Poesias de 1 a 99
É um espaço destinado para poemas de novos e autores consagrados.
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Estou debruçadosob a fagulha do instante.Me distorço enquanto crioa ilusão de um esboço para algoque sequer sei o quê. Ouso um salto, um pêndulo.Giro de cá e de lá.Laço-me à vertente de um vértice,dobro os olhares e os reviro, o sintoma.Tu, que me devoraste. A vertigem do hoje faz horaHá tempo… Apressa-te, que o passo é passado.Vagueia a tormenta, é futuro.Perdoa o vivido, é achado.Lamenta, já se fora perdidofeito pássaro garrido,debatendo-se,sangrando,só,
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Subtraímos da vidaa sua menor parcelapara o preenchimentode nossas carências. Mas ao assumirmos ocontrole desta mínimapropriedade, sentimos que ela não nos bastaposto que a enxergamosapartada de sua totalidade. Acrescentamos então à vidaa parte restante que faltapara completar a visão quenós temos do seu conjunto. Mas ao nos atribuirmos acapacidade de dispor doselementos de acordo com nossamomentânea vontade, a vida perde a complacência concedidae resgata
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Sentar-se à varanda e deliciar-se com aspassadas, dos sons da cidade,com a corrente inóspita do tempo… Ao silêncio de um lago turvoque se desdobra,sobre as luzes que escapam, e a vida queexiste… como que omundo as retirasse de si. E notar as ondas eternas das horasque mergulham sob a vastidãode um verso transitório,entre aquilo que se ée o que se fora. Estou farto de uma existênciarelapsa erepentina; deste lampejoimediato que submergee estilhaçao vis
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A chuva veio tomaros meus pensamentose me puxou pelo braço… assim inteiroe já não me sou…deixei de ser…somos e não somos.Várias vozes… absorção.Um senão! E fica a impressãode que a vida se abandonana brevidade acelerada das coisas…e não somos! Fingimos ser…Inventamos, copiamos, fazemos um rascunho…E nos deparamos com o sentido inoportunode não querer entendere somos! Vencido o humano,bandeiras ao vento, mastros,cor
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A palavra dada tem valorinsuscetível de medir.Pode-se apenas estimar o pesona palma da mão estendida. O corpo intui o preçoque o verbo não soube exprimir.Em troca, a renúncia ao trocoabrevia o lapso do som ao silêncio. No mercado das promessas,a confiança é soberana.Mas às vezes, submissa,flerta com o charme do blefe.
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O teu corpo,pássaro esculpidono assento dosofá da salade visitas,é uma ampla salaonde te visito(abolida a noçãode sonhosob o teu vestido),sempre que o desejodo corpo desenhaa moldura de umpássaroem teu assentoInventário de Sombras
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onda mortiça,que oculta em seu manto de espuma?pérola ou lixo?fragmento de concha ou ponta de vidro?cobertor de areiaespelho de estrelapoça onde a sereia afônica afunda os pés sem dedos O corpo inteiro afogado no poço sem fundo.A memória em desordem de molho no sal.O olhar que vacila (à procura de terra firme?)vê diluir-se um segredo na força da água. no avançono refluxoo vaivém ritmadopinta no chãouma sombra onduladaque apaga São suas ondas, maré postiça,
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Sem querer descansoUm espantoVoluptuosa correnteSente que é noiteDentro da gente. Sem querer remansoMansoMato verde molhadoSente que é serenoEnluarado. Sem qualquer prantoPronto:Torre de vento e estrelaSabe que é madrugadaNada. Vem molhada de cantoQuer tantoBoca de lua jogadaSol quente na estrada
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talvez uma nota sósurge avulso na meia luzmonótono feito o cantoque se destina a embalaro teto o chão as paredes a coreografia do póprojeta no espaço em brancoo sonho de não morrero ritmo é a bolha que estourano silêncio da distância rebate elástico o nóduelo que prende a respostaao mesmo som da perguntana teia da repetiçãoa voz desafia o infinito
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“… você marcou a minha vida, viveu, morreu na minha história, chego a ter medo do futuro e dasolidão que em minha porta bate… eu corro e fujo destas sombras, em sonhos vejo este passado, ena parede do meu quarto, ainda está o seu retrato, não quero ver pra não lembrar, pensei até emme mudar… lugar qualquer que não exista o pensamento em você”.Edson Trindade/Tim Maia Breve, como breve é a luz da lua cheiaDurante o eclipse solar da vida humana. Breve, como b
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Vê onde há dor,vá onde se avista,doa o que não se pede,perca o que não se dói. Foi o que não se via,viu o que não se achava,trouxe o que não devia,deveu o que não se tinha. “Terei onde ser um outro,verei o que há de novo”,tentou ser tudo que tinhaviveu feito vivo-morto. “Saudade é da liberdade”,cantava o finado rouco;mas tudo o que era livrefizera de caso pouco. Saudade é da boa turma,teimosa que só a rima:largava, sentia, ouvia;era
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“eu cavalguei por ruínas e era preciso ter coragem para a troca de guarda”Bob Dylan Algo me diz que é chegada a horada troca de guarda. devo sair. Estive 35 anos de pé junto ao balcãovigiando os esquifes dos homens mesquinhosque idolatravam a coroa de latão que traziamsobre o caixão de madeira nobre e já podre. Minha tarefa era vigiar a paz ascéticadaqueles defuntos coroados em vidapara que ninguém profanasse as suastumbas de mármore e flores de plástico.
