Poesias de 1 a 99
É um espaço destinado para poemas de novos e autores consagrados.
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Vê onde há dor,vá onde se avista,doa o que não se pede,perca o que não se dói. Foi o que não se via,viu o que não se achava,trouxe o que não devia,deveu o que não se tinha. “Terei onde ser um outro,verei o que há de novo”,tentou ser tudo que tinhaviveu feito vivo-morto. “Saudade é da liberdade”,cantava o finado rouco;mas tudo o que era livrefizera de caso pouco. Saudade é da boa turma,teimosa que só a rima:largava, sentia, ouvia;era
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“eu cavalguei por ruínas e era preciso ter coragem para a troca de guarda”Bob Dylan Algo me diz que é chegada a horada troca de guarda. devo sair. Estive 35 anos de pé junto ao balcãovigiando os esquifes dos homens mesquinhosque idolatravam a coroa de latão que traziamsobre o caixão de madeira nobre e já podre. Minha tarefa era vigiar a paz ascéticadaqueles defuntos coroados em vidapara que ninguém profanasse as suastumbas de mármore e flores de plástico.
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inspirado em versos de Lennon/McCartney Estamos num barcono meio do oceano.Toda compreensão de mundoque temos não ultrapassao nosso raio de visão. E como nossa visão é curta(e não nos conformamos com isso),às vezes utilizamos algum instrumentoque nos dê a sensação de transcendência. Mas por mais largos que sejam oupossam ser nossos horizontes visuais,o que vemos é apenas um limitado tapetede água que escoa e se perde no vazio. Assim nossa visão de mundo(ai
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Foram precisos tantose tais quais tonaisde tons entonadosde tamanho eternoe com ternura tal.. Teria tido euum tempo ao qualtenro, turvo, talho,traços de tinta em rabiscos e tirando tudo de trás…teria eu tentado? Se tentei foi por tentar.Tirava tudo o que me trazia,talvez até mais…onde coubesse tanto. Traste! – terminei traçando,“É o que se diz”, entoei“quando muito se tem,pouco se tenta”. Pois quero tentar ter nada.Ou mesmo ta
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A gente corre e esqueceO tempo aquece, escorreSe a vida dança, eu rioSe a vida flui, eu sambo De lá eu vejo, sintoDe longe eu peço, e ficoDa rua, a terra, o transeA moita, espreita, um tanto Eu tive sede e sonhoVivi a luz, a sombraTimbrei um brado, um tintoUm feixe aceso, o sangueDa lua negra, um gritoAfresco a palo secoMemória, o vulto, o vícioEsqueço, vejo;Me desencontro Tolice a velha sinaO ter não quer ser tidoO lado oposto, o tempo Se rompe o véu, um
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a gentesempre se ressentecontra quemsupostamentese diz muitofeliz Da Essencialidade da Água
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Milton Rezende22/07/2025
Poema #31: CACTOS
No meio da tardeNo meio do mundoNo meio da salaestamos plantadoscomo uns cactos. No meio da vidaNo meio do sonhoNo meio do amorestamos atadoscomo uns escravos. No meio do caminhoNo meio da raivaNo meio do medoestamos presoscomo uns condenados. No meio de tudoNo meio de nadaNo meio sem meiosestamos perdidoscomo uns abortados. No meio da ruaNo meio da noiteNo meio da merdaestamos sozinhoscomo uns deserdados. No meio de nósestamos morrendocomo os antepassados
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Gosto do silêncio.Prefiro ficar em silêncio.Vejo as pessoas conversandoe a imagem que me fica é ado cuspe trocado entre elas.
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Terminantemente cego pelo brilho da sua voz,custei a compreender que o farol era oco.Lançam-se às ondas os que não veem.Os olhos,mal acostumados à claridade nua,não distinguem o contorno do timbre que os feriu.Perfil de muitos rostosou nenhum. Vem de lá o jogral que arranha os ouvidos.As letras,maiúsculas e resolutas,marcham e cantamcantam e marchamem fileiras que se entrelaçam e colidem até se emaranhar em mil espinhosaptos a ensurdecer o toque.O ruído da
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A tosse que se ouviu pulsar,entranhada nas dobras do ar, ouvi que nunca houve outra igual,engasgo ou sintoma de um malque se ouvisse sem se escutar. Como prever em qual lugar,incontrolável como o mar,recairia o surto canibal que se ouviu pulsar? Nesse jogo de sorte e azar,tecido com ardil no tearda imprecisão proposital,cada lance adia o finaldo giro sem fim do pesar que se ouviu pulsar.
