Crônicas

  • abr- 2026 -
    18 abril

    Uma imagem ou mil palavras?

    Sou de uma época em que se acreditava que uma imagem era a mais perfeita expressão da realidade. Aquilo, cuja existência era testemunhada por esses olhos que a terra há de comer, estava lá de verdade. A tarefa de descrever retoricamente tal imagem era uma vã t

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  • 17 abril

    O fiteiro

    Quando fui conhecer o lugar em que viria a residir em Recife; minha mãe, que me acompanhava na ocasião, assinalou: “já sei por onde Lucas vai andar”. Referia-se a um fiteiro, elemento tão presente nas cidades brasileiras e tão característico delas. Contudo, es

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  • 16 abril

    Tempo da mudança de atitude!

    Possuo muitas bibliotecas perdidas em sonhos, que descrevem experiências vividas. Não lembro de alguns detalhes saborosos de minha infância, mas recordo que meus pais me deram muito amor e carinho, que eu gostaria de rever em meus olhos, tocar novamente aquela

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  • 14 abril

    O outro pior encontro casual

    Antônio Maria, numa crônica intitulada “O pior encontro casual”, uma das minhas preferidas, diz que o pior encontro na noite é com o homem autobiográfico que, mal te encontra, num bar, por exemplo, já começa a crônica de si mesmo. Nesta crônic

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  • 12 abril

    Venerandas folhas amarelas que não são do outono

    E teve vontade de tocar piano, só para se sentar por ali e acordar uma melodia quase alegre, aguardando o parceiro que a acompanharia, a quatro mãos. Entretanto, não havia um; se houvesse, não saberia tocá-lo. Estava sozinha entre páginas fustigadas e quase ol

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  • 12 abril

    Cansaço miúdo

    Ele fazia questão de enrolar as grandes meias em pequenas bolinhas para guardar na grande gaveta do pequeno armário. Organizava tudo com zelo: bolinhas de grandes meias alinhadas aos globos das pequenas, como se cada par soubesse exatamente o seu lugar — e ous

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  • 12 abril

    Coisas de vento para prosa

    Coisas de vento, bola no chão, areia, rosto no campo e suor. Pedras. Pedradas. Horizonte longe e nada. Mais nada além da bola e da vontade do jogo entre os moleques. Sol a sol e coisas de vento, sem tempo. Momento. Momento de pensar nas coisas do tempo que pas

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  • 11 abril

    O Circo

    Vinha de vez em quando. Talvez uma ou duas vezes ao ano. Mas mudava os ares da cidade toda. Meu irmão que andava lá para o centro da cidade chegava gritando: — Anita, Anita! Você não acredita o que eu vi? — O que você viu, guri? Conta logo! — Eu vi uns três ou

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  • 11 abril

    Líbano libre

    Sou descendente de libaneses. Com muito orgulho! Todos os meus quatro avós provieram daquele exótico e restrito pedaço de terra, cujo tamanho não chega à metade do menor estado brasileiro, Sergipe. Mesmo sendo um país tão pequetito, enviou para o Brasil, ao lo

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  • 10 abril

    Cinema com meus olhos

    Ver filme é um prazer solitário, mesmo em grupo. Porque não se vê o filme pelos olhos dos outros. Você compartilha a experiência do momento e, não raro, as sensações que cada um teve na exibição. Mas o entendimento e os sentimentos que nascem a partir dessa re

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  • 9 abril

    Um tom diferente na tinta da retina!

    No Renascimento foi inventada a sopa fortificante e restauradora, feita de carne de boi, carneiro e legumes, servida como refeição no século XVIII aos viajantes ou indivíduos extenuados, após um longo dia de trabalho.  Era servida nas estalagens, tabernas e ho

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  • 7 abril

    Dias melhores

    Você já imaginou se a vida te convidar para uma experiência incrível num dia que, para você, não seria dos melhores? Ocorre-me que pode nos acontecer algo extraordinário, justamente quando a gente não está no melhor dia. Você não está com a melhor roupa — esta

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  • 6 abril

    Jogo das palavras

    O homem não é o que fala; na maioria das vezes, é o que sente, e o que ele sente, ele não fala; por isso, muitas vezes, no silêncio, engana. E então, o homem não é homem, é puro sentimento? Estranhos são os jogos das palavras; confundem e nem sempre se entende

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  • 5 abril

    A era do instantâneo

    Tirar uma foto, fazer uma selfie, mostrar-se e mostrar os outros o tempo inteiro, todo o tempo. Caras e bocas e frases de efeito, curtidas e vídeos, imagens para todos os lados! O que estamos fazendo com o nosso tempo? Nem mesmo Narciso seria tão cruel consigo

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  • 5 abril

    Reintegração das águas em si: páscoa

    — Onde estamos?— Não muito longe do seu destino.— Parece faltar muito… Essa viagem é infinita,mamãe…— Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, em relação ao universo, ainda não tenho certeza absoluta.— Você é muito filosófica, mãe.— Eu

