Naquela manhã de sábado, um senhor de setenta e poucos anos acordou decidido a acabar com o tormento vivido nas últimas cinco décadas. Aquela vergonha entranhada nos poros, aquela humilhação cravada na mente, aquelas risadas de escárnio ecoando na lembrança, que não lhe davam um segundo de paz, chegariam ao fim.
Carl levantou cedo, se arrumou, tomou seu café e foi até o endereço do seu desafeto. Tocou a campainha. Quando a porta abriu, diante dele estava um homem velho, cabeça branca e lentidão nos gestos.
Os olhares se encontraram, mas tanto tempo havia passado que os rostos não eram mais familiares um para o outro.
— Norman, é você?
— Sim.
Sem pestanejar, Carl disparou dois tiros. Norman caiu morto sem ter tido tempo de reconhecer seu agressor ou desconfiar da motivação do crime.
Carl se declarou culpado e foi condenado à prisão perpétua. Em sua defesa, o assassino confesso alegou que durante mais de meio século sofreu intensamente com a lembrança daquele trote humilhante (ter sua cueca puxada para cima na frente dos outros colegas).
Depois de ler essa história, me peguei pensando na cruel atemporalidade da dor, na gosma tóxica e sufocante que é o ódio, seja ele destinado aos outros ou a nós mesmos. Quantas vezes somos nosso maior crítico, algoz? Quantas vezes Carl odiou Norman por ter lhe feito de otário? Quantas vezes ele se torturou por não ter conseguido evitar que fosse tolo?
Não tem jeito, o perdão é mais eficaz, enquanto remédio, para quem perdoa do que para quem é perdoado.
O perdão, ao qual me refiro aqui, não é necessariamente a retomada do afeto, da amizade, da relação. Muitas vezes, é só o cessar da importância. O silenciar do desarranjo afetivo.
Um deixar ir para poder seguir em frente, apostando na estrada que se forma quando se começa a caminhar com uma nova passada.
Perdoar, para mim, é olhar fixo para o horizonte, deixando as pegadas no seu lugar de destino, o passado, que fica atrás de mim, mas não tem o poder de me perseguir ou aprisionar.