Crônicas

  • jul- 2026 -
    4 julho

    Quando Jesus encontrou os Orixás

    Certas manhãs nascem diferentes. Não porque o sol brilhe mais intenso, mas porque o mundo resolve cochichar histórias para quem tem ouvidos para escutar. Numa dessas manhãs, Jesus caminhava descalço, sozinho, por uma estrada de terra vermelha. O chão ainda guardava o frescor do orvalho, e a poeira fina subia entre seus dedos a cada passo. Carregava ele um manto simples, um sorriso sereno e o hábito de saudar árvores e animais. Ao chegar a uma velha encruzi

    Leia mais »
  • 4 julho

    Despreparar

    Ou preparar. Quem sabe? A vida exige aprendizados. Será que nos preparamos para a luta diária ou aprendemos tudo enquanto ela acontece? Em que momento soubemos nos equilibrar sobre um salto alto, tirar os sapatos para brincar no parque com os filhos, passar no mercado na volta do serviço, engolir o almoço às pressas e correr para a faculdade? Quase sem perceber, deixamos de ser cuidados para nos tornar cuidadores. Talvez nunca tenha existido um aprendizado

    Leia mais »
  • 2 julho

    No fim das contas

    Dizem que Clara tinha um termômetro dentro do peito. Não daqueles de mercúrio, prateados e precisos, mas um daqueles antigos, de líquido azul, que oscila com lentidão, sensível até à sombra de uma nuvem. Enquanto a cidade fervia em seus extremos, nas correrias matinais, ela se movia com uma cadência que parecia de outro século. Seu apartamento minúsculo era seu laboratório de clima interior. As pessoas que a visitavam, esperando talvez um santuário de posi

    Leia mais »
  • 1 julho

    A reciclagem

    Passei a semana aturando o discursinho mequetrefe de que quase todo mundo se transforma no trânsito porque falta empatia. É isso mesmo, vou até repetir: quase todo mundo se transforma no trânsito porque falta empatia. Dá pra acreditar? Imagina só, aguentar três horas e meia sem intervalo nem cafezinho, por cinco noites seguidas, ouvindo um gordo mórbido de voz fina soltando esses impropérios, um atrás do outro. O seu vocabulário por certo tinha escolhido a

    Leia mais »
  • 1 julho

    A Vida e as suas Escolhas

    E se, de repente, nos fosse dada a capacidade de vivenciar as consequências de decisões que não tomamos? Não falo, evidentemente, de questões rotineiras e banais, o que seria uma insanidade total. Mas somente de escolhas que podiam ter transformado nossas vidas por completo. Como reagiríamos, se tivéssemos a possibilidade de sentir as tempestades e as bonanças de caminhos nunca percorridos? Ainda conseguiríamos nos reconhecer por trás de tão distintas expe

    Leia mais »
  • jun- 2026 -
    30 junho

    A burocracia universitária que expulsa e nega o direito de voar

    É difícil ver uma grande oportunidade bater à porta e saber que as chances de dar certo são poucas. Digo isso porque o processo de inscrição para a mobilidade acadêmica está aberto na UFBA. Eu sempre soube que, ao concluir minha graduação, gostaria de tentar fazer mestrado no Nordeste — independentemente do estado, contanto que tivesse bolsa. Pois bem, logo na graduação apareceu essa oportunidade. O pior é que eu só a vi no início desta semana e a ignorei

    Leia mais »
  • 29 junho

    Caso verdade

    Uma. Duas. Três. Já eram suficientes para tirar a paciência de qualquer um, mas não parou por aí. Aos poucos, seguindo o mau exemplo, os vizinhos começaram a depositar suas sacas de lixo na calçada alheia. Alguns moravam perto, entretanto, logo chegariam os mais distantes. Definitivamente,  já estava configurado o abuso. Educadamente o “dono” da calçada resolveu pedir à proprietária do bar em frente – responsável pela primeira saca de lix

    Leia mais »
  • 28 junho

    Quem escolhe o vencedor?

