Poesias de 1 a 99

É um espaço destinado para poemas de novos e autores consagrados.

  • De cotidianos resíduosarrancados na solidão de prisioneiroem que todo o meu ser se devora,tento compor uma imagem humanaque me faça aceitável a mim mesmo. No silêncio da morte aparentena qual me recolho ao túmulo previstonão sei com que ânsia mórbida de calma,procuro juntar os cacos de culpa diáriaque reunidos formam um apelo ao suicídio. E não é só o remorso das manhãs doentiaspelo que na noite se desfez em delíriosde humana fraqueza cansada de si mesma,é

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  • Soldado canta tristeSentinela!Quem é poeta? Vento que prestaBarco a velaQuem é poeta? Pescador lança triste o anzolPoeta!Quem é vigia? Vento que espiaAmor que esfriaQuem é vigia? Moça olha triste o céuEspera.Quem é poeta?Quem é vigia? Vento que prestaVento que espiaBarco a velaSó poesia.

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  • O Rio Grande não é apenasgrande, ele é tambémreferencial de um sonho(ponte de água clarainterligando abismos).Dreno com meus olhos líquidosa sua enseada como quem nãodrena nada, exceto a visão da água. E como a viagem não permiteque se fique sempre às margensdo Rio Grande, instalo uma sondaem suas águas e a outra ponta dasonda eu a trago encravada na alma. Inventário de Sombras

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  • Em tesetudo é possívelmas na práticanada acontece.Eu sou a antítesede todos os axiomasbenéficos.A Sentinela em Fuga e Outras Ausências

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  • Eu sei que eu mereço(embora talvez eu não venha ater) o meu nome num nome de rua. Eu sei que eu mereçouma estátua de bronzena praça de Ervália. Eu sei que eu mereçodenominar a Casa daCultura como o poeta que sou. Eu sei que eu mereçocasar com uma mulhernegra, que é o meu sonhode consumo. Eu sei que eu mereçoter um aumento de saláriopara poder sobreviver. Eu sei que eu mereçoganhar um prêmio literáriopara pagar as dívidas. Eu sei que eu mereçopescar um peix

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  • Chamam de resiliênciaessa palavra polida,de palco e de LinkedIn,que ensina a atravessar ruínascom a coluna ereta. Resiliência:dizem ser força,dizem ser método,dizem ser quase virtude corporativa. Mas outro diaela me apareceu diferente —não em gráficos,nem em discursos bem ensaiados, mas numa fresta de asfalto: uma flor. Pequena, improvável,sem plateia, sem legenda,rompendo o cinzacom a delicadeza de quem não pede licença. Ali estava tudo. Porque a terra sa

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  • mandei uma mensagemacabando com tudoque não havia. tranqueio portão de entrada paraque nada entrasse além daminha covardia. jogueia toalha como quem sedespede da vida e talveznão devesse ainda: era cedo etarde demais ao mesmo tempo.fiquei com o meu corpo deitadono chão da cozinha doendo semalma e sendo apenas, nada maise nada menos, que um obstáculoao percurso das formigas. O Jardim Simultâneo

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  • Poema ao ventoCesto vazio em pouso certoCascalho de ilusõesSem tempo. Poema ao ventoE nenhuma certeza das coisasNenhuma certeza. De repente uma linha intrometida atrapalha o poema, como um rio conquista com ajuda das águas a terra branca, areia, alguma coisa separando os versos e construindo as margens. Há um menino do outro lado e ele abana um boné vermelho para o poeta. O poeta não se sente muito bem no meio de um parágrafo, mas, mesmo assim, acena para

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  • Cap. I – Da Doença Compressas frias, banhos mornos, cataplasmas sinapizadas, injeções intravenosas de electrargol, injeções hipodérmicas de óleo canforado, de cafeína, de esparteína, lavagens intestinais, laxativos e grande quantidade de poções e outros remédios internos. Cap. II – Da Morte Urna lisa, forrada com babado, envernizada, seis alças, com visor, véu, velas, encaminhamento da certidão de óbito, flores para ornamentação interna, livro de presença,

