
Bolero de Tecalitlán
Bolero de Tecalitlán, ao pé do ouvido em pleno 2026, soa como uma serenata de amor cantada à janela de uma casa que já não existe. Ou existe? existe: passou apenas a caber na tela de um smartphone. Informes contemporâneos.
A linguagem sempre como logradouro de encontros.
Disseram-nos que:
• …a globalização tornaria o mundo uniforme;
• …a tecnologia achataria os afetos;
• …algoritmos substituiriam as coincidências.
(…)
Descubro, porém, precisamente o oposto.
Recebo um link do Spotify como quem recebe um embrulho de papel pardo amarrado com barbante. Abro-o devagar. Em minhas mãos, deixa de ser um pacote eletrônico e transforma-se num vinil antigo. Antiquíssimo, desses que nos deixam com a respiração em sobressalto, de tão delicados. Assopro a poeira:
— Fuuuuuuuuuuuh… — ergo, assim, o véu fino que o tempo depositou em partículas. Desnudo a capa de papelão, que reaparece inteira, intacta, intensa, como se houvesse esperado décadas por aquele exato gesto meu.
O disco começa a girar, sem agulha alguma.
Enquanto Mariachi Vargas de Tecalitlán invade madrugadas, planilhas, quantitativos e e-mails que insistem em não terminar, descubro o LP virtual realizando o que minhas melhores canzoni italiane não conseguiram: devolve-me um tempo que nunca deixou de existir, esquecido sob camadas e camadas de urgência.
Não é nostalgia.
É outra coisa.
É leveza. (Fuuuuuuuuuuuuuuh)
Há dias em que me sento para tomar um café com personagens capazes de encontrar delicadezas onde o resto do mundo enxerga apenas rotina. Faço isso com plantas, veja só – são excelentes ouvintes, e ainda nos dão ‘bom dia’ com o perfume de flores coloridas, não só na primavera. Acredito piamente numa arqueologia dos sentimentos, não para reanimar o passado — dar-lhe novamente anima, alma —, mas para perceber que uma ou outra beleza jamais fenece. Permanece de outra forma: silenciosa, aguardando quem a escute.
Já com o disco agarrando, de tanto tocar boleros, baladas y bachatas, um amigo interrompe meu devaneio para perguntar se conheço determinado perfil no Instagram.
Paro tudo.
***
Abro a página.
O retrato em miniatura que acompanha o @não me diz absolutamente nada.
Depois de alguns segundos, recordo-me de tê-lo visto uma única vez, de passagem, num evento qualquer. Não trocamos palavras, acho que sequer olhares. Restou apenas a matemática contemporânea: seguimos um ao outro. Ou, dizendo de forma mais honesta, aumentamos mutuamente nossos seguidores (intuito subliminar de qualquer evento hoje em dia).
Contei isso ao meu amigo.
Ele sorriu e perguntou:
— Então não passo apenas de mais um número?
A pergunta me atravessou como poucas.
Dias antes, folheando as aventuras de Arsène Lupin, me pego filosofando sobre a diferença brutal entre o mundo de ontem e o de hoje. Durante muito tempo — e nem faz tanto tempo assim — , apresentávamos desconhecidos por palavras.
“É gentil.”
“Tem os olhos curiosos.”
“Ri com o corpo inteiro.”
“Escreve cartas.”
“Não sabemos de quem se trata porque não se pode ler nos documentos ausentes das vestimentas, o desmaiado infeliz”
Hoje, apresentamo-nos por fotografias. Ou, pior, por avatares, essas ficções que criamos com filtros sobre nossos próprios reflexos. Superamos, em engenhosidade, os casamentos arranjados das aristocracias clássicas, cujos noivos tomavam por esposas pinturas guardadas em relicários.
Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras… não consigo acreditar nisso, nem tendo escolhido, como ofício primeiro, a arquitetura (idioma gráfico em que tantas perguntas se respondem com um simples “quer que eu desenhe?”). Não; sou das letras, por meritocracia — já se vão quase vinte anos só desta coluna.
Uma fotografia congela; mil palavras — ou trilhões delas — continuam a respirar, a sorrir.
— a sorrir eu pretendo levar, a vida…
Não me lembro do aroma das coisas e gestos antigos com essas notas contemporâneas de superficialidade. Vivemos a era narcísica por excelência: basta nos depararmos com uma poça d’água para que contemplemos nossos próprios reflexos e, no mesmo instante, eternizemos nossos rostos desfigurados nos feeds de vidas cada vez menos privadas. A superfície nunca soube apresentar ninguém…
Acredito que seja isso que falta à contemporaneidade:
Descrições.
letrinhas.
As pequenas apresentações escritas que, durante séculos, antecederam qualquer encontro. Cartas manuscritas. Os artesanatos feitos à mão, com assinaturas.
Somos a geração que mais produz imagens — e em altíssima resolução, diga-se de passagem — …, mas desaprendemos a apresentar e a ler pessoas.
Eu sou das pessoas. Sou dos encontros sem pressa. Sou das cartas. Das serenatas. Dos recadinhos à mão. Dos cafés. Dos vinhos.
Me toca profundamente quando alguém escolhe uma playlist em vez de um emoji. Mais profundo ainda quando se envia um disco inteiro, e não apenas uma música. Dou por mim pesquisando vinis pelos eBays da vida, lembrando meu pai sentado na sala, ouvindo os dele.
Há uma delicadeza quase revolucionária nisso. Em resistir a ser humano na era em que tudo é automatizado.
Enquanto escrevo, testemunho um caso de affair improvável: a bandeira italiana mistura-se, verde no branco, branco no vermelho e vermelho no verde mexicanos. Sem conflitos, só a pura e velha simbiose. Um bolero que atravessa oceanos, barreiras culturais e temporais, atraca no Rio de Janeiro através de um aplicativo sueco e, sem pedir licença, sela um encontro entre escritores ítalo-brasileiros que perseveram na crença de que as melhores coisas ainda são feitas com o coração.
Quem sabe a verdadeira globalização não tenha sido a uniformização do mundo, mas a possibilidade de um gesto intimamente humano atravessar continentes sem perder sua brandura.
No fim, seguimos buscando o que desejavam os que vieram antes (de nós):
• os tons das animadas canções mexicanas
• o ar blasé repleto de delicadezas dos escritores franceses
• o conciso poético de arquitetos alemães
• a sabedoria de vida dos artistas italianos
• a paixão traduzida pelo olhar atento dos/das cronistas brasileiros/as e todos os apaixonados que vieram antes de nós
Ansiando por uma coisa, apenas:
encontrar alguém que ainda saiba descrever uma pessoa antes de fotografá-la, antes de reduzi-la a um perfil com um mínimo de caracteres.
Porque as palavras continuam sendo o lugar mais generoso onde um ser humano pode apresentar um outro ao mundo.