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  • 5 abril

    AUGÚRIO

    Durante grande parte de sua vida, Suely dava expediente lendo as linhas das mãos, jogando búzios e ainda posando como astróloga. Madame Suely. Sua especialidade era o tarô. Manejava as cartas e seus arcanos por instinto e fazia suas reflexões livremente, orien

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  • 4 abril

    Digníssimo canalha

    Pelo presente instrumento, venho desrespeitosamente dirigir-me a vossa excelência, em minúsculas, na dimensão da pequenez moral que encarnas. Refiro-me a ti, nobre calhorda, investido que estás da augusta prerrogativa, intransferível e vitalícia, de decidir o

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  • 2 abril

    Trama subjetiva nas mentes!

    O poder político mantém certas ideias para gerir uma nação, desenha caminhos fartos de opções no cotidiano do povo, que está à espera de sua colaboração e sustento.  O poder da biologia carrega em suas raízes a capacidade de escrever a data de seu velório.&nbs

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  • mar- 2026 -
    31 março

    Afinal, quem serve quem?

    Ninguém está aqui para nos servir. As empresas de ônibus, os garçons de restaurantes, o moço do guichê do metrô, o barman — todos parecem estampar nos olhos a mensagem: “você trabalha para mim”. Por esses dias, um grande amigo veio a BH passar uns dias. Depois

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  • 29 março

    Anamnese

    Tenho muito respeito pela palavra anamnese que une de forma inusitada duas consoantes, o que lhe confere um ar imponente de cultura e refinamento. Por vaidade literária fútil sempre desejei usá-la, mas por não ser da área de saúde nunca consegui. Agora resolvi

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  • 29 março

    curvas, exclamações tesas e duplos olhos castanhos

    Pela primeira vez percebo as curvas orgânicas da fechadura que sustenta a chave da porta mais usada do meu armário, enquanto uma música conhecida reverbera pela caixa de som. A cortina de linho, fina, balança em câmera lenta, descortinando aos vizinhos — imers

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  • 29 março

    Nelson a conhece

    No ônibus lotado ela vai enfiando o corpo nos menores espaços, dá licença, fala baixinho, não olha nos olhos, vai passando por uma senhora gorda com várias sacolas, por um garoto voltando mais cedo da escola, por moças, por rapazes, por velhos; troca a mão de

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  • 29 março

    Devota

    O espaço era pequeno e fechado por uma porta metálica, com paredes de pintura descascada. A roupa e os poucos objetos pessoais pendurados em sacolas ou em pequenas prateleiras. O local era compartilhado com outras detentas. Quando podia ficar sozinha, Juliana

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  • 29 março

    O que fica fora da foto

    Já repararam como a gente anda vivendo tudo… com o braço esticado? O pôr do sol acontece — e lá estamos nós, tentando enquadrá-lo. Uma risada explode — e alguém já procura o celular. O momento chega inteiro, mas a gente o recebe pela metade. Não é que faltem s

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  • 28 março

    O que eles dizem

    Eles dizem que tudo vai às mil maravilhas, que nunca estivemos tão bem e que a tecnologia chegou para melhorar nossas vidas. “O que seria de nós – perguntam eles – sem a internet”? Nem dá para imaginar… Como poderíamos nos munir de fake news

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  • 28 março

    Os brincos

    1.Adriana recebeu um forte golpe na cabeça. O sangue escorreu, e, em alguns minutos, o piso da cozinha se transformou num tapete escarlate. Rastejando pelo chão, conseguiu deixar o local. No corredor, ouviu uma porta bem lá no fundo ser batida com violência. E

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  • 27 março

    Os livros e seu mundo

    Não raro, deparamo-nos com textos literários que discorrem sobre livros. Entretanto, não me refiro à crítica, que os tem como objeto de investigação e análise. Falo, por exemplo, daquelas crônicas em que obras aparecem na forma de tema, como o cotidiano e o am

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  • 27 março

    Abençoado quem?

    Quem convive comigo há pouco tempo nem imagina quão atacado das ideias eu já fui. Sim, o tempo amorteceu minha irritabilidade e ando menos propenso a erupções. Mas as vezes o passado aflora. Uma das ocasiões em que sou mais propenso a erupções é com o uso inco

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  • 26 março

    Ao final de tanto!

    No teatro Pantomima presenciamos uma apresentação onde metade do sentido da obra surge através dos gestos dos atores. A outra metade, você mesmo cria a seu prazer.  Em nossas mentes pode aparecer uma cena de horror quando os dias estão carregados, ou uma

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  • 24 março

    O que não pode esperar

    A cena é a seguinte: um homem está numa fila de uma clínica médica — mas poderia ser do Detran, de um laboratório, de um cartório, já que o que vai acontecer é muito comum —. Ele, mesmo podendo fazer tudo pelo celular, coloca uma pasta em cima do balcão, apoia

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