Poesias de 1 a 99

É um espaço destinado para poemas de novos e autores consagrados.

  • “Quando em meu peito rebentar-se aQue o espírito enlaça à dor vivente”.  Álvares de Azevedo(1831-1852) O poeta dobra a esquinacom uma sacola de plástico:pão, bife de hambúrguer e solidão.Não vale a pena chorar por ele:se fez as opções erradas,se tombou pelo caminho,nada fica além do fatode um dia ter existidoe comido aquele sanduíchebarato. Uma Escada que Deságua no Silêncio

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  • A lua na casa de saturnosaturno na casa da luatodo mundo em casa.A casa de todos no mundotodo mundo na casa detodo mundo e eu que nãoencontro o meu lugarem lugar nenhum,no escuro. O Jardim Simultâneo

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  • Agora que a luz se apagoue a solidão restabeleceu seu domínio,ouço com receio a linguagem do escuroque me des-norteia a vida. Nasci sob o signo da mortemas prefiro-a assim,conquistada aos poucos.Porção diária de venenoque injeto na raiz da vidaaté que ela, afinal, desapareça. E a linguagem do escuro prevalece(ainda que se acendam todas as luzes)como sendo a linguagem universal de tudoa tecer as teias da incompreensão fraterna.Areia (À Fragmentação da Pedra

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  • Não era o primeiro a chegartambém não era o últimoficava no meio. Lugar pouco disputado,onde ninguém posae quase ninguém repara. Enquanto alguns se apressavam em brilhare outros reclamavam da falta de luzele aguardava. Não parecia esperar nada específicotalvez só o tempo exato em que algo se revelasem fazer alarde. Foi assim que aprendi:nem toda claridade quer vencer a noitealgumas só querem caber dentro delapor um instante e depois seguir vagalumeando

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  • Ainda que sejam versos pequenos…Uns simples versos que sejam ao menos,os ventos os empurrarão no tempoonde serão o eterno consentimento. Toda a lua brilha alta e resplandeceporque deseja muito o amor do mar.Acaricia um instante e depois reflete:é a busca de nunca encontrar. Como um solitário que ri na estradaé toda ela amor…uma imagem vaga,tempero de emoções, fogo que estala. Sendo certo o errado e não sendoa peleja da busca, o contratempo,ainda que seja u

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  • “Eu quero os meus brinquedos novamente!Sou um pobre meninoQue envelheceu, um dia, de repente!”Mário Quintana (1906-1994) Tenho quarenta e cinco anose já neste meu último aniversáriofoi levantada a hipótese irreversíveldo envelhecimento antes da morte,mas nunca sabemos o que virá primeiro. Seja como for o assunto é desagradável. Imaginei-me de carteirinha sexagenária,entrando pela porta da frente dos ônibuse viajando de graça pelo país dos meus netos. Logo

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  • Quando a chuva neutralizara esperança das flores, no chãouma semente irá se desenvolverà imagem e perspectiva de tornar-se,sintetizando em si todo o anseio dos homenspara que de seus ossos não se faça apenasum cemitério, mas também um canteiro.Areia (À Fragmentação da Pedra)

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  • A vida,em todas as suas formas,revela a sutileza de um mágicoque hipnotiza a todospara que não vejam seus truques falhos. Os homens,em todas as suas crenças,revelam a idiotice de um asnoque acredita em tudopor não ser capaz de discernir o óbvio. Os homens,com todos os seus mágicos,revelam a estupidez da espécieque acredita na vidacomo sendo o caminho para a salvação. A vida,com todas as suas armadilhas,revela a esperteza de um camaleãoque dissimula aos hom

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  • amar-te até os dentesembora passado o instante da mordidafico de presente com a marca da feridaleva pro futuro tatuado meu gosto

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  • sou nascido e criadona roçaacostumado com as durezasda vida racho lenha para o sustentocom um machado cegode cabo de pau-mulatoherança do meu avô após almoçar no quintaluma empurra a outra na moitae eu saio aliviado para o roundda luta suja e feroz do homem. Um Andarilho Dentro de Casa

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  • estou sem almoçoe sem jantae com duas costelasquebradas meu caminhar é pelesobre o bronzedo asfalto, atritosuave de quem sonha estou sofrendocom as calças e tudoe isso é nada paraquem vive na rua. Um Andarilho Dentro de Casa