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Estou acordadoe não sonho,mas a realidadeantecipadame envolve. A barba se medesprende do rostofio a fio num friomaior onde estoume enregelando. Tudo se dissolvena aparência de ossosde que fui formado,e que é minha formamais resistente no mundo. Mas a terra(com seus vermes)decompõe ao seu contatotodo o meu aprendizadodoloroso da vida. E uma cova me absorvendotransforma tudo o que fuinum triste resumo de póque um dia se chamou homem. E que lhe deram um nome(
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Da onda ao pé da praia,recolho as relíquias do mar:sigilodeslumbrante encantopronúncia sincera de uma fé sem dogmas. Preservo meus amuletos.Quisera crer somente na forçadas águas que os trouxeram,banhados em luz e sal,sutil religação do corpo ao mistério. Algo estranho, porém, cortaminhas mãos, meus pés.Fio afiado de facacravado nas costas da mansidão.Em vão vasculho a areia:misericórdia amor tolerânciaestão enterrados tão fundoque sequer a mais teimosa es
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Eu estava de tocaia na praça em frente à sua casaaí ela chegou de bicicleta e quando foi abrir a portaeu ataquei, agarrando-a por trás e já sentindo o delíriodaquelas carnes macias que me foram negadas em vida. Havia crianças por perto e então eu achei melhorinterromper o procedimento e levá-la para um lugarescuro e deserto e então fomos a um velho cemitériocom ela protestando que preferia estar com uma amiga. Mas eu havia morrido por causa dela e não era
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Inunda o céu a invasãodesse voo vadio sem asasde volteios fora do tempoa trapacear a vertigem. Fora de ordem e selvagenssão as aves que sequeras mais hábeis artimanhasmantiveram na gaiola. Em silêncio, em liberdadefuram a fila das nuvense enganam sombras e luzesno movimento sem freios. Ao redor do último andarvê o caminhar derradeiroque prescinde de convitepra lançar-se ao recomeço. Faminto de novos aresvoa pra abocanhar o céupássaro infenso à censuratecid
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quando eu tinha todos os movimentoseu era sol entre nuvensaves de arribaçãoqualquer coisa de menos sólidapor haver.eu via cachoeiras em meus sonhosremanso de riospedra grande de sentar meninoflorestas a esculpir. Da Essencialidade da Água
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Ouço os passos do ventoOuço e estremeço… Tempo EntretempoOuço rumores de ventoE penso que sou euo ventoe o rumor Momento…E o meu corpodescolado das palavrasé brisa marinhaAs ondas me invadem uma a umae a sensação da vida e do amor preenchem os espaços outrora vaziospreenchem cada cantoo olhar de sal e as mãos que se quebram de tanto escreverAs ondas e o ventoe o meu corpo ainda intactoDepois? Não ouço mais nada…
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Repara a frente do verso.Gêmeas, capa e contracapadispensam qualquer remendo.Abrem-se livres, pois sãoasas de uma ave vadiaa desnortear perspectivas(no alto, embaixo, início, fim). Enumerar as palavrasno caderno é exercícioárduo de caligrafia.Um sem-número de imagenscolore o branco entre as linhas,promove encontros na rígidageometria das paralelas. Remexe o varal das letras.O movimento preciso revela o que antes estavacamuflado sem disfarce:conselhos, cons
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eu faço versoscomo quem martelaas sílabas do vocabulário:trôpego quase sempre. eu faço poemascomo quem sofreas pancadas do destino:difíceis como sempre. eu sobrevivocomo quem hibernana escuridão da noite:dilacerado sempre e sempre. com a música do Led Zeppelin“since i’ve loving you”para acompanharo meu enterro. Da Essencialidade da Água
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Este pedaço de céuque me foi permitido entreverentre os edifícios,assemelha-se a uma parte de mimque ainda se resguardapara nada.Areia (À Fragmentação da Pedra)
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A paixãoé a antessalade uma paranoiana qual entramoscom um sorriso largode quem não sabeque penetrou num túmulo.A Sentinela em Fuga e Outras Ausências