    Quem inventou a Dança das Cadeiras provavelmente nunca imaginou que estava ensinando biologia. A brincadeira é simples: coloca-se uma cadeira a menos que o número de participantes. A música começa, todo mundo circula e, quando ela para, vence quem conseguir sentar. O azarado fica de pé e está fora da disputa. Sem perceber, aprendemos ali uma lição que parece acompanhar a vida adulta: vence quem chega primeiro. Crescemos acreditando nessa lógica. No vestibu

    Leia mais »
  • 28 junho

    Colóquio – simples e grandioso demais – de um café da manhã domingueiro

    — Eu queria tomar um café com alguém que parecia um livro interessante, mas dormi antes de chegar ao primeiro capítulo — disse Clara, mexendo o café fumegante, como que procurando um tête-à-tête com a leitura da borra, submersa, no fundo da xícara. Joaquim não ergueu os olhos do caderno. — Isso soa como frase de alguém cansada. — É exatamente isso. — Não. Parece uma frase de alguém que está tentando transformar cansaço em teoria. Ela riu. — Ainda me surpre

    Leia mais »
  • 28 junho

    Quem foi Maria?

    Outro dia fiquei alarmada com a possibilidade de ficar demente a ponto de não reconhecer mais quem sou. Pensei: vou escrever para mim mesma. Um diário, talvez possa ajudar a resgatar a minha identidade. Um fio de esperança porque não há garantia de que tal leitura venha a me atrair no futuro: recordar o passado pode nem interessar a essa outra pessoa em que eu terei me transformado. Melhor deixar para lá. Afinal, mais cedo ou mais tarde, vamos desaparecer

    Leia mais »
  • 28 junho

    Fantasias

    — O que foi dessa vez, Noêmia? — Sei lá. Não está funcionando. — Você sabe o trabalho que me deu arrumar essa fantasia de bombeiro, né? — Calculo. — E não era isso que você queria? Um bombeiro para apagar seu fogo com uma mangueira enorme? — Então… — Então, o quê? — Mangueira enorme, uma piada… — Sem ironias, Noêmia. — A questão foi que você não ficou bem de bombeiro, meu amor. — Sério isso? Já tentamos piloto de avião, você implicou com o meu quepe; vim d

    Leia mais »
  • 28 junho

    O Rei, o poeta, a mulher e o mar

    Conto publicado no livro O rei, o poeta, a mulher e o mar Um reino é algo muito sério. É algo místico, um poema, embora inacabado – posto que um reino situa-se no lugar dos sonhos, em terras longínquas da memória – mas vivo e pulsante. Tudo já se desfez, tudo se desfaz e tudo ainda está por se desfazer. Uma canção do tempo sem tempo. O rei, homem culto, sabedor dos livros, das histórias de paz e das histórias de guerra, era angustiado ser. Conhecia das nuv

    Leia mais »
  • 27 junho

    A alegria das pequenezas

    — Olha o que eu achei! — O que é isso? — Um mixer, menina! Um mini mixer! E ainda funciona à pilha. Já pensou? Posso levar para qualquer lugar. — Levar? Para onde? — Para onde eu quiser! — Você só pode estar doida. Tanta alegria por causa de um mini mixer? — Ah, e você? Ficou quase uma semana comemorando a caça aos caramujinhos do jardim. — Como assim? — perguntou Ana. — Que duelo de esquisitices é esse? — Foi a Márcia quem começou — disse Tânia. — Veio co

    Leia mais »
  • 27 junho

    Qual seu sonho hoje?

    Talvez a melhor maneira de realizar sonhos seja reparti-los em porções diárias. Se sonhar é a realização de desejos, como disse Freud, o pai da psicanálise, até mesmo os que se disfarçam de pesadelos tentam construir novos significados para abrir nossos caminhos. O sonho sempre está noutro lugar, ali onde não estou. Ele está no outro lado da montanha, na caída do sol, no ano seguinte, no tardar da maturidade, no horizonte do ideal e assim nosso imaginário

    Leia mais »
  • 25 junho

    Regulação emocional

    Há um aquário dentro do meu peito. É uma caixa de vidro invisível onde as emoções nadam como peixes de cores e tamanhos diversos. Alguns pequenos e ágeis, prateados como a alegria de uma manhã de sol depois da chuva. Outros são lentos, escuros, quase como enguias que se escondem nas pedras, como a mágoa que insiste em não desgrudar do fundo. Hoje pela manhã, acordei com um peixe-elétrico no aquário. Era a ansiedade, nadando em círculos rápidos, fazendo as

