A vida é bela

  • Sobre “A melhor mãe do mundo”

    Nos últimos dias, tenho percebido nas redes sociais a grande repercussão que o filme “O Filho de mil homens” tem tido. Trata-se, realmente, de uma obra muito interessante e sobre ele quero comentar após ter lido o livro que o originou, de Walter Hugo Mãe. No entanto, gostaria de usar esse espaço para falar sobre outro que foi cotado para ser indicado ao Oscar e, também, está disponível na Netflix. Ou seja, “A melhor mãe do mundo”, de Anna Muylaerte.

    Ele retrata uma série de acontecimentos na vida de uma catadora de lixo chamada Gal (Shirley Cruz). Nele, a personagem é obrigada a fugir da casa onde vive com seu companheiro Leandro (Seu Jorge) em razão das agressões que vinha sofrendo deste pelo consumo de álcool. Ela pega seus dois filhos, Rihanna (Rihanna Barbosa) e Benin (Benin Ayo), e inicia uma grande epopeia pela cidade de São Paulo.

    Nesse sentido, me chama atenção o fato de o filme não estar sendo tão comentado quanto deveria, pois diferentemente de atores famosos, o protagonismo fica com aqueles que ainda não são muito conhecidos. Entretanto, esse fato não tira o mérito das atuações, Shirley Cruz entrega uma excelente atuação no potente papel que lhe foi conferido. Os intérpretes de seus filhos também estão muito bem.

    Um dos fatores que merece destaque é a construção dos personagens. Isso porque, diante de uma atmosfera de miséria e precarização, não seria um crime se eles não dessem nenhum espaço para a felicidade. No entanto, a história demonstra um espírito brasileiro que, mesmo diante de sérias dificuldades, não renuncia às pequenas gigantes coisas que os mantém vivos, ou seja, seu churrasco, cerveja ou time de futebol, pois elas são essenciais para viver e sobreviver. Como diria o grande filósofo Zeca Pagodinho “Deixa a vida me levar”.

    Gal é, então, uma sobrevivente que utiliza a felicidade e a fantasia como recurso para a fuga de uma realidade cruel. Esse fator me fez associar o filme ao clássico de Roberto Benigni, A vida é bela. Eu diria que “A melhor mãe do mundo” é a versão brasileira desse filme com todas as adaptações que a realidade do país exige. A cena do banho na Fonte dos Desejos, especialmente, me levou a essa comparação.

    Vale, ainda, ressaltar a coragem de Anna Muylaerte ao trazer à tona a importância das ocupações diante da tragédia causada pela especulação imobiliária no centro de São Paulo. Embora eu nunca tenha morado e conheça pouco a cidade, sei que o tema é amplamente discutido e nele são evidenciadas injustiças sociais nuas e cruas do sistema capitalista. Por isso, falar sobre movimentos sociais, em um momento em que o fascismo faz coro para incriminá-los, é essencial.

    Por fim, destaco que esse texto não se trata de uma crítica ao protagonismo de “O filho de mil homens” pois esse é um filme que trata de importantes temas e merece ser assistido. No entanto, precisamos começar a olhar com carinho para a realidade dos esquecidos e marginalizados por nosso sistema e “A melhor mãe do mundo” é importante pois ajuda a fazê-lo.

  • A vida presta, muito

    A frase antológica de Guimarães Rosa, citada por Fernanda Torres em seu discurso na premiação do Globo de Ouro, me fez pensar nos múltiplos significados nela contidos. Na minha leitura do filme Ainda Estou Aqui, dois deles me tocaram sobremaneira:

    — O amor incomensurável de Eunice por seus filhos, a ponto de tentar, depois do trágico desaparecimento de Rubens Paiva, proporcionar a eles uma vida que “prestasse muito”. A cena emblemática da fotografia em família sem o pai consegue transmitir sua recusa em vitimizar os
    filhos que, agora, precisavam seguir em frente, sorrindo.

    — O desprezo pela vida que caracteriza as ditaduras persecutórias, como foi o caso do Brasil, entre 1964–1985. O interrogatório de Eunice, mostrado de uma maneira extremamente cuidadosa por Walter Salles, foi suficiente para escancarar o lado sanguinário do ser humano, quando cooptado por um regime que não dá nenhum valor à vida.

    Esses dois significados associados à fase “A vida presta muito” me fizeram relembrar outra frase, “A vida é bela”, título do filme de Roberto Benigni (1997).

    Só para avivar a memória, A Vida é Bela se passa durante a Segunda Guerra Mundial, na Itália. O judeu Guido e seu filho, Giosué, são levados para um campo de concentração nazista. Afastado da mulher, ele tem que usar sua imaginação para levar o menino a acreditar que estão participando de uma grande brincadeira, com o intuito de protegê-lo do terror e da violência que os cercam. Seu único objetivo era não permitir que o filho perdesse a inocência perante o evidente cenário de terror, numa verdadeira demonstração de amor.

    O motivo maior que levou Roberto Benigni a realizar este filme foi a sua vontade de contar uma história de amor e humanidade num contexto extremo, da mesma forma que Walter Salles em Ainda Estou Aqui.

    Duas propostas que procuram mostrar o lado reverso da tragédia, oferecendo ao espectador o que há de mais sublime na maneira de enfrentar a dor. Curiosamente, em 1999, A Vida é Bela ganhou o Oscar de melhor ator e melhor filme estrangeiro, vencendo o filme brasileiro Central do Brasil, que ficou com o Globo de Ouro.

    Não acredito em coincidências e sim que a vida tem um roteiro já traçado. Vinte e cinco anos depois, Walter Salles volta ao palco com Fernanda Torres, a filha, para dar à Fernanda Montenegro, com 95 anos, a alegria de se ver lá representada no Globo de Ouro de melhor atriz.

    A vida é bela, e presta muito!


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