A Practical Guide for the Hopeless

  • O Edgar tem cada uma

    Para Luis Fernando Verissimo, com saudade*

    O Edgar está longe de ser bonito, mas anda empenhado em virar um grande sedutor. Acha que é só questão de lábia, de saber xavecar do jeito certo: o papo, o feeling, o timing. Nos sebos, vai direto à estante dos livros de autoajuda, escritos por coachs que ensinam o menino cheio de espinhas a chamar a menina mais bonita da escola para o cinema.

    Ao comprar um desses livros, Edgar tem uma exigência: não aceita conselho de gente encalhada. Primeiro confere se o autor ou autora é casado, tem filhos, aparece em foto de família em coluna de jornal. Se for assim, vale a pena ouvir.

    De tanto procurar, achou na estante o livro da canadense Rebecca Gibson:
    Título em inglês: Ten Secret Rules to Become a Man Able to Give What Every Woman Needs
    Subtítulo: A Practical Guide for the Hopeless, the Clueless, and the Terminally Single

    Eu, pessoalmente, tentei ajudá-lo:
    — Que livro mais idiota, Edgar.
    — Ora, idiota nada. Por quê?
    — Edgar, pensa bem. Se são dez regras secretas para um grande sedutor, por que elas estão na capa?
    — E daí? — me perguntou, enquanto o garçom trazia bolinho de feijão e cerveja.
    — O que é segredo, a gente não conta. Por isso acho o fim da picada você colocar sua vida amorosa nas mãos de um livro tão burro.

    — Pelo menos a autora não é encalhada.
    — E isso basta?
    — Ajuda.
    — Você tem cada uma, Edgar.

    Dei uns tapinhas nas costas dele. O garçom trouxe a cerveja e os bolinhos de feijão. Ficamos os dois ali, rindo.

    A tática que meu amigo leu era simples: bastava usar uma aliança no dedo, fingindo ser casado. Segundo Rebecca Gibson, uma loira canadense bochechuda e linda de doer, as mulheres gostam mesmo é de disputar o homem das outras. Gostam da rivalidade, da adrenalina. Para ela, amizade entre duas mulheres não existe, já que toda amiga é, em potencial, ameaça ao romance da outra. Em suma, Edgar só precisava se passar por um homem casado de respeito, dedicado aos filhos, cara fechada, sem inclinação para trair. Nada de errado nisso — afinal, solteiro, morava com a mãe idosa. Só estava jogando os dados a seu favor.

    E assim passou a usar aliança. Camisa sempre abotoada até o último botão — homem casado se preza. Cabelo penteado de lado, água de colônia discreta. Nada de virar o pescoço para a estagiária, nada de reparar no decote da Dagmar, advogada da sala ao lado. Ah, esqueci de dizer: Edgar é advogado numa firma. Passou a chamar clientes de senhora ou senhorita, conforme a idade.

    Outro dia, a estagiária reparou:
    — Edgar, que aliança bonita. Sua mulher deve ter muita sorte.
    — O sortudo sou eu.
    — Quantos filhos?
    — Um bebê e uma menininha de um ano.
    — Que bonito. É raro ver homem assim.

    Edgar passou a ser visto como homem de respeito. Homem de bem. Zeloso pela família.

    O plano funcionou: o homem casado, pai amoroso, sério. As pretendentes começaram a aparecer, provando que Rebecca Gibson, casada com um CEO de revista americana e mãe de um bebê adotado na África, tinha razão. A primeira foi Laura, garçonete da padaria, que se comovia com a aliança dourada. Pegava carona, evitava pagar ônibus, entrou no motel acreditando que “era só pra conversar”. Depois vieram a cozinheira do restaurante, a depiladora da livraria, a Sabrina mascando chiclete sem parar, estagiária do banco, que topava o motel antes ou depois do expediente.

    A aliança do Edgar virou feitiço.

    Vaidoso, começou a ir à manicure, à perfumaria, ao cabeleireiro, à estética.

    Agradecido, escreveu um e-mail para Rebecca Gibson:
    “Thank you so much, Miss Gibson. I truly appreciate your tips. You made me a brand new man.”
    Rebecca respondeu dois dias depois:
    “Thank you for your support.”

    A vida dele ia de vento em popa, causando inveja. Até que, certo dia, na praça de alimentação do shopping, de mãos dadas com uma morena da contabilidade, uma velha conhecida bateu no ombro dele:
    — Grande Edgar.
    — A senhora me conhece?
    — Respeita sua madrinha, seu malcriado.
    — A senhora o quê?
    — Finalmente arrumou uma mocinha para casar.

    Foi embora, deixando os dois a sós.
    — Então você não era casado? Colocou essa aliança só pra me fazer de besta?

    Ela pegou o molho da macarronada e jogou na camisa branca dele. Pegou também a cerveja e derramou na cabeça. Saiu furiosa. Mulheres não suportam homens mentirosos. Ainda que mintam para a esposa, para elas nunca. Rebecca Gibson até fez um bom livro, mas esqueceu de incluir um capítulo sobre como praticar em cidades pequenas como Belo Horizonte.

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