Crônicas
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jun- 2026 -15 junho
Egocentrismo
O alarido invade meus ouvidos ofendidos. Quero silêncio. Não tenho. Ainda é manhã e vespertino. Talvez até anoiteça, madrugue. Não sei. O barulho continua. Eu continuo. Queria poder parar os dois. Dormir? Acho que não. A vida me chama. Só a queria um pouco mais silenciosa. Estou sensível! A poeira me incomoda o nariz, a claridade, os olhos, o barulho… Maldito! Quero o silêncio de música escolhida. Quero o silêncio do livro preferido, quero o silêncio
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14 junho
Fragilidades Humanas
Todos nós temos um talento especial para dar nomes elegantes aos nossos defeitos. A preguiça vira “cansaço acumulado”. A teimosia atende por “firmeza de convicções”. O excesso de compras costuma ser tratado como “aproveitar uma oportunidade imperdível”. E ninguém jamais admitiu ter sido fofoqueiro; no máximo, estava “bem-informado”. Talvez essa seja uma das fragilidades humanas mais universais: a habilidade d
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14 junho
Glória e o dia dos namorados
No início não dei tanta atenção. Podia ser só implicância ou mania besta. Cismou com o meu biquíni de oncinha. Até aí, tudo bem, tentei relevar. A maioria dos homens é inseguro mesmo. O curioso é que ele não via problema com as outras mulheres. — Glória, você vai à praia com esse biquíni? — Vou, por quê? — Tem pouco pano pra muito peito. Eu tentava manter a calma. — Você acha? — A calcinha está entrando na bunda. — Tem dó, Ernesto, todo mundo usa assim. O
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14 junho
Tenho medo dos idiotas
Tenho medo dos idiotas… Porque os idiotas são todos extremistas! A resposta está sempre certa! Não importa argumento, não importa exemplo, não importa explicação! Tenho medo dos idiotas… Porque eles têm a voz e a vez! E não têm vergonha da medíocre pequenez! Eles se multiplicam aos milhões! E por mais que causem estragos, não há condenações! Tenho medo dos idiotas… Porque eles podem ser presidentes, dizer bobagens e matar muitas gentes! Podem apertar botõe
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13 junho
O amor de Cristo
São Paulo, cidade agraciada com o nome do mais célebre apóstolo do cristianismo, serviu de palco neste mês de junho a dois eventos de naturezas aparentemente irreconciliáveis que, no entanto, guardavam algo em comum: a capacidade de aglutinar multidões. De um lado, a Marcha para Jesus e, de outro, a Parada LGBT+. Ao presenciar essas duas manifestações aparentemente tão díspares, uma dúvida me veio à mente: em qual delas Jesus caminharia? A pergunta pode so
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13 junho
Reabastecer o Amor
Há pessoas que nos ensinam sem perceber. Ao longo da vida vamos colecionando ideias, frases, hábitos e pequenos exemplos que, por alguma razão, nos chamam a atenção. Nem sempre compreendemos imediatamente por que ficaram guardados. Mas ficam. Adormecidos em algum canto da memória, esperando o momento de reaparecer. Lembrei-me disso recentemente ao recordar uma funcionária que trabalhou comigo há muitos anos. Era uma mulher linda. Casada com um homem igualm
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10 junho
Um Fim de Tarde
A agitação urbana de um fim de tarde qualquer esconde a beleza dos detalhes de uma rotina, por vezes, sufocante. O encontro involuntário de corpos esconde histórias de superação e de fracasso. Rostos pálidos, corpos suados, almas vazias. A garotinha olha pela janela do vagão. Alguns ficaram na estação! Não houve tempo, mas haverá uma segunda chance. O silêncio dos que entraram convida-me à observação. São Bento, Sé, Japão-Liberdade. Mais pessoas entram no
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7 junho
Manteiga ou margarina?
Sempre tive aversão a manteiga. Desde a infância aquele tablete meloso e gorduroso colocado em um recipiente de vidro com tampa, invariavelmente lambuzada porque essa criatura ia se espalhando pelos cantos, me dava engulhos. Para meu desespero ela ocupava lugar de honra na mesa do café da manhã e era compartilhada por todos, menos eu, em nacos enormes em cima do pão francês. Menina estranha, comentavam, quem sabe se a gente oferecer margarina ela não prefi
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7 junho
INVISÍVEIS
Karolayne, ou Lane para os mais chegados, leva uma vida normal. Mora sozinha, de aluguel, numa casa de vila. Uma sala apertada acoplada à cozinha e, no andar de cima, um quartinho com banheiro: “minha suíte”, como ela chama. Acorda cedo, por volta das cinco da manhã, com o despertador do celular. Não que precise, seu corpo, moldado à rotina, já sabe a hora de levantar. Assim como a de dormir. Vai para a cama sempre antes das dez. Toda manhã parece se repet
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7 junho
Um homem, um barco e um tempo
Havia um barco, um homem e um tempo. Um barco de madeira, pequeno e velho. Um homem cansado, derrotado e velho. Um tempo desgastado, encrustado e velho. A morte já era companheira do homem, o banco de areia, o destino do barco e os ponteiros quebrados o fim de um tempo. Mas, de repente… E as histórias são sempre cheias de de repentes… Uma tempestade e o mar agitado, mas tão agitado como jamais vira aquele homem. Ondas enormes como jamais sentira aquele bar
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6 junho
O gordinho do STF
Quando Flávio Dino tomou posse como ministro do STF, o que nele se sobressaiu não foi o currículo, a trajetória política ou as ideias jurídicas. Foi o tamanho. Julgar os indivíduos pela primeira impressão é um defeito do ser humano, especialmente do brasileiro, que, com sua índole zombeteira, adora rotular os indivíduos por alguma característica que lhe chama a atenção – careca, dentuço, narigudo, balofo, baixinho, gago, crioulo, japa, baiano, gay, g
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5 junho
Noites frias
Adoro noites frias. Sentir aquele ar frio entrando pelos pulmões traz uma quietude, uma paz. É um convite à contemplação. Deixo a janela do meu quarto sempre aberta até a hora de dormir. Me cubro, cobertas pesadas imobilizantes e não deixo nem o nariz de fora. Ali imóvel meus pensamentos voam enquanto meu corpo segue inerte. É uma delícia. Mas antes, bem antes, há mais o que fazer. Algo quente a comer, mas sem excesso. E algo etílico a beber, mas com exces
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4 junho
Reflexo de si
Ela o fez numa terça-feira comum, entre o primeiro e o segundo gole de café. Decidiu que tentaria encontrar a empatia. Não a palavra desgastada em discursos, não o conceito bonito das redes sociais. Mas a coisa viva, o fio de ouro que une as almas. A primeira tentativa foi com o barista. Enquanto ele entregava o copo, ela manteve o olhar fixo, buscando além do cansaço das olheiras, além do sorriso profissional. O que viu foi um reflexo. Sua própria imagem
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1 junho
Voraz
Fico observando uma lagartixa colada no vidro da janela. Minha mãe diria que ela não tem modos! Arreganhada desse jeito, toda exposta. Minha filha se arrepiaria, sentiria medo, nojo. Não olharia. Eu a observo. Será que ela sabe que está assim tão exposta, tão vulnerável? A lagartixa, no entanto, tem os olhos fitos nos insetos pululando à luz da lua. Livre de qualquer opinião. Sem vergonha nenhuma, deseja. Dane-se todo o resto! De vez em quando me s
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maio- 2026 -31 maio
Ontológico, hedonismo e deletério
Nem tudo está perdido em matéria de palavras. Esta semana, em diferentes textos, encontrei ontológico, hedonismo e deletério. Uma delas, não confesso qual, me obrigou a ir ao dicionário. Não eram textos de filosofia profunda, apareceram como se fossem palavras corriqueiras. Não são. O dicionário está cheio delas, a maioria esquecidas e empoeiradas, talvez aguardando a ressurreição. Quando uma desaparece definitivamente leva consigo uma forma de ver o mundo
