Poesias de 1 a 99
É um espaço destinado para poemas de novos e autores consagrados.
-
Inunda o céu a invasãodesse voo vadio sem asasde volteios fora do tempoa trapacear a vertigem. Fora de ordem e selvagenssão as aves que sequeras mais hábeis artimanhasmantiveram na gaiola. Em silêncio, em liberdadefuram a fila das nuvense enganam sombras e luzesno movimento sem freios. Ao redor do último andarvê o caminhar derradeiroque prescinde de convitepra lançar-se ao recomeço. Faminto de novos aresvoa pra abocanhar o céupássaro infenso à censuratecid
ACESSE PARA LER -
quando eu tinha todos os movimentoseu era sol entre nuvensaves de arribaçãoqualquer coisa de menos sólidapor haver.eu via cachoeiras em meus sonhosremanso de riospedra grande de sentar meninoflorestas a esculpir. Da Essencialidade da Água
ACESSE PARA LER -
Ouço os passos do ventoOuço e estremeço… Tempo EntretempoOuço rumores de ventoE penso que sou euo ventoe o rumor Momento…E o meu corpodescolado das palavrasé brisa marinhaAs ondas me invadem uma a umae a sensação da vida e do amor preenchem os espaços outrora vaziospreenchem cada cantoo olhar de sal e as mãos que se quebram de tanto escreverAs ondas e o ventoe o meu corpo ainda intactoDepois? Não ouço mais nada…
ACESSE PARA LER -
Repara a frente do verso.Gêmeas, capa e contracapadispensam qualquer remendo.Abrem-se livres, pois sãoasas de uma ave vadiaa desnortear perspectivas(no alto, embaixo, início, fim). Enumerar as palavrasno caderno é exercícioárduo de caligrafia.Um sem-número de imagenscolore o branco entre as linhas,promove encontros na rígidageometria das paralelas. Remexe o varal das letras.O movimento preciso revela o que antes estavacamuflado sem disfarce:conselhos, cons
ACESSE PARA LER -
eu faço versoscomo quem martelaas sílabas do vocabulário:trôpego quase sempre. eu faço poemascomo quem sofreas pancadas do destino:difíceis como sempre. eu sobrevivocomo quem hibernana escuridão da noite:dilacerado sempre e sempre. com a música do Led Zeppelin“since i’ve loving you”para acompanharo meu enterro. Da Essencialidade da Água
ACESSE PARA LER -
Este pedaço de céuque me foi permitido entreverentre os edifícios,assemelha-se a uma parte de mimque ainda se resguardapara nada.Areia (À Fragmentação da Pedra)
ACESSE PARA LER -
A paixãoé a antessalade uma paranoiana qual entramoscom um sorriso largode quem não sabeque penetrou num túmulo.A Sentinela em Fuga e Outras Ausências
ACESSE PARA LER -
“meu Deus, porque me abandonaste?se sabias que eu não era Deus,se sabias que eu era fraco”Drummond protagonistade minha vida pregressahoje sou coadjuvantede ruinas. nas águas do riofiz algumas tentativasmas acabei afogandona correnteza. mudei de fase:virei pescadorde sonhos frustradosà beira dos barrancos. galopei como quemsonha por estradaspoeirentas de MinasGerais, sozinho. empinei pipas epapagaios em céusnevoentos de minhainfância distante. virei (ou te
ACESSE PARA LER -
. “e ficam tristes e no rastro da tristeza chegam à crueldade” Drummond fica estabelecido queos meus concidadãos,mesmo aqueles quemoram em águas-furtadasserão livres à maneira deles. fica estabelecido queapesar do sonho játer acabado desdeo anúncio de John Lennon,será permitido às crianças. “deus é um conceitopelo qual medimosnossa dor”eu vou dizer novamente“deus é um conceitopelo qual medimosnossa dor.” essa é a realidade! Da Essencialidade da Água
ACESSE PARA LER -
. Vozes inaudíveisgolpeiam meu silênciode bicho entocado. Sou perseguido por fantasmas(desdobramentos de mim)e os apascentoem precária unidade. Sei da existência sem vidae dos hálitos fétidos da morteque povoam a noite dos túmulos. Meu corpo é um mapaonde se cruzamos mais diversos caminhosda imaginação fantástica. Tenho todos os demôniosempalhados no quartoe cada dia escolho umpara sustentar os pesadelos. E sobre os meus despojoscarcomidos pelo tempoe pela
ACESSE PARA LER -