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inspirado em versos de Lennon/McCartney Estamos num barcono meio do oceano.Toda compreensão de mundoque temos não ultrapassao nosso raio de visão. E como nossa visão é curta(e não nos conformamos com isso),às vezes utilizamos algum instrumentoque nos dê a sensação de transcendência. Mas por mais largos que sejam oupossam ser nossos horizontes visuais,o que vemos é apenas um limitado tapetede água que escoa e se perde no vazio. Assim nossa visão de mundo(ai
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Foram precisos tantose tais quais tonaisde tons entonadosde tamanho eternoe com ternura tal.. Teria tido euum tempo ao qualtenro, turvo, talho,traços de tinta em rabiscos e tirando tudo de trás…teria eu tentado? Se tentei foi por tentar.Tirava tudo o que me trazia,talvez até mais…onde coubesse tanto. Traste! – terminei traçando,“É o que se diz”, entoei“quando muito se tem,pouco se tenta”. Pois quero tentar ter nada.Ou mesmo ta
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A gente corre e esqueceO tempo aquece, escorreSe a vida dança, eu rioSe a vida flui, eu sambo De lá eu vejo, sintoDe longe eu peço, e ficoDa rua, a terra, o transeA moita, espreita, um tanto Eu tive sede e sonhoVivi a luz, a sombraTimbrei um brado, um tintoUm feixe aceso, o sangueDa lua negra, um gritoAfresco a palo secoMemória, o vulto, o vícioEsqueço, vejo;Me desencontro Tolice a velha sinaO ter não quer ser tidoO lado oposto, o tempo Se rompe o véu, um
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a gentesempre se ressentecontra quemsupostamentese diz muitofeliz Da Essencialidade da Água
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Milton Rezende22.07.2025
Poema #31: CACTOS
No meio da tardeNo meio do mundoNo meio da salaestamos plantadoscomo uns cactos. No meio da vidaNo meio do sonhoNo meio do amorestamos atadoscomo uns escravos. No meio do caminhoNo meio da raivaNo meio do medoestamos presoscomo uns condenados. No meio de tudoNo meio de nadaNo meio sem meiosestamos perdidoscomo uns abortados. No meio da ruaNo meio da noiteNo meio da merdaestamos sozinhoscomo uns deserdados. No meio de nósestamos morrendocomo os antepassados
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Gosto do silêncio.Prefiro ficar em silêncio.Vejo as pessoas conversandoe a imagem que me fica é ado cuspe trocado entre elas.
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Terminantemente cego pelo brilho da sua voz,custei a compreender que o farol era oco.Lançam-se às ondas os que não veem.Os olhos,mal acostumados à claridade nua,não distinguem o contorno do timbre que os feriu.Perfil de muitos rostosou nenhum. Vem de lá o jogral que arranha os ouvidos.As letras,maiúsculas e resolutas,marcham e cantamcantam e marchamem fileiras que se entrelaçam e colidem até se emaranhar em mil espinhosaptos a ensurdecer o toque.O ruído da
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A tosse que se ouviu pulsar,entranhada nas dobras do ar, ouvi que nunca houve outra igual,engasgo ou sintoma de um malque se ouvisse sem se escutar. Como prever em qual lugar,incontrolável como o mar,recairia o surto canibal que se ouviu pulsar? Nesse jogo de sorte e azar,tecido com ardil no tearda imprecisão proposital,cada lance adia o finaldo giro sem fim do pesar que se ouviu pulsar.