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  • Solto em São Paulo, aonde iria?Rompia a noite, não decidia.Abria as asas: para onde ia? Se fosse Batman, já saberiaqual o combate de cada esquina.Mas nem pra Coringa prestaria. Vampiro? Não, desmaiariaà vista de sangue.Dos predadores recusavaaté a fantasia. Ao encontro da rua,sumiria.De encontro ao muro,desaparecer: será, seria? Solto em São Paulo, sobrevoariaavenidas edifícios várzeas varandas tabacariasmercados de luxode porcariassobejas ninharias. Abert

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  • Identifico-me com a noitee com o que ela trazde específico a si mesma,e assim fazendo, aceitoo convívio de seres opacose da nova ordem e estado de coisasque o escuro inaugura.Identifico-me com o avessosou aliás o próprio avesso de mim,e assim sendo, conheçoas esquinas sombriasnas quais se disfarçaa inexorável nulidade.Volto de manhã para casa,e num balanço isento da noitenenhum acréscimo se me acrescentoude forma permanente.Voltei eu mesmo sozinho e íntegr

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  • Olho para o vaziode meus olhos.O espelhonão reflete mais o amor,outrora visível. Imagens tão nítidasse me afloram perdidasna incongruência do vidro,uma vez descascada sua tintaprateada de reflexão. E agora as manhãstrazem o hálito da perda,do que fui e que no meu delíriose esgotou em fome. Não a fome dos homensdo nordeste, biológica.Tampouco a fome dos homenscivilizados, que inventaram a fomepara dois terços do mundo. Mas fome ela mesma,que não se come e m

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  • Não escanda a minha fala.Escancarar uma taranem sempre é um bom negócio. Esconda, miúdo, as manias que lhe movem.Um dia, quando nada sobrar,elas ainda farão o seu coração bater. É como diziam os romanos:tudo em latim.Ninguém entende, todo mundo concorda.

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  • O vento sopra um frio doido e esquisitona curva da esquina de um terreno baldio.Estou entre sapos e grilos e entulhos de lixo,atrás de um muro quebrado e com muitos cacosde vidro onde me escondo dos meus inimigos.Apaguei todas as luzes da esperançae estou sendo mordido por cachorros de rua.“Atualmente eu vivo rodeado por minhaspaixões defuntas”. Todas inclusive,menos uma delas: a paixão do absoluto.Ando sozinho pelas ruas de bairros e ouço:(você quer pegar

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  • Um cão latindo na noiteé sempre um cão.Sem cor, sem nome e semsignificadopara quem o está ouvindo. No entanto este cãotraz em seu latido,sombras de milhões de outros cãessintetizadosem uníssono noite adentro. A chuva não consegue abafareste inquietante latir,profanando o sono dos homense o sectarismo estáticodas coisas e dos seres. Alguém para se ver livredo incômodo latidodesfechou tiros na escuridão,e a noite se arrastou em insônia. Da boca sangrenta daq

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  • De cotidianos resíduosarrancados na solidão de prisioneiroem que todo o meu ser se devora,tento compor uma imagem humanaque me faça aceitável a mim mesmo. No silêncio da morte aparentena qual me recolho ao túmulo previstonão sei com que ânsia mórbida de calma,procuro juntar os cacos de culpa diáriaque reunidos formam um apelo ao suicídio. E não é só o remorso das manhãs doentiaspelo que na noite se desfez em delíriosde humana fraqueza cansada de si mesma,é

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  • As nuvens tecemuma história diáriae sem antecedentes.Não sei se podechamar de trabalho(o trabalho das nuvens)o que parece ser maisum deslizar contínuode um sonho que nãose sabe a si mesmoe apenas escorrepara um vazio profundo. Eu, que estou na janela,vejo as nuvense não enxergo a razãode se estar a vê-lassem que se possainterferir ou sustara sua indiferença.A vida humana é mesmo esseestar-sempre-dependuradoa uma janela da inérciafechada para o infinito. In