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31 maio
Eu não devia me chamar BETHÂNIA
Meus pais me deram esse nome porque se conheceram no show da cantora num teatro na Lagoa. Engraçado que nem gosto assim dela. Talvez por ter ouvido tanto minha mãe cantar. Após a morte de meu pai, então, era quase todo dia. Da Bethânia eu só gostava de “Olhos nos Olhos” do Chico Buarque. Ficou impregnada em mim, uma espécie de hino materno. Toda vez que ela ensaiava ficar melancólica, punha o disco com a música. A razão de eu gostar da canção era a letra,
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31 maio
O homem que ouvia estrelas
Pois só quem ama pode ter ouvidoCapaz de ouvir e de entender estrelas.— Olavo Bilac Havia um homem naquela cidade que buscava sempre os lugares mais altos e afastados. Depois de um dia cheio de trabalho, distrações e malcriações, ele subia morros, montanhas e prédios. Fosse onde fosse. Fosse como fosse… Depois de um tempo, um menino miudinho, mas vivo no olhar e nas ideias, decidiu acompanhá-lo. E, a partir daí, homem e menino subiam morros, montanhas e pr
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30 maio
O ocaso do macho
A onda de feminicídios e a misoginia escancarada nas redes sociais costumam ser atribuídas à ação de influenciadores da machosfera e aos algoritmos raivosos da extrema direita. A explicação procede, mas pode ser ampliada. Numa abordagem, digamos, ‘psicossocial’, diria que se trata de uma reação de desespero do macho da espécie diante de um mundo que já não gira exclusivamente ao seu redor. Um último suspiro do velho sistema patriarcal que vem derretendo fr
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30 maio
O que sei de futebol?
De futebol mesmo, sei apenas que a bola é redonda e que, se ela entrar na trave do adversário, é gol. Agora, de Copa do Mundo eu sei. Sei muito. E sinto saudades; quantas saudades! A vida era coletiva, colorida, exibida, assumida e feliz. Muito feliz. A Copa do Mundo daqueles tempos era um acontecimento inigualável. Não existia outro evento capaz de ofuscá-la. Imagine um bairro simples, na periferia de alguma cidade do interior do país, onde nunca faltava
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29 maio
Viver não é estar vivo
Não se pode chamar de viver o ato passivo de ver sem enxergar. Quase como um coadjuvante de si mesmo, um acessório da vida que corre aos seus olhos e você não estica a mão para encostar nela. Estar vivo nesse caso não é um ato de sobrevivência mas sim quase uma função controlada pelo Sistema Nervoso Autônomo. As coisas funcionam sem que você tome decisão alguma. Simplesmente você respira, seu sangue corre e seus intestinos, bem, fazem o que tem que fazer.
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28 maio
Longe de ser triste
O dia começa comum. Café passado, o jornal aberto na mesa da cozinha, o sol insistente atrás da cortina. É num intervalo banal, entre um gole e a leitura de uma manchete qualquer, que ela chega. Não é dor. É um silêncio que se instala no peito, um espaço quente e vazio que, paradoxalmente, se enche de uma presença. A saudade boa é isso: a certeza suave de uma falta que conforta. Ela não surge com o estardalhaço da tragédia, não rasga. Aparece como um visit
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25 maio
Visagem
A brisa da manhã invadiu seu quarto. Quase ninguém na rua. Ninguém em casa além dela. Desceu as escadas suavemente. O cheiro da manhã a entorpecia. Saiu a caminhar. Cabelos soltos, sonhos leves, pele arrepiada. Flutuando pelas ruas, não percebia os olhares atônitos. Sorvia a manhã. Andou até ter os cabelos umedecidos pelo suor, a camisola colada ao corpo… Os olhares cada vez mais atônitos! Novamente em casa, tomou um longo banho, pôs seus vinis na máxima a
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24 maio
O futebol de hoje
