Núbia Gremion

  • Margarida à janela

    A vida adulta não nos prepara para o entusiasmo.

    Em essência, a adultez deveria nos expandir; acrescentar novos cômodos à casa que temos por dentro para que aprendêssemos idiomas inéditos do corpo e da alma, em vez de interromper indefinidamente as nossas formas de sentir.

    Margarida, que tem nome de flor, sempre foi na direção oposta: cresceu para polinizar. Sentia-se inebriada por novos amanheceres, novos livros, novas promessas, novos começos. Novos rostos. Novos sorrisos nos novos rostos. Estendia o braço para que pudesse acompanhar senhorinhas a atravessar as ruas. Se uma bola se perdia do limite de uma brincadeira infantil, ela apressava os passos para recuperá-la antes de atingir qualquer vidraça ou território vizinho. Andava com petiscos caninos nos bolsos. Nos dias mais quentes, espremia limões para quem atravessava a rua com sede. Para as tardes mais frias, maquinara uma pequena janela de madeira, instalada na moldura da sua própria janela. Dentro, uma garrafa térmica, um punhado de copinhos descartáveis e a seguinte inscrição: “Se o frio te apertar, aperte de volta aqui”.

    Da janela de uma casa em uma rua moderadamente movimentada, Margarida regava o seu jardim de pessoas.

    Na esquina, poucos metros à esquerda, havia um rapaz que parecia existir em voz baixa. Caminhava como quem ocupava pouco espaço no mundo. Trazia nos olhos, escondidos sob a aba de um boné com vontade de ser boina, aquela espécie de silêncio que alguns confundem com timidez. Timidez ou, quem sabe, excesso de poesia. Há sentimentos que compartilham a mesma aparência e só revelam seus verdadeiros nomes quando encontram alguém capaz de lhes falar na mesma língua.

    Toda rua só existe por adição de limites. Há a calçada, pública; há grades, privadas. O pequeno recuo entre a casa e o passeio. Árvores. Bancos. Lixeiras. O leito carroçável — curiosamente, a parte que todos insistem em chamar de rua. Sombras e luz.

    Marquises, beirais de telhados e vazios. A rua de Margarida tinha tudo isso. Tinha também um ipê de floração quase espontânea. Tinha a própria Margarida. E Pedro.

    Numa tarde de primavera, atenta ao cair sereno das flores rosas do Ipê então frondoso, Margarida viu, pela primeira vez, Pedro passar. Reparou os passos amiudados, reparou as mãos costuradas aos bolsos. As sombras projetadas pelo fim da tarde caminhavam ao lado dele, encolhidas junto às fachadas, como se soubessem ocupar ainda menos espaço do que o rapaz. Margarida sentiu uma ausência instantânea no peito. Entrou.

    Na cozinha, à procura de água gelada, depara-se com uma caixa de choconuts vegetal, um leite que não era leite, mas era, e todo produzido em seu apelo visual. Pegou a caixa. Ao rosquear a tampa plástica, leu

    “Por ser natural, pode sedimentar. Basta agitar bem”.

    Como a imaginação lhe crescia do coração e não da cabeça, passou a acreditar que tudo o que sedimenta merece ser agitado. A poeira da casa. O café antes de servir. As cortinas nas manhãs de primavera. Até os silêncios.

    Todos os dias, para compreender a origem do que sentira, Margarida passa a se fazer de namoradeira na janela, à espera do passar de Pedro.

    Passa a agitar a poeira da casa de uma flanela para fora da janela. Agitando as partículas agitaria o menino tão contido em si na esquina. Como um toque divino, uma brisa jocosa decidira participar do desafio; foi Margarida sacudir a poeira para que Pedro espirrasse. E, então, seus olhos se encontraram. O tempo entra em suspensão, frestas ensolaradas penetram o trecho entre beirais. Margarida perde a noção do mundo. Pedro começa a enxergá-lo na altura do horizonte. Margarida cora e enrola-se à cortina.

    O rubor da face permanece. “foi o vento, estou com febre!” Tenta se distrair; “preciso comer, saco vazio não para em pé”. Tateia o armário superior, seus dedos sentem o plástico grosso do saco de tapioca. Pega uma frigideira, liga o fogo, despeja os farelos peneirados. “é só uma tapioca, não tem mistério”. As manchas orgânicas do azulejo desenham um vulto com as mãos nos bolsos. Aperta os olhos, mais atenta. “não é possível… como nunca reparei essa mancha antes?” e assim, distraída, sente o cheiro de queimado e a nuvem esbranquiçada da tapioca, preta e encolhida. Abre as janelas para deixar sair as evidências, renovar os ares. Ao escancarar a janela da sala, Pedro passa, sorrindo. “preciso deitar, a febre está aumentando”.

    Quando alguém habita em demasia os pensamentos, não há um só remédio em toda a medicina e qualquer tentativa de se deixar levar pelo sono é vã. Uma mosca pousa no nariz de Margarida, ela enxerga a aba de um boné. O silêncio passa a perturbá-la, não acalenta mais, como antes. Um barulho constante, mas pausado, a faz desfocar-se daquele estado novo para um possível alguém costurando noite adentro. “Talvez seja Pedro”. Derrete-se ao pensar que costurar uma roupa é quase tão poético quanto costurar a vida, duas linhas de carretéis distintos em ponto zigue-zague.

    A luz do sol acorda Margarida, que suspira. Ouve o cantar dos pássaros misturado ao burburinho do raiar de um novo dia. “Pedro”.

    Corre à janela e olha para a direita. Desta vez permanece. Novos rostos. Novos sorrisos nos novos rostos. Pedro. Margarida. O Ipê regendo a manhã com o cair das flores.

  • O crítico perfeito

    Não havia estática no ambiente coabitado por seis espaços, sexta-feira inaugural de um coquetel em meio a formas geométricas suspensas; horas que se observavam tentando segurar a respiração e manter o mesmo compasso entre os minutos.

    Perder-se não é uma brecha no tempo, pelo contrário.

    São chaves que não abrem porta alguma, mas pendulam na possibilidade. Está introduzido o conceito curatorial de luz, memória e tempo.

    São todos os fusos horários em um coro uníssono que nos convida a passar o tempo com quem mais importa: nós mesmos.

    São palavras-abismo, tic-tac fragilizado pelas letras que os retiram das horas e os tornam instalação de arte.

    Na última sala, são as sombras do público — tal corpo heterogêneo e encantado de convidados, artistas e meros transeuntes — transformadas em projeções de luz que revela a história da cidade. É o fazer arte, o abrir dos múltiplos sentidos que fazem algo conceitual existir. Corpos parados, movimento. A estática não existia, e existia: tudo é repouso, sob tensão.

    Enquanto as duas salas centrais introduziam ao mundo, por primeira vez, a versão corpórea do ser que vos fala aos domingos — eu — , em seu corpo dúbio de ser artista e um cpf trivial, abriam-se também, nas telas-smart da fachada principal, janelas outrora fechadas. Elas vazavam a exposição para o presente: o tempo movimental da cidade.

    Câmeras escondidas, como parte da própria resistência artística, desafiavam os limites do espaço físico do centro cultural, deixando escorrer, discretamente, imagens para fora da arquitetura. Palavras em suspensão reagiam aos recortes de acrílicos que desafiavam as leis da gravidade, transfigurando-se em inéditos poemas, de visualização, por vezes, única. As perspectivas beiravam uma infinutude de hipóteses.

    De todas as hipóteses, havia um ser peculiar naquele entardecer. E não se trata dos alguns de quatro patas que zanzaram com seus tutores e não assinaram o livro de presença, mas vieram. Zeca, o meu Zeca, foi um deles. Mas esse, não. Não caminhava ereto como os outros, tampouco observava com a pressa dos sabidos. Preferia o chão. A frieza do piso de pedra, a polidez que refletia o que estava em cima, embaixo. Ali, deitado, encarava o mundo com a solenidade de quem conhece o segredo das coisas que balançam. Em suas mãos, um saco industrializado, aberto e barulhento. O mastigar como forma de não perder o presente.

    Algumas pessoas passavam e notavam. Outras, focadas em suas reflexões artísticas, nada viam além das obras. Havia aqueles que apenas se preocupavam com o enquadramento da selfies perfeita e tropeçavam na existência miúda sem perceber que ali — ao rés do piso encerado — havia filosofia em estado bruto.

    As placas, suspensas por fios de nylon invisíveis, dançavam como se tocadas por uma orquestra de suspiros. Um sopro aqui, um braço ali, e pronto: uma dança ao sabor do inesperado. Eram acrílicos coloridos, mas, vistos de lado, tornavam-se lâminas de tempo, quase perigosas em sua beleza oblíqua.

    Ele — ou seria ela? — permanecia absorto, talvez tentando compreender por que o que aprendera como vermelho parecia tão roxo por baixo, ou por que o verde fazia sombra de ouro. Sons guturais saiam de sua garganta. Palavras disformes como a produção de sentido. Eis que soltou uma risada.

    Não daquelas educadas, mas uma gargalhadinha breve e torta, como quem foi pego de surpresa por uma pequena embriaguez. Silêncio em toda a exposição luminosa.

    Era água com gás.

    Bebida dos deuses, claro — mas só para aqueles que ainda não sabem que deuses existem.

    Em literatura pode-se descrever assim: um espírito antigo num corpo novo. Ou ainda: uma criança-pedra, meio estátua meio relâmpago, comendo batatas como quem consagra o instante; fantasma da manhã seguinte, vinda para lembrar que tudo o que é belo balança — e passa.

    Eu, Bia Mies, apenas observava. No entre, espacial, temporal, emocional e luminoso da minha primeira inauguração artística. Só fui entender tudo quando ouvi minha outrora assistente dizer, com um suspiro de vencida:

    — Athena… Athena. Vamos. Está na hora de dormir.

    Eis o mistério desfeito: o ser filosófico, bêbado de água com gás, era apenas uma criança de quase dois anos, que comera torradinhas demais e decidira deitar-se no chão da exposição para apreciar o tempo à sua maneira. O crítico perfeito.

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