A lei do retorno

  • A lei do retorno

    Eu sempre tive implicância com a segunda-feira.

    Para mim, segunda era igual a prima chata que a família faz questão de enaltecer na sua frente, porque é obediente e comportada, ou aquele irmão mais velho que serve de referência para tudo o que você não faz direito, ou aquela amiga da escola muito boazinha, que por isso mesmo não servia como companhia para as aventuras da adolescência.

    Segunda sempre funcionou como aquela régua social que mede os procrastinadores, os menos abastados de disciplina e engajamento nos projetos de futuro.

    Eu realmente tinha pinimba com a coitada. Ficava na espreita só sacando seus defeitos e se, por ventura, não tivesse, eu inventava. Como a gente faz quando não gosta de alguém de cara, sabe?

    O abrir dos olhos no pós-domingo era batizado com o desabafo: maldita segunda-feira! Sempre chega para tirar o gosto do fim de semana. Parece pai na porta da festa antes da meia-noite. Trabalho que surge no final do expediente de sexta. Email de chefe cobrando relatório.

    O curioso era esbravejar essa reclamação para o universo, ainda que o final de semana fosse tedioso pela falta de ânimo para sair da cama.

    No final do domingo, aquele enjoo de véspera aumentava até chegar um certo refluxo no pensamento. Logo invadia aquela indisposição de existir, igual a gente sente quando chega visita em casa e não se estava esperando.

    Acontece que o tempo é um homem espirituoso, provocador, que gosta de fazer graça com as nossas convicções, e, pelo visto, tem um certo apreço pelos dias mais injustiçados.

    Só pode ser essa a explicação para o que vou contar aqui ou simplesmente sou a prova de que a lei do retorno existe e vocês foram as testemunhas escolhidas pelo destino.

    Há vinte e cinco anos, grávida do meu único filho, e na necessidade de realizar uma cesárea devido a quadro hipertensivo, fiz um único pedido ao obstetra: marque qualquer dia menos segunda-feira.

    Tudo certo, meu herdeiro de alma nasceria numa terça-feira, cinco de novembro.

    Assim seria, se o Senhor Tempo não estivesse disposto a vingar toda minha implicância com uma de suas filhas.

    Comecei com as contrações no domingo. Minha mãe, pela contagem das luas, alertava que havia chegado a hora. Eu rogava aos minutos que me deixassem alcançar a terça, que até de nome me parecia mais simpática.

    Nada feito, Bernardo nasceu em uma estonteante segunda-feira. Trouxe com ele uma advertência da vida em relação ao desperdício de cinco dias na espera de um sábado e meio domingo para ser feliz. Sim, porque depois do almoço, era só preguiça e angústia.

    Desde então, as segundas têm um gosto especial, um sabor de brigadeiro com refrigerante, um lançar de dados na esperança do seis, uma mensagem desejada no celular.

    Não tem como ignorar, o tempo é um piadista insistente e a vida uma mocinha muito surpreendente.

    Lembram que falei que vocês seriam testestemunhas de uma certa lei do retorno? Pois bem, acabo de nascer como cronista nesta segunda-feira ensolarada de paixão. Vocês são cúmplices dessa traquinagem jocosa do destino.

    Sou mãe e filha desse dia tão primoroso que deveria se chamar Primeira-feira.

    Quem diria que a donzela rejeitada passaria à condição de mulher amada.

    O mundo dá muitas voltas e, pelo visto, prefere as segundas-feiras.

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