Bola na trave, bola na rede, bola no ar. Lençol, trivela, drible de calcanhar… Bola no canto e falta marcada esperando o juiz apitar… Bola ao alto, jogada aérea, empurra-empurra e mudança no placar… Os olhos vidrados do menino e do moço e do senhor sentado no sofá acompanham a bola. É o ser e o estar. O sorriso da menina e da moça e da senhora com o rosto colado na tevê é para a bola. É o querer e o ficar. Os aplausos, os gritos, os vivas, os xingamentos,
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24 maio
Habitar o intervalo é preciso
“(…) Depois da chegada vem sempre a partida” Essa lógica, que Vinícius e Toquinho traduziram em música, pode nos ajudar a compreender melhor os pesares da vida. A dimensão de tempo entre a chegada e a partida, em alguns casos, é algo que podemos controlar, programar; está em nossas mãos decidir quando vamos iniciar uma viagem, por exemplo, e quando pretendemos voltar. Assim, nos sentimos donos do nosso tempo, do nosso percurso. Para outras idas e vindas nã
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24 maio
INCONVENIÊNCIAS
Um homem para no posto de gasolina e entra na loja de conveniências para comprar cigarros. A menina que o atende chama atenção. É loura, bonita e tem um sorriso angelical. Ele olha para o crachá: Claudette. Tenta puxar assunto. — Não nos conhecemos de algum lugar? — Acho difícil. — Difícil, por quê? — Eu me lembraria de você. — É? — É. — Sou tão notável assim? — Ô… — Você também chama a atenção, de tão bonita. — Preferia que não. — Por timidez? — Por conve
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22 maio
Tristeza enrolada em lamento
A conversa, afinal, foi breve. Ela chegou, falou, escutou, falou de novo, despediu-se e foi embora. Ficou ele ali, diante daquela inútil e maravilhosa paisagem, a belíssima curva da praia de Copacabana. O mar batendo mansamente na areia da praia e nas pedras abaixo dele e mais nada. Em silêncio, ali na mesa, agora sozinho, rememorou a conversa. Não havia mesmo mais alternativa para eles. “Nós” acabou. Eles quis ser presença no lugar de lembrança. Mas ela n
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21 maio
Esquinas da alma
A casa não é mais minha, mas a esquina sim. Não a esquina de concreto e calçada, mas aquela feita de tempo e memória, que se ergue no mesmo lugar, invisível a todos, menos a mim. Tudo começa no ponto exato onde o poste da luz, um pouco mais inclinado agora, desenha sua sombra alongada ao entardecer. Era ali que minha mãe esperava as tardes, com o cheiro de pão fresco ainda grudado no avental. Sua sombra se fundia com a do poste, e eu, voltando da escola, s
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18 maio
Turbulência
Queria escrever um texto calmo que saísse de mim e pousasse languidamente na virtual folha de papel. Não sou assim! Meus textos são ansiosos, temem não alcançar a luz. Temem alcançar a luz. Tenho muita inveja de quem consegue ruminar seus escritos, escolher para eles o melhor tempo e lugar; a melhor palavra. Não sou assim. Meus textos são ansiosos! Vomitam verdades e mentiras com medo do arrependimento. Saem pela fresta da porta espremidos, em
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17 maio
Overkill em copacabana
Sol, pé na areia, água de coco, um domingo ensolarado. Entre o barulho do quebra-mar e a água que cai cantando, à la carioques, do chuveiro de um quiosque na Orla, Ludmila me cutuca do alto da caixa de som: “a vida é louca, mano, a vida é louca. Me perdi pelo caminho…” É fácil perder seu controle diante do mar de Copacabana. É fácil despir-se de roupas e da mente rotineiras, deixar o corpo à mostra, como um da gema — mesmo que o bronze se mostre, no fim do
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17 maio
Não fale com estranhos
Natália percebeu a ausência logo ao acordar.Não soube dizer exatamente o que faltava — apenas sentiu o vazio. O quarto estava igual: a veneziana semicerrada, a luz da rua filtrando pelos galhos da árvore, desenhando sombras no teto, o ventilador rodando preguiçoso. Mesmo assim, algo tinha desaparecido. Sentou-se na cama, ainda confusa. Durante anos acordara com aquela presença discreta ao lado: um companheiro silencioso que cochichava cautelas, lembrava pe
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