ponta de vidro?cobertor de areiaespelho de estrelapoça onde a sereia afônica afunda os pés sem dedos O corpo inteiro afogado no poço sem fundo.A memória em desordem de molho no sal.O olhar que vacila (à procura de terra firme?)vê diluir-se um segredo na força da água. no avançono refluxoo vaivém ritmadopinta no chãouma sombra onduladaque apaga São suas ondas, maré postiça,

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  • Sem querer descansoUm espantoVoluptuosa correnteSente que é noiteDentro da gente. Sem querer remansoMansoMato verde molhadoSente que é serenoEnluarado. Sem qualquer prantoPronto:Torre de vento e estrelaSabe que é madrugadaNada. Vem molhada de cantoQuer tantoBoca de lua jogadaSol quente na estrada

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  • talvez uma nota sósurge avulso na meia luzmonótono feito o cantoque se destina a embalaro teto o chão as paredes a coreografia do póprojeta no espaço em brancoo sonho de não morrero ritmo é a bolha que estourano silêncio da distância rebate elástico o nóduelo que prende a respostaao mesmo som da perguntana teia da repetiçãoa voz desafia o infinito

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  • “… você marcou a minha vida, viveu, morreu na minha história, chego a ter medo do futuro e dasolidão que em minha porta bate… eu corro e fujo destas sombras, em sonhos vejo este passado, ena parede do meu quarto, ainda está o seu retrato, não quero ver pra não lembrar, pensei até emme mudar… lugar qualquer que não exista o pensamento em você”.Edson Trindade/Tim Maia Breve, como breve é a luz da lua cheiaDurante o eclipse solar da vida humana. Breve, como b

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