Numa ocasião em que eu estava(como das outras vezes) prestesa me naufragar no abismo do delírio,houve um sorriso de dentes postiços. Mas eu já não queria mais cairna cilada do amor fugaz e preferiaestar quieto e fugir para longe doalcance de uma outra decepção. Então eu me internei num hospícioe amarrei as minhas mãos ao péde uma árvore frutífera de ondeeu poderia escavar o chão de barro. Ao fim do terceiro dia de psicopatiaveio a diretora dizer que eu dev
ACESSE PARA LER -
Nada consta.Consta que seja um nadaem face a uma constânciade extremos inarredáveis.Enfimum nada consta sobreoutro consta um nada— A vida incerta do homem —Nas folhas gastas do mundonão consta nada emdetrimento desse nome.Um simples nome em meioa tantos outros no arquivode uma gaveta metálica.O Acaso das Manhãs
ACESSE PARA LER -
. “o peixe sabe de tudo e nada”autoria desconhecida, século XIII tenho dois mesespara morrero ódiome circunscrevecomo camadasde água que veminundando tudo,desde as primeiras célulasaos últimos fios de cabeloe são águas salobras, escurasde quando faço a descidada ponte para beberdesta água, o líquido, mas ai,tem gosto de peixes putrefatospeixes analógicos e peixes digitais. “São voltas da vida, voltas da vida”,como dizia o enfermo Valdemarem seu leito de mo
ACESSE PARA LER -
. Um escritor nunca escreve sozinho…Antes, escreve com todas as vozesQue sussurram a todo instantehistórias e versosAcertos e desacertosMelodias e ilhasDesconcertos… Sou Cecília…Oswald, Mário, Carlos… Andrades!Sou também Bandeira! Camões, Pessoa, Castro e muito mais. Sou Clarice…Veríssimo, Graciliano, Rosa,Sou também o cais. Jorge e Murilo e muito mais. Sou o que sou: olha só os tais!Pouco, muito…E até coisas banais. E
ACESSE PARA LER -
. Na penumbrame faço grandecomo minha sombra na parede. Porém a paredenão é intactacomo a cerâmica do banheiro. Suas imperfeiçõesremetem-me para além dela mesmae me vejo em cada detalhemal sucedido de sua arquitetura. Na penumbrame faço gentecomo as presenças que me povoam. Porém o sonhonão correspondeà realidade imaginada. Os monólogos com a sombraremetem-me para além de mime me sinto em cada possibilidadede acender a lâmpadae não perder o mágico domínio.
ACESSE PARA LER - ACESSE PARA LER
-
. Tudo é poesiaA agitação da ruaO sinalE a correria!A voz do vendedorO som do dia. Tudo é poesiaA propagandaO chafarizAté a melancoliaO engarrafamentoO papelão pra noite fria. Tudo é poesiaOs menores na esquina,Uma bola ou um limãoAcrobaciaNo alto dos edifíciosA vida silencia! Tudo é poesiaNas placas, andaimes,GuindastesNão há monotonia.Há tremor, rumorA amarga dor,Sinestesia! E quando tentam tirarAs coisas do seu devido lugarAutofagia!Não importa!Pois tud
ACESSE PARA LER -
foi precisoque eu fosseenvelhecendopara entender(em parte) oerotismo tardionos poemas deDrummond. é que precisamosir perdendo parapoder reconquistar.é preciso ir morrendopra aprender a gostarda vida e tentar(quando não é mais possível)usufruir da beleza da água que acabou de passar. Da Essencialidade da Água
ACESSE PARA LER -
Da janela da casa onde moroaguardo a chegada de algunsamigos para a festa deaniversário. Nada se move, exceto a minhasombra na varanda, vazada deangústia, silêncio e noite. Fecho as janelas da casaonde moro e ainda douuma última olhada atravésdas frestas da veneziana. Nada se move, exceto a noitecom a sua noção de simultaneidadedo tempo, das pessoas e das coisas. Nada se move, exceto o silêncioque domina o ambiente e repousana visão do telefone emudecidoe
ACESSE PARA LER -
. Sob uma chuva de outubroo germe penetrouno solo árido de mim,onde as emoções se resguardavam. Mas o sol e o raciocíniodos meses subsequentesatrofiaram o germe ávidoque havia trazido o amor. E foram tantos os desencontrosdo clima naquele anoque a meteorologia afetivajustifica-se culpando a ambos. Agora, numa sala de esperacontígua à do esquecimento,resta-nos como única saídaa eutanásia cúmplicedo que restou do sonho.O Acaso das Manhãs