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  • Quero banhar-me nas águas sujasQuero banhar-me nas águas sórdidasSou a mais solitária das criaturasMe sinto só. Confiei às mulheres os meus amoresCaí de quatro pelas sarjetasCobri minha alma de decepçõesValei-me Manuel Bandeira. Vozes da morte contai a históriaDa pessoa boa que sempre fuiE eu dormia ouvindo o ruído calmoDo bambuzal A Sentinela em Fuga e Outras Ausências

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  • E vemé frio é poucoe quente e certoincerto é leve é tardee breve e loucosolto é muito é medoe mesmo e igualreal parte e vemvem e parteuma partee vai…

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  • A chuva no asfaltoleva papéis/cigarrose o vômito de ontem.Amanhã novos resíduosvirão para preenchero vazio do meio-fio.Areia (À Fragmentação da Pedra)

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  • acredito que hajadentro em mimuma separação entrecorpo e espírito,espírito e mente.a cabeça pensa de uma formae o corpo age de maneira diversa,nunca se coadunam em alma de ser.sou o intervalo exato, inexpressivo,entre o talvez e o se e o quando serásendo que sou este ser, de si ausente,defeituoso e desengonçado. Da Essencialidade da Água

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  • Se te olhasse de novo, te perceberiaSe eu soubesse enxergar, ah, se soubesse…Quão terrivelmente felizesSeriam meus dias Temo não saber o depois.Pois quem nunca se perguntou…“E agora, o que vem”? Deixo vir.Mas temo…Não saber receber. Temo a teima de não saberSer para saber.Temo ter de temer, e temer…E não viver outra coisa,Não ver a beleza,Fazer do outro jeito,Viver ao contrário, Não acertar nunca,Estar sempre ocupadoDe erros e não saber fazerOutra coisa se

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  • Entre as naus e os sonhos de antesAnterior à memória, objeto estranho…o mar era só… sem os seus navegantes.Calmo, vário e tamanho, As águas, um mistério, um senãoporém, quando teima a criatura humanao desejo insistente instiga a mãoa alcançar tudo, com toda a gana… brota na alma um querermais que tudo e muito mais!Indo sem ir e vendo sem verdo precipício à beira do cais. Da imagem fez-se o nobre cantodo canto nobre fez-se a triste sinada

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  • Eu só boto bip-bop no meu samba quando o tio Sam pegar o tamborim Somos povoSomos pluralidadeSomos originaisSomos naturezaSomos belezaSomos muitoColônia, de novo?Nunca!Sobre tudoSomos… tudoSomos … CUL-TU-RA!Por issoEu só boto o bip-bopNo meu sambaQuando o tio SamPegar no tamborim!

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  • Deixar de ser cúmplice da vidade outros que em mim personificama parcela da culpa que subtraiodo erro coletivo e meu, individualizado. Obscurecer o reflexo do sofrimentode homens que não vejo em presença,mas que em espécie me julgam dignode vê-los (como testemunha da mortesem remissão de si) em que se abrigam. A desvisão do homem como forma de sedesviar do mundo, numa covardia anônimade se cegar para o que há de recíprocono duplo ato de existir e ser respo

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  • FebreSudoreseIncontinênciasVômitosSitofobiaExcesso de salivaFalta de arPalidezConvulsõesFeridasGritosRoncosFedorEspumas na bocaExcesso de gáscatinguentoDor no calcanhare cansaço no mesmo. Uma pequena listado que somos eainda tem genteque se jacta. O Jardim Simultâneo

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  • Um laço e um nóe o engasgo e o silêncioa palavra muda amordaçada e nadado que fizera antes apagao fluxo do poema e da prosae as mãos frágeis do poeta-cronistatentam a todo custo segurar o textoo desejoa insensatez e a loucura e o rio de letrassílabas palavras-peixe e amores brutosum laço e um nó e o engasgo e o silêncioa palavra matae cala e se calaafrouxa e apertaafrouxa e apertae joga e rolae deita e colaafrouxa e aperta e águae mais água inundam o ser e

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  • Alguns dos meuspoemas são comoletras de músicasem música. Alguns dos meusgestos são comoatos de uma peçasem atores. Alguns dos meussonhos são comoum comício públicosem plateia. Alguns dos meusatos são comoum filme mudosem cenário. Alguns dos meusdelírios são comouma transgressãoda vida no sonho. Muitas das minhasloucuras são comoa minha própriavida & literatura,inéditas no finaldas contas. Inventário de Sombras

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