
Poema #34: Changing Of The Guards
“eu cavalguei por ruínas e era preciso ter coragem para a troca de guarda”
Bob Dylan
Algo me diz que é chegada a hora
da troca de guarda. devo sair.
Estive 35 anos de pé junto ao balcão
vigiando os esquifes dos homens mesquinhos
que idolatravam a coroa de latão que traziam
sobre o caixão de madeira nobre e já podre.
Minha tarefa era vigiar a paz ascética
daqueles defuntos coroados em vida
para que ninguém profanasse as suas
tumbas de mármore e flores de plástico.
Aceitei a tarefa porque estava desempregado
e não tinha coisa melhor para fazer ou que fosse
mais produtiva para a humanidade do que ser guardião
de velhos esqueletos adornados de cobre e ferrugem.
Mas nada é definitivo na vida
e não existe melhor liberdade
do que a liberdade financeira
e então eu fui ficando ali enquanto
me dessem água e comida de marmita.
Agora, depois de 35 anos só fazendo isso
vieram me dizer que eu não sirvo mais
para aquele trabalho de alta complexidade
e que o tempo havia me deixado sequelas
incompatíveis para o exercício da função.
Era chegada a ocasião propícia para a troca
de guarda e que era preciso eu ter coragem
para o acerto de contas. Arquejei-me sob o
peso da sentença de morte que me davam.
Devo ir para a cova mais próxima e simples
nos fundos do outeiro de que fui guardião
de homens célebres durante 35 anos da minha
vigília inútil e desnecessária. Outra pessoa
virá amanhã tomar o meu lugar no balcão.
Antes, porém, ela se encarregaria de sepultar-me
num lugar bem afastado e distante das luzes
que adornavam a ala nobre que vigiávamos,
e eu cavalgaria agora por ruínas pestilentas
que eram devidas pelo meu posto de sentinela.
Da Essencialidade da Água













