Poesias de 1 a 99

É um espaço destinado para poemas de novos e autores consagrados.

  • Um momento cristalizoutodos os outros momentosde espera e indagação.Um momento trouxe à tonatodos os outros momentosde sublimação dissimulada.Um momento estabeleceu o paradoxode todos os outros momentosentre o que se quer concretamentee o que se assume perante a consciênciapara fugir do inevitável.Um momento levantou questõesde todos os outros momentosdos quais buscava-se o refúgiona indiferença e no não-sinto.Um momento mostrou claramenteaquilo que os out

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  • Quero a involuçãoA proteção contra os ventosÚtero da mãeTurbulência amniótica. O desequilíbrio de voltarO ser ainda sem serTodos os caminhos por andarTodas as guerras por vencer Quero o grito de mãeNa hora de parir O choro engasgadoA dor de nascer Coragem para voltarTudo feito novoCerteza de não errarLeite materno como sustento Quero vida inteiraApagadas as besteirasQuero vento novoSoprando semente verdadeira.

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  • o teu encanto de sereialevitou a serpentepor entre minhas teiastua pele luxo de sedapor cima de mimfeito mágica de Aladdinsucumbiu com minhas destrezasteu palato de rio docedesaguou no meu remoeste tão cansado e enfermode navegações ocrese ao velejarmos sobre ondas rítmicas& místicasno compasso do som das baleias   gozamos no alto do mundoum bilhão e duzentas mil estrelas

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  • A anatomia dos carros na ruarevela a um homem que os vê(entre outras coisas)uma força neutra a interferire modificar a paisagem desoladade quem anteriormente os criou. A anatomia das mulheres(independente dos lugaresem que se encontram) remete-nosa uma forma viva de organização planejadaonde a beleza é fruto dela mesma, transfigurada. A anatomia do pensamento de quem(por exemplo escreve este poema)nada mais é do que uma consequência imaterialde causa e efe

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  • tragoa pessoa amadaaqui dentro mas amor não se prende sendo assimsolto-oao vento

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  • A cada dia vai-se diminuindoo meu espaço vital.Isto porque quando comecei a sentir-meparte integrante do mundoeu já havia sido expulso do mundo.Toda uma vidatodo um aprendizadoadquirido na sombra e no silêncio de indivíduoé tão somente de conhecimento meu próprio.Só eu sei dos mecanismos mentaisque implicam em cada gestoem cada palavraque ensaiando digo às paredesque ainda não foram construídas.Encenei para mim mesmo uma tragicomédiana qual sou o único per

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  • a música no rádiotocaum clássico rock anos 80 — ainda não sei de quem —mas seique toda vezque essa música-clássicotoca todas as estações do rádiosintonizamtua imagem-clipedando coresa um passadoque ficou em branco. *

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  • O corpo utilizadopara a afirmaçãode uma individualidade,de resto inexistente. A individualidade,como um fantasma abstrato,esconde-se por detrásda porosa pele. A tatuagem utilizadapara a identificaçãodos corpos, vítimasdo desastre aéreo. Um Andarilho Dentro de Casa

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  • na calçada dos meus olhosvocê passa um palavrão altosaina boca do becoda minha mente a ponta-metal do teu saltoarrebentao meu tímpano-peitonum som estridente e no meio do palcoperco todo o sentidofeito fã cego idolatrando artistaem seu show ao vivo

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  • ITenho comigomilhões de cadáveresque apodrecem seus ossosjá destituídos do ímpetoque movimenta os homens vivospara a conquista de algo. IITenho comigoa inércia do corpoque aniquila o meu sonhojá despojado da vidaque antes impedia o planode me alimentar desses ossos. IIIO que sou hoje é esta certezade não ser senão em mim.O que sou hoje é este impulsoem preservar o que já está desfeito.O que sou hoje é esta incapacidadede desempenhar papel no mundo.O que so

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  • Entre tantas vozesTantos abraçosEntre tantos conselhosEm meio ao cansaço Quando sorrioOu quando choroSe me surpreendoOu me apavoro Se a alegria é tantaOu a decepção é muita,Importa ter o teu colo, Mãe,Pra valer a pena continuar.