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Estou acordadoe não sonho,mas a realidadeantecipadame envolve. A barba se medesprende do rostofio a fio num friomaior onde estoume enregelando. Tudo se dissolvena aparência de ossosde que fui formado,e que é minha formamais resistente no mundo. Mas a terra(com seus vermes)decompõe ao seu contatotodo o meu aprendizadodoloroso da vida. E uma cova me absorvendotransforma tudo o que fuinum triste resumo de póque um dia se chamou homem. E que lhe deram um nome(
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Da onda ao pé da praia,recolho as relíquias do mar:sigilodeslumbrante encantopronúncia sincera de uma fé sem dogmas. Preservo meus amuletos.Quisera crer somente na forçadas águas que os trouxeram,banhados em luz e sal,sutil religação do corpo ao mistério. Algo estranho, porém, cortaminhas mãos, meus pés.Fio afiado de facacravado nas costas da mansidão.Em vão vasculho a areia:misericórdia amor tolerânciaestão enterrados tão fundoque sequer a mais teimosa es
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Eu estava de tocaia na praça em frente à sua casaaí ela chegou de bicicleta e quando foi abrir a portaeu ataquei, agarrando-a por trás e já sentindo o delíriodaquelas carnes macias que me foram negadas em vida. Havia crianças por perto e então eu achei melhorinterromper o procedimento e levá-la para um lugarescuro e deserto e então fomos a um velho cemitériocom ela protestando que preferia estar com uma amiga. Mas eu havia morrido por causa dela e não era
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Inunda o céu a invasãodesse voo vadio sem asasde volteios fora do tempoa trapacear a vertigem. Fora de ordem e selvagenssão as aves que sequeras mais hábeis artimanhasmantiveram na gaiola. Em silêncio, em liberdadefuram a fila das nuvense enganam sombras e luzesno movimento sem freios. Ao redor do último andarvê o caminhar derradeiroque prescinde de convitepra lançar-se ao recomeço. Faminto de novos aresvoa pra abocanhar o céupássaro infenso à censuratecid
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quando eu tinha todos os movimentoseu era sol entre nuvensaves de arribaçãoqualquer coisa de menos sólidapor haver.eu via cachoeiras em meus sonhosremanso de riospedra grande de sentar meninoflorestas a esculpir. Da Essencialidade da Água
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Ouço os passos do ventoOuço e estremeço… Tempo EntretempoOuço rumores de ventoE penso que sou euo ventoe o rumor Momento…E o meu corpodescolado das palavrasé brisa marinhaAs ondas me invadem uma a umae a sensação da vida e do amor preenchem os espaços outrora vaziospreenchem cada cantoo olhar de sal e as mãos que se quebram de tanto escreverAs ondas e o ventoe o meu corpo ainda intactoDepois? Não ouço mais nada…
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Repara a frente do verso.Gêmeas, capa e contracapadispensam qualquer remendo.Abrem-se livres, pois sãoasas de uma ave vadiaa desnortear perspectivas(no alto, embaixo, início, fim). Enumerar as palavrasno caderno é exercícioárduo de caligrafia.Um sem-número de imagenscolore o branco entre as linhas,promove encontros na rígidageometria das paralelas. Remexe o varal das letras.O movimento preciso revela o que antes estavacamuflado sem disfarce:conselhos, cons
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eu faço versoscomo quem martelaas sílabas do vocabulário:trôpego quase sempre. eu faço poemascomo quem sofreas pancadas do destino:difíceis como sempre. eu sobrevivocomo quem hibernana escuridão da noite:dilacerado sempre e sempre. com a música do Led Zeppelin“since i’ve loving you”para acompanharo meu enterro. Da Essencialidade da Água
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Este pedaço de céuque me foi permitido entreverentre os edifícios,assemelha-se a uma parte de mimque ainda se resguardapara nada.Areia (À Fragmentação da Pedra)
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A paixãoé a antessalade uma paranoiana qual entramoscom um sorriso largode quem não sabeque penetrou num túmulo.A Sentinela em Fuga e Outras Ausências
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