    Leia mais »
  • 24 junho

    O entregador

    O café esfriava enquanto eu assistia à saga do entregador, em frente à portaria, tentando descarregar do furgãozinho um pacote grande e pesado. A situação era cômica: ele andava de um lado para o outro, movia a encomenda pra lá e pra cá, e terminava sempre com a mão no queixo, pensativo. Por certo, não tinha carrinho de transporte nem experiência. O porteiro não deixou a guarita e certamente nem pensou em ajudar. Aliás, complicaria um pouco a vida do coita

    Leia mais »
  • 24 junho

    Adalberto, O Invejoso

    Dizem por aí que o Sr. Adalberto de Castro venceu na vida. Conforme seu obituário, esse dedicado empresário do setor têxtil aprendeu, desde cedo, o valor do trabalho. Ainda menino, começou a trabalhar como engraxate. Sem muito tempo para frivolidades, abandonou os estudos e foi tentar a sorte na cidade grande. Apesar dos inúmeros percalços, tornou-se um reverenciado empresário, dono de várias indústrias espalhadas pelo País. Para a opinião pública civiliza

    Leia mais »
  • 21 junho

    A Copa das geladeiras

    Existem fenômenos que a ciência ainda não conseguiu explicar. As pirâmides do Egito. A matéria escura. O motivo pelo qual abrimos a geladeira durante os jogos da Copa do Mundo. O melhor é que todo mundo faz isso. Se você está assistindo a Copa do Mundo com um grupo em sua casa, veja bem se não é assim mesmo. O jogo está empatado, faltam três minutos para acabar, o atacante avança pela direita, o estádio inteiro prende a respiração… e quem está no meio do s

    Leia mais »
  • 21 junho

    Voos mais altos que nós mesmos

    O piso são nuvens; entre o céu e a terra, tal qual um dito rodapé, eis o cinturão cintilante que traz a cor das bagagens, no compartimento acima da cabeça e no nível do pé: laranja e amarela. Sigo fotografando estrelas sobre o oceano, a 12km de altitude, alaranjando a escuridão que me faz perceber Avior brilhando perto da ponta da asa metálica que me atravessa a madrugada e tantos tempos. Após turbulências tantas em terra, céu de brigadeiro, enfim. Enquant

    Leia mais »
  • 21 junho

    VÂNIA está nua

    Vânia sempre sonhou morar em Santa Teresa. Tinha um monte de amigos por lá. Frequentava os bares da moda, andava de bonde e se admirava com a quantidade de centros culturais e casarões históricos, subindo e descendo pelas ladeiras de paralelepípedos e trilhos. Todos tinham cara de artistas ou se vestiam como artistas. O bairro respirava boemia e contracultura e isso a fascinava. Pontos de artesanato e ateliês em cada esquina. Conseguiu alugar um apartament

    Leia mais »
  • 21 junho

    Comédia romântica

    Quando dois olhos se olham de uma maneira inesperada e se encontram e se sabem tão íntimos e tão inteiros, sente-se o fogo que arde sem se ver. Quando dois seres se veem próximos o bastante para dizer e celebrar o momento, vive-se o não contentar-se de contente. Quando duas bocas esperam, ansiosas, o suave toque ou o roçar de leve, percebe-se a dor que desatina sem doer. Quando duas almas dançam a canção imaginária dos amantes e ninguém os vê, e ninguém os

    Leia mais »
  • 19 junho

    Amor

    Movimento I – Primeiros passos. Uma noite, à beira mar em um bar numa cidade no vasto litoral brasileiro… Ele disse: um centavo por seus pensamentos. Ela disse: valem menos do que isso. Ele disse: um verso por seus pensamentos. Ela disse: de quem? Ele disse: meu. Ela disse rindo: passo. Ele disse sorrindo: de um poeta maior. Ela disse: mais alto que você? Ele disse: em estatura poética, um gigante. Ela disse: e quem é esse que você vai em busca? Ele

    Leia mais »
  • 18 junho

    Dores inevitáveis

    A casa do senhor Elias cheira a livros velhos, café passado e madeira encerada. Nas paredes, não há quadros retos. Uma estante inclina-se para a esquerda, resultado de uma tentativa fracassada de montagem há quarenta anos. Ele a chama de “minha Torre de Pisa particular”. No centro da sala, sobre uma mesinha manchada de círculos de copo, há um vaso colado com esmero, as rachaduras desenhando mapas dourados pela superfície. Há quem visite Elias e veja apenas