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  • Dove mi nasconderò?Dove mi sentirò?L’appartenenza non è piùChe la gentilezza Di far nullaSenzaUna scelta. Il poema sarebbe belloSe non fossi ioA scrivirtelo,Dall’uomo che suona zeroInsomma, dammelo subito!Che poi riesco a diventare…Ansito. Chiusa è l’ombra poiché si èavvolta alla finestrae finchè La parola più lungaSotto l’esistenza esternaTrovasi infatti un esempioCioè, una resistenzaIncerta. Dimmi di più, dimmi di sì, di no…Su di noi lo scont

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  • De cotidianos resíduosarrancados na solidão de prisioneiroem que todo o meu ser se devora,tento compor uma imagem humanaque me faça aceitável a mim mesmo. No silêncio da morte aparentena qual me recolho ao túmulo previstonão sei com que ânsia mórbida de calma,procuro juntar os cacos de culpa diáriaque reunidos formam um apelo ao suicídio. E não é só o remorso das manhãs doentiaspelo que na noite se desfez em delíriosde humana fraqueza cansada de si mesma,é

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  • Soldado canta tristeSentinela!Quem é poeta? Vento que prestaBarco a velaQuem é poeta? Pescador lança triste o anzolPoeta!Quem é vigia? Vento que espiaAmor que esfriaQuem é vigia? Moça olha triste o céuEspera.Quem é poeta?Quem é vigia? Vento que prestaVento que espiaBarco a velaSó poesia.

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  • O Rio Grande não é apenasgrande, ele é tambémreferencial de um sonho(ponte de água clarainterligando abismos).Dreno com meus olhos líquidosa sua enseada como quem nãodrena nada, exceto a visão da água. E como a viagem não permiteque se fique sempre às margensdo Rio Grande, instalo uma sondaem suas águas e a outra ponta dasonda eu a trago encravada na alma. Inventário de Sombras

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  • Em tesetudo é possívelmas na práticanada acontece.Eu sou a antítesede todos os axiomasbenéficos.A Sentinela em Fuga e Outras Ausências

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  • Eu sei que eu mereço(embora talvez eu não venha ater) o meu nome num nome de rua. Eu sei que eu mereçouma estátua de bronzena praça de Ervália. Eu sei que eu mereçodenominar a Casa daCultura como o poeta que sou. Eu sei que eu mereçocasar com uma mulhernegra, que é o meu sonhode consumo. Eu sei que eu mereçoter um aumento de saláriopara poder sobreviver. Eu sei que eu mereçoganhar um prêmio literáriopara pagar as dívidas. Eu sei que eu mereçopescar um peix

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  • Chamam de resiliênciaessa palavra polida,de palco e de LinkedIn,que ensina a atravessar ruínascom a coluna ereta. Resiliência:dizem ser força,dizem ser método,dizem ser quase virtude corporativa. Mas outro diaela me apareceu diferente —não em gráficos,nem em discursos bem ensaiados, mas numa fresta de asfalto: uma flor. Pequena, improvável,sem plateia, sem legenda,rompendo o cinzacom a delicadeza de quem não pede licença. Ali estava tudo. Porque a terra sa

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  • mandei uma mensagemacabando com tudoque não havia. tranqueio portão de entrada paraque nada entrasse além daminha covardia. jogueia toalha como quem sedespede da vida e talveznão devesse ainda: era cedo etarde demais ao mesmo tempo.fiquei com o meu corpo deitadono chão da cozinha doendo semalma e sendo apenas, nada maise nada menos, que um obstáculoao percurso das formigas. O Jardim Simultâneo

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  • Poema ao ventoCesto vazio em pouso certoCascalho de ilusõesSem tempo. Poema ao ventoE nenhuma certeza das coisasNenhuma certeza. De repente uma linha intrometida atrapalha o poema, como um rio conquista com ajuda das águas a terra branca, areia, alguma coisa separando os versos e construindo as margens. Há um menino do outro lado e ele abana um boné vermelho para o poeta. O poeta não se sente muito bem no meio de um parágrafo, mas, mesmo assim, acena para

