
A Bola de Neve e seus encantos
— Mãe, abre o portão.
É a Bárbara. Ela vem me ver às quintas-feiras.
— Ué, você mudou os móveis?
— Como?
— A mesinha de café, aquele canto ali… Da última vez que estive aqui, não tinha! Andou garimpando, né? Já te falei: você não deve mais sair sozinha.
Bom… tomei um pito. Mas vou guardar esse assunto para outro dia.
— Falando nisso, filha, faz dois cafés. Mesmo estando calor, eu tomo meu café nesse horário. É costume.
— Mas aí tem tomada elétrica?
— Coloquei uma extensão.
— Jesus! Mãe, até isso?
Desenvolvi tantas qualidades nesta fase da vida…
Uma delas é não retrucar na sequência de uma fala preocupada.
Ainda mais quando é quase uma cópia das que ela ouvia quando criança.
Entro com algo leve. Pergunto se o sapato é novo, ou o brinco, qualquer coisa que mude a energia.
É tiro certo!
Mas, voltando à sala, nada é novo. Nós, eu e a minha “jardineira fiel”, brincamos de decoradoras.
Agora, com o advento da Inteligência Artificial, não há mais razão para uma sala permanecer inerte através dos anos.
Sendo assim, não precisei andar por lojas, nem comprei nada novo. Apenas “repaginei” a minha casa.
Ficou muito linda. Entrou um frescor, me renovou, me alegrou.
É claro que foi a Terê que me ajudou. Ela também tem o espírito assim, meio nômade. Tanto que eu a conheço desde quando nem tinha filhos. Agora já tem netos.
Assim como a minha casa, ela não gosta de ficar sempre ali, daquele mesmo jeito.
Já me acostumei. Ela vai. Mas volta.
Faz dois anos que voltou.
De onde?
De outras salas, outras patroas, outras vivências.
Minha filha tomou o café, deu uma volta pela sala e parou em frente ao móvel onde havia um antigo globo de neve, com a miniatura de um trenó e Papai Noel.
— E este enfeite? A senhora já tinha?
— Sim! Tenho há quase cinquenta anos. Era da sua avó.
— Hum…
Senti que sua dureza ao me julgar, amolecia…
Ela se afasta.
Ofereço um pedaço de bolo, pergunto do Alfredo, das crianças. Quero a normalidade, o trivial.
A conversa então flui, a tarde passa e nos despedimos até a próxima quinta-feira.
Felizes e gratas .
Mudamos os móveis, trocamos as coisas de lugar, criamos hábitos novos e conservamos outros por décadas. Terê vai e volta. Bárbara chega às quintas. Eu tomo meu café sempre no mesmo horário.
Manias. Costumes. Rotinas.
E, entre uma coisa e outra, nós três desenvolvemos uma habilidade que talvez só o tempo ensine: para ser feliz, é recomendável fazer “cara de paisagem,” em determinadas situações.























