A culpa

  • A CULPA

    Não estavam cômodos nem se sentiam confortáveis naquele lugar, mas nenhum dos dois tomou a iniciativa de se levantar e sair dali. Olhavam, cheiravam, procuravam com a ponta dos dedos a origem do desconforto, tudo em vão. Não era a temperatura (que estava apropriada), nem a cor das paredes (que era acolhedora), nem as poltronas (que eram adequadas e anatômicas). A razão não era outra senão eles mesmos. Mas isso eles não admitiam, ainda. Sabiam, no fundo, que quem sentia o incômodo eram a temperatura, as paredes e as poltronas — se tivessem vida e pudessem, sairiam dali e deixariam os dois no meio do nada, até que se consumissem no vazio de sua última respiração e do seu silêncio, como a fruta que apodrece debaixo do sol.

    Eram eles que incomodavam tudo ao redor e, embora soubessem disso, fingiam que não. Eles eram os observados com desdém e até repugnância pelas poltronas e pelas paredes daquela sala, pelas praias ensolaradas do Nordeste e pelas ruas geladas de Londres — onde quer que estivessem, incomodariam o entorno. Nas páginas dos livros que milhões de pessoas leem, há duas pessoas que se sentem desconfortáveis dentro de uma casa e não adivinham a origem desse desconforto. Mas a história impressa nas páginas tem que prosseguir, então eles permanecem como sempre estiveram e fingem que procuram a razão que justifique tanta melancolia. Fingem até chegarem ao ponto de se matarem de ódio e angústia, perto da página 250. Até lá, até esse desfecho trágico, seguirão dissimulando e, em voz alta dirão, na última linha, que a culpa é sempre do lugar, nunca deles.

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