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  • Cap. I – Da Doença Compressas frias, banhos mornos, cataplasmas sinapizadas, injeções intravenosas de electrargol, injeções hipodérmicas de óleo canforado, de cafeína, de esparteína, lavagens intestinais, laxativos e grande quantidade de poções e outros remédios internos. Cap. II – Da Morte Urna lisa, forrada com babado, envernizada, seis alças, com visor, véu, velas, encaminhamento da certidão de óbito, flores para ornamentação interna, livro de presença,

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  • No cemitério de PerdõesLaura Alvarenga descansa.Moça bonita de 19 anos,falecida em 1920.Sentada numa cadeira,com um grande laçode fita nos cabelose uns braços que talveznem mesmo Machadosonharia descrever emseus contos de Assis.Laura Alvarengade 19 anos de idadee seus olhos de Capitu.Uma fisionomia pensativae meio triste de quem nãoantevia a sua própria morte,que chegaria tão cedo.Na sua lápide está escrito:“Saudade eterna de seus Paese irmãos”. 87 anos de

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  • parece que perdio dom de sonhardepois de tantasdecepções. depois de tantasperdasparece que sonheique já não tinha o dom. acordei e era tudoverdade ou pesadelodepois eu achoque dormi de novo. O Jardim Simultâneo

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  • Fica de nós este resíduodo que ainda não fomos.Este abismo a se superare uma certa disponibilidade.Fica esta in/compreensão mútuae a dificuldade em se comunicar. Fica de nós este fragmentodo que ainda podemos ser.Este relacionamento a se elaborare uma parcela de interesse recíproco.Fica esta identificação de caráter simultâneoe o desejo de que tudo não se perca. Fica de nós este sentimento reticenteainda não de todo vivido/compartilhado.este completo des/c

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  • “Quando em meu peito rebentar-se aQue o espírito enlaça à dor vivente”.  Álvares de Azevedo(1831-1852) O poeta dobra a esquinacom uma sacola de plástico:pão, bife de hambúrguer e solidão.Não vale a pena chorar por ele:se fez as opções erradas,se tombou pelo caminho,nada fica além do fatode um dia ter existidoe comido aquele sanduíchebarato. Uma Escada que Deságua no Silêncio

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  • A lua na casa de saturnosaturno na casa da luatodo mundo em casa.A casa de todos no mundotodo mundo na casa detodo mundo e eu que nãoencontro o meu lugarem lugar nenhum,no escuro. O Jardim Simultâneo

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  • Agora que a luz se apagoue a solidão restabeleceu seu domínio,ouço com receio a linguagem do escuroque me des-norteia a vida. Nasci sob o signo da mortemas prefiro-a assim,conquistada aos poucos.Porção diária de venenoque injeto na raiz da vidaaté que ela, afinal, desapareça. E a linguagem do escuro prevalece(ainda que se acendam todas as luzes)como sendo a linguagem universal de tudoa tecer as teias da incompreensão fraterna.Areia (À Fragmentação da Pedra

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  • Não era o primeiro a chegartambém não era o últimoficava no meio. Lugar pouco disputado,onde ninguém posae quase ninguém repara. Enquanto alguns se apressavam em brilhare outros reclamavam da falta de luzele aguardava. Não parecia esperar nada específicotalvez só o tempo exato em que algo se revelasem fazer alarde. Foi assim que aprendi:nem toda claridade quer vencer a noitealgumas só querem caber dentro delapor um instante e depois seguir vagalumeando

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  • Ainda que sejam versos pequenos…Uns simples versos que sejam ao menos,os ventos os empurrarão no tempoonde serão o eterno consentimento. Toda a lua brilha alta e resplandeceporque deseja muito o amor do mar.Acaricia um instante e depois reflete:é a busca de nunca encontrar. Como um solitário que ri na estradaé toda ela amor…uma imagem vaga,tempero de emoções, fogo que estala. Sendo certo o errado e não sendoa peleja da busca, o contratempo,ainda que seja u

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