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  • No cemitério de PerdõesLaura Alvarenga descansa.Moça bonita de 19 anos,falecida em 1920.Sentada numa cadeira,com um grande laçode fita nos cabelose uns braços que talveznem mesmo Machadosonharia descrever emseus contos de Assis.Laura Alvarengade 19 anos de idadee seus olhos de Capitu.Uma fisionomia pensativae meio triste de quem nãoantevia a sua própria morte,que chegaria tão cedo.Na sua lápide está escrito:“Saudade eterna de seus Paese irmãos”. 87 anos de

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  • parece que perdio dom de sonhardepois de tantasdecepções. depois de tantasperdasparece que sonheique já não tinha o dom. acordei e era tudoverdade ou pesadelodepois eu achoque dormi de novo. O Jardim Simultâneo

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  • Fica de nós este resíduodo que ainda não fomos.Este abismo a se superare uma certa disponibilidade.Fica esta in/compreensão mútuae a dificuldade em se comunicar. Fica de nós este fragmentodo que ainda podemos ser.Este relacionamento a se elaborare uma parcela de interesse recíproco.Fica esta identificação de caráter simultâneoe o desejo de que tudo não se perca. Fica de nós este sentimento reticenteainda não de todo vivido/compartilhado.este completo des/c

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  • “Quando em meu peito rebentar-se aQue o espírito enlaça à dor vivente”.  Álvares de Azevedo(1831-1852) O poeta dobra a esquinacom uma sacola de plástico:pão, bife de hambúrguer e solidão.Não vale a pena chorar por ele:se fez as opções erradas,se tombou pelo caminho,nada fica além do fatode um dia ter existidoe comido aquele sanduíchebarato. Uma Escada que Deságua no Silêncio

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  • A lua na casa de saturnosaturno na casa da luatodo mundo em casa.A casa de todos no mundotodo mundo na casa detodo mundo e eu que nãoencontro o meu lugarem lugar nenhum,no escuro. O Jardim Simultâneo

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  • Agora que a luz se apagoue a solidão restabeleceu seu domínio,ouço com receio a linguagem do escuroque me des-norteia a vida. Nasci sob o signo da mortemas prefiro-a assim,conquistada aos poucos.Porção diária de venenoque injeto na raiz da vidaaté que ela, afinal, desapareça. E a linguagem do escuro prevalece(ainda que se acendam todas as luzes)como sendo a linguagem universal de tudoa tecer as teias da incompreensão fraterna.Areia (À Fragmentação da Pedra

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  • Não era o primeiro a chegartambém não era o últimoficava no meio. Lugar pouco disputado,onde ninguém posae quase ninguém repara. Enquanto alguns se apressavam em brilhare outros reclamavam da falta de luzele aguardava. Não parecia esperar nada específicotalvez só o tempo exato em que algo se revelasem fazer alarde. Foi assim que aprendi:nem toda claridade quer vencer a noitealgumas só querem caber dentro delapor um instante e depois seguir vagalumeando

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  • Ainda que sejam versos pequenos…Uns simples versos que sejam ao menos,os ventos os empurrarão no tempoonde serão o eterno consentimento. Toda a lua brilha alta e resplandeceporque deseja muito o amor do mar.Acaricia um instante e depois reflete:é a busca de nunca encontrar. Como um solitário que ri na estradaé toda ela amor…uma imagem vaga,tempero de emoções, fogo que estala. Sendo certo o errado e não sendoa peleja da busca, o contratempo,ainda que seja u

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  • “Eu quero os meus brinquedos novamente!Sou um pobre meninoQue envelheceu, um dia, de repente!”Mário Quintana (1906-1994) Tenho quarenta e cinco anose já neste meu último aniversáriofoi levantada a hipótese irreversíveldo envelhecimento antes da morte,mas nunca sabemos o que virá primeiro. Seja como for o assunto é desagradável. Imaginei-me de carteirinha sexagenária,entrando pela porta da frente dos ônibuse viajando de graça pelo país dos meus netos. Logo

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  • Quando a chuva neutralizara esperança das flores, no chãouma semente irá se desenvolverà imagem e perspectiva de tornar-se,sintetizando em si todo o anseio dos homenspara que de seus ossos não se faça apenasum cemitério, mas também um canteiro.Areia (À Fragmentação da Pedra)

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  • A vida,em todas as suas formas,revela a sutileza de um mágicoque hipnotiza a todospara que não vejam seus truques falhos. Os homens,em todas as suas crenças,revelam a idiotice de um asnoque acredita em tudopor não ser capaz de discernir o óbvio. Os homens,com todos os seus mágicos,revelam a estupidez da espécieque acredita na vidacomo sendo o caminho para a salvação. A vida,com todas as suas armadilhas,revela a esperteza de um camaleãoque dissimula aos hom

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  • amar-te até os dentesembora passado o instante da mordidafico de presente com a marca da feridaleva pro futuro tatuado meu gosto

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  • sou nascido e criadona roçaacostumado com as durezasda vida racho lenha para o sustentocom um machado cegode cabo de pau-mulatoherança do meu avô após almoçar no quintaluma empurra a outra na moitae eu saio aliviado para o roundda luta suja e feroz do homem. Um Andarilho Dentro de Casa

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  • estou sem almoçoe sem jantae com duas costelasquebradas meu caminhar é pelesobre o bronzedo asfalto, atritosuave de quem sonha estou sofrendocom as calças e tudoe isso é nada paraquem vive na rua. Um Andarilho Dentro de Casa

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  • Solto em São Paulo, aonde iria?Rompia a noite, não decidia.Abria as asas: para onde ia? Se fosse Batman, já saberiaqual o combate de cada esquina.Mas nem pra Coringa prestaria. Vampiro? Não, desmaiariaà vista de sangue.Dos predadores recusavaaté a fantasia. Ao encontro da rua,sumiria.De encontro ao muro,desaparecer: será, seria? Solto em São Paulo, sobrevoariaavenidas edifícios várzeas varandas tabacariasmercados de luxode porcariassobejas ninharias. Abert

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  • Identifico-me com a noitee com o que ela trazde específico a si mesma,e assim fazendo, aceitoo convívio de seres opacose da nova ordem e estado de coisasque o escuro inaugura.Identifico-me com o avessosou aliás o próprio avesso de mim,e assim sendo, conheçoas esquinas sombriasnas quais se disfarçaa inexorável nulidade.Volto de manhã para casa,e num balanço isento da noitenenhum acréscimo se me acrescentoude forma permanente.Voltei eu mesmo sozinho e íntegr

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  • Olho para o vaziode meus olhos.O espelhonão reflete mais o amor,outrora visível. Imagens tão nítidasse me afloram perdidasna incongruência do vidro,uma vez descascada sua tintaprateada de reflexão. E agora as manhãstrazem o hálito da perda,do que fui e que no meu delíriose esgotou em fome. Não a fome dos homensdo nordeste, biológica.Tampouco a fome dos homenscivilizados, que inventaram a fomepara dois terços do mundo. Mas fome ela mesma,que não se come e m

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  • Não escanda a minha fala.Escancarar uma taranem sempre é um bom negócio. Esconda, miúdo, as manias que lhe movem.Um dia, quando nada sobrar,elas ainda farão o seu coração bater. É como diziam os romanos:tudo em latim.Ninguém entende, todo mundo concorda.

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  • O vento sopra um frio doido e esquisitona curva da esquina de um terreno baldio.Estou entre sapos e grilos e entulhos de lixo,atrás de um muro quebrado e com muitos cacosde vidro onde me escondo dos meus inimigos.Apaguei todas as luzes da esperançae estou sendo mordido por cachorros de rua.“Atualmente eu vivo rodeado por minhaspaixões defuntas”. Todas inclusive,menos uma delas: a paixão do absoluto.Ando sozinho pelas ruas de bairros e ouço:(você quer pegar

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  • Um cão latindo na noiteé sempre um cão.Sem cor, sem nome e semsignificadopara quem o está ouvindo. No entanto este cãotraz em seu latido,sombras de milhões de outros cãessintetizadosem uníssono noite adentro. A chuva não consegue abafareste inquietante latir,profanando o sono dos homense o sectarismo estáticodas coisas e dos seres. Alguém para se ver livredo incômodo latidodesfechou tiros na escuridão,e a noite se arrastou em insônia. Da boca sangrenta daq

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