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“meu Deus, porque me abandonaste?se sabias que eu não era Deus,se sabias que eu era fraco”Drummond protagonistade minha vida pregressahoje sou coadjuvantede ruinas. nas águas do riofiz algumas tentativasmas acabei afogandona correnteza. mudei de fase:virei pescadorde sonhos frustradosà beira dos barrancos. galopei como quemsonha por estradaspoeirentas de MinasGerais, sozinho. empinei pipas epapagaios em céusnevoentos de minhainfância distante. virei (ou te
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. “e ficam tristes e no rastro da tristeza chegam à crueldade” Drummond fica estabelecido queos meus concidadãos,mesmo aqueles quemoram em águas-furtadasserão livres à maneira deles. fica estabelecido queapesar do sonho játer acabado desdeo anúncio de John Lennon,será permitido às crianças. “deus é um conceitopelo qual medimosnossa dor”eu vou dizer novamente“deus é um conceitopelo qual medimosnossa dor.” essa é a realidade! Da Essencialidade da Água
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. Vozes inaudíveisgolpeiam meu silênciode bicho entocado. Sou perseguido por fantasmas(desdobramentos de mim)e os apascentoem precária unidade. Sei da existência sem vidae dos hálitos fétidos da morteque povoam a noite dos túmulos. Meu corpo é um mapaonde se cruzamos mais diversos caminhosda imaginação fantástica. Tenho todos os demôniosempalhados no quartoe cada dia escolho umpara sustentar os pesadelos. E sobre os meus despojoscarcomidos pelo tempoe pela
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Numa ocasião em que eu estava(como das outras vezes) prestesa me naufragar no abismo do delírio,houve um sorriso de dentes postiços. Mas eu já não queria mais cairna cilada do amor fugaz e preferiaestar quieto e fugir para longe doalcance de uma outra decepção. Então eu me internei num hospícioe amarrei as minhas mãos ao péde uma árvore frutífera de ondeeu poderia escavar o chão de barro. Ao fim do terceiro dia de psicopatiaveio a diretora dizer que eu dev
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Nada consta.Consta que seja um nadaem face a uma constânciade extremos inarredáveis.Enfimum nada consta sobreoutro consta um nada— A vida incerta do homem —Nas folhas gastas do mundonão consta nada emdetrimento desse nome.Um simples nome em meioa tantos outros no arquivode uma gaveta metálica.O Acaso das Manhãs
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. “o peixe sabe de tudo e nada”autoria desconhecida, século XIII tenho dois mesespara morrero ódiome circunscrevecomo camadasde água que veminundando tudo,desde as primeiras célulasaos últimos fios de cabeloe são águas salobras, escurasde quando faço a descidada ponte para beberdesta água, o líquido, mas ai,tem gosto de peixes putrefatospeixes analógicos e peixes digitais. “São voltas da vida, voltas da vida”,como dizia o enfermo Valdemarem seu leito de mo
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. Um escritor nunca escreve sozinho…Antes, escreve com todas as vozesQue sussurram a todo instantehistórias e versosAcertos e desacertosMelodias e ilhasDesconcertos… Sou Cecília…Oswald, Mário, Carlos… Andrades!Sou também Bandeira! Camões, Pessoa, Castro e muito mais. Sou Clarice…Veríssimo, Graciliano, Rosa,Sou também o cais. Jorge e Murilo e muito mais. Sou o que sou: olha só os tais!Pouco, muito…E até coisas banais. E
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. Na penumbrame faço grandecomo minha sombra na parede. Porém a paredenão é intactacomo a cerâmica do banheiro. Suas imperfeiçõesremetem-me para além dela mesmae me vejo em cada detalhemal sucedido de sua arquitetura. Na penumbrame faço gentecomo as presenças que me povoam. Porém o sonhonão correspondeà realidade imaginada. Os monólogos com a sombraremetem-me para além de mime me sinto em cada possibilidadede acender a lâmpadae não perder o mágico domínio.
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. Tudo é poesiaA agitação da ruaO sinalE a correria!A voz do vendedorO som do dia. Tudo é poesiaA propagandaO chafarizAté a melancoliaO engarrafamentoO papelão pra noite fria. Tudo é poesiaOs menores na esquina,Uma bola ou um limãoAcrobaciaNo alto dos edifíciosA vida silencia! Tudo é poesiaNas placas, andaimes,GuindastesNão há monotonia.Há tremor, rumorA amarga dor,Sinestesia! E quando tentam tirarAs coisas do seu devido lugarAutofagia!Não importa!Pois tud
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