ACESSE PARA LER -
Cinco anos depois da pandemia ser anunciada, revisito este texto que nasceu em meio ao isolamento — ecos de um tempo que ainda ressoa. O horizonte anunciou um desafioNa época que trariaTanta luz e liberdadeChegaram tempos de trevasFomos convidados ao exílioUm inimigo invisívelUma tal gripezinhaQue surgia na ChinaE, de repente, fez vítima,Seu José da esquinaE com o perigo iminenteMe isoleiNos tempos das quaresmeirasRoxas como um suplícioPré-milagre de Crist
ACESSE PARA LER -
. sabe,há um momentoem que a luafica escura. é quando,a escuridão maiorvinda dos montescobre a Rua Fácil. e tudo,vira um só quadronegro, uma lousafria que antecedea morte. Da Essencialidade da Água
ACESSE PARA LER -
E todo verso que façoUm pedaço de mim está e fica e se vêUm outro ninguém sabe, um laçoque não se sabe onde fica e nenhuma vista lê E toda estrofe que nasceMeus sonhos e verdades lá estãoNum outro canto, outras verdadesNo esquecimento ficarão Quando o poema, inteiro, surge diante de mimÉ meu o rosto e é meu o nomeMas é um outro que não sou euNão sei se isso é o começo ou o fim… E então me refaço e me reescrevoJunto ou em pedaços o tempo inteiroSou e
ACESSE PARA LER -
No silêncio sepulcral desta noiteabro a janelae recebo a visita do demônio.Juntos travamos um pequeno diálogoacerca da destruição do mundo. Depois percorremos os cemitériose os ninhos dos pássaros agourentos,respiramos o hálito da mortee compactuamos da miséria dos homens. A noite era fria e indiferenteaos nossos propósitos de celebração.Com dedos trêmulos cavamos o altarde nosso macabro ritual. Antes, porém do sacrifício finalfomos resgatar a memória dos
ACESSE PARA LER -
. Nossos filhos nascem cegospela poeira do nosso tempo.Nós ainda enxergamosporque já entendemos o mundoa partir da poeira que há nele,e que não nos incomoda muito.Areia (À Fragmentação da Pedra)
ACESSE PARA LER -
Quando acordei do comaeu já não tinha maisa mobilidade de antes.Olhei para as paredesde vidro do isolamentoe já não tinha a mesma visãode antesa mesma audiçãode antes. O mundo parecia ser outro. Perna e braço direitosestavam paralisados,dormentes e um sonode letargia na noitefria com pedras de gelono peito, do ladoesquerdo, assim penso. O mundo já não era o mesmo. Dois dedos do pé esquerdohaviam sido afetadose minhas afeições epercepções já não eramas mesm
ACESSE PARA LER -
. – Fala o poeta de vanguarda: A estrutura do verso está invertida em meu caleidoscópio. Preciso de uma máquina rápida e perfeita para fazer uma circuncisão mental: “Quero que a estrofe gravada ao jeito do vídeo cassete saia nítida, sem um defeito”. – Fala a crítica especializada: A infraestrutura do verso está evoluída em meu laboratório. Preciso de um computador rarefeito e sem defeito para efeito de análise poética: “O crítico é um digitador, digita tão
ACESSE PARA LER -
hoje eu mordium chumaço depapel higiênicopara estancar(ou tentar conter)o sangramentoda língua dilacerada:como um cadáverantecipado que devorao seu próprio sudário. Um Andarilho Dentro de Casa
ACESSE PARA LER -
. A ilha com seu silênciome comunica a mortedos seres espectraisque nela vivem ou já viveram. A ilha cercada por manguesé um poço de lama e óleo. Os pescadores da ilhame comunicam o fimdos pescadores da ilha. Os pescadores da ilhame apresentam a pesca de um dia,nada. A ilha com sua morteme comunica o silênciodos seres superioresque a mataram e matam. A ilha abandonada pelos banhistasé um deserto de espuma e água. Os frequentadores da ilhame comunicam o des
ACESSE PARA LER -
. cheguei cansado para deitarsobre a cama de papelão no chãoe debaixo da marquise gotejante. uma poça de água da pingadeirasobre o passeio do mercado desativadoonde dormiam indigentes à espera do fim. dormir é dócil como o bebê embriagadodesapercebido dos planos de Deus. Um Andarilho Dentro de Casa
ACESSE PARA LER





