    Leia mais »
  • 15 junho

    Egocentrismo

    O alarido invade meus ouvidos ofendidos. Quero silêncio. Não tenho. Ainda é manhã e vespertino. Talvez até anoiteça, madrugue. Não sei. O barulho continua. Eu continuo. Queria poder parar os dois. Dormir? Acho que não. A vida me chama. Só a queria um pouco mais silenciosa. Estou sensível! A poeira me incomoda o nariz, a claridade, os olhos, o barulho… Maldito! Quero o silêncio de música escolhida. Quero o silêncio do livro preferido, quero o silêncio

    Leia mais »
  • 14 junho

    Fragilidades Humanas

    Todos nós temos um talento especial para dar nomes elegantes aos nossos defeitos. A preguiça vira “cansaço acumulado”. A teimosia atende por “firmeza de convicções”. O excesso de compras costuma ser tratado como “aproveitar uma oportunidade imperdível”. E ninguém jamais admitiu ter sido fofoqueiro; no máximo, estava “bem-informado”. Talvez essa seja uma das fragilidades humanas mais universais: a habilidade d

    Leia mais »
  • 14 junho

    Glória e o dia dos namorados

    No início não dei tanta atenção. Podia ser só implicância ou mania besta. Cismou com o meu biquíni de oncinha. Até aí, tudo bem, tentei relevar. A maioria dos homens é inseguro mesmo. O curioso é que ele não via problema com as outras mulheres. — Glória, você vai à praia com esse biquíni? — Vou, por quê? — Tem pouco pano pra muito peito. Eu tentava manter a calma. — Você acha? — A calcinha está entrando na bunda. — Tem dó, Ernesto, todo mundo usa assim. O

    Leia mais »
  • 14 junho

    Tenho medo dos idiotas

    Tenho medo dos idiotas… Porque os idiotas são todos extremistas! A resposta está sempre certa! Não importa argumento, não importa exemplo, não importa explicação! Tenho medo dos idiotas… Porque eles têm a voz e a vez! E não têm vergonha da medíocre pequenez! Eles se multiplicam aos milhões! E por mais que causem estragos, não há condenações! Tenho medo dos idiotas… Porque eles podem ser presidentes, dizer bobagens e matar muitas gentes! Podem apertar botõe

    Leia mais »
  • 13 junho

    O amor de Cristo

    São Paulo, cidade agraciada com o nome do mais célebre apóstolo do cristianismo, serviu de palco neste mês de junho a dois eventos de naturezas aparentemente irreconciliáveis que, no entanto, guardavam algo em comum: a capacidade de aglutinar multidões. De um lado, a Marcha para Jesus e, de outro, a Parada LGBT+. Ao presenciar essas duas manifestações aparentemente tão díspares, uma dúvida me veio à mente: em qual delas Jesus caminharia? A pergunta pode so

    Leia mais »
  • 13 junho

    Reabastecer o Amor

    Há pessoas que nos ensinam sem perceber. Ao longo da vida vamos colecionando ideias, frases, hábitos e pequenos exemplos que, por alguma razão, nos chamam a atenção. Nem sempre compreendemos imediatamente por que ficaram guardados. Mas ficam. Adormecidos em algum canto da memória, esperando o momento de reaparecer. Lembrei-me disso recentemente ao recordar uma funcionária que trabalhou comigo há muitos anos. Era uma mulher linda. Casada com um homem igualm

    Leia mais »
  • 10 junho

    Um Fim de Tarde

    A agitação urbana de um fim de tarde qualquer esconde a beleza dos detalhes de uma rotina, por vezes, sufocante. O encontro involuntário de corpos esconde histórias de superação e de fracasso. Rostos pálidos, corpos suados, almas vazias. A garotinha olha pela janela do vagão. Alguns ficaram na estação! Não houve tempo, mas haverá uma segunda chance. O silêncio dos que entraram convida-me à observação. São Bento, Sé, Japão-Liberdade. Mais pessoas entram no

    Leia mais »
Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar